31 de janeiro de 2012

«É bom trabalhar nas Obras»

«Caros amigos,

Pelo presente [e-mail às 19:03] venho comunicar-vos que a partir desta data cessarei as minhas funções na Oficina do Livro/Grupo LeYa.

Como resultado do nosso contacto, mais ou menos intenso, no qual tanta relação profissional passou a pessoal e de grande amizade, não posso deixar de vos manifestar o meu mais sincero agradecimento.

Os meus contactos pessoais manter-se-ão os mesmos.

Até sempre; um abraço amigo,
Marcelo Teixeira»


[hasta, carnal]

30 de janeiro de 2012

Breve interlúdio musical



Porque a Net fornece um novo dia


[qu'é pra não serem queixinhas]

Às vezes, lá calha...




«O esquema é o esboço de um estatuto da vida, se é verdade que a existência é uma viagem, como costuma dizer-se, e que passamos como hóspedes pela Terra.»
(Claudio Magris)

«É bom trabalhar nas Obras» (98)

«A minha vida dividia-se assim entre duas espécies de universos: o matinal, constituído sobretudo por sons e estímulos olfactivos, mas também por cores enevoadas, e o vespertino, sempre libertador e ao mesmo tempo de uma precisão desnorteante.
O colégio era, nestas circunstâncias, um lugar ainda mais inóspito do que costumam ser essas instituições. Via pouco, mas o suficiente para saber como movimentar-me dentro daquele labirinto de corredores, sebes e jardins. Gostava de subir às árvores. O meu sentido do tacto superdesenvolvido permitia-me distinguir com facilidade os ramos sólidos dos fracos e saber em que buracos do muro enfiava melhor o sapato. O problema não era o espaço, mas os outros meninos. Eles e eu sabíamos que entre nós havia várias diferenças e segregávamo-nos mutuamente. Os meus companheiros de turma perguntavam-se com desconfiança o que é que escondia atrás do penso – devia ser algo aterrador, para ter de tapá-lo – e, quando me distraía, aproximavam as mãozinhas cheias de terra a tentar tocar-lhe. O olho direito, o que estava mesmo à vista, causava-lhes curiosidade e desconcerto. Em adulta, por vezes, quer seja no consultório do oculista ou no banco de um parque, volto a encontrar-me com uma dessas crianças com penso e reconheço nelas aquela mesma ansiedade tão característica da minha infância que os impede de estarem quietos. Para mim, trata-se de uma inconformidade perante o perigo e a prova de que têm um grande instinto de sobrevivência. São inquietos porque não suportam a ideia de que esse mundo enevoado se lhes escape das mãos. Precisam de explorar, encontrar a maneira de se apropriar dele. Não havia outros meninos assim no meu colégio, mas tinha companheiros com outro tipo de anormalidades. Recordo uma menina muito doce que era paralítica, um anão, uma loira com lábio leporino, um menino com leucemia que nos abandonou antes de terminar a primária. Todos nós partilhávamos a certeza de que não éramos iguais aos outros e de que conhecíamos melhor esta vida do que aquela horda de inocentes que, na sua curta existência, ainda não tinham enfrentado nenhuma desgraça.»
[Guadalupe Nettel, O corpo em que nasci; em tradução para a Teodolito;
divisória] 

Papiro do dia (180)

«Uma mosca pousou-lhe na mão. Ele sopra; ela agita-se e levanta voo.
Que nojo!
Porquê tanto ódio e obstinação contra um animal tão pequeno?
Porque ele apenas irrompe neste mundo. Tu é que vens de outras paragens. Tu é que irrompes num mundo que já não é o teu. Olha para a mosca, observa com que leveza ela vive no seu mundo.
Porque ela não tem consciência.
Não tem consciência porque não precisa dela. Vive a sua leveza, a sua morte… muito simplesmente.»
[sopro]

29 de janeiro de 2012

28 de janeiro de 2012

Breve interlúdio musical



Porque a net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

«A existência do escritor, dizia monsenhor Della Casa, é um estado de guerra.»
(Claudio Magris)

Nem sempre a lápis (257)

Como disse a seu tempo, não cheguei a conhecer Rui Costa; pessoalmente e muito pouco a obra, descubro estilhaços póstumos. Percebi que algo não batia bem no blogue do quarteto, através de um texto do Henrique Fialho. Doeu-me, que nem um cão, a troca de mensagens com o Fernando Dinis, no MSN. Guardei a confidencialidade da dor, que em breve saberia pública e devassada. A folhear a bloga do dia, fui colhido pela notícia do gesto, da homenagem dos co-bloggers do Rui. Olho a lápide acima, e permanece a interrogação: De que morre um poeta de 39 anos?

Papiro do dia (179)

«A Pomba
Era uma vez uma pomba que largou um poio, bem lá do alto do seu voo. Depois largou mais outro, e depois mais um. Continuou a voar e a largar poios durante semanas e semanas. Já não conseguia parar de largar poios, porque estas coisas habituam (dizem). A pomba começou a ficar mais leve e tornou-se muito rápida. Agora descia em voo picado depois de largar um poio e conseguia vê-lo atingir o alvo, normalmente outro poio, que passeava cá em baixo como quem não quer a coisa. Os poios são - mais do que um conceito ou uma forma de estar na vida -, poios.»

26 de janeiro de 2012

Meditação na capoeira



Breve interlúdio musical

Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

«Com a sonata em fundo, o Mensageiro estala os dedos. As verrugas.
O Director mexe o desconforto na cadeira. A emoção cria urina.»
(Sandro William Junqueira)
[pauta] 

«É bom trabalhar nas Obras» (97)

«Nasci com um sinal branco, ou o que os outros chamam uma marca de nascença, sobre a córnea do meu olho direito. Não teria tido nenhuma relevância se a mácula em questão não estivesse em cheio no centro da íris, quer dizer precisamente sobre a pupila por onde a luz deve entrar até ao fundo do cérebro. Nessa época, ainda não se praticavam os transplantes da córnea em crianças recém-nascidas: o sinal estava condenado a permanecer ali durante vários anos. A obstrução da pupila favoreceu o paulatino desenvolvimento de uma catarata, assim como um túnel sem ventilação se vai enchendo de bolor. O único consolo que os médicos puderam dar aos meus pais naquele momento, foi a espera. Seguramente, quando a sua filha terminasse de crescer, a medicina teria avançado o suficiente para oferecer a solução que então lhes faltava. Entretanto, aconselharam-nos a submeterem-me a uma série de exercícios fastidiosos para que desenvolvesse, na medida do possível, o olho deficiente. Isto era feito com movimentos oculares semelhantes aos propostos por Aldous Huxley em A arte de ver, mas também – e é o que recordo mais – recorrendo a um penso que me tapava o olho esquerdo durante metade do dia. Tratava-se de um pedaço de pano com as margens adesivas semelhantes às de uma decalcomania. O penso era cor de carne e ocultava desde a parte superior da pálpebra até ao princípio da face. À primeira vista, dava a impressão de que em vez de globo ocular só tinha uma superfície lisa. Andar com ele causava-me uma sensação opressiva e de injustiça. Era difícil aceitar que mo pusessem cada manhã e que não havia esconderijo ou pranto que pudesse libertar-me daquele suplício. Creio que não houve um único dia em que não oferecesse resistência. Teria sido tão fácil esperar que me deixassem à porta da escola para o tirar com um puxão, com o mesmo gesto despreocupado com que costumava arrancar as carepas dos joelhos. No entanto, por uma razão que ainda não consigo perceber, nunca tentei descolá-lo.»
[Guadalupe Nettel, O corpo em que nasci; em tradução para a Teodolito;

Papiro do dia (178)

«O Director é um actor à boca de cena numa marcação rigorosa.
Quando de pé, ao interrogar ou falar, compõe as mãos apáticas, de camurça, atrás das costas. Quando sentado, é mais fácil: pousa sobre a braguilha, uma luva, e depois a outra, em cima. E ali ficam, quietas, as duas mãos furtivas: inúteis irmãs gémeas a protegerem-se mutuamente.
Apenas sozinho, no escritório de casa, no gabinete do trabalho, de porta fechada, o Director calça as luvas de camurça. Usa para a operação, a reunião dos indicadores, médios e anelares e o auxílio dos dentes. Seis dedos para duas mãos. Três mais três dentes. Que o Director exercita para executarem o trabalho de dez. Mas ter seis dedos é diferente de ter dez. E os dentes não podem fazer o resto.
Mas, e os polegares da caça? Como compensar a falta dos polegares da caça? A construção da humanidade iniciou-se no polegar. O que distingue homens de animais é esse dedo anão, grosso, que se opõe aos outros. Que os encara pomo a pomo, e conta, como um professor conta os alunos a quem vai ensinar a lição:
Um, dois, três, quatro.
Um, dois, três, quatro.
Desde a perda, há gestos interditos ao Director: apertar uma mão; descascar uma pêra; abotoar um botão; rodar uma maçaneta; disparar um revólver; tocar a pele de mulher de forma erótica.
Qualquer gesto manual, ainda que mínimo, traz dificuldade. Obriga-o a um esforço suplementar. A uma atenção permanente. Isto, apesar do treino a que forçara os dedos órfãos.
Mas a desgraça também é um lugar de aprendizagem.
Uma vez, aproveitando um convite pessoal do Ministro Calvo para oferecer uma palestra teórica a verdugos recém-formados sobre Técnicas de Persuasão, o Director elaborou uma tese.
Nessa tese, havia um capítulo intitulado “As mãos sinceras”.
A certa altura, lia-se:»
[Sandro William Junqueira, Um piano para cavalos altos; Caminho, Dezembro 2011]

25 de janeiro de 2012



24 de janeiro de 2012

Breve interlúdio musical



Porque a Net fornece um novo dia

«Lunes

Às vezes, lá calha...

«O medo e a pele: vizinhos de longa data que se cumprimentam de forma cordial quando se cruzam. Um começa quando o outro começa; um termina quando o outro termina.»
(Sandro William Junqueira)

Nem sempre a lápis (256)

Puxei do moleskine e da caran d’ache para anotar o nome alemão da gaúcha do Rio Grande do Sul que me vai estrear como avô: Seyboth Mallmamn (Santos Silva Fallorca, acrescentei emocionado). E o gesto, a atitude  fez-me sentir tão antigo, tão cultura ocidental europeia.

Papiro do dia (177)

«O Director repara na evidência: dos dedos do outro nascem minúsculas flores de carne: verrugas.
O Mensageiro, sentado na cadeira desconfortável, mãos entrelaçadas, fita o aquário. O Director pronuncia um nome. O Mensageiro encara-o. O Director formula quatro perguntas sobre o ataque dos lobos na Floresta mantendo o tom amigo. Açucaradas, as palavras deslizam como rebuçados. O Mensageiro, diabético, recusa-se a responder, quatro vezes. Sempre com um sorriso rachado a exibir gengivas. Então, o Director repete as perguntas. E o Mensageiro repete o silêncio, agora áspero.
O Director contrai maxilares. Cerra dentes contra dentes e levanta-se. A cabeça do Mensageiro acompanha-o. Repara no movimento que as orelhas sanguíneas e deslocadas da nuca do Director fazem a cada mastigação. Repara ainda na sombra pequenina que se projecta contra a parede verde e franze o cenho.
Pensa:
A sombra do Director não concorda com a envergadura.»
[Sandro William Junqueira, Um piano para cavalos altos; Caminho, Dezembro 2011;
envergadura

23 de janeiro de 2012



22 de janeiro de 2012

Breve interlúdio musical



Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

«Só era reconhecível pelos farrapos do uniforme e a estrela de metal, símbolo do Governo, que se salvara, indigesta e dura, dos dentes da violência.»
(Sandro William Junqueira)

Nem sempre a lápis (255)

A minha disposição para descascar um saco de favas, de ervilhas, uma terrina de grão-de-bico, foi sempre olhada com indisfarçável estranheza. E eu, «cheguem-me mais», a endireitar as costas. Em A Condição Humana, Hannah Arendt sossega eventuais preocupações, toleraradas como pancas zen.

Papiro do dia (176)

«O militar que cuspiu olha determinado e não vacila apesar de lhe doer a perna direita. A perna direita dói-lhe, assim que se aproxima uma coisa grande de mais para ser vista pelos olhos. Ele chama-lhe a perna adivinha. A este militar, a vida já tinha ensinado coisas suficientes para confiar na perna defeituosa, e não guardar ilusões no coração.»
[Sandro William Junqueira, Um piano para cavalos altos; Caminho, Dezembro 2011;
adivinha

21 de janeiro de 2012

O figurante

20 de janeiro de 2012

Breve interlúdio musical

Porque a Net fornece um novo dia


[altura vista daqui]

Às vezes, lá calha...

«O leitor olha ou não olha, vai lê-lo ou não vai lê-lo, é uma coisa que só lhe diz respeito. Depois… acabou-se, só resta ao autor desaparecer.»

Nem sempre a lápis (254)




No meu país morrem poetas com menos de 40 anos.
De que morre um poeta com 39 anos? 

Papiro do dia (175)

«A implosão das igrejas é outro passo certo dado em direcção a um estado social que não desperdiça. O reino da Igreja não é deste mundo. E, se ao mundo não pertence, nele não se deve edificar. Plantar raízes. A fé não nasce de um edifício nem se desenvolve nos volumes da arquitectura. É insensato ocupar desnecessariamente metros quadrados públicos com tais pretextos metafísicos. Metros que, usados de forma racional, podem ser rentabilizados noutras matérias. Pois, se existe a fé, e ela se mostra consistente perante a adversidade, então que Deus e o seu séquito ocupem apenas a carne daquele que nele acredita. Fora da carne, Deus perde compostura, ideias e emoção. É pernicioso e um claro sinal de desobediência, já para não falar numa alta arrogância, fundar alicerces metafísicos fora do único templo sagrado; do único templo que pode ser reconhecido como um espaço de fé, que é a carne de quem reza.
É chegado o tempo, pois, de fazer implodir todos esses tijolos e frontispícios pretensiosamente divinos.»
[Sandro William Junqueira, Um piano para cavalos altos; Caminho, Dezembro 2011]

19 de janeiro de 2012

18 de janeiro de 2012

Breve interlúdio musical



Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

«É bom trabalhar nas Obras» (96)

«Inspirado na infância da autora, O Corpo Em Que Nasci é a história de uma menina que nasceu com um defeito num olho. A sua vida, durante os anos setenta, vê-se influenciada pela sua visão limitada, mas também pela ideologia dominante nessa época: o casamento aberto dos seus pais, as escolas activas, as comunas hippies, a liberdade sexual e o respectivo envolvimento. As diferenças físicas e psicológicas que a distinguem, fazem com que a protagonista se identifique com os seres que vivem à margem das modas e das convenções sociais.
Escrita em jeito de solilóquio no divã de um psicanalista, a narradora torna-nos cúmplices das suas recordações mais íntimas e das interpretações que faz da sua própria vida. Trata-se de uma história cheia de senso de humor, mas também de realismo, em que o mundo infantil se apresenta muito mais abominável do que parece à primeira vista.
Um romance de iniciação à vida e à literatura, um bildungsroman situado entre a América Latina e a Europa, nas suas facetas menos óbvias. O exílio sul-americano, a emigração magrebina, as prisões da Cidade do México, constituem parte do contexto deste comovente romance, que percorre o caminho de volta à dignidade e à aceitação de nós próprios.
Guadalupe Nettel confirma com este romance, o que a crítica saudou desde a sua estreia: que é uma das revelações em língua espanhola da última década.
O escritor colombiano Juan Gabriel Vasquez, por exemplo, afirmou: «Há muito tempo que não me encontrava, na literatura da minha geração, com um mundo tão pessoal e intransmissível como o de Guadalupe Nettel.»
[Guadalupe Nettel, O Corpo Em Que Nasci; em tradução para a Teodolito]

Papiro do dia (174)




«Aprender

Uma criança que ainda não sabe escrever diz que odeia os pais.
E quer escrever isso no papel: que odeia os pais.
Sabe algumas letras, mas ainda não sabe escrever. Pergunta à mãe como se escreve o nome dela e o do pai. A mãe diz-lhe, soletra, explica. Depois o menino pergunta como se escreve odeio-vos. A mãe hesita, mas depois soletra, explica, ajuda a desenhar as letras.»
[Gonçalo M. Tavares, Short Movies; Caminho, Novembro 2011]

17 de janeiro de 2012

16 de janeiro de 2012

Breve interlúdio musical



Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

«O grito tem um nome humano, desespero.»

Nem sempre a lápis (253)

Anotados quatro capítulos desprevenido, recupero da recaída da intromissão de A mulher descalça. Fui à praia e os dias germinam, devagar; os cães conduzem o passeio pelo faro, não sou de levar a escrita à rua.

Papiro do dia (173)

«A sua memória deu-me muito que pensar. Os indícios que me permitiam julgá-la fizeram-me imaginar uma ginástica intelectual única no mundo. Não se tratava, nele, de faculdade excessiva – mas educada ou transformada. Vejam-se palavras suas: “Há vinte anos que não tenho livros. E também queimei os meus papéis. Agora risco directamente na carne-viva… Retenho o que quero. Mas difícil não é isso. É reter aquilo que amanhã vou querer!... Andei à procura de uma instintiva peneira…”
De tanto pensar nisto, acabei por concluir que o Sr. Teste descobrira leis do espírito que ignoramos. Por certo passara anos a investigá-las: e mais certo ainda era ter destinado outros, muitos anos, a amadurecer as invenções que tinha feito para fazer com elas os seus instintos. Encontrar, nada é. Difícil é acrescentar a nós próprios o que encontramos.
A delicada arte da duração, o tempo, como se distribui e o seu regime – como é gasto em coisas bem escolhidas para as alimentar, especialmente – era uma das grandes procuras do Sr. Teste, muito atento à repetição de certas ideias; fixava-lhes o número. Servia-lhe isto para tornar finalmente instintiva a aplicação dos seus estudos conscientes. Chegava a resumir esse trabalho. Era vulgar dizer: “Maturare!...”
Por certo a sua singular memória retinha pouco mais do que essa parte das nossas impressões que a imaginação não pôde, sozinha, construir. Se imaginarmos uma viagem de balão, com sagacidade e força podemos produzir muitas sensações prováveis do aeronauta; mas na ascensão qualquer coisa há-de haver, no entanto, que é individual e cuja diferença perante o nosso devaneio exprime o valor dos métodos de um Edmond Teste.
Bem cedo este homem soube a importância daquilo a que podemos chamar plasticidade humana. Investigara-lhe os limites e o mecanismo. Como ele devia pensar na sua própria maleabilidade!
Eu vislumbrava sentimentos que me faziam estremecer, uma obstinação terrível em experiências inebriantes. Ele era o ser absorvido na sua variação, aquele que se transforma no seu próprio sistema, o que se entrega inteiro à disciplina assustadora do espírito livre e mata com as suas próprias alegrias as alegrias que tem, a mais fraca com a mais forte – a mais suave, a temporal, a do instante e da hora começada, com a fundamental – com a esperança da fundamental.
E sentia-o senhor do seu pensamento: escrevo aqui este absurdo. A expressão de um sentimento é sempre absurda.
O Sr. Teste não tinha opiniões. Julgo que se apaixonava como queria, e para atingir determinado fim. O que fizera da personalidade? Ele próprio não se via?... Nunca ria, no seu rosto nunca havia um ar de infortúnio. Tinha ódio à melancolia.»
[Paul Valéry, O Senhor Teste; trad. Aníbal Fernandes, Relógio d’Água, 1985]

15 de janeiro de 2012

14 de janeiro de 2012

Breve interlúdio musical



Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

«Imagina, por favor, duas pessoas baptistas a flutuarem pelo Mississípi abaixo sem nada vestido a não ser umas ceroulas. És capaz de os visualizar a provocar um fervor molhado sobre o Antigo Testamento?»
(Henry Miller)

Nem sempre a lápis (252)

Vim a casa umas quantas vezes e cheguei a ir ao Porto; Portimão tem sido a minha base, nos últimos tempos. Dou por mim sentado na aviadora, com os cães ao colo a fazer os deveres. Olho lá para fora e o Sol é o mesmo que bate no sofá, lá em baixo; outra, a luz.








[luz]

Papiro do dia (172)

«A tolice não é o meu forte. Vi muitos indivíduos; visitei várias nações; tomei parte em cometimentos vários de que não gostei; quase todos dias comi; e de mulheres também tenho que contar. Revejo agora as centenas de caras, dois ou três espectáculos, e talvez a substância de vinte livros. Não retive o melhor nem o pior das coisas: ficou como pôde.
Esta aritmética poupa-me o espanto de envelhecer. Poderia igualmente contar os vitoriosos momentos do meu espírito, imaginá-los juntos e isolados, a formarem uma vida feliz… No entanto, estou em crer que me julguei sempre bem julgado. Raramente me perdi de vista; detestei-me, adorei-me; – depois envelhecemos juntos.
Supus muitas vezes que tudo estivesse acabado para mim, eu estivesse a terminar-me com todas as forças, ansioso por esgotar, esclarecer, qualquer dolorosa situação. Fez-me isto saber que apreciamos muito excessivamente o nosso pensamento, segundo a expressão do pensamento alheio! Desde aí, os biliões de palavras que andaram a zumbir-me nos ouvidos muito raro me abalaram por aquilo que se queria fazê-las dizer; e as que eu próprio disse a outros senti sempre que se faziam distintas, todas, do meu pensamento; – por ficarem invariáveis.
Decidisse eu como decide a maior parte dos homens, e não só haveria de julgar-me como parecer-me superior a eles. Preferi-me. Ser superior chamam eles a um ser que se enganou. Para nos causar espanto há que vê-lo – e para ser visto tem de se mostrar. E mostra-me então que é invadido pela mania simplória do seu próprio nome. Por isto, cada grande homem fica maculado com um erro. Todo o espírito que achamos forte começa pelo erro que o revela. Em troca da gorjeta pública concede o necessário tempo para se fazer perceptível, transmitir-se a energia dissipada e preparar a satisfação alheia. Chega ao ponto de comparar os informes jogos da glória com a alegria de sentir-se único – grande, singular volúpia.
Divertia-me apagar a história conhecida por baixo dos anais do anonimato. Invisíveis na sua vida límpida, quem sabia sempre antes dos outros eram pessoas solitárias. Parecia-me que duplicavam, triplicavam, multiplicavam na escuridão cada pessoa célebre – elas, desdenhosas de revelarem a sua boa sorte e os particulares resultados que tinham obtido. Ao que sinto, teriam recusado tomar-se por outra coisa que não coisas…
Estas ideias vinham-me à cabeça em Outubro de 93, nos momentos de ócio em que o pensamento se entretém, apenas, a existir.
Eu já começava a não magicar muito nisto quando conheci o Sr. Teste.
[Paul Valéry, O Senhor Teste; trad. Aníbal Fernandes, Relógio d’Água, 1985]

13 de janeiro de 2012

Quatro

«A grande ligação desta exposição e do grupo de pintores é o facto de estarmos perante artistas de diferentes e contíguas gerações, com explícitas relevâncias na arte portuguesa, que têm a pintura como centro da sua actividade. Nos anos de 1950 em que a arte abstracta se afirmava em Portugal, Nikias Skapinakis já estava presente na defesa de uma figuração moderna. Na década seguinte Jorge Martins estava presente desde o início e, na segunda metade aparecia Manuel Casimiro , numa altura em que se apregoava a falência da pintura. Sofia Areal aparecia entre os anos 70 e 80, já mais próxima do regresso da pintura que esta última década explorava em situação dita pós-moderna. (...) São, por isso, exemplos entre outros, que nos provam que a morte da pintura foi uma mera eloquência de necessidade teórica desfasada da produção prática.» (Fernando Rosa Dias)
QUATRO
Sofia Areal, Manuel Casimiro, Jorge Martins, Nikias Skapinakis
Centro Cultural de Cascais
(até 29 de Janeiro - 3ª a Dom, 10h00 às 18h00)

12 de janeiro de 2012

Breve interlúdio musical



Porque a Net fornece um novo dia

«A sociedade contemporânea parece capaz de conter a transformação social - a transformação qualitativa que estabeleceria instituições essencialmente diferentes, uma nova direcção do processo produtivo e novos modos de existência humana. Esta contenção da transformação social talvez seja o resultado mais singular da sociedade industrial avançada; a aceitação geral do interesse nacional, o quadro político bipartidário, o declínio do pluralismo, a coligação do capital e do trabalho no interior de um Estado forte dão testemunho da integração dos contrários que é o resultado bem como o pré-requisito do referido resultado.»



 
[Herbert Marcuse, O Homem Unidimensional. Sobre a Ideologia da Sociedade Industrial Avançada, Letra Livre, Lisboa, 2011]

Às vezes, lá calha...

«Não mataste porque o leste. Leste-o porque querias matar. É tudo. Se ele fosse vivo, acusava-te de plágio!»
(Atiq Rahimi)

Nem sempre a lápis (251)

«Desceu numa estação portuária. Na margem mais firme do sapal, onde se levantou a cidade do Sul. Afastou-se até encontrar uma residencial familiar. Arredou a cortina da janela do quarto. Dava para o logradouro, para a harpa de roupa estendida nas cordas; de parede, a parede. Velhas e riscadas pelo trânsito da humidade.
De um lado, viam-se gatos; do outro, árvores.
E um céu de chuva, comum a todos.
Antes, percorreu todos os sentidos de autocarro. Agora, sentia-se ali: nas ruas e ruelas que desembocavam no rio, no comboio que ouviu chegar na ponte vazia.
E pôs-se a caminhar. Leitor curioso do empedrado das ruas, deu em leitor compulsivo do rumo das calçadas. Levava um falcão no bolso, um lápis afiado.»

[estação]

Papiro do dia (171)

«Infelizmente prosseguiu Moloch –, para a maioria de nós a Índia não tem mais realidade do que um sonho de ópio. Quando o débil Mahatma se lança no seu miado com uma barrigada de revelações estatísticas, provoca no mundo um choque distinto. Quem é que quer saber dos milhões de Intocáveis, das quarenta e nove seitas e línguas antagónicas, do interminável esquema de castas e faquires, de sujas cavernas e templos de devassidão? Não, o prefere acreditar que a Índia não é apenas uma terra, noventa por cento de cuja população está continuamente à beira da inanição, uma terra assolada pela cólera e pelo escorbuto, mas algo mais, algo que está bem para além da confusão de massacres, vício, legislação e ignorância crassa. Quando os inchados bois brancos castrados de Shiva se tiverem sumido, quando as panças dos brâmanes, retesadas como tambores, tiverem desaparecido, juntamente com os seus eruditos tractos nos órgãos digestivos, o que restar da Índia continuará a constituir, quer-me parecer, um teatro-piolho de mistério, horror e fanatismo. A Índia será sempre o lugar onde a religião constitui o primordial constituinte diário do homem. Os filhos da Índia nunca permitirão que a religião se torne a coisa reles e fraccionada com a qual os europeus se satisfazem. Nas suas mãos manter-se-á sempre um singular e intangível produto da terra, algo que sobreviverá às nossas “quadrigas de luta” e “coches de vento”, ao altifalante e ao fórceps. Daqui a dez anos mil anos, quando o mundo estiver doente e seguro para a democracia, e todo o Manel tiver a sua Maria, o alvorecer continuará a erguer-se como um trovão vindo da China pela baía fora. E pelos flancos virgens do Monte Evareste correrão riachos de safiras! Quanto a isso, os vossos mandriões cósmicos acertaram na profecia. Nessa altura poderemos efectivamente passar sem automóveis urbanos e Grande Ópera, sem elevadores e metropolitanos, sem fábricas de cimento e arquitectura babilónica, sem quartetos vocais masculinos e anticoncepcionais que não anticoncepcionam… Palavra de honra, não restará nada deste mundo moderno a não ser um fedor.»
[Henry Miller, Moloch; trad. J. Teixeira de Aguillar, jornal “Público”, Colecção Mil Folhas, Março 2004]

11 de janeiro de 2012

Ponham o avental!!!

video
eu avisei...

10 de janeiro de 2012

Breve interlúdio musical



Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

«Entusiasmava-se com os cabeçalhos…
Nunca lia o que estava impresso por baixo.»
(Henry Miller)

Nem sempre a lápis (250)

Fazendo-se de novas, a Nico ofereceu-me um novo formato, imediatamente legível. Mais pequeno que uma A4 deitada, escrevo na palma da mão sem ler as linhas. Três anos depois de um bloco feito com folhas de toalha de mesa, espero o bom proveito de andar com a escrita na mochila; ao sabor dos percursos.

Papiro do dia (170)

«Ronald Burns era músico e literato. Ao longo de três meses tinha compartilhado as glórias da existência com Dion Moloch e a mulher. O seu regresso ao Dakota do Norte deixara esses dois indivíduos onde os encontrara: nos baixios de lodo do matrimónio. Por uns tempos tinham baloiçado ditosamente na profunda e veloz maré da companhia; depois a maré tinha baixado e haviam ficado no lodo, presos como chatas.
Estaria Blanche apaixonada por Burns? Moloch estava pronto a acreditar que sim. estaria Burns apaixonado por Blanche? Isso era o mais importante. O que acontecesse entre eles os dois não lhe importava, desde que a sua amizade não fosse destruída. Se Burns desejava a sua mulher… excelente! Que viesse buscá-la! Não podia imaginar solução mais feliz para as suas dificuldades. Mas, se Burns a queria, porque tinha então regressado ao Dakota do Norte? Teria medo de enfrentar a verdade? Teria medo de o magoar a ele? Não teriam olhos na cara, aqueles dois? Não viam que ele se tinha retirado do caminho para lhes dar espaço livre?
As anotações marginais e a longa lista de palavras empilhadas na contracapa de cada livro que Hari Das descobriu ao folhear a magra colecção de Moloch suscitaram uma série de apreciações críticas que dissiparam as retrospecções de Moloch.
De repente Hari Das soltou uma sonora exclamação de alegria e espanto. Com dedos reverentes, agarrou num gasto volume e enfiou-o debaixo do nariz de Moloch.
- Agora – bradou –, agora sei que o senhor não pode ser um patife completo!
“Então ele tinha-me já aceitado como um patife?”, pensou Moloch, um tanto ou quanto acalmado pela efusividade do outro.»
[Henry Miller, Moloch; trad. J. Teixeira de Aguillar, jornal “Público”, Colecção Mil Folhas, Março 2004]