19 de abril de 2010

Às vezes, lá calha...

«Escrever é traduzir. Sempre o será.
Mesmo quando estivermos a utilizar a nossa própria língua.»

18 de abril de 2010

À mão de ler (2)

«Não quero parecer antipático. Sei que deve ser muito relaxante para si não ter de se preocupar com o temporizador – afinal, fui eu quem reparou no problema. Quanto à presença do Sr. Crawford, tendo eu próprio o meu lado de palhaço amador – já lhe tinha contado? – sei como é estimulante um público ao vivo, por mais reduzido ou envelhecido que seja. Afinal, de que servem as palhaçadas se não há ninguém para rir? Claro que não estou a sugerir que o Sr. Crawford estaria a rir. Pelo contrário. Que esta ele a fazer? Mal lhe pergunto isto, sou assaltado por enxames de imagens mentais, e faço o que posso para as enxotar. Apesar de ele estar no piso de baixo e saber tudo sobre máquinas fotográficas, tem a certeza de que ele é a melhor pessoa para isto? Que idade tem ele?
Os planos para o festival vão de vento em popa. O festival cresce a bom ritmo, neste instante em que falamos. Aqui no escritório, pomos as mãos em pala sobre os olhos e contemplamos adiante. O festival engrandece, como um balão. Apesar de deitados ao chão pelas voltas da sua corpulência, lutamos com ele. Criámos comités para controlar todos os aspectos e derivados. Acha que carrinhos-de-choque poderiam ser de trop? Pensei que poderíamos dar aos carros os nomes das modas literárias – Romantismo, Realismo, etc. – e uma pessoa escolhia a sua filiação e batia contra os outros. Já leu Rimbaud?»
[Sam Savage, O Grito da Preguiça; trad. Fernando Villas-Boas, Planeta, Fevereiro 2010]

Breve interlúdio musical

Nem sempre a lápis (3)

Estava mesmo necessitado de passar os olhos pelo campo, nem eu imaginava quanto; cabeças de gado nos prados do Baixo, viçoso e alagado. Depois do dilúvio da noite passada, aproveitei a alternância do Sol para fazer hoje, terça-feira, o que mais me apetecia no domingo. Como ainda é cedo para ir ao Norte, rumei sem destino prévio até ao Sul, digamos que motivado pela comodidade de transferir o seguro em Lagoa; os quilómetros coavam-se, nos marcos da Nacional. Chama-se Catraia, a carrinha; o nome foi-me sugerido pelo que vejo a boiar nas margens do Samouco, para continuar a faina interrompida pela Margot, homónima do barco de costa com maior calado, assim o deixei (até Jajouka). Ultrapassei duas auto-caravanas, uma alemã e a outra holandesa, futuras vizinhas do condomínio à beira da Costa Vicentina estacionado. Acabei por vir ter ao quarto onde dormi em Outubro, agora com o jantar deduzido no preço do alojamento e a mesma vista para o passeio marítimo que passou a substituir a frente de mar; sem sinal das palmeiras centenárias, nem sinal de vegetação. Secura. Depois de ter escrito, à máquina, que vim cá para me sentar à varanda a confirmar que era «uma memória estragada», só eu me impedia de ver Armação sem ela. Estou num sítio qualquer, acompanhado pela presença do mar e da praia, ansioso por ligar o computador e ir cumprimentar o cigano de Porches; ficar descansado. Fui acumulando notas de cabeça durante a viagem, sem as depositar no bloco as duas vezes que parei, na Mimosa e a seguir a Ourique; a primeira gasolineira estava fora-de-serviço. Ontem adormeci com 2666 em cima do peito. Tenho fisgado um longo período entre parêntesis – acaso ou coincidência com o título póstumo que reúne textos dispersos e de circunstância, de Bolaño – seguido do monólogo sobre ela, a coincidência, proferido aos archimboldianos ortodoxos pelo pintor Edwin Johns. A mulher internou-o num discreto e luxuoso manicómio suíço, depois de ter amputado a mão direita para concluir o seu último auto-retrato. E Gogh nem sequer pediu licença, que lhe dava, para se colar à leitura. Antes, uma passagem sobre modestos escritores convidados para leituras na província, onde montavam uma banquinha para vender os seus produtos, coincidiu com a ideia de tirar uma foto à Catraia; a Cicatriz pendurada numa corda com uma mola e o preço escrito num cartão, feirante. Conduzir sem horário nem destino foi sempre uma das minhas preferidas «atitudes de trabalho»; ganhou consistência sob a forma do escritor moçambicano Agostinho Caramelo, que um dia apareceu em Mortágua ao volante de uma carrinha Citroën AMI 6 – matrícula francesa, em trânsito – vestido com uma camisa de flanela para vender um romance semi-clandestino, suponho e a recordação ajuda, intitulado Fogo. Permanece em lume brando entre os livros que não saíram de casa dos meus pais.

Contraída a virose, é possível que muito em breve me sente ao lado da carrinha com um caixote de livros, os calções, a toalha e um exemplar pendurados numa corda, pelas praias que amanhã tenciono levantar, a partir de Lagos, e chegar a casa sem a sensação de ter vindo ao Algarve, se fizesse o percurso inverso. Não sei se me faço entender.

Porque a Net fornece um novo dia

[Endereçado por Aqui Leonor]

17 de abril de 2010

Às vezes, lá calha...

«Felisberto desconfiava claramente da linguagem polida e da razão consciente. "Quando um conto meu foi transportado para um espanhol literário e castiço pelos revisores – escreveu –, ficou muito a perder”. E também: “Rejeitei definitivamente dedicar-me a escrever de maneira crítica, puramente consciente, porque me horrorizam os que vejo nesse estado.»
[Elvio E. Gandulfo, in prólogo de Contos Reúnidos, Felisberto Hernández]

«É bom trabalhar nas Obras» (1)

«Quando eu ouvia num concerto ou num sarau uma dessas peças que me entusiasmavam – estava sempre disposto a entusiasmar-me com qualquer coisa – e tinha decidido estudá-la, apertava essa ideia com a alma toda, pois sabia que podia escapar-me; mas mais do que escapar-me, diria que eu a abandonaria se poucos dias depois escutasse outra peça que me agradava mais. E agora agarrava-me a esta, não tanto com o intento de ser fiel à obra que me tornava tão feliz, mas porque ao saber que lhe poderia ser infiel, encaprichava-me em não deixar escapar esta imediata possibilidade de prazer; por outro lado, pensava que antes que me entusiasmasse com outra, devia aproveitar o tempo e ter a primeira já dominada: desta maneira, nenhuma das duas me escaparia. Sentia a angustiante voracidade de tê-las a todas entre os meus dedos, de levá-las sempre comigo e, antecipadamente, imaginava delícia muscular de apertar nas minhas mãos os seus corpos de sons e de dominar os seus movimentos. De acordo com o meu capricho, assim tocaria e apertaria umas ou outras e faria sofrer as suas vozes melódicas.

Era muito importante não dizer a ninguém que aquela peça me agradava: a partir do instante em que deixasse ver a minha paixão, contraía o compromisso de mostrar como me comportava com ela e como viria a tocar essa peça depois. Com este compromisso, não só a aventura perdia encanto: também deixava de ser uma aventura exclusivamente minha, era dar aos outros participação nela. Em contrapartida, quando ia para a rua com o escondido propósito de ver o que me ocorria se a encontrava e a estudava, quando recordava que os outros tinham ouvido essa peça no concerto ou no sarau e ela tinha sido um pouco de todos, eu pensava que os outros a teriam esquecido e agora seria exclusivamente minha; então apressava os passos até me doerem as pernas; ia ao seu encontro sem saber onde a encontraria; como se fosse procurar uma mulher adormecida algures num bosque; e embora ela não me conhecesse eu teria o privilégio de poder pegar-lhe e iniciar com ela toda a espécie de simpatias. Embora muitos outros a tivessem tocado e ela os conhecesse a todos, agora não teria outro remédio que permitir-me uma experiência pessoal e nessa experiência ela seria completamente outra e completamente minha. Se apesar daquela peça ter sido ouvida por muitos, a ninguém em Montevideu lhe ocorreria estudá-la – refiro-me a uma peça que tivesse dado a conhecer um concertista de passagem –, então eu teria o privilégio de levá-la para minha casa e fechar-me com ela como se tivesse travado o passo de uma mulher estrangeira. Embora na casa de música houvesse vários exemplares, eu pensava que ela era uma só; ver vários era como que um defeito da visão. Saía com ela nas mãos sem dar tempo que ma embrulhassem. Antes de chegar ao meu piano tinha tropeçado em mil coisas pelo caminho, e tinha olhado e deixado de olhar a peça mil vezes e já sabia de cor o cheiro do papel e da tinta.»

[Felisberto Hernández, Contos Reunidos; em tradução para a Colecção Ovelha Negra, Oficina do Livro]

rescisão de contrato (com direito a indemnização)

depois de ter formatado o blogue, de ter colocado a imagem no cabeçalho, o título e o subtítulo, de ter ajudado na escolha do décor, de ter criado a barra dos links e de ter dado uma acção de formação completa, o fallorca apagou o blogue todo. todo. agora que fui buscar os posts ao meu google reader e que voltei a inseri-los, um a um, nesta página, demito-me.
Catarina

À mão de ler (1)

[Paulo da Costa Domingos, a escrita; & etc., Março 2010]

Porque a Net fornece um novo dia...

16 de abril de 2010

Breve interlúdio musical

Nem sempre a lápis (2)

«Acha que tenho boa voz para escrever à máquina?», não é pergunta que se faça a quem congemina a oportunidade de escrever «À beira da Costa Vicentina estacionado», enquanto me atendia. Trauteava uma ária qualquer, pareceu-me a caricatura de uma ária, rematada sempre com «café». Não é louco, nem estava no Outono quando respondeu «Mandei-o lavar», a quem lhe perguntou pelo cabelo. À saída da tua rua, um jipe distraído com os netinhos ou a digestão do almoço em família, marcou parte do lado esquerdo com o pneu. Hesitei entre confirmar a carícia ou seguir em frente com a carripana; «choca» estocada por engano. Primeiro fui ao supermercado levantar dinheiro e comprar líquido para o radiador. Ainda peguei num bloco e passei os olhos pela oferta de lápis para equipar a carrinha; habituá-la à estrada, na minha mão. Como vinha da Moita, achei mais sensato «pegar» a curva onde mandei o Volvo para a sucata, há três semanas; bandarilhas, fitas a sinalizar o rail, nada a sinalizar a boa visibilidade das manchas e detritos na via, seca. Aguardemos serenamente. Por acaso tive pena de não ter a instamatic comigo; cá por coisas. Estrada aberta com o Sol a bater-me em cheio no peito, não me deixei seduzir pela sereia da terra molhada e a brisa do rio. Tenho perdido demasiado tempo com carros; pareceu-me mais acertado vir para casa ou ir confirmar se o Tucha continuava junto da estação da Cruz Quebrada, onde o encontrei com o portão entreaberto a restaurar e a envenenar UMM’s; virtualmente excitado, o João Pedro atendia o MSN na recepção, com os barcos pendurados nos estaleiros. A surpresa com que me recebem corresponderá à surpresa com que os reencontro? A mesma cara com o cabelo mais branco – a contar lérias como se nos tivéssemos visto ontem, há quase dez anos – sem saber por onde pegar num motor que metia dó, fui-lhe dando a atenção necessária a sondar a sucata, para ver se me desenrascava. Expliquei-lhe que é só uma porta que não fecha e mais umas coisitas; o empurrão suficiente para ele desabafar «Há oito anos que não sei o que é um fim-de-semana», encaminhávamo-nos para a carrinha. Até ao fim do mês não aceita mais nenhum carro, ia-me prevenindo à medida que a via com olhos de raio X e foi buscar uma chave de velas. «Telefona-me depois de almoço, lá mais para o meio da semana», despedimo-nos. Posso estar errado, mas saí de lá com a impressão de que não tarda muito vou dormir umas noites dentro dela, à beira da Costa Vicentina estacionado. Utilização que melhor terá conhecido, a avaliar pelos capítulos windsurf grafitados no forro do tejadilho.
Aqui entre nós: «Acha que tenho boa voz para escrever à máquina?»

Meditação na serralharia...

Afinal foi mais fácil do que julgava;
a Catarina clonou a coisa e vou consultar
uma casa da especialidade
para fazer o tunning do blogue.

15 de abril de 2010

Nem sempre a lápis (1)

À medida que me liberto da presença parasita de inéditos, ocorre-me a ideia – e porque não? – de me entregar à escrita de um livro póstumo, concebido como este diário começado há um ano a que chamo O Cheiro dos Livros. Segundo o patusco Walser «Quando se vai a caminho dos sessenta, devemos saber pensar noutra forma de vida.» A quem ele o diz, acabo de calcorrear esse caminho; de momento, sem carro. Deixo o livro com a capa pronta, tenho vindo a rever e a eliminar parte do que fui anotando nos últimos catorze meses. Talvez motivado pela apatia que acometeu o blogue da frenesi, umas noites atrás deu-me para seguir os passos, até onde me foi possível, para criar um. Tem permanecido aqui como um lote pré-comprado, um investimento para o começo da velhice, embora desconfie que, se e quando o vier a urbanizar, o espaço da blogosfera já se encontre ainda mais que ultrapassado, como me convém. Partilha o título do livro póstumo, naturalmente, mas não a cronologia nem a validade dos textos que o compõem, de que serão réplicas apenas; sem comentários.
Fevereiro acabou, terminei a tradução de A Cidade Ausente (Teorema), comprado em Huelva vai fazer quatro anos, edição ainda da Anagrama, como O Último Leitor e La invasión; vivia perto e já andava a escrever até Jajouka. Venha outro Março e que a hora mude depressa para me libertar. É curioso como o mês mais raquítico do ano pode ser tão sacaninha.
«O narrador deve estar sempre presente.» (Ricardo Piglia)
[Na foto: Ricardo Piglia, durante a apresentação ilustrada do seu romance A Cidade Ausente, adaptada pelo escritor Pablo de Santís e ilustrado por Luis Scafati, em Barcelona, 25/11/2008]

Às vezes, lá calha...

«Era uma história que tendia a alastrar em todas as direcções e que,
no entanto,
se mantinha essencialmente portátil.»