19 de abril de 2010
18 de abril de 2010
À mão de ler (2)
«Não quero parecer antipático. Sei que deve ser muito relaxante para si não ter de se preocupar com o temporizador – afinal, fui eu quem reparou no problema. Quanto à presença do Sr. Crawford, tendo eu próprio o meu lado de palhaço amador – já lhe tinha contado? – sei como é estimulante um público ao vivo, por mais reduzido ou envelhecido que seja. Afinal, de que servem as palhaçadas se não há ninguém para rir? Claro que não estou a sugerir que o Sr. Crawford estaria a rir. Pelo contrário. Que esta ele a fazer? Mal lhe pergunto isto, sou assaltado por enxames de imagens mentais, e faço o que posso para as enxotar. Apesar de ele estar no piso de baixo e saber tudo sobre máquinas fotográficas, tem a certeza de que ele é a melhor pessoa para isto? Que idade tem ele? Nem sempre a lápis (3)
Contraída a virose, é possível que muito em breve me sente ao lado da carrinha com um caixote de livros, os calções, a toalha e um exemplar pendurados numa corda, pelas praias que amanhã tenciono levantar, a partir de Lagos, e chegar a casa sem a sensação de ter vindo ao Algarve, se fizesse o percurso inverso. Não sei se me faço entender.
17 de abril de 2010
Às vezes, lá calha...
«É bom trabalhar nas Obras» (1)
Era muito importante não dizer a ninguém que aquela peça me agradava: a partir do instante em que deixasse ver a minha paixão, contraía o compromisso de mostrar como me comportava com ela e como viria a tocar essa peça depois. Com este compromisso, não só a aventura perdia encanto: também deixava de ser uma aventura exclusivamente minha, era dar aos outros participação nela. Em contrapartida, quando ia para a rua com o escondido propósito de ver o que me ocorria se a encontrava e a estudava, quando recordava que os outros tinham ouvido essa peça no concerto ou no sarau e ela tinha sido um pouco de todos, eu pensava que os outros a teriam esquecido e agora seria exclusivamente minha; então apressava os passos até me doerem as pernas; ia ao seu encontro sem saber onde a encontraria; como se fosse procurar uma mulher adormecida algures num bosque; e embora ela não me conhecesse eu teria o privilégio de poder pegar-lhe e iniciar com ela toda a espécie de simpatias. Embora muitos outros a tivessem tocado e ela os conhecesse a todos, agora não teria outro remédio que permitir-me uma experiência pessoal e nessa experiência ela seria completamente outra e completamente minha. Se apesar daquela peça ter sido ouvida por muitos, a ninguém em Montevideu lhe ocorreria estudá-la – refiro-me a uma peça que tivesse dado a conhecer um concertista de passagem –, então eu teria o privilégio de levá-la para minha casa e fechar-me com ela como se tivesse travado o passo de uma mulher estrangeira. Embora na casa de música houvesse vários exemplares, eu pensava que ela era uma só; ver vários era como que um defeito da visão. Saía com ela nas mãos sem dar tempo que ma embrulhassem. Antes de chegar ao meu piano tinha tropeçado em mil coisas pelo caminho, e tinha olhado e deixado de olhar a peça mil vezes e já sabia de cor o cheiro do papel e da tinta.»
[Felisberto Hernández, Contos Reunidos; em tradução para a Colecção Ovelha Negra, Oficina do Livro]
rescisão de contrato (com direito a indemnização)
16 de abril de 2010
Nem sempre a lápis (2)
«Acha que tenho boa voz para escrever à máquina?», não é pergunta que se faça a quem congemina a oportunidade de escrever «À beira da Costa Vicentina estacionado», enquanto me atendia. Trauteava uma ária qualquer, pareceu-me a caricatura de uma ária, rematada sempre com «café». Não é louco, nem estava no Outono quando respondeu «Mandei-o lavar», a quem lhe perguntou pelo cabelo. À saída da tua rua, um jipe distraído com os netinhos ou a digestão do almoço em família, marcou parte do lado esquerdo com o pneu. Hesitei entre confirmar a carícia ou seguir em frente com a carripana; «choca» estocada por engano. Primeiro fui ao supermercado levantar dinheiro e comprar líquido para o radiador. Ainda peguei num bloco e passei os olhos pela oferta de lápis para equipar a carrinha; habituá-la à estrada, na minha mão. Como vinha da Moita, achei mais sensato «pegar» a curva onde mandei o Volvo para a sucata, há três semanas; bandarilhas, fitas a sinalizar o rail, nada a sinalizar a boa visibilidade das manchas e detritos na via, seca. Aguardemos serenamente. Por acaso tive pena de não ter a instamatic comigo; cá por coisas. Estrada aberta com o Sol a bater-me em cheio no peito, não me deixei seduzir pela sereia da terra molhada e a brisa do rio. Tenho perdido demasiado tempo com carros; pareceu-me mais acertado vir para casa ou ir confirmar se o Tucha continuava junto da estação da Cruz Quebrada, onde o encontrei com o portão entreaberto a restaurar e a envenenar UMM’s; virtualmente excitado, o João Pedro atendia o MSN na recepção, com os barcos pendurados nos estaleiros. A surpresa com que me recebem corresponderá à surpresa com que os reencontro? A mesma cara com o cabelo mais branco – a contar lérias como se nos tivéssemos visto ontem, há quase dez anos – sem saber por onde pegar num motor que metia dó, fui-lhe dando a atenção necessária a sondar a sucata, para ver se me desenrascava. Expliquei-lhe que é só uma porta que não fecha e mais umas coisitas; o empurrão suficiente para ele desabafar «Há oito anos que não sei o que é um fim-de-semana», encaminhávamo-nos para a carrinha. Até ao fim do mês não aceita mais nenhum carro, ia-me prevenindo à medida que a via com olhos de raio X e foi buscar uma chave de velas. «Telefona-me depois de almoço, lá mais para o meio da semana», despedimo-nos. Posso estar errado, mas saí de lá com a impressão de que não tarda muito vou dormir umas noites dentro dela, à beira da Costa Vicentina estacionado. Utilização que melhor terá conhecido, a avaliar pelos capítulos windsurf grafitados no forro do tejadilho.
Meditação na serralharia...
15 de abril de 2010
Nem sempre a lápis (1)


