16 de maio de 2010

Nem sempre a lápis (25)

Sem que nada o fizesse prever – até tinha pensado ir à Feira buscar dois livrinhos, em princípio, hoje ou amanhã –, quando fui tomar o pequeno-almoço levei as chaves da carrinha, imobilizada há duas semanas; pegou que foi um mimo, a provocadora. Não tive outro remédio se não ir a casa desligar o computador – já tinha aberto a correspondência enquanto me arranjava –, enfiar duas mudas de roupa e de leitura no saco, acondicionar o portátil e encontro-me na Mimosa, sentado à mesa do costume com o pretexto de comer qualquer coisa. Como tenho andado desencontrado com o segurança, primeiro passei pela Leya para apanhar os exemplares de Santa Maria do Circo, mas livrei-me do sufoco da Segunda Circular atalhando pela fluidez, nem sempre natural, do Monsanto. Quanto aos livros que pensava ir buscar à Feira – Cioran e Cormac McCarthy – podem esperar até dia 14, quando lá for para me encontrar com David Toscana. Ele, vindo de Varsóvia, onde vive; eu, regressado do Sul, com que me reencontro. Perante as razões Do Inconveniente de Ter Nascido, expostas por Cioran, gostava de saber o que levou McCarthy à conclusão de que também Este País Não É Para Velhos; algum o será? Traído pela luz embaciada, só quando resgatei o olhar do cenário hipnótico da auto-estrada é que me lembrei da instamatic esquecida em casa. À medida que progredia pelo Baixo, os cilindros de pasto iam contrastando com o campo atapetado de rosmaninho, orlado de tremoço, de culturas pobres. A primeira vez que me confrontei com aquela volumetria rolada pela terra exangue, foi no tempo em que ainda se tinha de inflectir pela barragem do Monte da Rocha, a partir de Ourique, para ir ter com os campos de girassóis de Aljustrel. Nessa altura tinha lido umas coisas sobre a land art – que nada tem a ver com a Arte da Terra – e sempre que utilizava esse percurso excitava-me a planear uma «instalação», com o que via naturalmente instalado; era o tempo da soberba e da posse, esgotado com polaroïds de memória, mindlaroïds (Fruta da Época).
[Foto: James Terton]

Às vezes, lá calha...

«A minha forja literária é, frequentemente, uma divisão vazia onde nem sequer há janelas. […] Confrontado com estes dilemas, geralmente faço o que faz toda a gente: perco o equilíbrio e penso que sou imortal. Não quero dizer imortal literariamente falando, porque isto só o pode ser um imbecil e eu não sou homem para tanto, mas literalmente imortal, como os cães e as crianças e os bons cidadãos que ainda não adoeceram.»

15 de maio de 2010

Meditação na charcutaria...

[Foto: gentileza do Público, via Playboy Portugal, creio, ou concelho de Mirandela]

Breve interlúdio musical

Porque a Net fornece um novo dia...

À mão de ler (20)

«Se alguma vez, nos degraus de um palácio, sobre as verdes ervas de uma vala, na solidão morna do teu quarto, tu acordares com a embriaguez atenuada, pergunta ao vento, à onda, à estrela, à ave, ao relógio, a tudo o que passou, a tudo o que murmura, a tudo o que gira, a tudo o que canta, a tudo o que fala; pergunta-lhes que horas são: "São horas de te embriagares. Para não seres como os escravos martirizados do Tempo, embriaga-te, embriaga-te sem descanso. Com vinho, com Poesia, com a virtude.»
[Charles Baudelaire, Poemas em Prosa, Alma Azul, Coimbra / Alcains, 2007]

Às vezes, lá calha...

«Vivem numa casa, e de bom grado na cama,

no mais abandonado sentido da palavra cama

e no pior sentido da palavra casa

14 de maio de 2010

Breve interlúdio musical

... trazido à tona dos ouvidos pelo Tolan

Porque a Net fornece um novo dia...

[Foto: Bettmann / CORBIS]

O Último Leitor

Animado pelo espírito de Santa Maria do Circo,
hoje ao fim da tarde vou até à Leya na Barata.
Cada um faz como melhor entende
e a mais não é obrigado (não tem de quê...)

À mão de ler (19)

«Sabia que de cada vinte e oito páginas publicadas só se lê uma? Porque há livros que são dados de presente a pessoas que não lêem, porque vão parar a uma biblioteca sem utentes, porque se adquirem para decorar estantes, porque se oferecem na compra de outro produto, porque o leitor perde o interesse logo no primeiro capítulo, porque nunca saem do armazém do impressor, porque também os livros se compram por impulso. Eu acabo de me desfazer de O Outono em Madrid, diz Lucio, ia na página sessenta e três; ficaram duzentas e oito por ler. Eu não passei da página vinte, disse ela. Para que um tédio desses chegue a Icamole é necessária a cumplicidade do autor, dos revisores, dos editores, dos impressores, dos livreiros e até dos leitores; isto sem contar com a mulher do escritor que lhe diz sim, meu amor, tu escreves muito bem. Delinquência organizada, diz ele. Olham-se ambos sorridentes por um segundo e Lucio deseja tirar trinta anos de cima de si ou pelo menos que as coisas fossem como em Vidas Ocultas. Leu Vidas Ocultas? Não gostei, diz ela, penso que Miranda devia ter-se ido embora de casa logo da primeira vez que o marido lhe bateu. Lucio fica desiludido por a mulher excluir aquela obra-prima devido a um julgamento moral; podiam certamente sentar-se à mesa a discutir se Miranda mereceria ou não as tareias, mas isso parece-lhe irrelevante. O que interessa é que ela decidiu aceitar os abusos do seu homem e graças a isso houve um romance para escrever, graças a isso houve uma cena gloriosa na qual Miranda se fecha na casa de banho e modela um pénis com o sabonete; coloca-o na púbis e engrossa a voz para dizer: Não posso ignorá-lo duas vezes. Entra no duche e esfrega-se com esse sabonete até ele desaparecer; então começa a chorar sob o jacto de água, rendida, à espera que o marido chegue. Mas Lucio sabe que as mulheres têm dificuldade em ler sem fazer juízos morais, sem se solidarizarem com as suas congéneres. Pensa que Miranda devia ter deixado o marido, diz Lucio, mas não protesta por Babette ter batido àquela porta. Decisão e destino não são a mesma coisa, replica a mulher. Miranda tinha alternativas, Babette, porém, teria caído nas mãos da multidão. Lucio concorda. A Morte de Babette teria falhado como livro se, em vez de sinos e mais sinos, o final tivesse sido o daquela multidão a esfolar a indefesa menina. Não foi apenas Babette que desapareceu para sempre atrás de uma porta, diz Lucio. Aponta a que conduz ao inferno das baratas e explica à mulher a sua finalidade. Deixe-me atirar um livro, diz ela. Lucio saca uma navalha da gaveta e dirige-se para os caixotes, corta cordéis e rasga a fita adesiva. Ela retira um livro, observa a capa, lê as badanas e detém-se na fotografia do autor. Não o conheço, diz ela. Pega num segundo romance: O Filho do Cacique. Este é maravilhoso, leu-o? Lucia abana a cabeça. Também não conhece o terceiro. É há quarta oportunidade que diz: Este deve ir directamente para as trevas, Santa Maria do Circo, um melodrama sobre anões e mulheres barbudas. Há algum ritual ou limita-se a atirá-los pelo buraco? Limito-me a atirá-los. Ela vai até à porta e faz o gesto de atirar o livro; volta-se para Lucio e, ao vê-lo de braços cruzados, com indícios de impaciência, deixa-o cair. De acordo, diz ela, mas falta um letreiro nesta porta. Qualquer coisa que indique a sorte de quem passar por ela. Não sei, Lucio aproxima-se da saída quando ouve o ruído de um motor, o estrépito de um veículo de grande tamanho com a suspensão a ranger, o letreiro só o veria eu e a mim não me faz falta.»
[David Toscana, O Último Leitor; trad. Luísa Diogo e Carlos Torres, Oficina do Livro, Col. Ovelha Negra, Fevereiro 2008]

Às vezes, lá calha...

«Embora seja, como já afirmei conspicuamente, um escritor feliz, juro que não sou, nem fui, um escritor alegre; fui piedosamente contemplado com o habitual quinhão de pensamentos tristes.»

13 de maio de 2010

Breve interlúdio musical

Porque a Net fornece um novo dia...

«altura em que uma das irmãs apreciava o pavilhão da refractária Antígona, quiçá deliciada com as atoardas ateístas do tomás da fonseca. isto anda tudo ligado»

Mano Forte

Teses sobre a visita do papa
1
Ó ESTADO, mais uma vez podes limpar as mãos à parede do cu do papa, ficarás com as mãos mais brancas para os teus crimes. Ó partidos, da esquerda* e da direita, mais uma vez podeis beijar os pés ao papa, ficareis com a boca abençoada para mentir melhor. Exploradores, escolhei o crime, escolhei a mentira. Sois livres. Tu, poeta, range os dentes e indigna-te.
2
Que o Estado venere Deus na figura do papa, que os partidos venerem o Estado na figura do papa; que os exploradores venerem Deus, o Estado, o Partido – a trindade omnipotente. Enfim, o poder temporal subordinado ao poder sobrenatural. Nem Deus nem senhor? Maldita incurável doença infantil do comunismo. Explorado, escolhe o explorador.
3
O Estado que te submete é republicano e reverencia a Igreja, o Partido em que militas é marxista e felicita o papa, o Sindicato onde estás inscrito é revolucionário e saúda a reacção. A greve geral é uma arma que não deve ferir o papa. Nada contra o obscurantismo. Paz ao inimigo. Quem disse que a religião é o ópio do povo? Exploradores, que escolheis?
4
Sobretudo, nada de escândalo. Uma pedra branca sobre o crime, uma pedra negra sobre a crítica. Ecrasez l’infâme, dizia Voltaire. Uma pedra negra sobre Voltaire. O silêncio dos ateus é o ouro do Vaticano. Explorado, escolhe a pedra para a tua cabeça.
5
Conquistar a liberdade de expressão para não usar a liberdade de expressão. Não denunciar o opressor, não ousar atirar-lhe à cara a revolta, sequer na forma de um cravo. Ver, ouvir, receber o papa com o medo de 24 de Abril. Explorado, porque não vomitas?
6
Explorado, sê manso e obedece. Pode ser que entres no reino dos céus, de camelo ou às costas de um rico. Obedece. Pode ser que vás para a cama com a Pátria. Obedece. Pode ser que o teu cadáver ainda venha a ser o estandarte glorioso do Partido. Nunca percas a esperança, explorado, jamais.
7
Abaixo a união livre. Viva a coexistência pacífica. O casamento do capital e do trabalho vai ser o grande casamento do século. Não haverá oposição dos pais nem da polícia. Sobretudo, tudo menos a erotização do proletariado. Felicidades, explorado.
8
Ouvi falar da luta de classes e da revolução e do mundo que o proletariado tem a ganhar e nada a perder. Ouvi falar das armas da crítica e da crítica pelas armas. Ouvi falar em transformar o mundo e mudar a vida. Ouvi falar de que enquanto um homem, um só que seja, e ainda que seja o último, existir desfigurado, não haverá figura humana sobre a terra. Nunca tinha ouvido uma sereia assim. Ouviste, explorado?
9
O diálogo? Que diálogo pode haver entre o condenado à morte e o carrasco que o conduz ao patíbulo? O diálogo é entre amantes, entre amigos, entre camaradas. Fora disso não há diálogo. Tens a palavra, explorado.
Lisboa, 25 de Maio de 1982.
*Excepto a UDP, apenas no que se refere à visita do papa. Citações evidentes de: Lenine, K. Marx, Manifesto Comunista, Rimbaud e Cesariny.
Entregue a Baptista-Bastos com a devida antecedência, exactamente no dia 27 de Maio, que me garantiu a sua publicação em O Ponto, as Teses não foram afinal incluídas naquele semanário, de 3 de Junho, por não haver página de Opinião, e não serão publicados futuramente por entretanto terem perdido actualidade, segundo informação do mesmo jornalista.
[Comp. e imp. na Tip. Freitas Brito, Ldª – Rua do Ferragial, 12 – 1200 Lisboa. Tiraram-se 500 exemplares para distribuição gratuita.]

Às vezes, lá calha...

«O que importa não é a maior ou menor facilidade com que evitamos os problemas, mas sim o modo como lidamos com os problemas sempre que eles surgem.»

12 de maio de 2010

Breve interlúdio musical

Para folhear umas páginas da Bíblia

durante o vazio da onda

Porque a Net fornece um novo dia...

...encontrei-me aqui, sem cachecol, ao 1:47,
durante o curso do ano de 76 leccionado no pátio da Cervejaria da Trindade

À mão de ler (18)

«O homem não deve poder ver a sua própria cara. Isso é o que há de mais terrível. A natureza deu-lhe o dom de não a poder ver, assim como de não poder fitar os seus próprios olhos.
Só na água dos rios e dos lagos ele podia fitar seu rosto. E a postura, mesmo, que tinha de tomar, era simbólica. Tinha de se curvar, de se baixar para cometer a ignominia de se ver.
O criador do espelho envenenou a alma humana.

A ruína da influência aristocrática, criou uma atmosfera de brutalidade e de indiferença pelas artes, onde um mediador da forma não tem refúgio. Dói mais, cada vez mais, o contacto da alma com a vida. O esforço é cada vez mais doloroso, porque são cada vez mais odiosas as condições exteriores do esforço. A ruína dos ideais clássicos fez de todos os artistas possíveis, e portanto, maus artistas. Quando o critério da arte era a construção sólida, a observância cuidadosa das regras - poucos podiam tentar ser artistas, e grande parte desses são muito bons. Mas quando a arte passou a ser tida como criação, para passar a ser tida como expressão de sentimentos, cada qual podia ser artista porque todos têm sentimentos.»
[Bernardo Soares, Livro do Desassossego, Alma Azul, Coimbra / Alcains, 2007]

Nem sempre a lápis (24)

Desta vez, não resisti: fiz-lhe uma careta traquina através do vidro martelado com rede metálica, a ver a sombra dele a abrir a porta do prédio; principiava a sumir-se a que terá visto. Nem sempre estou disposto a partilhar o silêncio estreito do elevador, que a presença de outro tornaria embaraçoso; um ou dois andares que fosse. Apercebi-me da «independência urbanizada» quando vivi meia dúzia de anos no campo, aliciado pelo que supunha ser o isolamento onde me permitiria nadar. Erro crasso, verifiquei imediatamente a seguir, infectando-me – ainda que involuntariamente, mas contaminando-me – com a inevitabilidade de saber quem chegava e partia, e a que horas o fazia; era o segurança, o cão de guarda fiel aos hábitos da pouca vizinhança. Pouco, no pior sentido de curto, limitado; rasca e escassa foi a convivência. Resguardado na quietude de um sétimo andar – mas com vista arejada para a colina, confirmo –, retomei o saudável hábito de prestar atenção antes de sair, para não me cruzar com quem chega ou espera pelo elevador para partir. Não posso dizer que não gosto do campo; nele nasci e fui criado, conheço-lhe o veneno dos cheiros com que nos entorpece e o colorido com que nos hipnotiza. Não posso dizer que gostaria de viver em Lisboa, nela me gastei e perdi, conheço-lhe a manha tribal e a sofreguidão antropófaga. Optei, simplesmente, pelo território mediador do subúrbio, onde sobrevivo.

[Iustração: Danae Diaz]

Às vezes, lá calha...

«Nas ruas nada acontece.
Nada senão uma pantomima
encenada pelos indefesos e impotentes.»
[Foto: Nuno Ferreira Santos, Público]

11 de maio de 2010

Breve interlúdio musical

Porque a Net fornece um novo dia...

...e mil e um pesadelos; uma canseira...

«É bom trabalhar nas Obras» (9)

«E enquanto nos ríamos ela disse-me que desejava fazer-me uma pergunta e fomos para a divisão onde estava a jarra com flores. Ela recostou-se na mesa até fundir a madeira no corpo; e enquanto metia as mãos por entre o cabelo, perguntou-me:
- Diga-me a verdade: por que é que se suicidou a mulher da sua história?
- Oh, teria de lhe perguntar a ela.
- E o senhor, não o poderia fazer?
- Seria tão impossível como perguntar algo à imagem de um sonho.
Ela sorriu e baixou os olhos. Então pude olhar-lhe a boca toda, que era muito grande. O movimento dos lábios, esticando-se para os lados, parecia que nunca mais iria terminar; mas os meus olhos percorriam com gosto toda aquela distância de vermelho húmido. Talvez ela visse através das pálpebras; ou pensasse que naquele silêncio eu não estivesse a fazer nada de bom, porque baixou muito a cabeça e escondeu a cara. Agora mostrava a massa toda do cabelo; num remoinho das ondas via-se-lhe um pouco da pele, e eu recordei uma galinha a quem o vento tivesse revolvido as penas e se lhe visse a carne. Eu sentia prazer em imaginar que aquela cabeça era uma galinha humana, grande e quente; o seu calor seria muito delicado e o cabelo era uma maneira muito fina das penas.
Veio uma das tias – a que não tinha os olhos fumados – trazer-nos calicezinhos de licor. A sobrinha levantou a cabeça e a tia disse-lhe:
- É preciso ter cuidado com este; olha que tem olhos de raposo.
Voltei a pensar na galinha e respondi-lhe:
- Senhora! Não estamos num galinheiro!
Quando voltámos a ficar sós e enquanto eu provava o licor – era demasiado doce e dava-me náuseas –, ela perguntou-me:
- O senhor nunca teve curiosidade pelo porvir?
Tinha encolhido a boca como se a quisesse guardar dentro do calicezinho.
- Não, tenho mais curiosidade em saber o que se passa neste mesmo instante com outra pessoa; ou em saber o que eu agora faria se estivesse noutro sítio.
- Diga-me, o que faria o senhor agora se não estivesse aqui?
- Casualmente, sei: despejaria este licor na jarra das flores.
Pediram-me que tocasse piano. Ao voltar à sala, a viúva dos olhos fumados estava com a cabeça baixa e recebia no ouvido o que a irmã lhe dizia com insistência. O piano era pequeno, velho e desafinado. Eu não sabia o que tocar; mas assim que comecei a experimentá-lo, a viúva dos olhos fumados soltou o pranto e todos nos calámos. A irmã e a sobrinha levaram-na para dentro e, pouco depois, veio a sobrinha e disse-nos que a sua tia não queria ouvir música desde a morte do seu esposo – tinham-se amado até chegar à inocência –.
Os convidados começaram a ir-se embora. E os que ficámos falavam em voz cada vez mais baixa à medida que a luz se ia. Ninguém acendia as lâmpadas.
Ia eu entre os últimos, a tropeçar nos móveis, quando a sobrinha me deteve:
- Tenho de lhe pedir um favor.
Mas não me disse nada: encostou a cabeça na parede do saguão e pegou-me na manga do casaco.»
[Felisberto Hernández, Contos Reunidos, em tradução para a Colecção Ovelha Negra, Oficina do Livro]

Nem sempre a lápis (23)

Sugeri-lhes então, «Vamos fazer uma farra». Há palavras, e as palavras também são atitudes, que não podemos nem devemos deixar cair em desuso.
[Foto: Laurent Roch]

Às vezes, lá calha...

«O leitor olha ou não olha,
vai lê-lo ou não vai lê-lo,
é uma coisa que só lhe diz respeito.
Depois… acabou-se,
só resta ao autor desaparecer.»

10 de maio de 2010

Breve interlúdio musical (a cores)

Prosseguindo a saga das esplanadas...

Procura-se lebre fugida do arrozal.

Porque a Net fornece um novo dia...

[Pérola encontrada pelo machão cá de casa enquanto fazia a lida]

À mão de ler (17)

«A procissão avançou em silêncio; só se ouvia o chiar das rodas e as pisadas surdas dos animais. Mais adiante, quando o circo já se perdia atrás de uma lomba, escutaram-se as trombetas da Orquestra Festival, outra vez com a Marcha de Zacatecas. A Natanael pareceu-lhe que uma marcha era demasiado festiva para uma despedida e pensou num tango.
– Lentas, tristes, torpes, muito contrariadas, partem as carretas da caravana…
E Hércules rematou, desafinado:
– Nada mais triste do que a tristeza deixada pelo circo quando parte.
Barbarela fechou-se em si mesma; passava da raiva para a desolação como o vaivém de um pêndulo. Apertou os punhos, virou-os para cima e disse quase sem alento:
– Pensei que poderia ganhar-te, pelo menos uma vez.
Pôs-se a caminhar, muito lentamente, pela mesma rota por onde partiu o Grande Circo Irmãos Mantecón.
– Pelo menos ficou a conhecer a história toda dos meus antepassados.
Hércules e Natanael observaram-na com um pouco de pena, sabendo bem que o circo lhe levava demasiada vantagem, mas não procuraram alcançá-la nem dissuadi-la. Bastou-lhes cruzar os braços.
– A puta e o cura – disse Hércules –, bonita aldeia.
Sem fazer ideia do que fazer ou que dizer, Natanael deu-lhe um abraço, e deu-se imediatamente conta de que a diferença de estaturas dava algo perverso àquela manifestação de irmandade. Hércules apontou para o relógio da igreja; viu o ponteiro órfão, o mostrador manchado de ferrugem.
– É a mesma hora de quando chegámos – disse –. A mesma hora de sempre.
Deixou cair a sua sanita e ouviu-a quebrar-se. Já não se importou.
Natanael sentiu compaixão por aquela imensa massa de carnes, tão poderosa e tão desamparada. Pegou na mão do homem forte, da puta, da morsa.
– Vem comigo.
Hércules deixou-se conduzir, indiferente. Avançaram para a igreja, sem sino, sem cruzes, sem fé, sem esperança, sem nada; e subiram as escadas do átrio. Antes de entrar, deram meia volta. Santa Maria do Circo brilhava como um cenário de uma guerra perdida. Timoteo de Roncesvalles ou José María Bocanegra era o símbolo da devastação, meio submerso numa água suja e babadas de animais e sangrenta de marrano; a casa queimada do um, dois, três, então destruída e agora destruída; o mosquedo a rondar a casa de Mágala, apoderando-se do lugar; uma cova inútil de churrasco, uma língua atirada para qualquer lado, uma grelha com cinzas que já não cozinharam nada; a sanita de porcelana, quebrada, inútil, tombada de lado, como podre fruto proibido mordido. Pela rua avançava um fio de pó, empurrado pelo vento, e pouco a pouco ia cobrindo as marcas do circo, da vida que se foi por esse caminho rumo sabe-se lá aonde com a solenidade de um cortejo fúnebre. O anão apertou a mão porque sentiu que Hércules lha soltava, e puxou-o para o acesso da igreja, um focinho negro a regurgitar a desolação dos bancos vazios, do confessionário sem pecados e de um altar como mesa de sacrifícios.
– Onde me levas? – perguntou Hércules, receoso do momento e ainda mais do futuro.
Mas, finalmente, deixou-se levar por aquela mão pequena de mulher gorda que o conduzia para dentro.
– Anda, putita – ordenou o anão enquanto fechava o portão, enquanto fechava aquele focinho faminto para os engolir para sempre na sua escuridão de sepulcro –. Anda, putita – repetiu –, vamos para o diabo.»
[David Toscana, Santa Maria do Circo, Colecção Ovelha Negra / Oficina do Livro, Abril 2010;
gravura: A prostituta e o gigante sentados sobre o monstro de dez chifres e sete cabeças (que antes era o carro), que representa a Igreja. (Canto XXXII). Ilustração de Gustave Doré (século XIX).]

Às vezes, lá calha...

«A poesia não é uma questão.
É tão-só o uso que
por alguns
é feito das palavras.»

9 de maio de 2010

Fiufiu...

[...obrigado, manuel, viatura de cólidade, só podia!]

8 de maio de 2010

O blogue segue dentro de Kms...

... se me aguentar na pen

[Deslocação em viatura gentilmente cedida pelo stand do arco da velha]

7 de maio de 2010

Breve interlúdio musical

«É bom trabalhar nas Obras» (8)

«Uma das vezes em que me distraí, vi através das persianas pombas a mexerem-se em cima de uma estátua. Depois vi no fundo da sala, uma mulher jovem que tinha apoiado a cabeça contra a parede; a sua cabeleira ondulada estava muito espalhada e eu passava os olhos por ela como se visse uma planta que tivesse crescido contra a parede de uma casa abandonada. A mim dava-me preguiça ter de compreender de novo o conto e transmitir o seu significado; mas as palavras sozinhas e o costume de dizê-las produziam efeito sem que eu interviesse e surpreendia-me o riso dos ouvintes. Eu tinha voltado a passar os olhos pela cabeça que estava encostada à parede e pensei que talvez a mulher se tivesse dado conta; então, para não ser indiscreto, olhei para a estátua. Se bem que continuasse a ler, pensava na inocência com que a estátua tinha de representar um personagem que ela mesma não compreenderia. Talvez ela se entendesse melhor com as pombas: parecia consentir que elas dessem voltas sobre a sua cabeça e se pousassem no cilindro que o personagem tinha encostado ao corpo. De repente deparei-me que tinha voltado a olhar para a cabeça que estava encostada contra a parede e que nesse instante ela tinha fechado os olhos. Depois fiz o esforço de recordar o entusiasmo que senti as primeiras vezes que li aquele conto; nele havia uma mulher que ia todos os dias a uma ponte com a esperança de poder suicidar-se. Mas todos os dias surgiam obstáculos. Os meus ouvintes riram-se, quando uma dessas noites alguém lhe fez uma proposta e a mulher, assustada, fugiu a correr para casa. A mulher da parede também se ria e voltava a cabeça na parede como se estivesse recostada numa almofada. Eu ia-me habituando a tirar a vista daquela cabeça e a pô-la na estátua. Quis pensar no personagem que a estátua representava; mas não me ocorria nada sério; talvez a alma do personagem também tivesse perdido a seriedade que teve em vida e agora andaria a brincar com as pombas. Surpreendi-me quando algumas das minhas palavras voltaram a causar graça; olhei para as viúvas e vi que alguém se tinha assomado aos olhos da que parecia mais triste. Numa das oportunidades em que tirei a vista da cabeça encostada à parede, não olhei para a estátua mas para outra divisão onde julguei ver chamas em cima de uma mesa; algumas pessoas seguiram o meu movimento; mas em cima da mesa só havia uma jarra de flores vermelhas e amarelas sobre as quais dava um pouco de sol»
[Felisberto Hernández, Contos Reunidos; em tradução para a Colecção Ovelha Negra / Oficina do Livro;
ilustração caída redonda que nem um e-mail eviado por Rui M. S. Lourenço]

Porque a Net fornece um novo dia

«Unhas

A Dulce da contabilidade almoça sempre com o marido no refeitório. Leva-lhe o tabuleiro, tempera-lhe a salada, arranja-lhe o peixe. Ele fala de futebol e de automóveis e só tira as mãos dos bolsos quando tem a paparoca prontinha à sua frente. Chama-se Adão e é chefe do economato. Pela postura, inchada e insuportável, percebe-se que se tem em grande consideração. Julga-se merecedor de certos privilégios e de tantas mesuras. Gerir resmas de papel e contar tinteiros para as impressoras, mais do que o reconhecimento das chefias, confere-lhe estatuto conjugal. Ele é o chefe do economato e do lar. Há que preservar a superioridade do macho e a resignação da fêmea. Estou mesmo a ver a Dulce, ao serão, em frente do televisor, enfiada num roupão fresco de terilene, a cortar-lhe as unhas dos pés. Ele, de cavas, esparramado no sofá de napa, aos gritos cada vez que a pobre lhe corta um espigão. Há mulheres que mereciam ser açoitadas até à morte.

posted by Ana Cássia Rebelo at 3:32 PM»

«É bom trabalhar nas Obras» (7)

«Sou o professor da aldeia. Vivo perto do moinho. Às vezes, o vento cobre-me a cara de farinha. Tenho pernas compridas e as noites de insónia lavraram olheiras sob as minhas pestanas. Componho a minha vida com rústicos materiais da aldeia: o som agónico do comboio local, as maçãs do Inverno, a humidade sobre a casca dos limões tocados pela geada da madrugada, a paciente aranha na sombra do meu quarto, a brisa que move os tecidos das cortinas. A minha mãe lava enormes lençóis durante o dia e à noite ouvimos folhetins radiofónicos a beber chá de erva-cidreira, até que a onda se perde entre dezenas de emissoras argentinas que ocupam a radiação nocturna.»
[Antonio Skármeta, Un padre lejano (Versão final Outubro 2009); em tradução para a Teorema]

Nem sempre a lápis (22)

Às vezes, lá calha...

«Uma sirene aproxima-se, passa, a desvanecer,
torna-se um insecto, morre.
Está demasiado frio para os grilos, mas não para os cães.»

6 de maio de 2010

Breve interlúdio musical

Porque a Net fornece um novo dia...

«Todos os misantropos, por mais sinceros que sejam, nos lembram por momentos aquele velho poeta acamado e completamente esquecido que, furioso com os seus contemporâneos, decretara que não queria receber nenhum deles. A mulher dele, por caridade, ia de quando em quando tocar à campainha.»

À mão de ler (16)

«Um touro preto à sombra de uma oliveira. Pradarias de melões rastejantes. Pouca vinha. Laranjais a perder de vista. Montículos de olivais. Um andar à deriva. Cabras sequiosas. Pouca água. Planícies de girassóis secos. Uma velha de luto a cavar a terra ao sol. Ciganos andarilhos. Andaluzia.»
[Julio Ramón Ribeyro, Prosas apátridas, Seix Barral, Barcelona 2007]

Nem sempre a lápis (21)

A Cicatriz e Os Blues – é esta a sequência; O Livro do Fim é um álbum estilhaçado, lá iremos – mereceram duas leituras que me deixaram de boca aberta; no que a expressão encerra de mais sincera abertura. Já o ano passado me tinha surpreendido uma outra leitura – de viva voz – quando vi Longe do Mundo na mão da Catarina, no coreto da Estrela. Mais documentada, a leitura de Henrique Fialho recorre à presença de títulos anteriores para sublinhar a cicatriz; sedimentação de tatuagens. Quanto à leitura dos Blues, caiu-me esta tarde de surpresa no e-mail do blogue, remetida por Hugo Santos. A princípio, pensei que era um comentário do gerente do Café dos Loucos, Hugo também; mas como não vi as ferramentas habituais abri, à minha maneira corrida, o documento anexo. Depois fui ver os endereços, surpreendendo-me que não tivesse utilizado o Outlook, por onde lhe respondi mais qualquer coisa depois de o ter feito, no imediato, no Hotmail; enfim, uma confusão pegada. A leitura deste Hugo – «Envio-lhe um texto que escrevi sobre Blues. A ideia seria publicá-lo em papel. Se isso acontecer, o texto sairá, necessariamente (imposições de espaço, claro), em versão mais curta ainda. Se não chegar a sair (se alguém se tiver adiantado), 'publicá-lo-ei' apenas on-line.» –, este ledor sabe swingar entre risos e lágrimas; entre escrita e leitura; entre estrada e refúgios; obrigado pela visibilidade do correio electrónico. Maio aproxima-se. Em dois anos, expandi a celebração do mês da Clarividência em todas as direcções; do Monte Alto para Mortágua; de Carnaxide para Porto Covo; de Carnaxide para Armação, novamente o All-Gharb e Carnaxide. Hoje, quando ilustrei um Nem sempre a lápis com uma foto tirada por umas miúdas andaluzas – que me pediram que as documentasse em pose de Semana da Páscoa, na Fortaleza –, só quando vi a foto guardada no rascunho me ocorreu esta grata coincidência: que a ermida seja a mesma d’O Livro do Fim, onde manifesto o desejo de ser velado; que a expressão me recorde o instantâneo da campa do meu irmão, a olharmos ambos para o mesmo lado.
Os predadores da noite uivam aos cães, incitam-nos na dúvida da noite; são os lobos do álcool e das drogas maradas descidos à estepe dos subúrbios adormecidos. Encontro-me em bom companhia nos Correios (Charles Bukowski).

Às vezes, lá calha...

«Si tu est mon ennemie, je te tuerai pour de l'argent,
mais su tu est mon ami je te tuerai por rien.»
(Provérbio do Petit Socco, Tânger)
[Ilustração: Tavic Frantisec Simon, Arab stall in Tangier]

5 de maio de 2010

Breve interlúdio musical

Porque a Net fornece um novo dia...

[Foto: Henri Cartier-Bresson, Europeans leave Shangai (China, 1949)]

À mão de ler (15)

«As únicas pessoas civilizadas da praia de Albufeira são estes campónios que às vezes descem das suas cortes de figueiras e amendoeiras, vestidos de preto sob um sol torrencial, com a sua estranha maneira de usar o chapéu, muito caído sobre os olhos e levantado na nuca, e que ficam a contemplar silenciosos, um tanto espantados, mas com dignidade e indulgência e sabedoria, os turistas que, disfarçados de rãs, em carne viva na esplanada, enfiados dentro de sacos de toalhas, lubrificados como armas de fogo, desceram de veículos rodoviários vindos do norte e agora pulam de contentes na areia, a ler Die Welt, The Times, Le Monde e introduzindo, sem o saberem, nesse espaço belíssimo, os primeiros sinais da barbárie.»
[Julio Ramón Ribeyro, Prosas apátridas, Seix Barral, Barcelona 2007]

Nem sempre a lápis (20)

Talvez por ter ido ao Sul e ter feito praia, quando aproveito o ir descafezar para uma pausa no trabalho, a instabilidade do tempo passou a remeter-me para os tranquilos meses que convalesci em Mortágua; sem piedade. Por muito que pretendesse, ao fim do dia não existe comparação possível entre a esplanada que frequento e a fila de mesas ao longo do passeio estreito servidas pelo «café ao lado da Câmara», questão de escala; entre o silêncio dos repuxos e a barulheira causada pelos skaters, pela mesa a transbordar de portáteis, telemóveis e outros electrodomésticos que me excedem, mas alguma utilidade terão a avaliar pela euforia e destreza da miudagem. Como se olhasse em frente, também não é comparável a atitude apeada dos pais junto do que suponho ser um equipamento para «os tempos livres» – perversa designação para os ocupar –, com a atitude acelerada dos que via ir buscar os filhos ao Jardim-escola João de Deus; entre o cheiro mecânico da relva aparada e a intensidade da forragem segada. No entanto, persiste nesta mesma sensação de quietude, de tempo suspenso gravado pelos pássaros nas árvores próximas; nesta mesma «luz verde» (John Berger), onde repouso o olhar para me arrumar; nesta liberdade de me confundir com o mobiliário suburbano.

Traduzir – ler, não – Felisberto Hernández é muito pesado. Não há cá betoneiras nem cofragens; são baldes e baldes de cimento carregados à mão, dado à talocha. Assim se compreende que os edifícios esquecidos no tumulto dos arranha-céus, perdurem intemporais no seu tempo.

Às vezes, lá calha...

«Poucas linhas de vida bastam
para significar a essência da vida,
o medo ou a ameaça.»
[Ilustração: Jan Peter Tripp]

4 de maio de 2010

Breve interlúdio musical

Porque a Net fornece um novo dia...

«Eu vou-me chegando;
são horas de dar comida às minhas aranhas.»

Meditação na demografia...

À mão de ler (14)

«Tenho cada vez mais a impressão de que o mundo se vai progressivamente despovoando, apesar do bulício dos carros e da roda-viva da multidão. É tão difícil agora encontrar uma pessoa! Na rua só nos cruzamos com silhuetas, com figuras, com símbolos. Um taxista, por exemplo, não é um indivíduo, mas um modelo social: resmungão, azedo, insolente, antes de entrarmos no seu carro já sabemos do que vai falar, que estratagemas irá inventar para tornar a corrida mais sinuosa e rentável. Uma vendedora de shopping é igual à vendedora de todos os shoppings: indiferente, desdenhosa, mal-educada, com ares de grande senhora caída ali por acidente. E a adolescente de blue-jeans que nos aborda na rua não é o anjo pessoal com que sonhávamos desde a nossa infância, mas a cópia tirada de milhares de exemplares da crava que tanto aqui, como em Londres, São Francisco ou Hamburgo, detém o transeunte para lhe pedir a moeda destinada ao arquétipo barbudo que a espera ao voltar da esquina a enrolar um charro. Compreendo as causas desta degradação da personalidade nas urbes demenciais, apenas verifico agora os seus efeitos. Mas é doloroso que tenhamos de viver entre fantasmas, procurar inutilmente um sorriso, um convite, uma proximidade, um gesto de generosidade ou de desinteresse, que nos vejamos forçados, definitivamente, a caminhar, cercados pela multidão, no deserto.»
[Julio Ramón Ribeyro, Prosas apátridas, Seix Barral, Barcelona 2007]

Nem sempre a lápis (19)

Temperada a euforia da confeição do blogue, onde reconheço analogias entre a aplicação filatelista da infância e a síndrome adulta do fecho de página, alguns visitantes – além dos assinantes da publicação, os seguidores – perguntam porque não exponho os meus títulos online. Durante os ensaios considerei um catálogo encabeçado pelos recentes, seguidos pelos anteriores; mas não contemplo o comércio dos livros, só enquanto sinónimo de convivência. Animado pela diversidade da cinzelagem informática, concedia aos dois últimos a miniatura da capa; aos anteriores, a visibilidade do título que as mostrasse. Depois debati-me com os termos da validade e acabei por me esquecer, com a naturalidade com que raramente me ocorre folhear as laterais dos blogues, as breves; a mancha gráfica lê-se de frente e à altura dos olhos, tudo o resto é arrastar de móveis, decoração de interiores. Cheguei a casa tão ansioso por brincar com o álbum em branco que assim o deixei, com os cromos espalhados no ambiente de trabalho. Preocupado com o espaço que o arquivo ocupará não sei onde, pelo sim, pelo não, acedi à convidativa opção «eliminar», habilidade que fez rir boa gente e mereceu este curioso comentário: «Achei estranho, mas pensei tratar-se de uma modalidade qualquer de apagamento do passado…» Mal a assinante sabia o que anotei há cerca de um ano, quando ponderava a edição a laser impressa nas casas da especialidade: «assaltou-me esta deliciosa dúvida: a sobrevivência da impressão, quanto tempo precisará para se transformar num livro em branco.» Quanto aos meus livros – cinismo e modéstia à parte –, a minha função é escrevê-los para que os editem ou eu os edite. Presentemente, as poupanças resumem-se a dois títulos facilmente resgatáveis; não esgotada a possibilidade de me contradizer, nem sempre a lápis. A minha relação com a via postal consumiu-se até ao esporádico correio azul depositado no marco; ninguém imagina a canseira cada vez que tenho de ir ao Correio.

Bem gostaria que a estação que frequento fosse congénere da que Vila-Matas encontrou em Paris e descreveu no Diário Volúvel, com a voz de Billie Holliday em fundo. O problema, nem reside no «problema» se estivesse em Paris, mas porque a música de fundo que ecoa pelo país não ser coisa que se recomende; que mereça a «futilidade» de ser anotada.

Às vezes, lá calha...

«Se há contradições entre dois livros de história
ou dois livros sagrados, quem decide qual deles
é considerado ficção?»

3 de maio de 2010

Breve interlúdio musical

Porque a Net fornece um novo dia...

«O que é certo é que Vasco Pulido Valente tem a mania (ou será ousadia?) de falar da fome, quando, no fundo, tem a barriga cheia. E isso, como sabemos, é muito fácil.»
[facilmente encontrado aqui e aqui]

À mão de ler (13)

«Regresso das minhas leituras sobre o jansenismo para folhear a imprensa do dia e interrogo-me que relação pode existir entre essas querelas teológicas que duraram séculos, imbricando-se cada vez mais com problemas políticos e económicos e o que se passa no mundo actual: Portugal, Angola, Líbano, Argentina, etc. E digo para comigo que existe um laço secreto entre as lutas antigas e as actuais, que não são mais do que a continuação das pretéritas, sob diferentes nomes, ideais e pretextos. À priori, poderá dizer-se que os problemas da graça, do livre arbítrio, da predestinação, não têm actualmente qualquer vigência. Mas tê-la-ão, dentro de alguns séculos, conceitos como livre-empresa, luta de classes, sistema parlamentar, meios de produção, eleições democráticas? É provável que sim, mas dentro de um contexto tão diferente que será preciso ser-se adivinho para nos apercebermos de que o combate continua a ser o mesmo.»
(Julio Ramón Ribeyro, Prosas apátridas, Seix Barral, Barcelona 2007)

Nem sempre a lápis (18)

São cinco da manhã; estou, seguramente, há umas quatro a fumar e a passear pelas salas dos espelhos da minha cabeça. Dispensei o portátil e deitei-me sem pegar num livro; não toquei nas provas d’Os Segredos da Rainha, Leonor de Portugal, contados em catalão pelo escritor galego X. R. Trigo; desorientei-me um pouco com a fobia sexual comungada por todas as religiões, a lembrar-me dos livros que traduzi sobre cátaros, budistas, católicos e outros capados; desisti. Levantei-me para ir buscar os óculos e ligar o portátil, quando me apercebi das horas ou as horas determinaram que estive numa das noites em que regresso a ouvir os bêbados na praceta, o comportamento dos carros que passam, o silêncio. Perseverou, até agora, o infatigável fascínio por «o que se passa quando não se passa nada.» (Georges Perec)

Às vezes, lá calha...

«O sangue é sempre sangue e deixa sempre
a sua marca onde quer que se entorne.
Não se apaga. Não é uma palavra.»

2 de maio de 2010

Breve interlúdio musical

À mão de ler (12)

«Lutei em favor de outros escritores – em favor da própria Arte – durante mais de dez anos, contra as intenções destrutivas dos puritanos e filisteus da chamada classe educada do nosso estado. Envolvido no endurecido veludo dos seus preconceitos, fui praticamente sufocado, apesar de ter lutado contra eles, mesmo em aperto. Fui injuriado, ridicularizado, diminuído e, sim, apresentado em sátiras mal desenhadas por oportunistas, lambe-botas e fêmeas de babuínos. Cavei uma trincheira – chamava-se Sabão – e de lá disparei sobre as falanges armadas dos Cidadãos Pela Promoção da Lisonja, as brigadas sinistras da Liga do Fomento das Artes, as hordas de saia das Cliques Para a Masturbação e Regurgitação Mútua de Poetas e Pintores. E durante todo este tempo, para manter o corpo e a alma intactos enquanto fazia este trabalho, pelo qual nunca recebi um chavo, fui obrigado a ir de porta em porta no esforço de cobrar as rendas absurdamente baixas de inquilinos ingratos e fingidores de desgraças, que não têm qualquer respeito pela propriedade dos outros, que não vêem mal nenhum em atenderem à porta nas suas roupas interiores degradas, e que, quando mostro algum sinal de fraqueza, me atacam com dispositivos incendiários e grandes pedaços de cimento. Para onde quer que me vire, os olhos da polícia não me largam, ao mesmo tempo que os escritores mentalmente perturbados são autorizados a esconderem-se nos arbustos atrás da minha casa. Caí ao chão e ninguém me levantou. Fiquei com o meu dedo do gatilho atrofiado para sempre por causa de um médico negro. E estou rodeado de caixas. E agora, finalmente, estou farto. Aprendi a escrever em espanhol: B-A-S-T-A! Vou deixar o campo de batalha aos meus inimigos, sem vergonha, fértil que está com o meu sangue. Digo: deixai-os gargalhar. Deixai-os relinchar de satisfação. Tenho os meus livros para escrever. Vou pensar na minha própria felicidade...»
[Sam Savage, O Grito da Preguiça; trad. Fernando Vilas-Boas, Planeta, Fevereiro 2010]

Nem sempre a lápis (17)

Não revi os contos de Hernández, como me propunha fazer esta segunda semana que acaba amanhã; também não voltei à praia, no regresso da oficina depois do pequeno-almoço. Fui apanhar sol para a esplanada da lota, ponderar a possibilidade de passar um fim-de-semana de praia à espera de segunda-feira, para regressar a casa; acampado nesta, outra noite. Rentabilizei o dia a rever-me o ano passado no portátil, desactualizando as páginas impressas que não trouxe – deliberadamente –, contrariando a convicção de que a distância me seria útil, depois. Estava aqui, a distância, a necessária para emagrecer oito A4 impressas de frente, como as enfrentei sem rodeios. Antes de me entregar à Nacional até à Mimosa, ainda preciso de documentar alguns aspectos: o sapal, o olho fenício na proa de um barco, um saco de viagem. Depois desligo a luz e a água; desço mais descansado os dois lanços de escada que me separam do futuro, do fundo do Sul.

Às vezes, lá calha...

«Suportam muito melhor os gemidos de uma cabana
cheia de filhos esfomeados, mesmo que dure muitas horas,
a um instante que seja do grito da preguiça.»

1 de maio de 2010

Breve interlúdio musical

Porque a Net fornece um novo dia

«En mi vida valoro mucho la riqueza
de las relaciones físicas.
Pero en mis poemas,
y por ese centro que lo devora todo,
lo corporal siempre ha aparecido
lastrado por la destrucción.»
[Foto: Jesús Ciscar, El País]

«É bom trabalhar nas obras» (6)

«O problema de Helga Pato com as pessoas consistia em confundir os narradores com os autores e, por vezes, estes com os personagens. No seu caso não se pode dizer que se tratasse de uma leitora inocente ou desprevenida, bem pelo contrário; quando conheceu W na Feira do Livro de Frankfurt já era uma estudante veterana de doutoramento, prestes a terminar uma polémica refutação da autoria colectiva na épica medieval. Era suposto, que uma leitora tão curtida como ela devesse estabelecer mecanicamente e sem dificuldade uma diferença básica. E, no entanto, não foi capaz; colou-se. Quando se deu o caso de Frankfurt, W já era um célebre escritor muito lido pela esquerda. Helga Pato admirava-o e aproximou-se do seu stand para lhe pedir um autógrafo. Ele apercebeu-se imediatamente de umas virilhas poderosas, e em vez da dedicatória escreveu uma direcção. Ela acreditou que nesse momento começava um romance de amor sobre uma rapariga que decidia anular uma bolsa de pós-graduação e abandonar a refutação da autoria colectiva da épica medieval para ir viver com o seu autor favorito no último andar de um arranha-céus no centro de Madrid. Ela tinha vinte e nove anos e ele cinquenta e dois. Ela acreditou que se casava com o seu autor favorito, mas na realidade tinha-se apaixonado pelo narrador, e casou-se com um personagem. Durante o primeiro ano correu tudo sobre rodas. W não escreveu uma linha e Helga não leu uma palavra. Comiam, fodiam, umas vezes bebiam água e outras vezes bebiam whisky. Fizeram planos no alto da torre, e foi ele quem a certa altura lhe propôs que se convertesse em sua agente literária, que o representasse. A ela pareceu-lhe uma ideia excelente, e foi assim que fundou Imagem e Representação, a que seria a sua agência. Depois começaram a chegar manuscritos que ela lia com profissionalismo, de uma ponta à outra, consumindo horas de sono a escolher entre os melhores, que quase nunca eram os mais rentáveis, mas que o editor do seu marido publicava resignadamente com medo de perder os direitos de W. Helga viveu aquele primeiro ano nas nuvens, no alto do arranha-céus; era feliz, de acordo com a definição de felicidade dada por quase todos os manuais de auto-ajuda e os livros de poesia. E como não há felicidade que dure a vida inteira, a deles começou a dar para o torto no ano seguinte.»
[Antonio Orejudo Utrilla, Vantagens em Viajar de Comboio; em tradução para Edições 70]

Nem sempre a lápis (16)

Hoje fez um dia do Sul, ainda tenho areia nos mocassins e faço tenção de só lavar os pés quando me deitar; vi-me ao espelho sem querer, enquanto lavava as mãos e sinto-me com um ar menos doente. Descafezei junto à lota e lembrei-me da água; encarei a baía com o polar a servir de alforge para o tabaco, o bloco e a garrafa (pequena, distraí-me ao Sol); despi os chinos para atravessar o rio e voltei a vesti-los para caminhar pelas dunas e regressar pela praia. Têm os bolsos cheios de areia; abasteci-me de pedras para regressar a casa. Apanhei uma daquelas que dão sempre jeito para segurar paus de incenso, por exemplo; guardei a inutilidade de outras, onde encontrei um veleiro da contemplação fixada n’A Cicatriz e sentei-me a vê-los, ao longe, na ponta do Carvoeiro. Caminhei descalço; com o calçado na mão e um bloco calado. Falta-me aqui, na gaveta pendurada na parede ao lado da cabeceira da cama, o candeeiro verde british que vai regressar a casa; é o melhor ponto de partida para retomarmos a leitura, ocorreu-me enquanto uma parede me pedia que a assinasse.

Às vezes, lá calha...

«O que escreves ou escreveste não significa mais
do que o que te queres fazer acreditar.
Como um vício natural,
a escrita extravasa sempre um pouco
(e de qualquer modo o suficiente)
em relação àquilo que se espera de ti.»