Em contrapartida, eu ficava menor para toda a vida.»
23 de junho de 2010
22 de junho de 2010
Nem sempre a lápis (45)
Alimento as mais promissoras expectativas de amanhã dormir em Bolonia, bem jantado com «pescaítos» no Miramar, sentado cá fora a ver o presépio de Tânger e a ser devorado pelos mosquitos. É possível que sejam espécie protegida, que pertençam ao património da Baelo Claudia, como os gatos e as pedras do «morisco» onde funciona o Dogville; foram lá e confiscaram uma parede inteira. Durante uma semana devo ter palmilhado dezenas de quilómetros do triângulo compreendido entre os Correios, a Igreja e a Lota; o miolo das ruelas, não sou apreciador de fronteiras nem de contornos. Fiz a foto da janela do quarto que tinha a fazer. As mochilas aguardam inchadas em cima do sofá, emagreci a instamatic e mudei-lhe as pilhas, a carrinha está pronta e atestada para retomar a viajem. Trouxe o livro mais indicado para o fazer, o ter vindo a fazer, Disse-me Um Adivinho; e como tem batido certo.
21 de junho de 2010
Nem sempre a lápis (44)
Esqueci ou desgostei, perdi o hábito da praia. Passo o dia de t-shirt e calções e sandálias, por casa. Quando seria de esperar, e terei prometido, regressar com uma cor de fazer tanta inveja como a mim, fiz uma ou duas horas de praia ao fim da tarde, até hoje. Tempo não me falta, a pairar nesta espécie de limbo antevisto, deitado a ler e a divagar até o Manel Careca acabar por abrir e ir tomar o pequeno-almoço para me deitar, de dormir. Acordo e vou beber uma bica a um preço popular, folheio o Correio da Manhã do estabelecimento, confirmando que, para mim, continua a ser o nosso mais fiel retrato em formato tablóide; em saldo e de rastos, a puxar por cornetas para um Força Portugal exangue. Só muito ao fim do dia, quando o calor permite que me vista para sair à noite, enfiar os bolsos da camisa trocada em Porto Covo, deixo que a primeira rua que leve ao mar me conduza à esplanada da lota, decidido a descansar até jantar um hambúrguer e um galão, aviar os pardais. Depois divago pelas ruelas tão estreitas ao «com licença» até me implantar no arraial de calorias veraneantes da geladaria da Fortaleza; justifico-lhe o nome de Pai Pinguim sentado com um café e um longo copo de água na mesa que confina com o parque de diversões, eléctrico e sonoro, onde uma criança e um jovem casal e um casal jovem com sogros, se entretêm a divertir-me. Esta tarde, enquanto esperava um sinal dos óculos e da carrinha, continuei a ler Terzani, apanhado do lado certo da cama; o dos livros com quem durmo. Fiz bem em não ter desligado o portátil; hoje não reescrevi nada na agenda do ano passado, de que aqui se dá nota.
Às vezes, lá calha...
«A depressão transforma-se num direito, quando olhamos à nossa volta e não vemos nada nem ninguém que nos inspire, quando o mundo parece resvalar para um pântano de inépcia e tacanhez materialista.»
20 de junho de 2010
Nem sempre a lápis (43)
Quanto mais progrido na primeira revisão de Contos Reunidos – para fazer contas e subsidiar a ida até Asilah, outra haverá depois de desbastada pelo revisor –, apercebo-me que Borges e Bioy são a face visível de autores que permanecem na sombra; não obrigatoriamente projectada por eles. Atente-se em Silvina, Wilcock, Ribeyro, Hernández; e então sim, é magnífico. O fascínio pulveriza-se num caleidoscópio recebido pelas boas-vindas de Elvio Gandolfo, organizador e autor do prefácio deste universo: «Não há sorte mais invejável do que a de um bom leitor que ainda não conhece Felisberto Hernández.»
Colhido pela surpresa da oferta do moleskine, com o prático formato de agenda e do ano passado, abri-o deitando fora o curriculum do objecto a transferir para a bolsa o dinheiro acabado de levantar e o respectivo cartão, os bilhetes pré-comprados do autocarro suburbano e o recarregável do metro. Ou seja, passei a escrever numa carteira que também cabe no bolso dos calções de praia – e esteve uma bela tarde bem documentada – e aguenta-se se vier uma vaga ao atravessar o rio, molda-se ao rabo se me esparramar numa esplanada. Escrevi – escrevo mais do que digo – cobras e lagartos sobre os moleskines, a Nico ofereceu-me um há mais de cinco anos, venha ele; creio que ultimamente talvez andasse a escrever demais em blocos de trazer ao peito, em lenços de bolso de camisa.
Colhido pela surpresa da oferta do moleskine, com o prático formato de agenda e do ano passado, abri-o deitando fora o curriculum do objecto a transferir para a bolsa o dinheiro acabado de levantar e o respectivo cartão, os bilhetes pré-comprados do autocarro suburbano e o recarregável do metro. Ou seja, passei a escrever numa carteira que também cabe no bolso dos calções de praia – e esteve uma bela tarde bem documentada – e aguenta-se se vier uma vaga ao atravessar o rio, molda-se ao rabo se me esparramar numa esplanada. Escrevi – escrevo mais do que digo – cobras e lagartos sobre os moleskines, a Nico ofereceu-me um há mais de cinco anos, venha ele; creio que ultimamente talvez andasse a escrever demais em blocos de trazer ao peito, em lenços de bolso de camisa. Às vezes, lá calha...
Às vezes, deitado de olhos semicerrados vejo com nitidez a penumbra do quarto de Asilah, fatiada pelo postigo e pela porta para o terraço, aberta de par em par.
19 de junho de 2010
«É bom trabalhar nas Obras» (15)
«Agora penso que naquela época eu viajava sem recordações: ou melhor, fazia-as; e para fazê-las intervinha nas coisas; mas a minha acção era escassa comparada com a dos meus companheiros; atendia a vida como quem come distraído. Eu era o último a compreender; e frequentemente fingia ter compreendido. Na viagem de comboio que fizemos desde Buenos Aires até Mendoza fiz muito poucas recordações: havia alguns bem mais físicos, como o desassossego com que procurava posições diferentes nos assentos de segunda, feitos de ripas envernizadas que chegavam até a meio das costas; e à noite não sabia onde deixar cair a cabeça, que se bamboleava como um candeeiro quase apagado. As recordações feitas à luz do dia não me deixavam angústia: embora estivesse cansado, as coisas ocorriam como se me entretivesse a fazer solitários ou a olhar gravuras. Recordo a forma dos pães – mais parecidos com tortas –, que algumas mulheres vendiam nas estações; quando começavam a conversar, a voz fazia um pequeno canto que subia e descia graciosas montanhas. Aquela região da Pampa era plana. Passámos por outra onde se levantava um pó tão fino que, apesar de ter fechado as janelas, ficávamos com as sobrancelhas e o cabelo branco. E a última recordação que guardo dessa etapa está cheia de vinhedos que chegavam até ao horizonte.»
[Felisberto Hernández, Contos Reunidos; em tradução para a Colecção Ovelha Negra / Oficina do Livro]
Nem sempre a lápis (42)
O fim do modelo da Trama não me surpreendeu; pressenti-o um sábado à tarde depois de umas breves férias de Agosto, vazia. A Trama foi uma moda para quem a enchia pelas costuras, uma carta de recomendação para outros, uma dádiva curricular para alguns; sem dúvida. Pouco a pouco, começaram a ficar os que mesmo com a compra diária de um livro, dificilmente o poderiam fazer por muito mais tempo. Também eu reconheço que comecei a postergar o pretexto de «descafezar» aos sábados, integrando a passagem por lá no roteiro dos dias em que tinha fortes motivos para ir a Lisboa; nomeadamente esse, as quintas-feiras. Habituei-me a retomar uma topografia mental esquecida, iniciada com descida nas Amoreiras e passagem pelo jardim, até chegar ao entroncamento da São Francisco Sales, onde vivi num quarto, com a São Felipe Nery, onde fiz a minha última instalação na Diferença, para me entregar à calorosa actualização dos espaços da memória. Assisto diariamente ao entusiasmo das descobertas que partilham no blogue; outras descobri, pelas mãos deles. Cometeram erros? Felizmente. Voaram alto de mais? Melhor ainda. O projecto continua vivo? É o que interessa. Estou mortinho por ir à festa de encerramento com a mesma alegria e disponibilidade a que assisti a grandes noitadas.
Desconheço se já têm um espaço para o segundo fôlego ou segunda edição da Livraria Trama, possivelmente de bolso. Venha ela e, se possível, com passeio para pôr duas ou três mesas – não era também na rua que se passavam muitas das noites do anterior modelo? – para se ler, beber um café, conversar, o Ricardo ir buscar o clarinete e desatar a tocar, aparecer o Nuno Moura e começar a ler uns poemas, um autor apresentar o livro na rua, por exemplo e sei lá que mais; assim o permita o tempo e o relacionamento cultural com as autoridades. Livrarias de portas adentro são todas, com pátio interior há algumas, poucas mas há, sem que lhes reconheça outra utilidade além de gueto para fumadores. Uma livraria, maneirinha, bem arrumada e catita, com passeio para fingir uma esplanada, era ouro sobre azul encadernado; pensem nisso.
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