24 de junho de 2010

Porque a Net fornece um novo dia

«Esta gente enoja-me: o tipo que demoliu a casa do Garrett foi nomeado presidente do Conselho de Administração da Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva»

Souvenirs (9)

Cheguei agora, naquele ferry... Ora mostra lá a cena, ó djin desatinado;
mas lembra-te que venho do Gharb e estamos na Place de Faro
O quê?, 20 € por isto?! Já andaste a beber, sacana...
Olha, dou-te 10 dirhams (1€) e só porque ainda se consegue conversar contigo...
Vês, nem foi preciso recorrer ao tinhoso do interprete...
[reportagem de Nico]

À mão de ler (39)

[Sintonizado algures na bloga, o emissor que se identifique]

Nem sempre a lápis (47)

Um dia destes, se a BT me mandar parar e manifestar curiosidade em ver a espaçosa bagageira da carrinha, ainda me convidam a soprar no balão. A mim, que não molho o bico fez vinte e dois anos em Maio; aproveitei a solidariedade do dia e trespassei a adega aos trabalhadores, assim o afirmava, à maneira dele, Salazar: «Beber, é dar de comer a um milhão de portugueses»; ele há datas que nunca mais se esquecem. Encaldeirei-me talvez por ter ido a Lisboa levar as provas, revistas pelo revisor, de Um Pai de Filme – e não Um Pai Ausente, assim o decidiu à última da hora Antonio Skármeta e, em princípio, o autor é que sabe – e aproveitar a deslocação para assistir à apresentação do DVD & etc., de Cláudia Clemente, na fnac. Cada vez que ouço o Paulo da Costa Domingos dizer, triste e carinhoso, «o Vitor não deve aparecer, já está velhinho», envelheço de uma forma brutal, ainda privado do diminutivo. Calcorreei as ruas e avenidas com pisar flâneur recuperado no Sul e em Asilah, a ver a cidade ao telemóvel, secretária febril de sms, embandeirada, estridente, plasmada em plasmas, suja, desleixada, pretensiosa, linda de se morrer, a pé e de sandálias, invadida de mochilas e de ténis e de botas radicais e insuportáveis, dissecada e aberta no plano, no mapa, na radiografia, segura por mãos indecisas, e eu a ver, trocando o olhar pela curiosidade de quem me olhou, alguém sugeriremos a quem nos sugere; um dia destes, lembrava eu, a BT ainda me manda soprar no balão, apenas porque não há meio de trazer para casa uma chapa esmaltada, um reclame, dos Vinhos Abel Pereira da Fonseca, com um Sol que vi estampado nas bandeiras da Argentina; ocupação selvagem do marketing. Parece que havia futebol, mas nenhum pombo me cagou em cima enquanto bebi um café, caríssimo, na esplanada do Nicola, a fazer de conta que estava em Barcelona, talvez por causa das barras azuis das bandeiras; daltónico quanto convém. Como não gosto de televisão, não posso dizer mal da programação; obrigado Cossery, vieste mesmo a calhar. Vim para casa, onde me encontro; a noite está serena, as mariazinhas crescem no vaso, entre as pedras. É o meu Rif, em miniatura; iluminura.

Às vezes, lá calha...

«O vento Norte brandinho
faz andar o mar picado»
(Tradicional da ilha Terceira, Açores)

23 de junho de 2010

Breve interlúdio musical

Porque a Net fornece um novo dia

Souvenirs (8)

Deixózir... Incrível, precisão de ferry!,
e uma horinha metida ao bolso, fiufiu...

À mão de ler (38)

«Raramente a humanidade se encontrou, como hoje, privada de figuras inspiradoras, de faróis orientadores. Onde está um grande filósofo, um grande pintor, um grande escritor, um grande escultor? Os poucos que nos vêm à mente são sobretudo fenómenos de publicidade e de marketing
[Tiziano Terzani, Disse-me Um Adivinho; trad. Margarida Periquito, Tinta-da-China, Novembro 2009;
foto: sugestões do manuel]

Nem sempre a lápis (46)

À medida que vou esgotando as anotações escritas na casa de ninguém, é curioso verificar como cheguei a Asilah num pulo e acabei por não fazer nada do que parecia ter planeado; não tenho jeito para programas. Não fosse uma foto desmentir-me, diria que me sentei no terraço em frente do quarto para fumar e pintar de cabeça e sentir a Torre de Menagem nas minhas costas e ouvir as rolas na açoteia ao lado e ver o movimento na rua paralela à muralha, até lá acima, até onde a vista alcança e o coração continua; só ele conhecia. Não abri um livro; Terzani serviu de altura para o portátil respirar enquanto descarregava fotos ou ouvia música; abri o bloco lá fora para desentorpecer a lapiseira e guardar bilhetes de autocarro para outras leituras; não parei em Tânger no regresso, fui da gare para o porto de petit-taxi; a Librairie des Colones estava fechada para obras e inventariação de fundos e em Sevilha, era domingo. Passei o tempo a passear pela Medina, sentado nas esplanadas dos café au kif, numas a ver e noutras a jantar; o dente recusou-se a deixar atirá-lo ao mar do terraço da antiga mesquita; comprei um chapéu de palha do Rif por um euro e meio, ao teu cuidado; uns tinhosos de uns putos foram por trás de mim e atiram-me a garrafa de água ao chão, e tu riste-te; deixei pendurado o velhote que foi a casa cortar kif «do dele», por uns míseros dois euros, sentado a fumar sebsis oferecidos pelo impaciente comunicativo Abdo, no passeio acima do mercado. Na última noite, deu-me a fraqueza por volta da uma da manhã e subi a rua com mais de metade das esplanadas cheias de filósofos; entrei num local aberto e tirei uma mesa de cima de outras para beber um café com leite, a ver um combate de boxe parecido com um concerto, com o que deve ser um rock in rio; agradeci com um sorriso um sebsi discreto que já não aceitei, oferecido por uns putos que me fizeram lembrar Terzani: «Adoro estes personagens. Um bocado exibicionistas, um bocado velhacos e gabarolas, mas ao fim e ao cabo também calorosos.» Desta vez trouxe comigo Bartleby & Companhia; aproxima-se a vez de copiar Dublinesca, de voltar a escrever a meias com Vila-Matas.

Às vezes, lá calha...

«Quase diria que desde criança que já se via que iam ser pessoas adultas.
Em contrapartida, eu ficava menor para toda a vida.»

22 de junho de 2010

Breve interlúdio musical

Com letra aqui

Porque a Net fornece um novo dia

Souvenirs (7)

Também posso ir?

À mão de ler (37)

(Jorge de Sousa Braga)

Nem sempre a lápis (45)

Alimento as mais promissoras expectativas de amanhã dormir em Bolonia, bem jantado com «pescaítos» no Miramar, sentado cá fora a ver o presépio de Tânger e a ser devorado pelos mosquitos. É possível que sejam espécie protegida, que pertençam ao património da Baelo Claudia, como os gatos e as pedras do «morisco» onde funciona o Dogville; foram lá e confiscaram uma parede inteira. Durante uma semana devo ter palmilhado dezenas de quilómetros do triângulo compreendido entre os Correios, a Igreja e a Lota; o miolo das ruelas, não sou apreciador de fronteiras nem de contornos. Fiz a foto da janela do quarto que tinha a fazer. As mochilas aguardam inchadas em cima do sofá, emagreci a instamatic e mudei-lhe as pilhas, a carrinha está pronta e atestada para retomar a viajem. Trouxe o livro mais indicado para o fazer, o ter vindo a fazer, Disse-me Um Adivinho; e como tem batido certo.

A noite está calma, pouco li, despertou-me a atenção o silêncio das gaivotas; o camião de recolha do lixo não deve tardar. Chove copiosamente, dizem há já alguns dias as nuvens vindas do mar; parto limpo.

Às vezes, lá calha...

«Não sou do contra, sou é paralelo.»

(Vitor Silva Tavares, & etc.)

21 de junho de 2010

Breve interlúdio musical

Porque a Net fornece um novo dia

Saturados com tantas maneiras
louve-se esta maneira

Nem sempre a lápis (44)

Esqueci ou desgostei, perdi o hábito da praia. Passo o dia de t-shirt e calções e sandálias, por casa. Quando seria de esperar, e terei prometido, regressar com uma cor de fazer tanta inveja como a mim, fiz uma ou duas horas de praia ao fim da tarde, até hoje. Tempo não me falta, a pairar nesta espécie de limbo antevisto, deitado a ler e a divagar até o Manel Careca acabar por abrir e ir tomar o pequeno-almoço para me deitar, de dormir. Acordo e vou beber uma bica a um preço popular, folheio o Correio da Manhã do estabelecimento, confirmando que, para mim, continua a ser o nosso mais fiel retrato em formato tablóide; em saldo e de rastos, a puxar por cornetas para um Força Portugal exangue. Só muito ao fim do dia, quando o calor permite que me vista para sair à noite, enfiar os bolsos da camisa trocada em Porto Covo, deixo que a primeira rua que leve ao mar me conduza à esplanada da lota, decidido a descansar até jantar um hambúrguer e um galão, aviar os pardais. Depois divago pelas ruelas tão estreitas ao «com licença» até me implantar no arraial de calorias veraneantes da geladaria da Fortaleza; justifico-lhe o nome de Pai Pinguim sentado com um café e um longo copo de água na mesa que confina com o parque de diversões, eléctrico e sonoro, onde uma criança e um jovem casal e um casal jovem com sogros, se entretêm a divertir-me. Esta tarde, enquanto esperava um sinal dos óculos e da carrinha, continuei a ler Terzani, apanhado do lado certo da cama; o dos livros com quem durmo. Fiz bem em não ter desligado o portátil; hoje não reescrevi nada na agenda do ano passado, de que aqui se dá nota.

Às vezes, lá calha...

«A depressão transforma-se num direito, quando olhamos à nossa volta e não vemos nada nem ninguém que nos inspire, quando o mundo parece resvalar para um pântano de inépcia e tacanhez materialista.»

20 de junho de 2010

Breve interlúdio musical

Porque a Net fornece um novo dia

Souvenirs (6)

Trama, noite de 19 de Junho de 2010

Nem sempre a lápis (43)

Quanto mais progrido na primeira revisão de Contos Reunidos – para fazer contas e subsidiar a ida até Asilah, outra haverá depois de desbastada pelo revisor –, apercebo-me que Borges e Bioy são a face visível de autores que permanecem na sombra; não obrigatoriamente projectada por eles. Atente-se em Silvina, Wilcock, Ribeyro, Hernández; e então sim, é magnífico. O fascínio pulveriza-se num caleidoscópio recebido pelas boas-vindas de Elvio Gandolfo, organizador e autor do prefácio deste universo: «Não há sorte mais invejável do que a de um bom leitor que ainda não conhece Felisberto Hernández.» Colhido pela surpresa da oferta do moleskine, com o prático formato de agenda e do ano passado, abri-o deitando fora o curriculum do objecto a transferir para a bolsa o dinheiro acabado de levantar e o respectivo cartão, os bilhetes pré-comprados do autocarro suburbano e o recarregável do metro. Ou seja, passei a escrever numa carteira que também cabe no bolso dos calções de praia – e esteve uma bela tarde bem documentada – e aguenta-se se vier uma vaga ao atravessar o rio, molda-se ao rabo se me esparramar numa esplanada. Escrevi – escrevo mais do que digo – cobras e lagartos sobre os moleskines, a Nico ofereceu-me um há mais de cinco anos, venha ele; creio que ultimamente talvez andasse a escrever demais em blocos de trazer ao peito, em lenços de bolso de camisa.

Às vezes, lá calha...

Às vezes, deitado de olhos semicerrados vejo com nitidez a penumbra do quarto de Asilah, fatiada pelo postigo e pela porta para o terraço, aberta de par em par.

19 de junho de 2010

Breve interlúdio musical

Souvenirs (5)

Café servido como deve ser, em Bolonia

«É bom trabalhar nas Obras» (15)

«Agora penso que naquela época eu viajava sem recordações: ou melhor, fazia-as; e para fazê-las intervinha nas coisas; mas a minha acção era escassa comparada com a dos meus companheiros; atendia a vida como quem come distraído. Eu era o último a compreender; e frequentemente fingia ter compreendido. Na viagem de comboio que fizemos desde Buenos Aires até Mendoza fiz muito poucas recordações: havia alguns bem mais físicos, como o desassossego com que procurava posições diferentes nos assentos de segunda, feitos de ripas envernizadas que chegavam até a meio das costas; e à noite não sabia onde deixar cair a cabeça, que se bamboleava como um candeeiro quase apagado. As recordações feitas à luz do dia não me deixavam angústia: embora estivesse cansado, as coisas ocorriam como se me entretivesse a fazer solitários ou a olhar gravuras. Recordo a forma dos pães – mais parecidos com tortas –, que algumas mulheres vendiam nas estações; quando começavam a conversar, a voz fazia um pequeno canto que subia e descia graciosas montanhas. Aquela região da Pampa era plana. Passámos por outra onde se levantava um pó tão fino que, apesar de ter fechado as janelas, ficávamos com as sobrancelhas e o cabelo branco. E a última recordação que guardo dessa etapa está cheia de vinhedos que chegavam até ao horizonte.»
[Felisberto Hernández, Contos Reunidos; em tradução para a Colecção Ovelha Negra / Oficina do Livro]

Nem sempre a lápis (42)

O fim do modelo da Trama não me surpreendeu; pressenti-o um sábado à tarde depois de umas breves férias de Agosto, vazia. A Trama foi uma moda para quem a enchia pelas costuras, uma carta de recomendação para outros, uma dádiva curricular para alguns; sem dúvida. Pouco a pouco, começaram a ficar os que mesmo com a compra diária de um livro, dificilmente o poderiam fazer por muito mais tempo. Também eu reconheço que comecei a postergar o pretexto de «descafezar» aos sábados, integrando a passagem por lá no roteiro dos dias em que tinha fortes motivos para ir a Lisboa; nomeadamente esse, as quintas-feiras. Habituei-me a retomar uma topografia mental esquecida, iniciada com descida nas Amoreiras e passagem pelo jardim, até chegar ao entroncamento da São Francisco Sales, onde vivi num quarto, com a São Felipe Nery, onde fiz a minha última instalação na Diferença, para me entregar à calorosa actualização dos espaços da memória. Assisto diariamente ao entusiasmo das descobertas que partilham no blogue; outras descobri, pelas mãos deles. Cometeram erros? Felizmente. Voaram alto de mais? Melhor ainda. O projecto continua vivo? É o que interessa. Estou mortinho por ir à festa de encerramento com a mesma alegria e disponibilidade a que assisti a grandes noitadas.
Desconheço se já têm um espaço para o segundo fôlego ou segunda edição da Livraria Trama, possivelmente de bolso. Venha ela e, se possível, com passeio para pôr duas ou três mesas – não era também na rua que se passavam muitas das noites do anterior modelo? – para se ler, beber um café, conversar, o Ricardo ir buscar o clarinete e desatar a tocar, aparecer o Nuno Moura e começar a ler uns poemas, um autor apresentar o livro na rua, por exemplo e sei lá que mais; assim o permita o tempo e o relacionamento cultural com as autoridades. Livrarias de portas adentro são todas, com pátio interior há algumas, poucas mas há, sem que lhes reconheça outra utilidade além de gueto para fumadores. Uma livraria, maneirinha, bem arrumada e catita, com passeio para fingir uma esplanada, era ouro sobre azul encadernado; pensem nisso.

Às vezes, lá calha...

«O talento essencial para um bom escritor
é ter implantado em si próprio um detector de merda
à prova de choque.»

18 de junho de 2010

Breve interlúdio musical

Via sms

«O elefante fez a última viagem
para se encontrar com a morte de Ricardo Reis.»

Souvenirs (4)

De momento estou ocupado,

queira ter a fineza de deixar mensagem.

Obg.

À mão de ler (36)

«O mais bonito é que não há solução para este problema do destino, dizia para mim, porque podemos ver a vida como se já tivesse sido escrita por alguém em qualquer parte, ou então podemos vê-la como se fosse escrita por nós a cada momento que passa. Ambas as versões são válidas. Cada decisão pode ser vista como tendo sido tomada por nós com base numa livre escolha ou então porque já estávamos predestinados a tomá-la.

Pois não será esse o sentido da profecia de Édipo, que tanto influenciou a nossa cultura? Um adivinho disse a Laio: "O teu filho matar-te-á e tornar-se-á amante da própria mãe". Para evitar isso, Laio afasta Édipo, manda-o para longe. Só isso torna possível que Édipo, quando regressa, não sabendo que Laio é seu pai, o mate, e não sabendo que Jocasta é sua mãe, se torne seu amante. Se Laio não tivesse feito caso da profecia, nada disso teria acontecido; a profecia realiza-se justamente porque Laio a leva a sério e tenta evitar as suas consequências. Portanto, o destino é inevitável e a profecia faz parte dele. A profecia serve para fazer com que aconteça aquilo que os homens, de sua livre vontade, não deixariam que acontecesse. Os gregos! Os gregos já tinham percebido tudo e dito tudo, cinco séculos antes de Cristo, enquanto nós, hoje, temos de reinventar e de redescobrir tudo.»
[Tiziano Terzani, Disse-me Um Adivinho; trad. Margarida Periquito, Tinta-da-China, Novembro 2009;
ilustração: Chirico, Édipo e a Esfinge]

Nem sempre a lápis (41)

Jantei um hambúrguer simples e um galão servido em copo com asa de vidro, na última mesa da esplanada da lota; refrescado pelo bafo húmido de Sueste a distrair-me o estudo da tarde, às oito e meia, o repouso das nuvens vivas. Guardei três pacotes de açúcar vazios para marcar leituras, reescritas nesta agenda do ano passado; deitadas sobre as semanas.
Não tarda nada e lá vou eu, com a Nico e Tarifa e Tânger a ganharem contornos de baías ventosas e colinas verdes no horizonte; Estreito. Asilah fica só uns quilómetros mais abaixo, de autocarro pela velha estrada litoral; o comboio transformou-se numa relíquia com cadência de relógio de Sol, interpretada por Nash & Crosby. Não vejo a hora de andar sem prótese e com o gorro de lã, até despir os chinos e ficarem em pé. Secretamente, alimento a esperança de deixar em Asilah o último dente do maxilar superior; atirava eu mesmo as minhas cinzas ao mar, não como atiraram as de Bryon Gysin no cabo Espartel, em 1986. Vai ser o bom e o bonito, ver os filósofos dirigirem-se a mim nas esplanadas e voltarem-me as costas, entre insultos; pensam que sou um emigrante a armar ó estrangeiro, mas também já sucedeu cairmos no sebsi e desatarmos a rir com o equívoco que me delicia. Quando acontece, manifesto curiosidade por saber o que me chamaram, insisto que entalhem o amuleto no bloco; como é em árabe, para mim são melodias de sempre e fico todo contente por ser a minha vez de lhes pregar uma partida. Grasna gaivota, grasna para aí, olha que há muito tempo que não me levantava para escrever de cuecas e sandálias: «Ama a pessoa com quem te casas e não te cases com quem amas.» (princípio asiático citado por Terzani)

Às vezes, lá calha...

«Quando eu tinha doze anos passava todos os dias por aquele lugar; e a poucos metros da via entrava em casa de duas professoras francesas. Mas antes de atravessar a via gostava de parar a olhar para os carris; os quatro carris das duas vias faziam uma curva muito suave antes de se perderem atrás de uma cerca. E entretanto os carris esperavam, com o lombo ao sol, que lhe passassem por cima os monstros egoístas do caminho-de-ferro, que iam sempre a pensar na direcção que levavam. Depois os carris voltavam a brilhar perante a admiração de todas as ervas que tão aprazivelmente viviam rodeando-os.»

17 de junho de 2010

Breve interlúdio musical

Souvenirs (3)

Escultor de areia a montar o T1

Porque a Net fornece um novo dia

«Nos anos 1950-60, Johannesburg era a Nova Iorque dos laurentinos como eu. Rui Knopfli achava que era Paris: «O meu Paris é Johannesburg, / um Paris certamente menos luz, / mais barato e provinciano. / [...] À noite janto no Monparnasse / de Hilbrow, que é o Quartier Latin / do sítio e olho essas mulheres / excêntricas e belíssimas / de pullover e slacks helanca / e esses beatniks barbudos / excêntricos e feiíssimos, / tudo com o ar sincero / mas pouco convincente do made in USA. / [...] Depois do turkish coffee meto-me / até ao Cul de Sac e fico-me / a ouvir o sax maravilhado / de Kippie Moeketsi. O jazz, sim, / é genuíno e tem um bite / todo local. O néon e a madrugada / silenciosa, o asfalto molhado, / a luz da aurora e a luz dos reclamos / misturando-se, a minha solidão, / aconteceriam assim em Paris. / Aqui ninguém sabe quem sou, / aqui a minha importância é zero. / Em Paris também.» (cf. Máquina de Areia, 1964; o poema é de 1962

À mão de ler (35)

«Rajamanickam falava, o meu gravador girava, eu tomava notas automaticamente e a minha mente brincava com as palavras que vinham dele. Sentia que no fundo tinha razão. Não que eu esperasse uma vida melhor do que aquela que já vivi, mas a ideia de que a parte melhor estava ainda para vir parecia-me conter uma lógica natural. Até à idade que tenho fizemos o nosso dever, pagámos a nossa dívida para a manutenção da sociedade pondo filhos no mundo e trabalhando. Representámos o papel que escolhemos ou que nos foi atribuído. Comportámo-nos como deve ser, mostrámos o que valíamos e agora, por fim, somos livres. Livres mas não, claro está, para nos reformarmos. Reforma, entendida como a fase da vida em que somos pagos para não fazer nada? Até isso, que mal-entendido! Mais uma interpretação materialista da velhice! A reforma é agradável para aqueles que tencionam pintar, ir à pesca, escalar montanhas, ou que têm romances para escrever. Para mim isto de avançar na idade significa apenas tornar-me mais franco, desenvolto, poder cada vez mais dizer o que penso, ocupar-me daquilo que julgo ser importante, mesmo que assim não pareça aos outros. Agora pode-se finalmente ser livre, como em jovem não nos é permitido ser. Agora podemos viver fora dos esquemas, fora das regras que mantêm a sociedade. Só na minha idade nos podemos permitir a loucura de passarmos por loucos.»
[Tiziano Terzani, Disse-me Um Adivinho; trad. Margarida Periquito, Tinta-da-China, Novembro 2009]

Nem sempre a lápis (40)

Deitei-me por volta das seis da manhã, mas não consegui pregar olho; ainda estavam em cena o concerto das gaivotas e os efeitos especiais na cercadura da janela, com a lua em fundo. Puxando um pouco mais os cordões à escrita, digamos que só faltavam os Police para me sentir no Estádio do Belenenses com o Rui Simões; curta-metragem. Levantei-me e fui à janela da sala espreitar se o Manel Careca já tinha aberto o Café Unissexo – há falta de imaginação para todos os gostos – e tomar o pequeno-almoço a darmos à taramela. Aproveitei a oportunidade para ensaiar diálogo em Asilah, perguntei-lhe se não tinha vergonha de me pedir euro e meio por uma garrafa de litro e meio de água; a princípio ainda se riu, era o que interessava, deixei-o a falar às moscas quando entrou em pormenores comerciais. Abasteci-me de tabaco e mortalhas, muito em conta, comprei uma afiadeira que parece um tanque, reminiscências de Cavalaria 4, fui ao talho e à padaria; não havia anonas na praça e, sem saber porquê, ocorreu-me esta frase de Tiziano: «Passei a tarde a introduzir notas no computador.» Retive a responsabilidade do acto; há dezassete anos a fronteira entre a máquina de escrever e o processador de texto ainda era considerada uma operação de risco, ensombrada pela incompreensível amnésia do disco rígido. Quando não escrevo a lápis, como agora, também já não puxo da Hermes 2000 – só para a fotografia e se for capa de revista –; habituei-me a abrir um linguado em branco, sensível às calinadas e concordâncias. Mas nem sempre estamos de acordo; esquece-se que ainda ele não era sonhado nem nascido já eu sabia ler e escrever. Como estou com o Office meio avariado, mas sem paciência para o levar ao neurologista, percebi que posso introduzir as notas como rascunhos do blogue e seja o que Hermes achar por bem.

Às vezes, lá calha...

«Quero o silêncio perfeito
Onde minha lembrança não abra rios de sangue.»

16 de junho de 2010

Breve interlúdio musical

Obrigado...

[foto: Rui Baião]

Porque a Net fornece um novo dia

«HAY UNA HISTORIA DEL GRAN PIGLIA QUE ME RECUERDA A AQUELLA CANCIÓN DEL "MIG AMIC" QUE DEDICÓ PERET A SU PADRE. O VICEVERSA: HAY UNA CANCIÓN DEL GRAN PERET QUE ME RECUERDA A PIGLIA. "MI PADRE, DIJO RATLIFF, FUE UN NARRADOR EXCEPCIONAL. VENDÍA MÁQUINAS DE COSER POR EL CAMPO (...). ERA CAPAZ DE VENDER UNA MÁQUINA INSERVIBLE USANDO EL ARTE HIPNÓTICO DE LA NARRACIÓN. NARRAR, DECÍA MI PADRE, ES COMO JUGAR AL PÓKER, TODO EL SECRETO CONSISTE EN PARECER MENTIROSO CUANDO SE ESTÁ DICIENDO LA VERDAD" (EN OTRO PAÍS, RICARDO PIGLIA).»

Souvenirs (2)

Meditação na barbearia...
Ora saia um caldinho à maneira
e Força Portugal!

À mão de ler (34)

«Entre as muitas imagens que nos afloram à mente sem controlo nos momentos de descontracção, surgia-me a do cartaz que vira na fronteira: "Pena de morte para quem transportar droga." E pensava num jovem, ninguém em particular, um jovem da idade dos meus filhos, que um pouco por curiosidade e um pouco por brincadeira se aproxima das drogas e é apanhado na armadilha, que na Malásia o leva direito à forca.
No Laos e no Camboja a ganja, isto é, a marijuana, é uma erva que se compra no mercado porque é um ingrediente da sopa local, como é para nós a salsa. Por uma despesa pequena dão-nos um raminho, da mesma forma que na nossa terra nos oferecem as ervas de cheiro quando vamos comprar as hortaliças. Mas em Penang um simples pedacinho dessa mesma erva é o bastante para sermos condenados à morte! Quantos jovens, às vezes sem o saberem, têm corrido esse risco, ao viajarem da Indochina para Singapura levando alguns cigarros de marijuama misturados com os Marlboro!.»
[Tiziano Terzani, Disse-me Um Adivinho; trad. Margarida Periquito, Tinta-da-China, Novembro 2009]

Nem sempre a lápis (39)

Fiz a viagem até à casa de ninguém sempre de frente para o que ainda sobra do sol da noite; nas rectas vazias do Baixo por pouco não baixei a pala do vidro, mas contive-me. Vou apanhá-lo sob o formato quarto minguante virado do avesso, no outro lado. São quatro e tal da manhã; correspondência em dia no blogue em pausa e tréguas na outra. Confortavelmente jantado na Europa, ou seja em Campo de Ourique, a verdade é que ontem ainda revi o conto O Cavalo Perdido de Hernández e trouxe os que faltam; a ter de ser, nada como a noite para viajar em auto-estrada. Saí da carrinha recebido pela alegria das gaivotas e o silêncio do prédio, quebrado à medida que subia dois andares de memória; sem ser de cor. Abri as persianas e janelas antes de ligar a luz e a água, depois fui pendurando a roupa nas costas das cadeiras, fiz uma biblioteca na estante estilo nórdico – família reduzida a três cadeiras e uma mesa circular com pernas cuneiformes – para a habitar com os livros em viagem: Disse-me Um Adivinho e os diários IV e V de Torga. Estou morto por lhe abrir os cadernos numa esplanada de Asilah e ser um beirão a ler um trasmontano entre o azenegue do Gharb; deitado ao sol na açoteia do Pátio de La Luna a salivar pelos livros que me esperam em Tânger e Sevilha, no regresso. Exceptuando ter-me esquecido de trazer água, até agora ainda não dei pela falta de nada; só de fazer a cama com uma pequeno ramo de madressilva, cortado com a unha do polegar onde a há. O estoiro não lhe serviu de lição: o safado do meu filho tem outra moto linda de se morrer; bem me fartei de olhar para ela, a alçar a perna direita com resultados de cão e medo que me caísse em cima. Ainda bem que não me viu naquelas figuras às três e tal da manhã; sai ao pai, nas motas também.

Às vezes, lá calha...

Esta tarde fiz consideráveis reflexões sobre a luz das portadas da janela do quarto; um pouco à maneira de Walter Benjamin, adaptado às circunstâncias.

15 de junho de 2010

Mortágua, 15 de Junho de 1949 - 22h45 (dizem)

Breve interlúdio musical

Porque a Net fornece um novo dia

Souvenirs (1)

Estimados Clientes,
Comida Para Fora Take-Away
motivo sujeito à disponibilidade da cozinha.

«É bom trabalhar nas Obras» (14)

«Colocado através das teclas, como um carril sobre dormentes, havia um comprido lápis vermelho. Eu não o perdia de vista porque queria que me comprassem outro igual. Quando Celina lhe pegava para apontar no livro de música, os números que correspondiam aos dedos, o lápis estava desejoso que o deixassem escrever. Como Celina não o largava, ele mexia-se ansioso entre os dedos que o seguravam, e com o seu olho único e pontiagudo, olhava indeciso e oscilante de um lado para o outro. Quando o deixavam aproximar-se do papel, a ponta parecia um focinho a farejar algo, com instinto de lápis, desconhecido para nós, e sondava entre os pés das notas à procura de um lugar branco onde morder. Finalmente Celina soltava-o e ele, com movimentos curtos, como um bacorinho quando mama, agarrava-se vorazmente ao branco do papel, ia deixando as pequenas marcas firmes e acentuadas com a sua curta garra preta e abanava alegremente a sua longa cauda vermelha.

Celina fazia-me pôr as mãos abertas sobre as teclas e com os dedos dela levantava os meus como se ensinasse uma aranha a mover as patas. Ela entendia-se melhor com as minhas mãos do que eu próprio. Quando as fazia andar com lentidão de caranguejos entre pedregulhos brancos e pretos, de repente as mãos encontravam sons que encantavam tudo o que havia à volta do candeeiro e os objectos ficavam cobertos por uma nova simpatia.»
[Felisberto Hernández, Contos Reunidos; em tradução para a Colecção Ovelha Negra / Oficina do Livro]

Nem sempre a lápis (38)

Amanhã – por esta hora, nem faço ideia que horas sejam – conto estar instalado na casa de ninguém para seguir até Asilah; conto estar no Sul, de calções e sandálias e defendida a liberdade das mãos pelos bolsos da camisa trocada o ano passado, em Porto Covo. Com pouco me contento; não sou «de boa boca». Ultimamente, até passou a ser possível andar descalço por casa e a dormir com as janelas todas abertas; sôfrego de vento. Entretido a jogar com a memória, lembrei-me que decorreram dois anos desde que escrevi, durante quatro meses, a data por extenso. Contaminado com a tradução d’As Vozes do Rio Pamano (Jaume Cabré), julgo ter captado na extensão da data a manifestação de passado que escrevia ainda no presente; eliminava a impessoalidade analógica da enumeração. E estava certo; guardo dentro deles as opiniões sobre os livros entretanto saídos, para que envelheçam como os que guardei num arquivo que já não me pertence, nem transporto comigo.
«O cinema das minhas recordações é mudo. Se para recordar posso pôr os meus olhos velhos, os meus ouvidos são surdos às recordações.» (Felisberto Hernández)

Às vezes, lá calha...

As gaivotas saíram agora da escola, mas não há o perigo dos carros. Era assim que se dizia quando lá andava; ainda não se chamava trânsito.

14 de junho de 2010

Breve interlúdio musical

1 de junho de 2010

Breve interlúdio musical

«Era uma história que tendia a alastrar em todas as direcções
e que, no entanto,
se mantinha essencialmente portátil.»
(J. D. Salinger)