«Esta gente enoja-me: o tipo que demoliu a casa do Garrett foi nomeado presidente do Conselho de Administração da Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva»
«De uma maneira geral, os livros sabem ao cheiro do café» Sam Savage
Um dia destes, se a BT me mandar parar e manifestar curiosidade em ver a espaçosa bagageira da carrinha, ainda me convidam a soprar no balão. A mim, que não molho o bico fez vinte e dois anos em Maio; aproveitei a solidariedade do dia e trespassei a adega aos trabalhadores, assim o afirmava, à maneira dele, Salazar: «Beber, é dar de comer a um milhão de portugueses»; ele há datas que nunca mais se esquecem. Encaldeirei-me talvez por ter ido a Lisboa levar as provas, revistas pelo revisor, de Um Pai de Filme – e não Um Pai Ausente, assim o decidiu à última da hora Antonio Skármeta e, em princípio, o autor é que sabe – e aproveitar a deslocação para assistir à apresentação do DVD & etc., de Cláudia Clemente, na fnac. Cada vez que ouço o Paulo da Costa Domingos dizer, triste e carinhoso, «o Vitor não deve aparecer, já está velhinho», envelheço de uma forma brutal, ainda privado do diminutivo. Calcorreei as ruas e avenidas com pisar flâneur recuperado no Sul e em Asilah, a ver a cidade ao telemóvel, secretária febril de sms, embandeirada, estridente, plasmada em plasmas, suja, desleixada, pretensiosa, linda de se morrer, a pé e de sandálias, invadida de mochilas e de ténis e de botas radicais e insuportáveis, dissecada e aberta no plano, no mapa, na radiografia, segura por mãos indecisas, e eu a ver, trocando o olhar pela curiosidade de quem me olhou, alguém sugeriremos a quem nos sugere; um dia destes, lembrava eu, a BT ainda me manda soprar no balão, apenas porque não há meio de trazer para casa uma chapa esmaltada, um reclame, dos Vinhos Abel Pereira da Fonseca, com um Sol que vi estampado nas bandeiras da Argentina; ocupação selvagem do marketing. Parece que havia futebol, mas nenhum pombo me cagou em cima enquanto bebi um café, caríssimo, na esplanada do Nicola, a fazer de conta que estava em Barcelona, talvez por causa das barras azuis das bandeiras; daltónico quanto convém. Como não gosto de televisão, não posso dizer mal da programação; obrigado Cossery, vieste mesmo a calhar. Vim para casa, onde me encontro; a noite está serena, as mariazinhas crescem no vaso, entre as pedras. É o meu Rif, em miniatura; iluminura.
Colhido pela surpresa da oferta do moleskine, com o prático formato de agenda e do ano passado, abri-o deitando fora o curriculum do objecto a transferir para a bolsa o dinheiro acabado de levantar e o respectivo cartão, os bilhetes pré-comprados do autocarro suburbano e o recarregável do metro. Ou seja, passei a escrever numa carteira que também cabe no bolso dos calções de praia – e esteve uma bela tarde bem documentada – e aguenta-se se vier uma vaga ao atravessar o rio, molda-se ao rabo se me esparramar numa esplanada. Escrevi – escrevo mais do que digo – cobras e lagartos sobre os moleskines, a Nico ofereceu-me um há mais de cinco anos, venha ele; creio que ultimamente talvez andasse a escrever demais em blocos de trazer ao peito, em lenços de bolso de camisa.
«O mais bonito é que não há solução para este problema do destino, dizia para mim, porque podemos ver a vida como se já tivesse sido escrita por alguém em qualquer parte, ou então podemos vê-la como se fosse escrita por nós a cada momento que passa. Ambas as versões são válidas. Cada decisão pode ser vista como tendo sido tomada por nós com base numa livre escolha ou então porque já estávamos predestinados a tomá-la.
«Nos anos 1950-60, Johannesburg era a Nova Iorque dos laurentinos como eu. Rui Knopfli achava que era Paris: «O meu Paris é Johannesburg, / um Paris certamente menos luz, / mais barato e provinciano. / [...] À noite janto no Monparnasse / de Hilbrow, que é o Quartier Latin / do sítio e olho essas mulheres / excêntricas e belíssimas / de pullover e slacks helanca / e esses beatniks barbudos / excêntricos e feiíssimos, / tudo com o ar sincero / mas pouco convincente do made in USA. / [...] Depois do turkish coffee meto-me / até ao Cul de Sac e fico-me / a ouvir o sax maravilhado / de Kippie Moeketsi. O jazz, sim, / é genuíno e tem um bite / todo local. O néon e a madrugada / silenciosa, o asfalto molhado, / a luz da aurora e a luz dos reclamos / misturando-se, a minha solidão, / aconteceriam assim em Paris. / Aqui ninguém sabe quem sou, / aqui a minha importância é zero. / Em Paris também.» (cf. Máquina de Areia, 1964; o poema é de 1962)»