17 de julho de 2010

Breve interlúdio musical

... este, foi directamente gamado aqui.

Bora lá até à Barraca...

... para ser servido pel'O Taberneiro

À mão de ler (58)

«Suponho que o Quartier Latin, em Paris, foi, a dada altura, semelhante à Village, nos tempos em que Sylvia Beach tinha lá uma famosa livraria. Sylvia era nova-iorquina, uma mulher nobre que em muito contribuiu para a raça humana. Adorava Nova Iorque, mas do mesmo modo que eu adoro Dublin: à distância. À distância de quatro mil quilómetros, para ser preciso. Foi também a primeira pessoa a publicar os trabalhos de James Joyce, que estava em Paris na altura.
Ele enviou uma peça sua, chamada Exiles, ao Théâtre de l'Oeuvre, mas foi-lhe devolvida. "Sr. Joyce", dizia a carta de rejeição, "acabámos de travar uma Guerra Mundial e, como tal, há muitas viúvas e órfãos. Consideramos a sua peça um pouco triste demais."
- Talvez devesse ter dado uma perna de pau a Richard para animar um pouco as coisas - comentou amargamente Joyce a Sylvia Beach. Assim, pôs a peça de lado e continuou a escrever Ulisses, que estava quase a terminar.
Ora eu cá acho que animar um pouco as coisas não faz mal nenhum, de modo que resolvi chamar à minha peça Richard's Cork Leg
[Brendan Behan, Nova Iorque; trad. Rita Graña, Tinta-da-China Março 2010]

Nem sempre a lápis (57)

Desde que vim de Asilah, e já lá vai um mês, pouco ou nada tenho praticado o meu desporto favorito, descer o Jardim das Amoreiras até ao Chiado ou ficar pelo do Príncipe Real; bloco à mão e garrafa de água, tranquilamente à espera de John Berger (Aqui nos vemos). Conto fazê-lo este próximo sábado; passar pela Anchieta e sentar-me n’A Brasileira, almoçar pelo Tagarro ou para os lados da Bica. É possível que me dêem umas saudades doidas de estar sozinho, dando por encerrado o exercício físico e mental ou acabe por fazer um breve interregno e jantar em casa para ir até à Ler Devagar; assistir a mais umas lições. Tudo isto, após o lançamento d’O Taberneiro, de Miguel Martins, n’A Barraca, pela mão de Rui Caeiro; esse mesmo, o tradutor de Nós Dois Ainda (Henri Michaux) que reviu para a Bonecos Rebeldes a edição feita para o & etc., há um colhão de anos. Se o Changuito estiver para me aturar – já estou a dar como adquirido que vai lá montar banca –, aproveito e peço-lhe que me traga os dois livros escandalosamente reservados, há mais de um mês. Veremos. Voltando à deambulação pelo Bairro e arredores, leve-me o apelo da hora do lobo por onde me levar, gosto de desandar o velho caminho da Rua da Rosa; se deixei o carro por ali perto e bom caminho. A partir da inesquecível Travessa dos Inglesinhos – neste caso seríamos os jornalistas do Record; é verdade, quase uma década a snifar octanas – lembro-me sempre do Ernesto Sampaio, quando nos cruzávamos no Diário de Lisboa, vindo eu, vindo eu, fresquinho de fancaria cultural do Frágil. Dizia-me o Ernesto, com aquele seu ar fleumático a arrumar a máquina de escrever portátil, encostada ao alto do lado de dentro da secretária: «Vais ver logo, quando saíres de dia; é só gente triste, toda encolhida, acabada de se pentear.»

Era de meter medo; donas de casa de bata com alcofas vindas do mercado da Ribeira, barbeiros com ar sinistro, caixeiros-viajantes e distribuidores de tudo e mais alguma coisa, mergulhados numa luz crepuscular, às sete e tal, oito da manhã; se li alguma vez Poe, não me lembro. Só se salvavam as padarias; o galão com pão quente partilhado com as conversas das putas, regressadas do último turno para irem buscar o menino à ama.

Às vezes, lá calha...

... ou como quem diz, já cá canta!
«Há poetas que citam outros poetas e dizem indignar-me é o meu signo diário. Mas dizem isto com as mãos nos bolsos e os ombros encolhidos. Talvez tenham razão e eu esteja equivocado. Talvez seja preferível afundar a indignação no saco, aconchegar as costas ao conforto da poltrona e exercitar os dedos num teclado.»

16 de julho de 2010

Breve interlúdio musical

... oportuna sugestão da jukebox da especialidade

Porque a Net fornece um novo dia

«É bom trabalhar nas Obras» (23)

«Descobre no youtube um juvenilíssimo Bob Dylan a cantar com Johnny Cash That’s allright Mama, e observa, com um misto de surpresa e de curiosidade, que o consagrado Cash está ali a cantar com ar de resignação, como se naquele dia não tivesse outro remédio do que aceitar a repentina companhia do desconhecido jovem génio, que tinha saltado para o palco sem licença de ninguém.
Riba observa que Cash não se incomoda com a presença do juvenilíssimo Dylan ao seu lado, mas mesmo assim talvez se esteja a perguntar por que é que tem de cantar acompanhado do jovem génio que se colou a ele. Acaso o pequeno Dylan pretende converter-se no seu anjo da guarda? É, talvez, Dylan um repentino guardião das criações de Cash?
Acaba por pensar que algo parecido se passa entre ele e Nietzky, que durante meses confundiu com o génio que procurava entre os escritores jovens. Depois, quando compreendeu que tinha um grande talento mas não era o escritor tão especial que gostaria de ter encontrado, resignou-se a vê-lo só como o que era, que já era muito. Não era o grande monstro das letras de que andava à procura como editor, mas nele era possível detectarem-se traços de uma faiscante e criativa electricidade neurótica. Mais que suficiente.»
[Enrique Vila-Matas, Dublinesca; em tradução para a Teorema]

À mão de ler (57)

«A famosa Greenwich Village é o único verdadeiro Quartier Latin que ainda existe, incluindo a Europa Ocidental ou qualquer outro lugar que eu conheça. Está, alegadamente, cheia de prostituição, e é evidente que há lá muita depravação.
Há depravação em Londres e há depravação em Paris, e em Reiquiavique e em East Jesus, no Kansas. Depravação há em todo o lado, mas a única coisa emocionante que me aconteceu em Greenwich Village foi quando um tipo qualquer me veio oferecer um cigarro de marijuana.
Infelizmente, aquela velha marijuana teve de lutar contra algumas garrafas de bourbon, de maneira que não posso dar uma opinião fidedigna.
Também lá existem impostores, impostores a sério, embora eu não acredite que alguém seja, no fundo, um verdadeiro impostor. Que raios, nunca encontrei um impostor que não estivesse disposto a pagar um copo a um artista lutador se o pudesse fazer. Eles têm a sua função, tal como todas as outras pessoas.»
[Brendan Behan, Nova Iorque; trad. Rita Graña, Tinta-da-China Março 2010]

Às vezes, lá calha...

«Terei esquecido este livro muito antes de você gastar o seu dinheiro com ele, isso lho garanto. Para mim, cantar as nossas próprias canções ou ler as nossas próprias obras é uma forma de incesto mental.»

15 de julho de 2010

Breve interlúdio musical

Porque a Net fornece um novo dia

É capaz de ser melhor abrir a imagem...

À mão de ler (56)

[Jaime Bulhosa, Paciência; Pó dos Livros Julho 2010]

Nem sempre a lápis (56)

Tocar-lhe o corpo – vestido de preto, uma lágrima de sangue no alfinete a prender o lenço ao cabelo – seria dedilhar um quissange. Só lhe conheço o som; tão bonito, tão delicado, tão vibrante, no terreiro batido do desejo.

Às vezes, lá calha...

«Sabes uma coisa, filho? Os cemitérios das aldeias pequenas fazem-me sempre lembrar as fotos de família: toda a gente se conhece e toda a gente está muito quietinha, uns ao lado dos outros para sempre, cada um a olhar para o seu sonho. E com os ódios desorientados com tanta quietude.»

14 de julho de 2010

Breve interlúdio musical

Desculpe, mas não se importa de repetir...

À mão de ler (55)

«Dobro a roupa
em monte
os doze meses inteiros,
e tento juntar, incapaz,
duas peças com sentido.
As que ficam,
isoladas
sem uso provável,
escondo-as dentro de páginas brancas:
entre cada uma
papel vegetal quase transparente
e cantos antigos de colar fotografias.
Em dez anos encontro
um herbário inesperado:
folhas perenes e secas,
as meias cerzidas, únicas,
são exemplos raros destes dias
quase extintos.

Leste os poemas fora do prazo

muito menos sóbrio do que parecias

e pensaste que também os versos

podiam coser-se ao pescoço.

O mesmo cordel que te prendia,

a mão aberta sobre o volante,

afundou-te o pé inútil -

travavas um carro plano, desligado -

e puxou-te do estômago

uma vaga confissão,

eco surdo das horas antigas:

avulsas, longas, gratas, iguais.»

[Margarida Ferra, Curso Intensivo de Jardinagem, & etc., Maio 2010;

foto: de previsível autoria, embora preferisse uma da Autora a ler n'A Barraca, na noite em que foram servidas rodadas de poesia]

«É bom trabalhar nas Obras» (22)

«Não quer comentar a Ricardo que é inútil que lhe conte coisas de Behan, já sabe tudo sobre ele. Deixa-o falar sobre o irlandês, até que, num momento de descuido, volta a puxar pelo tema de Auster.
- Achas que Paul Auster seria considerado um bom romancista no Ghana? – pergunta a Ricardo, numa clara provocação.
- Ah, eu sei lá! – olha-o muito surpreendido. – Estás bem estranho, hoje. Nunca sais, não é verdade? Não é que saias pouco, é que não sais, não estás habituado a falar com as pessoas. Vai-te fazer bem ires arejar a Dublin. Acredita, andas um bocado transtornado. Devias reabrir a editora. Não podes estar sem fazer nada. Auster no Ghana! Bom, vamos à La Central.»
[Enrique Vila-Matas, Dublinesca; em tradução para a Teorema]