13 de julho de 2010

«É bom trabalhar nas Obras» (21)

«Riba volta a contar-lhe como passou um dia inteiro em Lyon, sem falar com ninguém e a arquitectar uma teoria geral do romance. E Javier acaba por ficar muito nervoso. Os escritores não suportam lá muito bem que os editores façam os seus pinos literários e Javier acaba por interromper Riba para lhe dizer que já lhe tinha dito, no outro dia, que ficava contente que em Lyon tivesse experimentado escrever algo, mas que não há nada mais francês do que uma teoria geral para os romances.
- Não sabia que as teorias eram francesas – diz Riba, surpreendido.
- São, estou-te a dizer a sério. E mais, só te fazia bem deixares de ser um pensador de café. De café francês, quero dizer. Terias de te esquecer de Paris. É este o meu desinteressado conselho de hoje.
Javier é asturiano, de uma localidade próxima de Oviedo, embora já viva há mais de três décadas em Barcelona. É quinze anos mais novo do que Riba e possui uma notável tendência para os conselhos e, sobretudo, para ser directo, tem uma clara predisposição para o tom categórico. Mas, hoje Riba não consegue entender por onde ele vai e pergunta-lhe o que tem contra os cafés de Paris.
Riba fica a recordar que a sua vocação de editor nasceu durante uma viagem à Paris de depois do Maio de 68. Enquanto roubava ensaios esquerdistas com inusitada alegria na livraria de François Maspero – onde os empregados viam com bons olhos que lhes saqueassem o estabelecimento –, decidiu que se dedicaria àquela profissão tão nobre de editar romances vanguardistas e livros insurrectos que, logo a seguir, aficionados da leitura de todo o mundo roubariam na Maspero e noutras livrarias de esquerda. Um ano depois, mudou de ideia e deu por esgotado o sonho revolucionário e decidiu ser razoável e cobrar pela venda dos livros que editasse.
Do outro lado do telefone, o seu amigo Javier permanece em silêncio, mas nota-se que continua indignado. Ficaria mais ainda se soubesse que o seu amigo misturou mentalmente, não há muito, a sua diatribe contra os cafés franceses com a sua condição de asturiano.»
[Enrique Vila-Matas, Dublinesca; em tradução para a Teorema]

Nem sempre a lápis (55)


Acabo de traduzir o último parágrafo da página 85 de Dublinesca – «Têm gostos literários coincidentes, desde Roberto Bolaño (com quem os dois conviveram amigavelmente durante uma época) até Vilém Vok.» – e faço o que tenho a fazer: abro o Google e pesquiso o constante autor de El centro. O nome soava-me desde a primeira vez que o li, recuperado entre o eco da população que habita Diário Volúvel, sem dúvida. Googlei-o na Web, sem grandes resultados para idêntica disposição, optando pela visibilidade da imagem; através delas, deparei-me com a curiosa coincidência de mais já andarem ao mesmo: «buscando a Vilém Vok». Acabei por me desinteressar dele, entretido a folhear dois blogues com direito a Favoritos; vitaminei substancialmente o pequeno-almoço, digamos assim. Num deles, Vortex, a autora deixa no ar a provocação de Vok ser o próprio Vila-Matas, e porque não? Não foi ele que disse numa entrevista, creio, mas refere pelo menos num dos seus últimos livros que Jorge Herralde, o seu editor até Dublinesca, andava a escrever o seu próximo romance? Fiz também o que faço sempre, ver o BI virtual do autor, o tal profile, onde se lê mais do que consta nos campos por cada um considerados como obrigatórios. Foi então que se me deparou esta coisa disparatada – ajudado pela tradução, hoje tive um dia muito disponível – de prestar mais atenção aos signos do que ao sexo, à ocupação, à idade, já me habituei, e verificar que a maioria não só o comunica, como o faz acompanhar pelo correspondente chinês; recebe, hospitaleira, a tradução, a dobragem. Falinhas mansas do marketing; nem lhes passa pela cabeça que começou tudo com o famoso e tão disputado embaixador cultural, o Livro Vermelho, responsável por transtornar irremediavelmente um número lamentável de jovens da minha curiosa geração e da caricatura que se lhe seguiu. Já me disseram, os mais informados, que o Vietname era para cotas; haveria qualquer coisa no Iraque, mas não tinham a certeza se viram em DVD. Entre tantas outras irreversíveis mutações, ocorreu-me a possibilidade da Net estimular um relacionamento – se é que já não existe, embrionado nos blogues – em que as pessoas passam a apresentar-se pelo signo: Gémeos, muito prazer; Escorpião, outra vez?, compatibilidades e aversões espontaneamente esclarecidas com beijos e abraços, com um voltar de costas e um par de coices, com sedução travestida de jogo à gata e ao rato. Gramava à brava ver, e acho que já vi a coisa mais longe do que o simples pretexto de me levantar para devorar – é o termo – um pastel de feijão e ligar o portátil; em brasa, pudera.
[Foto: Jorge Herralde; autoria que não foi possivel determinar]

Às vezes, lá calha...

«Possuía um tipo de humor que apenas se encontra no interior da Irlanda. Ou seja, na zona plana do país, pois é um tipo de humor plano, contado com um sotaque plano.»

12 de julho de 2010

Breve interlúdio musical

Hoje há matinée dançante no Café Central

Porque a Net fornece um novo dia

À mão de ler (54)

«A morte da jovem na serra era uma atrocidade, era uma coisa em que não se podia sequer pensar. Stevenson perguntou-se, culpado: onde estava a novidade saudável, o entusiasmo que lhe preenchera os dias nos primeiros tempos na ilha? Quando voltaria ele a encontrar na imundice e no suor a emoção que agora só lhe era proporcionada pela sua própria imaginação, pelas histórias que ele contava a si mesmo e que por vezes tentava colocar no papel? Agora a realidade reduzira-se a farrapos de lembranças: aquela tarde distante, nas Cévennes, em que ele encontrara dois estranhos demoníacos em Notre-Dame des Neiges; ou a ocasião em que conversaram durante horas a fio com uma mulher gorda e louca no leprosário do padre Damian, perto de Honolulu; ou a noite em San Francisco em que um chinês (culo nome ele não lembrava) o levara a um lugar perto do cais do porto onde lera a sua sorte nas folhas de chá no fundo de uma tigela. A palavra nostalgia (ele havia lido em algum lugar) fora cunhada no século XVII por um estudante alsaciano na sua tese de medicina para se referir à moléstia a que sucumbiam os soldados suíços que se viam longe das suas montanhas nativas. No seu caso, era o contrário: nostalgia era a falta dolorosa que sentia dos lugares que jamais conhecera.»
[Alberto Manguel, Stevenson Sob As Palmeiras; trad. Paulo Henrique Britto, ASA, Junho 2003]

«É bom trabalhar nas Obras» (20)

«Sente-se envolvido numa estimulante atmosfera de preparativos para viajar a Dublin. E o livro de Joyce ajuda-o nessa abertura para outras vozes e outros âmbitos. Dá-se conta de que, se quer averiguar o nome dessa ponte, terá de se decidir entre a actividade de folhear o livro – quer dizer, permanecer ainda, heroicamente, na era Gutenberg –, ou então indagar na Rede e entrar em cheio na revolução digital. Por uns momentos, sente que está no próprio centro da ponte imaginária que une as duas épocas. E a seguir pensa que para o caso que o ocupa, parece mais rápido recorrer ao livro, pois tem-no ali, na biblioteca. Põe o computador novamente de lado e, ao resgatar das estantes o seu antigo exemplar de Dublineses, observa que foi comprado em Agosto de 1972 por Celia, na livraria Flynn, de Palma de Maiorca. Nessa época, ainda não a conhecia. Possivelmente, Celia chegou ao cavalo branco que aparece em Los muertos, antes que ele o fizesse.
Quando o coche atravessava a ponte de O’Connell, miss Callaghan, disse: - Dizem que ninguém atravessa a ponte de O’Donnell sem ver um cavalo branco. - Eu vejo um homem branco, desta vez – disse Gabriel. - Onde? – perguntou Mr. Bartell D’Arcy. Gabriel apontou para a estátua, em que havia farrapos de neve. Depois cumprimentou-a familiarmente e levantou a mão.
Este fragmento recorda-lhe uma frase de Cortázar ouvida misteriosamente um dia no metro de Paris: «Uma ponte é um homem a atravessar a ponte.» E pouco depois, pergunta-se se, quando for a Dublin, não gostaria de ir ver essa ponte, onde num espaço imaginário acaba de situar a ligação entre a era Gutenberg e a digital.»
[Enrique Vila-Matas, Dublinesca; em tradução para a Teorema]

Às vezes, lá calha...

«Hoje em dia os franceses não sabem comunicar tão bem como os britânicos. Basta observar como são as cabinas telefónicas de Londres e as de Paris. As inglesas não só são mais bonitas, como oferecem um espaço confortável e mais bem pensado para se relacionar através das palavras, não como as francesas, que são estranhas e pensadas para a imprescindível estética pedante do silêncio.»

11 de julho de 2010

Breve interlúdio musical

Passei pela jukebox do costume e saquei
O Coração das Trevas

Porque a Net fornece um novo dia

– Há café quente no baú em cima da banqueta, disse-me ele quando me aproximei, sem se virar. Fazias bem em te servires, acrescentou, visto que eu não me mexia. As madrugadas das Sirtes são frescas...
[Julien Gracq, A Costa das Sirtes; trad. Pedro Tamen, Edições António Ramos, 1979]

À mão de ler (53)

«Na manhã seguinte. curiosamente, despertou a sentir-se como não se sentia havia muito tempo, como se a tosse devastadora fosse uma tempestade que, após passar, o deixara quase renovado, sem que sentisse sequer a habitual falta de ar. Fanny pediu-lhe que ficasse na cama, mas ele recusou. Sentia-se cheio de uma energia deliciosa, e depois do pequeno-almoço pôs-se a escrever mais um capítulo do livro em que estava a trabalhar, uma história sombria e romântica, passada na Escócia. Em cada gesto seu havia uma sensação de urgência que o deixava intrigado e o deliciava. Estava ansioso por começar. Sentou-se, endireitou a pequena fileira de livros na escrivaninha, tirou algumas folhas de papel de debaixo do mata-borrão e mergulhou a pena no tinteiro.
Embora costumasse ditar para Lloyd ou Belle, por causa da cãibra de escrivão que se acrescentara recentemente à sua velha lista de maleitas, sempre que possível Stevenson preferia escrever ele próprio, para ver a história literalmente a espalhar-se pela página. Naquele dia, como por milagre, o trabalho corria muito bem; à luz forte do sol meridional, ele imaginava com facilidade o vento e a chuva da Escócia, a linguagem rica e cuidadosa dos seus antepassados. Uma vez comentara com Henry James que tinha vontade de suprimir o elemento visual dos seus livros. Ouvia pessoas a conversar, sentia-as agir, e para ele ficção era isso. Anotou os seus dois objectivos literários:
1.º Guerra ao adjectivo.
2.º Morte ao nervo óptico.
Naquele momento, via o vilão da sua narrativa atravessar a charneca durante a tempestade, sob o efeito das suas paixões, e ouvia-o justificar-se a si próprio perante o Senhor Deus dos Exércitos em frases que rolavam e ribombavam como trovões.»
[Alberto Manguel, Stevenson Sob As Palmeiras; trad. Paulo Henriques Britto, ASA, Junho 2003]

Nem sempre a lápis (54)

Duas mesas com duas cadeiras cada, ao longo do passeio em frente da minha. Vindo do meu lado esquerdo, surge um casal de meia-idade vestido para vir tomar café e apanhar o fresco de sexta-feira à noite. Ela senta-se na primeira cadeira da primeira mesa e ele puxa a segunda, da outra. Sentam-se e olham-se. Ele levanta-se, sem se desmanchar ou dar parte de fraco e, com ele na mão, aproxima-se da mesa da mulher: Esta tem cinzeiro.
Há muito tempo que não pedia uma esferográfica emprestada, precisamente para anotar uma observação tão francesa; como, por certo, a viria a considerar o editor Riba quando deu o salto para dentro de Dublinesca. Levanto-me, sem rumo certo, dou por mim no clube de vídeo a perguntar se têm Spider, de Cronenberg; tinham.

Às vezes, lá calha...

«Renunciou à juventude para procurar
a obra honesta de um catálogo imperfeito.»

10 de julho de 2010

Breve interlúdio musical

... com letra de Roberto Carlos, fiufiu...

Porque a Net fornece um novo dia

«É bom trabalhar nas Obras» (19)

«Por um momento, pondera não estar diante do monitor tantas horas como as habituais, e não exactamente pelo que Celia disse, embora isso também tenha muito influência, mas porque, por outro lado, há já algum tempo que diz que deveria dar uma longa oportunidade à vida, colocar-se desafios vitais distanciados da sua obsessiva tendência dos últimos tempos em permanecer imóvel em frente do monitor. Mas, logo a seguir, muda de opinião. Com os seus quase sessenta anos não consegue ter ideias para desafios vitais. Assim, decide finalmente mergulhar de novo, mais um dia, na Internet e no motor de busca do Google, onde nunca evita de dar rédea solta a um certo narcisismo e acaba por escrever primeiro o seu nome e, a seguir, o da editora. Sabe que, à parte de egocêntrico, tudo isso é claramente maníaco. Mas, mesmo assim, não quer renunciar a esse costume quotidiano. A carne é fraca.
De facto, essa atitude maníaca serve-lhe para aplacar a sua nostalgia de quando ia ao escritório e com Gauger, o seu secretário, passavam em revista tudo o que a imprensa dizia sobre os livros que publicavam. Sabe que, como substituta daquela actividade de despacho, a sua mania de agora é quase grotesca, mas, a ele, parece-lhe necessária para a sua saúde mental. Entra em muitos blogues para se informar sobre o que eles dizem dos livros que publicou. E se encontra alguém que diz algo minimamente incómodo, faz um comentário anónimo chamando ignorante ou imbecil a quem escreveu aquilo.»
[Enrique Vila-Matas, Dublinesca; em tradução para a Teorema]

Nem sempre a lápis (53)

Aprecio a trama de circunstâncias que acaba por me conduzir à descoberta de um autor. Se procurar «Manguel» no original da tradução de Diário Volúvel, não tenho dúvidas quanto ao número de entradas (ou localizações?) ao longo da biblioteca anotada de Vila-Matas. Na última ida à Teorema, saltou-me aos olhos o novo título de Sebald, ainda em provas, e lembrei-me de ter lido num blogue uma referência a um livro que me despertou a curiosidade confirmada, dois ou três autores depois, pelo novo romance de Alberto Manguel; Todos Os Homens São Mentirosos, é bem verdade e as senhoras então, nem se fala. Coloquei-o no bloco ao lado da cama, a aguardar o que Disse-me Um Adivinho. Aqui há dias – não leio jornais, nem na Net, e creio já ter referido o feito de também não ter televisão nem rádio, há mais de uma década livre de interferências –, durante a consulta do que a Net fornecia para um novo dia, deparei-me com a postagem de uma entrevista de Manguel ao Ípsilon. Repesquei de imediato um excerto ilustrado com a biblioteca do autor, entregue ao cuidado de quem de cuidado. A coisa fez eco, em Vila Real, acabadas três etapas do Diário de Miguel Torga. Esta tarde, enquanto lanchava cedo com uma amiga na esplanada, ela foi à livraria em frente – Obras Completas, tabaco e poesia incluída – e vi-a regressar com Stevenson Sob As Palmeiras, edição ASA de Junho de 2003, saldado por dois euros e meio.

São 74 páginas revistas da edição brasileira – samba-se nas entrelinhas – da extinta, suponho, colecção Literatura ou Morte, relativamente breve «ultimato» pela mão de Manuel Alberto Valente, que foi muito mais pródigo a dar-nos Pequenos Prazeres. É um daqueles livros que pertence à estirpe dos que nos lêem num suspiro, aqui entrecortado pela agonia física e como escritor de Stevenson, observada pela lúcida distanciação de Alberto Manguel.

«Somos todos personagens da mesma história, como você mesmo disse uma vez, e os nossos papéis são intermutáveis, até mesmo o papel do contador de histórias.»

Às vezes, lá calha...

«Uma ponte é um homem
a atravessar a ponte.»

9 de julho de 2010

Breve interlúdio musical

Porque a Net fornece um dia novo

Cupcake & calzone
para apaparicar a andropausa, pausa...

À mão de ler (52)

«Em Samoa, a nudez das mulheres, que tanto incomodava os missionários, nunca era feia. À noite, quando a gente da aldeia descia à praia para se banhar e ficava a chapinhar nas ondas com as crianças, os cabelos negros, fartos e emaranhados das mulheres abriam-se como anémonas na água, e os hibiscos que elas usavam atrás das orelhas flutuavam em torno dos seus corpos, como ilhas ígneas. Stevenson adorava ficar a vê-las do molhe, contemplando-lhes a pele escura, brilhante e dura como pedra vulcânica.
Ali, em Samoa, tudo o que outrora fora oculto, sussurrado, abotoado no mundo protegido da sua infância era escancarado - descarado, às claras - e, de início, aquilo havia sido de mais para os seus sentidos, sufocava-o, tal como perturbara Fanny, deixando-a impaciente e zangada. Porém eles haviam ficado e, com o passar dos anos, aquele mundo aberrante passou a encantá-los, e acabaram por se acostumar com a falta de reserva. E embora em casa, em Vailima, conservassem o decoro que convém a um cavalheiro escocês e respectiva esposa americana e família (dois enteados crescidos, a mãe idosa de Stevenson), agora rejubilavam-se com a explosão de cores e sons lá fora, ao ver um mundo que parecia estar a abrir-se constantemente, como uma flor de perfume intenso.»
[Alberto Manguel, Stevenson Sob As Palmeiras; trad. Paulo Henriques Britto, ASA, Junho 2003;
foto: Robert Louis Stevenson in bed; autor que não foi possível identificar.]

Nem sempre a lápis (52)

Se pudesse, gostaria de passar o resto dos meus dias no quarto seis do Pátio de La Luna; fora de época. Os outros, os intermédios, consumia-os a desejar voltar para casa e para Asilah; transumância. Pela primeira vez na vida, em sessenta e um anos, senti-me no centro do próprio equilíbrio, conformado com a convicção de que não voltarei lá; finalmente despojado, a olhar para o mesmo lado onde ficou o meu irmão.

Às vezes, lá calha...

«Um escritor que se converte em alguém não faz mais que degradar-se à condição de engraxador.»

8 de julho de 2010

Breve interlúdio musical

A não perder

Porque a Net fornece um novo dia

À mão de ler (51)

«[...] Ergueu as carnes da cadeira lentamente e pôs-se a caminho da mesa de outro casal.
Glória fixou Harry. “Cabrão de gordo! Atulha-se de merda de enfermeira às refeições...”
“Foi óptimo estar contigo, Glória, mas fiz uma viagem longa, preciso de repouso. Julgo que o doutor tem razão, acho-te um pouco melhor.”
Ela riu-se. Um rir sem alegria, teatral, de cor. “Não estou nada melhor; de facto, regredi…”
“Isso não é verdade, Glória…”
“A doente sou eu, cabeça-de-atum. Posso fazer o diagnóstico como ninguém.”
“Chamaste-me ‘cabeça-de-atum’!?”
“Nunca te disseram que tens uma cabeça de atum?”
“Não.”
“Quando te barbeares, vê bem. E cuidado, não cortes as guelras.”
“Vou embora… volto amanhã…”
“Da próxima traz o condutor.”
“De certeza que não precisas de nada?”
“Vai lá foder as putas do motel!”
“E se eu te trouxer a New York? Tu gostavas dessa revista…”
“Mete a New York no cu, cabeça-de-atum! E de seguida mete também a TIME!”
Harry apertou-lhe a mão com que ela se agredira. “Eu não te abandono, aguenta. Em breve ficarás boa…”
Glória não deu sinais de o ter ouvido. Harry levantou-se vagarosamente e dirigiu-se para a escada. A meio do lanço voltou-se para acenar. Glória não tugira.
Estavam às escuras, na maior, quando o telefone tocou.
Harry continuou, mas o telefone não se calava. Era incómodo. E a piça murchava.
“Merda”, disse, rolando. Acendeu a luz, pegou no auscultador. “Está?”
Era Glória. “Com que então a foder!”
“Glória, como é que te deixam telefonar a uma hora destas! Será que não te dão nada para dormir?”
“Por que levaste tampo tempo a atender?”
“Não costumas cagar? Pois apanhaste-me a meio de uma boa cagada.”
“Aposto que sim… E vais acabá-la mal te vejas livre do telefone.”
“Glória, foi essa tua maldita paranóia que pregou contigo aí onde estás.”
“Cabeça-de-atum, a minha paranóia tem sido o pressentimento de uma verdade oculta…”
“Olha que isso não faz sentido. Vai dormir. Irei ver-te amanhã.”
“Como queiras, cabeça-de-atum, vai lá acabar a FODA!”
Desligou. Sentada à ponta da cama, roupão vestido, Nan tinha o seu whiskey sobre a mesa de cabeceira. Acendeu um cigarro, cruzou as pernas.
“Então a tua mulherzinha?”
Harry, enchendo um copo, veio sentar-se-lhe ao lado.
“Lamento, Nan…”
“Lamentas o quê, quem? Ela ou eu ou o quê?”
Harry deu um trago na bebida. “Não vamos fazer disto nenhum drama.”
“Ah sim!? Que propões então que faça? Uma tragédia? Tentar talvez acabá-la? Ou preferes ir à retrete esgalhar uma?”
Harry fitou Nan. “Raios me partam, não armes em esperta. Tu sabias da situação tão bem como eu. Mas tu quiseste vir!”
“Não fosse eu, trazias algum coirão!”
“Oh merda, só faltava outra vez essa palavra.”
“Qual palavra? Qual palavra?” Nan despejou o copo e arremessou-o à parede.
Harry foi buscá-lo, encheu-lho de novo, e depois vazou mais álcool também para si.
Nan baixou os olhos sobre o copo, deu um gole e poisou-o. “Vou telefonar-lhe, vou contar-lhe tudo!”
“O caralho é que tu vais! Ela é tarada!”
"Tu é que és um cabrão tarado!”
Nisto o telefone toca de novo. O aparelho continuava onde Harry o havia deixado, a meio do quarto, no chão. Ambos pularam da cama direito a ele. Ao segundo toque caíam-lhe em cima, agarrando cada qual a sua extremidade do auscultador. Rebolaram pelo tapete, arquejando, pernas, braços, corpos, num desesperado amálgama, reflectido pelo espelho do tecto.»
[Charles Bukowski, Dá-me o Teu Amor; trad. Paulo da Costa Domingos, Hiena Editora, Lisboa, Setembro 1985]

Às vezes, lá calha...

«Não me conheço. O meu catálogo editorial parece ter ocultado para todo o sempre a pessoa que está por detrás dos livros que fui publicando. A minha biografia é o meu catálogo. Mas falta o homem que ali estava antes de me decidir a ser editor. Estou em falta, definitivamente.»

7 de julho de 2010

Breve interlúdio musical

A ver se nos entendemos

... eu e os meus livros, editados, não temos um bom relacionamento. Raramente os folheio e nem os tenho todos; andam por aí. Para não correr o risco de pensarem que estou a armar ó pedante, a fazer caixinha, peço à compreensível curiosidade que os procure aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

Podem crer que ficamos todos a ganhar.

Porque e Net fornece um novo dia

À mão de ler (50)


«Harry desceu os degraus que dão para o jardim. Muitos doentes se encontravam aí. Haviam-lhe dito que a sua mulher, Glória, também lá estava. Avistou-a sentada a uma mesa, sozinha. Apareceu-lhe pelas costas, de esguelha. Contornando a mesa, sentou-se diante dela. Glória permanecia hirta, muito pálida. Olhava sem o ver. A pouco e pouco deu por ele.
“É você o condutor?” indagou.
“O condutor de quê?”
“O condutor da verosimilhança.”
“Não, não sou eu.”
Estava pálida, os olhos pálidos, de um azul pálido.
“Como te sentes, Glória?”
A mesa era em ferro, pintada de branco, uma mesa para durar séculos. Com uma jarrinha de flores ao centro, flores mortas de tristeza, dependuradas nuns caules murchos.
“Enrabador de putas! Andas a foder esses coirões, Harry.”
“Não é verdade, Glória.”
“Elas chupam-ta, é?! Chupam-te a picha?”
“Estive para trazer a tua mãe, Glória, mas a gripe deitou-a abaixo.”
“Essa coruja está sempre por baixo de qualquer coisa… És tu o condutor?”
Os outros doentes continuavam ali, ou sentados às mesas, ou encostados às árvores, ou estendidos pela relva. Imóveis e silenciosos.
“A comida é boa, Glória? Já travaste amizade com alguém?”
“Horrível. Não. Enrabador de putas.”
“Queres que traga alguma coisa para leres? Que posso eu trazer?”
Glória não deu resposta. Ergueu apenas a mão direita à altura dos olhos, cerrou o punho e agrediu-se com toda a força no nariz. Num salto, Harry agarrou-a pelos pulsos. “Glória, por favor!”
Ela desata a chorar. “Não trouxeste chocolates.”
“Glória, disseste que detestavas chocolates.”
Desfazia-se em lágrimas. “Não detesto nada chocolates! Eu adoro chocolates!”
“Por favor, Glória, não chores… Eu vou trazer-te chocolates, tudo o que tu quiseres… Ouve, aluguei um quarto num motel aqui ao pé só para ficar perto de ti.”
Os seus pálidos olhos esbugalharam-se. “Num motel?! Estás lá metido com uma puta de merda! Juntos, a verem filmes porno, e têm espelhos no tecto do quarto!”
“Fico nas redondezas por uns dias, Glória”, disse Harry com suavidade. “Poderei trazer tudo o que tu peças”.
“Então traz-me o teu amor”, gritou Glória. “Por que raio não me dás tu o teu amor?”
Alguns doentes viraram-se para olhar.
“Glória, tenho a certeza de não haver ninguém assim como eu, capaz de cuidar de ti.”
“Querias trazer chocolates, não era? Pois mete os chocolates na peida!”
Harry retirou um cartão da carteira. Um cartão do motel. E estendeu-lho.
“Guarda, antes que me esqueça. Deixam-te fazer telefonemas? Telefona se precisares de qualquer coisa.”
Sem dizer palavra, Glória pegou no cartão, dobrou-o em quatro. Depois curvou-se para descalçar um sapato e meteu-o lá dentro, voltando a calçar-se.
Só nessa altura Harry avistou o doutor Jensen a atravessar o relvado direito a eles. Vinha radiante.
“Ora, ora, ora…”
“Olá, doutor Jensen” disse Glória sem vivacidade.
“Posso sentar-me?” perguntou o médico.
“Faça favor” disse Glória.
Homem gordo, o médico. Tresandava a gordura, a responsabilidade e a autoritarismo. As sobrancelhas, não parecia, mas eram de facto carregadas. Dir-se-ia quererem chegar àquela boca redonda e húmida e aí levar sumiço, mas a vida não deixava.
O médico olhou Glória. Olhou Harry. “Ora, ora, ora” repetiu. “O que conseguimos até agora, põe-me realmente satisfeito…”
“É verdade, doutor, estava mesmo neste instante a dizer ao Harry como me sinto equilibrada, como me têm feito bem as consultas e a terapia de grupo. Perdi imenso daquela estúpida raiva, da minha frustração e até dessa destrutiva auto-comiseração…”
Glória tinha as mãos sobre o regaço, sorria.
O médico sorriu para Harry. “Fez uma recuperação notável, a sua senhora.”
“Sim, sim” retorquiu Harry, “nota-se.”
“Acho que será questão de pouco mais tempo, e Glória estará de volta a casa, Harry.”
“Doutor” pediu Glória, “dá-me um cigarro?”
“Com certeza.” E estendeu-lhe um maço de cigarros de fantasia e um isqueiro doirado aceso. Glória deu uma passa lenta…
“Tem umas belíssimas mãos, doutor.”
“Sim, querida. Obrigado.”
“E uma simpatia redentora, uma simpatia que cura…”
“Bom, fazemos o melhor que podemos cá na casa… E agora, se me desculpam, tenho de conversar com os outros pacientes.” [...]»
[Charles Bukowski, Dá-me o Teu Amor; trad. Paulo da Costa Domingos, Hiena Editora, Lisboa, Setembro 1985]

Às vezes, lá calha...

«Pressentindo que o seu querido autista não tardará a sentar-se diante do computador, vem dizer-lhe que os que usam o Google, habitualmente vão perdendo a capacidade de realizar leituras literárias a fundo, o que só demonstra que é preciso vincular a sabedoria digital, em muitas ocasiões, com a estupidez mundial dos últimos tempos.»

6 de julho de 2010

Breve interlúdio musical

via pó do Bósforo

Larápia a dar na nicotina... à mão

Calma, mentes perversas...

Porque a Net fornece um novo dia

... põe as bancas num alvorço

«É bom trabalhar nas Obras» (18)

«Caminha pelas inóspitas ruas do seu East End londrino, pelas frias e velhas rotas da sua infância irrecuperável: perdeu por completo a ligação com o mundo, não sabe quem é; talvez nunca o tenha sabido. Agora Riba crê ouvir estranhas vozes na penumbra, e interroga-se se não será o génio da infância que um dia pareceu ausentar-se para sempre. Ou talvez o fantasma do escritor genial que, como editor, sempre desejou descobrir? Arrastou toda a vida um profundo mal-estar por essas ausências. No entanto, é muito pior o ruído surdo de certas presenças, o zunzum do mal do autor, por exemplo, um zumbido que não cessa, uma verdadeira mosca impertinente. Esse estranho zumbido, é um mal natural dos editores. Alguns escutam-no mais do que outros, mas nenhum se livra dele completamente. Há casos extremos, embora Rica nunca tenha estado entre estes. São os daqueles editores – os que têm mais agudizado o mal do autor – que prefeririam publicar livros que não tivessem sido escritos por ninguém, pois assim evitariam o zumbido e veriam, por alto, como a glória do que editaram seria só para eles. Do mesmo modo que a morte acolhe no seu interior o mal da morte, quer dizer, o seu próprio mal, há editores que são corroídos pela sua hidra mais íntima, o mal do autor, que é um rumor de fundo, cujo ruído recorda o estalido de umas folhas secas. Um dia, em Amberes, Riba falou do estalido a Hugo Claus. Falou-lhe da sua condenação a conviver com o mal do autor e comentou-lhe que o seu cérebro estava sempre perfurado pela dor, por esse tenaz monstro íntimo do cabrão do zumbido, que parecia estar sempre a recordar-lhe que não podia ser nada na vida sem ele, sem o mal, sem aquele ruído de fundo, sem aquele estalido tão impiedoso, implacável; sempre a recordar-lhe que o mal, o rumor das folhas secas, era peça imprescindível do mecanismo diabólico da sua relojoaria mental. Hugo Claus, tão famoso por La pena de Bélgica, compadeceu-se dele em silêncio e a seguir limitou-se a comentar: - A dor do editor.»
[Enrique Vila-Matas, Dublinesca; em tradução para a Teorema]

Às vezes, lá calha...

«Uma jovem de Londres, um dia deixou esta carta:
“Vou suicidar-me, a comida do papá está no forno.”»

5 de julho de 2010

Breve interlúdio musical

Olhá Trama a dar Barraca...

Porque a Net fornece um novo dia

"A escola não tem culpa, é a nossa sociedade que é culpada. A escola, a universidade, deveriam ser o lugar onde a imaginação tem campo livre, onde se aprende a pensar, a reflectir, sem qualquer meta. Mas isso é algo que estamos a eliminar em todo o mundo. Estamos a transformar os centros de ensino em centros de treino. Estamos a criar escravos. Somos a primeira sociedade que entrega os seus filhos à escravidão, sem qualquer sentimento de culpa.»
[Alberto Manguel, lido em entrevista, aqui]

Nem sempre a lápis (51)

Saio do universo estranho de Felisberto Hernández, baço e dessincronizado como o cinema mudo, para me começar a integrar no ambiente familiar do editor Ribas, personagem central de Dublinesca e meu futuro interlocutor nos próximos tempos. Saio de uma direcção de actores, notáveis, que escapa ao cânone cinematográfico; actuam por conta própria, distanciam o realizador para o papel secundário de espectador do enredo de uma recordação. Tanto no regresso a casa de Ribas, editor retirado e convicto de que encerra uma espécie em vias de extinção, a do editor culto e literário, como logo em casa dos pais, no regresso de uma viagem a Lyon que não lhes chega a contar e onde não saiu do quarto de um hotel, ocupado a «redigir uma teoria geral do romance», paira um ambiente de «insustentável leveza familiar». Já apareceu Joyce, Dublinesca é a inesperada tomada de decisão, durante a conversa de surdos em casa dos pais, de Ribas ir a Dublin no dia 16 de Junho, precisamente a data em que os pais fazem 61 anos de casados; já apareceram Gracq, Magris, Walser, Perec, o Google e Gutenberg, Artaud e o bastão de Saint Patrick, mas também Catherine Deneuve, Monica Vitti e Antonioni, hikikomoris e Cronenberg. O discurso é curto, mais incisivo, mais, se possível, arguto, não deixando de ser curioso que o último romance de Vila-Matas coincida com a mudança de editor, para nos falar do mal-estar e da soberba capacidade de autismo, de um que se debate com o mal do autor. «Há casos extremos, embora Riba nunca se tenha encontrado entre estes. São os daqueles editores – os que têm mais agudizado o mal do autor – que prefeririam publicar livros que não tivessem sido escritos por ninguém, pois assim evitariam o zumbido e veriam, por alto, como a glória do que editaram seria só para eles.»

Às vezes, lá calha...

«Veio-me à ideia a única anedota que ouvira a respeito de adivinhos. "Nos próximos dez anos a tua vida será horrível, terás grandes problemas e nada te correrá bem", diz o adivinho. "E depois?", pergunta, ansioso, o cliente. "Depois? Depois habituas-te!"»

4 de julho de 2010

Breve interlúdio musical

Porque a Net fornece um novo dia

«É bom trabalhar nas Obras» (17)

«Desde há dias, que Riba se interessa por tudo o que gire à volta do tema dos hikikomori, que são autistas informáticos, jovens japoneses que, para evitar a pressão exterior, reagem com um completo retraimento social. De facto, a palavra japonesa hikikomori significa isolamento. Fecham-se num quarto da casa dos pais durante períodos de tempo prolongados, geralmente anos. Sentem-se tristes e quase não têm amigos, e a grande maioria dorme ou deita-se ao longo do dia, e vê televisão ou concentra-se no computador durante a noite. Riba interessa-se muito pelo tema, porque desde que deixou a editora e o álcool, está a fechar-se em si mesmo e a converter-se, com efeito, num misantropo japonês, num hikikomori. - Vou a Dublin a um funeral pela era da imprensa, pela era dourada de Gutenberg – diz a Celia. Não sabe como foi, mas saiu-lhe de dentro. Ela olha-o com se quisesse atravessá-lo com os olhos. Silêncio. Inquietação. Rectifica antes que ela se ponha a gritar. - A ver se entendes. O funeral, sempre demorado, da literatura como arte em perigo. Embora a pergunta devesse ser: qual perigo? Ele mesmo nota que se meteu numa embrulhada. - Compreender-te-ia muito bem – prossegue – se me perguntasses que perigo. Porque, de facto, o que mais me interessa desse perigo é a conotação literária que tem.»
[Enrique Vila-Matas, Dublinesca; em tradução para a Teorema]

À mão de ler (49)

«O romance foi recebido com simpatia pela crítica que, com profundidade, o rigor e a sensibilidade que caracterizam o seu lúcido discurso, escreveu:
Gostei muito do livro de Ander. É sobre um rapaz que escreve guiões das coisas que passam no telejornal, na bola, etc. A ideia é original e gostei. Também gostei porque introduz entre os capítulos digamos que uns anúncios de publicidade que nos podem ser úteis no caso nos apetecer comer uma pizza e não conseguirmos encontrar o número de telefone e pegamos no livro e encontramo-lo e enquanto esperamos pela pizza sempre se lêem umas linhas. A linguagem que utiliza é muito rica e variada, abundando os nomes comuns ou substantivos, os adjectivos de modo e os verbos como olhar, dizer, pensar, etc., por exemplo. Também gostei da foto dele, embora me pareça mais velho do que diz. Conheci-o na apresentação do livro e pareceu-me um gajo muito simpático e conversador, que estava de acordo comigo em tudo e depois convidaram-me para jantar e fiquei corado, é verdade. Depois fomos até umas discotecas com gente do mundo das letras. Estivemos ali na maior, embora os calamares me tivessem assentado mal. Análise do conteúdo: de salientar que, como hoje a falta de tempo é um problema de todos e toda a gente anda cheia de pressa para chegar a todo o lado, como o trabalho, a universidade, comer, etc., penso que o livro está escrito aos pedacinhos por causa disso. As personagens são muito reais, possuem muita entidade psicológica, e parecem completamente extraídos da mais crua sociedade. O protagonista é individualista, embora possua bom coração; é sincero, trabalhador, zeloso e gosta de dormir. A sua namorada não aparece muito, mas imagino-a bonita e compreensiva e com os olhos azuis, e creio que é importante para ele. A minha opinião pessoal, em resumo, é que o livro é bastante bom e trata problemas actuais com uma linguagem rica e variada, como referi.
O hispanismo estado-unidense, pelo seu lado, não perdeu tempo a prestar atenção a este romance, que serviria para exemplificar as atitudes de todas as escolas interpretativas, desde as mais tradicionais até às situadas nos extremos pós-estruturalistas, passando pela sociologia da literatura, o marxismo e os chamados Peace Studies. Durante lustros, Ander Alkarria seria chamado de todos os lugares inimagináveis para falar sobre o seu romance. A sua fama começou a decair até ser completamente esquecido quando, enjoado de comparências públicas, coquetéis e universidades de Verão, se dedicou a escrever a sério.»
[Antonio Orejudo Utrilla, Vantagens em Viajar de Comboio; em breve, com a chancela das Edições 70]

Às vezes, lá calha...

«Tinha tempo para pensar no tempo, em como por instinto acho sempre o passado mais fascinante do que o futuro, em como o presente muitas vezes me aborrece, levando-me a imaginá-lo da maneira como o recordarei, para conseguir usufruí-lo no momento.»

3 de julho de 2010

Breve interlúdio musical

Crianças, compreende-se...

À mão de ler (48)

«No final ela morre e ele fica sozinho, embora na realidade tivesse ficado sozinho vários anos antes da morte dela, de Emília. Digamos que ela chama-se ou chamava-se Emília e que ele chama-se, chamava-se e continua a chamar-se Júlio. Júlio e Emília. No final Emília morre e Júlio não morre. O resto é literatura.
Gazmuri não é importante, Júlio é que é importante. Gazmuri tinha publicado seis ou sete romances que em conjunto formam uma série sobre a história chilena recente. Quase ninguém os compreendeu bem, salvo talvez Júlio, que os leu e releu várias vezes.Como é que Gazmuri e Júlio acabam por se unir?
Seria excessivo dizer que se unem.
Mas unem: um sábado de Janeiro Gazmuri espera Júlio num café de Providencia. Acaba de pôr ponto final num novo romance: cinco cadernos Colón inteiramente manuscritos. Tradicionalmente é a mulher quem se encarrega de lhe transcrever os cadernos, mas desta vez ela não quer, está cansada. Está cansada de Gazmuri, não lhe fala há duas semanas, por isso Gazmuri sente-se esgotado e desamparado. Mas a mulher de Gazmuri não é importante, o próprio Gazmuri importa muito pouco. O velho telefona, então, à sua amiga Natália e a sua amiga Natália diz-lhe que está muito ocupada para transcrever o romance, mas recomenda-lhe Júlio.
Escreves à mão? Hoje em dia ninguém escreve à mão, observa Gazmuri, que não espera a resposta de Júlio. Mas Júlio responde, responde que não, que usa quase sempre o computador.
Gazmuri: então não sabes do que falo, não conheces a pulsão. Há uma pulsão quando escreves no papel, um ruído do lápis. Um estranho equilíbrio entre o cotovelo, a mão e o lápis. Júlio fala, mas não se escuta o que diz. Alguém deveria aumentar-lhe o volume. A voz rouca e intensa de Gazmuri, pelo contrário, retumba, funciona:
Escreves romances, esses romances de capítulos curtos, de quarenta páginas, que estão na moda?
Júlio: Não. E acrescenta, apenas para dizer algo: O senhor recomenda-me que escreva romances?
Repara nas perguntas que fazes. Não te recomendo nada, não recomendo nada a ninguém. Julgas que marquei encontro contigo neste café para te dar conselhos?»
[Alejandro Zambra, Bonsai; trad. Jorge Fallorca, Teorema - Fevereiro 2008]

Às vezes, lá calha...

«Nem sempre começo [um livro] na primeira página e o leio de seguida até ao fim. Leio apenas uma cena, ou algo acerca de uma personagem, do mesmo modo que se encontra um amigo e se fala com ele durante uns minutos.»

2 de julho de 2010

Breve interlúdio musical

... e o Paulo

mandou-os, pura e fotograficamente, à fava.

Porque a Net fornece um novo dia

Logo à noite, vou até À Barraca...
Ando necessitado de umas luzes de jardinagem

Estou para aqui assim...

«Fiz esta curta há pouco tempo com um amigo, Diogo Andrade Pessoa, inserido num concurso lançado pela Santa Casa da Misericórdia, Clube Português de Artes e Ideias e Sapo.vídeos, no âmbito do Ano Internacional Contra a Fome e a Pobreza. Fizémos 10 entrevistas a pessoas em situação de exclusão, tudo numa tarde, sem nada programado, sem ser o equipamento. Foi muito interessante abordar as pessoas, sem muito para lhes dizer... só umas perguntas, uma ideia, uma câmara e duas pessoas.
A ideia pode não ficar clara para todos, mas tento explicar: para fazer este vídeo, ou seja, para concorrer a este concurso, precisámos de várias «facilidades», p. ex. acesso a uma câmara, ter um amigo que que soubesse manuseá-la, ter um computador e internet, para editar e inserir o vídeo na net., saber ler e escrever para preencher os formulários, ter um amigo, ou mais... enfim.... é preciso muito daquilo que... quem não tem, não tem. «Olha, eu não tenho vitém, e estou prá qui assim...» O concurso é lançado para essas pessoas, mas... automaticamente essas pessoas são excluídas. Dá para perceber. Se gostarem, votem no vídeo, uma vez que só vai a jurí o mais votado pelo público. E Divulguem pelo máximo de contactos.»
... e ela chama-se Maria do Mar Liz, foi revisora na Esfera dos Livros.

À mão de ler (47)

«Passados treze anos, não só me lembro distintamente de todos os desenhos da irmã Irma, como há quatro deles que às vezes me parece recordar demasiado bem, para mal da minha paz de espírito. A melhor obra dela era uma aguarela, em papel pardo. (O papel pardo, especialmente o de embrulho, é muito agradável, muito suave para pintar. São muitos os artistas experientes que o usaram quando não tinham em mãos alguma coisa importante ou grandiosa.) A aguarela, apesar das suas dimensões limitadas (tinha uns vinte centímetros por vinte e cinco), era uma representação pormenorizada de Cristo a ser levado para o sepulcro no horto de José de Arimateia. No canto direito em primeiro plano, dois homens que pareciam ser criados de José transportavam desajeitadamente o corpo. José de Arimateia seguia atrás deles – talvez, dadas as circunstâncias, um tudo-nada empertigado de mais. A uma distância respeitosa atrás de José vinham as mulheres da Galileia, misturadas numa multidão, heterogénea, talvez capaz de ter derrubado cercas, de carpideiras, transeuntes, crianças, e nada menos do que três ímpios rafeiros travessos. Para mim, a figura central da aguarela era uma mulher à esquerda do primeiro plano, voltada para o observador. Com a mão direita erguida, fazia freneticamente sinal a alguém – o filho, talvez, ou o marido, ou possivelmente o observador – para largar tudo e vir depressa. Duas mulheres, na fila da frente da multidão, tinham auréolas. Não tendo nenhuma Bíblia à mão, não podia ir além de conjecturas quanto à identidade delas. Mas reparei imediatamente em Maria Madalena. Pelo menos, estava convencido de que era ela. Estava no centro, em primeiro plano, caminhando aparentemente destacada da multidão, os braços caídos ao longo do corpo. Não se via nenhum sinal de luto, por assim dizer, estampado na cara – na verdade, nenhum sinal exterior das suas recentes e invejáveis ligações com o Defunto. O rosto dela, como todos os outros na pintura, tinha sido feito numa tinta cor de pele, de baixo preço, já preparada. Era penosamente evidente que a própria irmã Irma achara a cor insatisfatória e tinha feito o seu digno e inexperiente melhor para até certo ponto a esbater. Não havia nenhumas outras falhas sérias na aguarela. Nenhumas, já se sabe, para quem não quisesse pôr-se com sofismas. Era, em qualquer sentido decisivo, uma obra de artista, em que aparecia um talento muito, muito disciplinado e Deus sabe quantas horas de trabalho árduo.»
[J. D. Salinger, Nove Contos; trad. José Lima, Difel, Setembro 2005]

Às vezes, lá calha...

«Felizmente, Fevereiro é um mês bastante bom, por isso ainda estarei bem. Todos os meses são bastante bons, mas não há suficientes.»

1 de julho de 2010

Breve interlúdio musical

E agora, estimados seguidores, leitores e folheadores,
é com o maior prazer que vos apresento
a minha ex-colega da Antena 2/RDP2...

Desculpe, mas não se importa de repetir...

«Depois de requalificada a Estrada Nacional 125 o ministro não descarta a hipótese de serem colocadas portagens na Via do Infante, reafirmando a política do Governo quanto às SCUT.»

... não é por nada, é só para a gente - os utilizadores - se mijar a rir, enquanto enfia mais uma roda num buraco... enquanto continua a praticar golf rodoviário no Allgarve

Porque a Net fornece um novo dia

A dois passos, uma
da outra

À mão de ler (46)

«Os únicos que não se mexeram foram os homens embriagados, sujos e com a barba por fazer, que estavam agachados junto de dois postes da luz a sorrir filosoficamente para as oportunidades que estavam a perder.
Desfiz o saco e distribuí pelos amigos e familiares os óleos, os pozinhos, os embrulhinhos mágicos e todos os outros amuletos da sorte que acumulara pelo caminho. Só não consegui desfazer-me da lembrança inquietante daquela enorme massa de gente desesperada, desorientada, ávida e irada, que, do Vietname à China, da Mongólia à Rússia, deixara para trás.
Se tivesse viajado de avião, nunca a teria visto»
[Tiziano Terzani, Disse-me Um Adivinho; trad. de Margarida Periquito, Tinta-da-China, Novembro de 2009]

Nem sempre a lápis (50)

Acabo Disse-me Um Adivinho com a sensação de termos viajado juntos. «Numa viagem assim, quem chega nunca é quem partiu», lê-se na contracapa; o mesmo é válido para o leitor. Comecei a lê-lo já na posse da almejada aviadora, onde ainda não me sentei a ler, levei-o para o Sul, mas não o abri em Asilah, apeei-me dele, com um misto de enternecida saudade, no território natural da cama. A viagem não tem distância. Repare-se no caso de Theroux; um dia, apanha um comboio suburbano nos Estados Unidos e desembarca de um de longo curso na Patagónia. Durante o ano de 1993, a conselho de um adivinho, Terzani não viajou de avião e recuperou, entre outras, a noção de viagem e de fronteira; a transposição desse vazio entre culturas, idiomas, crenças, regimes, evocações também. Hoje, duvido que defendesse o sentimento de que o avião as tenha abolido. Há treze anos que me mantenho firmemente terrestre e anfíbio de ferryboat, mas pelo que leio e ouço contar aos praticantes da arte de Ícaro, a era Bush transformou os aeroportos em fronteiras com cortina de ferro pós-maoísta e neo-fascista.
Não me sinto perseguido por preencher o boletim de entrada e saída de Tânger, durante a viagem, mencionando o destino, alojamento, profissão, motivo, origem, residência. Não vou lá gamar nada nem com o espírito colonizador de promover novas oportunidades, mas para fruir a velha e ainda atrasada que me faz viajar no tempo; estático, na raia entre dois tempos. Por outro lado, se me der uma coisinha ou trocarem por uma junta de camelos, sempre se sentem todos mais descansados. Só trouxe uma garrafa de água de Chaouen para trocá-la pela da Serra da Estrela que me acompanhava aqui ao lado há dois anos, também de meio litro. Há pouco, quando bebi um gole, lembrei-me de uma marca muito corrente que detesto, sem me ocorrer o nome. Foi ao arrolhar a garrafa apresentada em Asilah, que reparei na cor diferente da tampa e li, gravado, Sidi ali; lapsos, nunca atribuíveis ao meu espírito nos conformes; arrumação de cegueira mental.

Às vezes, lá calha...

«O paradoxo é evidente: tendo deixado de acreditar na vida depois da morte, o homem frio sustenta a sua angústia com a ilusão da imortalidade. Onde vai ele buscar essa ilusão? À capacidade de criar. Néscios aqueles que se julguem imortais por se terem transformado em máquinas produtivas.»