«Riba volta a contar-lhe como passou um dia inteiro em Lyon, sem falar com ninguém e a arquitectar uma teoria geral do romance. E Javier acaba por ficar muito nervoso. Os escritores não suportam lá muito bem que os editores façam os seus pinos literários e Javier acaba por interromper Riba para lhe dizer que já lhe tinha dito, no outro dia, que ficava contente que em Lyon tivesse experimentado escrever algo, mas que não há nada mais francês do que uma teoria geral para os romances.
13 de julho de 2010
«É bom trabalhar nas Obras» (21)
«Riba volta a contar-lhe como passou um dia inteiro em Lyon, sem falar com ninguém e a arquitectar uma teoria geral do romance. E Javier acaba por ficar muito nervoso. Os escritores não suportam lá muito bem que os editores façam os seus pinos literários e Javier acaba por interromper Riba para lhe dizer que já lhe tinha dito, no outro dia, que ficava contente que em Lyon tivesse experimentado escrever algo, mas que não há nada mais francês do que uma teoria geral para os romances.
Nem sempre a lápis (55)
Acabo de traduzir o último parágrafo da página 85 de Dublinesca – «Têm gostos literários coincidentes, desde Roberto Bolaño (com quem os dois conviveram amigavelmente durante uma época) até Vilém Vok.» – e faço o que tenho a fazer: abro o Google e pesquiso o constante autor de El centro. O nome soava-me desde a primeira vez que o li, recuperado entre o eco da população que habita Diário Volúvel, sem dúvida. Googlei-o na Web, sem grandes resultados para idêntica disposição, optando pela visibilidade da imagem; através delas, deparei-me com a curiosa coincidência de mais já andarem ao mesmo: «buscando a Vilém Vok». Acabei por me desinteressar dele, entretido a folhear dois blogues com direito a Favoritos; vitaminei substancialmente o pequeno-almoço, digamos assim. Num deles, Vortex, a autora deixa no ar a provocação de Vok ser o próprio Vila-Matas, e porque não? Não foi ele que disse numa entrevista, creio, mas refere pelo menos num dos seus últimos livros que Jorge Herralde, o seu editor até Dublinesca, andava a escrever o seu próximo romance? Fiz também o que faço sempre, ver o BI virtual do autor, o tal profile, onde se lê mais do que consta nos campos por cada um considerados como obrigatórios. Foi então que se me deparou esta coisa disparatada – ajudado pela tradução, hoje tive um dia muito disponível – de prestar mais atenção aos signos do que ao sexo, à ocupação, à idade, já me habituei, e verificar que a maioria não só o comunica, como o faz acompanhar pelo correspondente chinês; recebe, hospitaleira, a tradução, a dobragem. Falinhas mansas do marketing; nem lhes passa pela cabeça que começou tudo com o famoso e tão disputado embaixador cultural, o Livro Vermelho, responsável por transtornar irremediavelmente um número lamentável de jovens da minha curiosa geração e da caricatura que se lhe seguiu. Já me disseram, os mais informados, que o Vietname era para cotas; haveria qualquer coisa no Iraque, mas não tinham a certeza se viram em DVD. Entre tantas outras irreversíveis mutações, ocorreu-me a possibilidade da Net estimular um relacionamento – se é que já não existe, embrionado nos blogues – em que as pessoas passam a apresentar-se pelo signo: Gémeos, muito prazer; Escorpião, outra vez?, compatibilidades e aversões espontaneamente esclarecidas com beijos e abraços, com um voltar de costas e um par de coices, com sedução travestida de jogo à gata e ao rato. Gramava à brava ver, e acho que já vi a coisa mais longe do que o simples pretexto de me levantar para devorar – é o termo – um pastel de feijão e ligar o portátil; em brasa, pudera.Às vezes, lá calha...
12 de julho de 2010
À mão de ler (54)
«É bom trabalhar nas Obras» (20)
Às vezes, lá calha...
11 de julho de 2010
Porque a Net fornece um novo dia
À mão de ler (53)
Nem sempre a lápis (54)
Às vezes, lá calha...
«Renunciou à juventude para procurar
10 de julho de 2010
«É bom trabalhar nas Obras» (19)
De facto, essa atitude maníaca serve-lhe para aplacar a sua nostalgia de quando ia ao escritório e com Gauger, o seu secretário, passavam em revista tudo o que a imprensa dizia sobre os livros que publicavam. Sabe que, como substituta daquela actividade de despacho, a sua mania de agora é quase grotesca, mas, a ele, parece-lhe necessária para a sua saúde mental. Entra em muitos blogues para se informar sobre o que eles dizem dos livros que publicou. E se encontra alguém que diz algo minimamente incómodo, faz um comentário anónimo chamando ignorante ou imbecil a quem escreveu aquilo.»
Nem sempre a lápis (53)
São 74 páginas revistas da edição brasileira – samba-se nas entrelinhas – da extinta, suponho, colecção Literatura ou Morte, relativamente breve «ultimato» pela mão de Manuel Alberto Valente, que foi muito mais pródigo a dar-nos Pequenos Prazeres. É um daqueles livros que pertence à estirpe dos que nos lêem num suspiro, aqui entrecortado pela agonia física e como escritor de Stevenson, observada pela lúcida distanciação de Alberto Manguel.
«Somos todos personagens da mesma história, como você mesmo disse uma vez, e os nossos papéis são intermutáveis, até mesmo o papel do contador de histórias.»
9 de julho de 2010
À mão de ler (52)
Nem sempre a lápis (52)
8 de julho de 2010
À mão de ler (51)
Harry continuou, mas o telefone não se calava. Era incómodo. E a piça murchava.
“Merda”, disse, rolando. Acendeu a luz, pegou no auscultador. “Está?”
Era Glória. “Com que então a foder!”
“Glória, como é que te deixam telefonar a uma hora destas! Será que não te dão nada para dormir?”
“Por que levaste tampo tempo a atender?”
“Não costumas cagar? Pois apanhaste-me a meio de uma boa cagada.”
“Aposto que sim… E vais acabá-la mal te vejas livre do telefone.”
“Glória, foi essa tua maldita paranóia que pregou contigo aí onde estás.”
“Cabeça-de-atum, a minha paranóia tem sido o pressentimento de uma verdade oculta…”
“Olha que isso não faz sentido. Vai dormir. Irei ver-te amanhã.”
“Como queiras, cabeça-de-atum, vai lá acabar a FODA!”
Desligou. Sentada à ponta da cama, roupão vestido, Nan tinha o seu whiskey sobre a mesa de cabeceira. Acendeu um cigarro, cruzou as pernas.
“Então a tua mulherzinha?”
Harry, enchendo um copo, veio sentar-se-lhe ao lado.
“Lamento, Nan…”
“Lamentas o quê, quem? Ela ou eu ou o quê?”
Harry deu um trago na bebida. “Não vamos fazer disto nenhum drama.”
“Ah sim!? Que propões então que faça? Uma tragédia? Tentar talvez acabá-la? Ou preferes ir à retrete esgalhar uma?”
Harry fitou Nan. “Raios me partam, não armes em esperta. Tu sabias da situação tão bem como eu. Mas tu quiseste vir!”
“Não fosse eu, trazias algum coirão!”
“Oh merda, só faltava outra vez essa palavra.”
“Qual palavra? Qual palavra?” Nan despejou o copo e arremessou-o à parede.
Harry foi buscá-lo, encheu-lho de novo, e depois vazou mais álcool também para si.
Nan baixou os olhos sobre o copo, deu um gole e poisou-o. “Vou telefonar-lhe, vou contar-lhe tudo!”
“O caralho é que tu vais! Ela é tarada!”
"Tu é que és um cabrão tarado!”
Nisto o telefone toca de novo. O aparelho continuava onde Harry o havia deixado, a meio do quarto, no chão. Ambos pularam da cama direito a ele. Ao segundo toque caíam-lhe em cima, agarrando cada qual a sua extremidade do auscultador. Rebolaram pelo tapete, arquejando, pernas, braços, corpos, num desesperado amálgama, reflectido pelo espelho do tecto.»
[Charles Bukowski, Dá-me o Teu Amor; trad. Paulo da Costa Domingos, Hiena Editora, Lisboa, Setembro 1985]
Às vezes, lá calha...
7 de julho de 2010
A ver se nos entendemos
... eu e os meus livros, editados, não temos um bom relacionamento. Raramente os folheio e nem os tenho todos; andam por aí. Para não correr o risco de pensarem que estou a armar ó pedante, a fazer caixinha, peço à compreensível curiosidade que os procure aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.
Podem crer que ficamos todos a ganhar.
À mão de ler (50)
Às vezes, lá calha...
6 de julho de 2010
«É bom trabalhar nas Obras» (18)
«Caminha pelas inóspitas ruas do seu East End londrino, pelas frias e velhas rotas da sua infância irrecuperável: perdeu por completo a ligação com o mundo, não sabe quem é; talvez nunca o tenha sabido.
Agora Riba crê ouvir estranhas vozes na penumbra, e interroga-se se não será o génio da infância que um dia pareceu ausentar-se para sempre. Ou talvez o fantasma do escritor genial que, como editor, sempre desejou descobrir? Arrastou toda a vida um profundo mal-estar por essas ausências. No entanto, é muito pior o ruído surdo de certas presenças, o zunzum do mal do autor, por exemplo, um zumbido que não cessa, uma verdadeira mosca impertinente.
Esse estranho zumbido, é um mal natural dos editores. Alguns escutam-no mais do que outros, mas nenhum se livra dele completamente. Há casos extremos, embora Rica nunca tenha estado entre estes. São os daqueles editores – os que têm mais agudizado o mal do autor – que prefeririam publicar livros que não tivessem sido escritos por ninguém, pois assim evitariam o zumbido e veriam, por alto, como a glória do que editaram seria só para eles.
Do mesmo modo que a morte acolhe no seu interior o mal da morte, quer dizer, o seu próprio mal, há editores que são corroídos pela sua hidra mais íntima, o mal do autor, que é um rumor de fundo, cujo ruído recorda o estalido de umas folhas secas.
Um dia, em Amberes, Riba falou do estalido a Hugo Claus. Falou-lhe da sua condenação a conviver com o mal do autor e comentou-lhe que o seu cérebro estava sempre perfurado pela dor, por esse tenaz monstro íntimo do cabrão do zumbido, que parecia estar sempre a recordar-lhe que não podia ser nada na vida sem ele, sem o mal, sem aquele ruído de fundo, sem aquele estalido tão impiedoso, implacável; sempre a recordar-lhe que o mal, o rumor das folhas secas, era peça imprescindível do mecanismo diabólico da sua relojoaria mental.
Hugo Claus, tão famoso por La pena de Bélgica, compadeceu-se dele em silêncio e a seguir limitou-se a comentar:
- A dor do editor.»Às vezes, lá calha...
5 de julho de 2010
Porque a Net fornece um novo dia
Nem sempre a lápis (51)
Saio do universo estranho de Felisberto Hernández, baço e dessincronizado como o cinema mudo, para me começar a integrar no ambiente familiar do editor Ribas, personagem central de Dublinesca e meu futuro interlocutor nos próximos tempos. Saio de uma direcção de actores, notáveis, que escapa ao cânone cinematográfico; actuam por conta própria, distanciam o realizador para o papel secundário de espectador do enredo de uma recordação. Tanto no regresso a casa de Ribas, editor retirado e convicto de que encerra uma espécie em vias de extinção, a do editor culto e literário, como logo em casa dos pais, no regresso de uma viagem a Lyon que não lhes chega a contar e onde não saiu do quarto de um hotel, ocupado a «redigir uma teoria geral do romance», paira um ambiente de «insustentável leveza familiar». Já apareceu Joyce, Dublinesca é a inesperada tomada de decisão, durante a conversa de surdos em casa dos pais, de Ribas ir a Dublin no dia 16 de Junho, precisamente a data em que os pais fazem 61 anos de casados; já apareceram Gracq, Magris, Walser, Perec, o Google e Gutenberg, Artaud e o bastão de Saint Patrick, mas também Catherine Deneuve, Monica Vitti e Antonioni, hikikomoris e Cronenberg. O discurso é curto, mais incisivo, mais, se possível, arguto, não deixando de ser curioso que o último romance de Vila-Matas coincida com a mudança de editor, para nos falar do mal-estar e da soberba capacidade de autismo, de um que se debate com o mal do autor. «Há casos extremos, embora Riba nunca se tenha encontrado entre estes. São os daqueles editores – os que têm mais agudizado o mal do autor – que prefeririam publicar livros que não tivessem sido escritos por ninguém, pois assim evitariam o zumbido e veriam, por alto, como a glória do que editaram seria só para eles.»
Às vezes, lá calha...
4 de julho de 2010
«É bom trabalhar nas Obras» (17)
À mão de ler (49)
Às vezes, lá calha...
3 de julho de 2010
À mão de ler (48)
«No final ela morre e ele fica sozinho, embora na realidade tivesse ficado sozinho vários anos antes da morte dela, de Emília. Digamos que ela chama-se ou chamava-se Emília e que ele chama-se, chamava-se e continua a chamar-se Júlio. Júlio e Emília. No final Emília morre e Júlio não morre. O resto é literatura.
Às vezes, lá calha...
2 de julho de 2010
Estou para aqui assim...
À mão de ler (47)
Às vezes, lá calha...
1 de julho de 2010
Breve interlúdio musical
Desculpe, mas não se importa de repetir...
... não é por nada, é só para a gente - os utilizadores - se mijar a rir, enquanto enfia mais uma roda num buraco... enquanto continua a praticar golf rodoviário no Allgarve




















