8 de agosto de 2010

Às vezes, lá calha...

«O diário é um veículo para o meu sentido de individualidade. Representa-me como emocional e espiritualmente independente. Em consequência (infelizmente) não é um registo simples da minha vida diária - em muitos casos - oferece-lhe uma alternativa.»

«É bom trabalhar nas Obras» (30)

«- Sai – diz a casa.
- Para onde? – pergunta a paisagem exterior.»
[Enrique Vila-Matas, Dublinesca; em tradução para a Teorema;

7 de agosto de 2010

Breve interlúdio musical

6 de agosto de 2010

... e aos comentários dixit:

Dei o salto, mas voltei para fazer a tropa até à mobilização, que não chegou e só esperei sete meses pelo 25 de Abril, já com Tânger pelo meio; plantei árvores tão cedo como escrevi livros, só tive um filho mais tarde; casei-me duas vezes e do último estou separado. Cumpridos os pressupostos em vigor nessa derradeira metade do século passado, o meu declínio no novo século tem-se processado pelo abandono da máquina de escrever e a luminosa irrupção dos processadores de texto, a extinção tipográfica e a vulgaridade da edição doméstica, o fascínio pela Net até à perigosa e doentia obsessão. O passado é mais forte do que o presente, a formação apura-se ou degrada-se, não é mutante; a crisálida é do domínio físico. Só admito compromissos com o lúdico e enquanto lúdico, a tradução incluída. Percorridos cerca de quatro anos, promovi-me de co-piloto de um blogue a condutor solitário, recorrendo apenas ao acaso como GPS. Hipnotizado durante quatro meses e quinhentos e um posts, acabei por me sentir refém de um formato que eu próprio criei, armadilhado com a escravidão para a tiragem diária da meia-noite chegar composta e fresquinha às bancas do olhar. Não o omito; quase não me lembro da rádio, mas sinto nostalgia do fecho de página e uma saudade corrosiva vislumbrada nos blogues que fazem praia. Tradicionalmente maltratado por Julho e Agosto, tenho um trabalho para acabar, aceito fazer mais de uma época de Verão com Coetzee e, só depois, ocupado a rever Dublinesca, simultaneamente procurarei saber porque Este País Não É Para Velhos. Quando me sentir refeito desta persistente «atitude de trabalho», é possível que então retome o blogue; que Setembro se reinicie.
Não sei. Não sei vai-se tornando a minha expressão preferida, talvez a que gosto cada vez mais; não sei.

4 de agosto de 2010

A blog odyssey - final post

I would prefer not to

[Foto]

Breve interlúdio musical

Porque a Net fornece um novo dia

como nunca lhe chamaria a imprensa da especialidade

Às vezes, lá calha...

«Muito melhor, no final de tudo,
que as mágoas se percam e o silêncio regresse.
No fim de contas, é como tens estado sempre.
Só.»

«É bom trabalhar nas Obras» (29)


«- Na realidade, é um requiem pelo meu ofício e, sobretudo, por mim, que estou acabado – comenta Riba a Javier, enquanto dirige um olhar ansioso para Bev, como querendo indicar ao seu amigo que diz tudo isto porque ela lhe recorda que já é velho e é mortal e que, no fim de contas, já tem quase sessenta anos e conquistá-la não será a tarefa que, noutros tempos, lhe poderia ser mais fácil.
Estão de pé numa extremidade da praça, junto da primeira fila do cada vez mais numeroso público sentado.
- Não, já não precisas de me convencer de nada – diz Javier. – E ainda menos quando já chegámos ao sexto capítulo e me sinto impregnado da tua ideia do requiem. Até pensei escrever a história de alguém que se dispõe a celebrar funerais pelo mundo todo, funerais sob a forma de obras de arte. O que te parece? É alguém que procura ir aprendendo a despedir-se de tudo. Não lhe basta despedir-se de Joyce e da era da imprensa e começa a converter-se num coleccionador de funerais.
- Poderia levar gravado no chapéu este lema: "Temos de nos dedicar a fundo aos funerais." Foi o que Nietzky disse, há pouco.
Javier não pôde ter ouvido bem o final destas palavras, porque irrompe uma voz desnecessariamente atroadora no palco.
- Mas, qual o espanto? Não creio que seja necessário tanta gritaria para a visita da terrível Hades – comenta Javier.»
[Enrique Vila-Matas, Dublinesca; em tradução para a Teorema;
ilustração: David Hockney]

3 de agosto de 2010

Breve interlúdio musical

Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

«País natal, país mortal.»

Nem sempre a lápis (68)

Tenho andado tão envolvido com a tradução, a descoberta de Manguel, o reencontro com Bartleby & Companhia, a indecisão entre o novo livro de Coetzee e a reedição de O Complexo de Portnoy, com vantagem para o primeiro, à medida que leio um período ou um parágrafo ao acaso na livraria; a prospectar o Ulisses e o Google – exigências da tiragem diária do blogue –; que, nas últimas semanas, a avareza do diálogo, da comunicação, desvalorizou-se aos bons-dias à porteira, se nos cruzamos; à rotativa questão, O que é a sopa?, enquanto tomo o pequeno-almoço confirmado pelo habitual bom-dia, liquidada a despesa de cor com boa-tarde, nem sempre me lembro de um até logo; à pergunta (desnecessária) se os trocos dão jeito, na frutaria; ao silencioso alheamento da pausa no trabalho, ao fim do dia e nem sempre com o lápis à mão. Vozes amigas e bem intencionadas, mandam sms ou e-mails a perguntar, «O que é feito?», a dizer por onde andam para que apareça; um pedido no blogue da Trama para que se espere até Setembro (outra vez, dois anos depois) fazem-me pegar no telefone, sabendo que corro o risco de ficar sem Net. Vá-se lá entender porquê; é mais simples e, se calhar, mais acertado aceitá-lo como característica do modem para descansar. Exposta a aparente realidade dos factos, concedo que o cenário assume conotações serôdias de hikikomori (coladas a cuspo), dividido entre a razoável noção da falta de arejar e a desmotivadora noção de sufoco que me espera. Consumida e demolida a veleidade das relações, é possível que a distância que nos separa da parafernália nipónica, tenha reservado para os solitários confinados em casa própria, a necessidade de esperar pela velhice e a vida a sós para se perderem, adeptos compulsivos da atitude electrónica em vigor ou da clássica despedida à francesa, na realidade quotidiana dos jovens japoneses exilados em casa dos pais – por tempo indefinido e imprevisível –, onde levam uma vida virtual em frente do computador. Decorrido algum tempo, menos do que seria de esperar ou eu esperava, esqueço-me por completo da carrinha, há mais de um mês que não apanho o autocarro para Lisboa e há mais de três semanas que não almoço nem janto fora; cinema e música ao vivo, não sei de nada.
Tivesse eu casado com uma feiticeira e podia ter a certeza de que só a maçava para estalar os dedos ou franzir o nariz para ir e regressar, são e salvo de pôr os pés nos sítios onde se convenceram que me apetece. Por exemplo, vontade até nem me falta de aceitar o convite da minha namorada de colégio – a das bicicletazinhas – para jantar em casa dela e actualizarmos dois anos de silêncio quebrado pelo desejo de Boas-Festas, manifestado por ela, e o envio dos meus dois últimos livros; «Depois falamos», acusou a recepção. Mas a directiva teutónica de avisar com dois dias de antecedência, como se fosse dar um jantar de gala em que não poderei participar com o blusão pelos ombros e pendurá-lo nas costas de uma cadeira, somado à impossibilidade de a pôr a andar da sala para fora, com o olhar dividido entre a várzea a anoitecer em frente e a indisfarçável luminosidade do portátil ao lado, levam-me, vão levar-me, a inventar a desculpa mais esfarrapada enviada por e-mail e a receber, acto seguido, uma chamada com duração inferior aos angustiados momentos de me saber órfão de Net.
São cinco e tal da manhã, mais precisamente cinco horas e onze minutos do estreado mês de Agosto, fumo o último charro com a luz apagada, curioso por saber quanto mais tempo levarei a isolar e a combinar, «desaparecer» e «não»; o Vento faz-se ouvir, outra vez.

«É bom trabalhar nas Obras» (28)

«Hora: Uma e meia da madrugada.
Dia: Bloomsday.
Estilo: Sonâmbulo.
Lugar: Dublin, Morgans Hotel. Quarto 527.
Acção: Riba, despertando bruscamente, em pleno sono, quando alguém, com o seu cartão electrónico, tenta entrar no quarto. Ainda meio adormecido, recorda-se da mala vermelha abandonada no quarto, esta manhã. Levanta-se com o receio de que o cartão electrónico do intruso acabe por funcionar. Por não conseguir entrar, a pessoa que está do outro lado dá três pancadas nervosas na porta. Ouvem-se umas palavras confusas. A voz de um homem jovem. Causa um certo medo. O velho pânico de que entrem, a meio da noite, em nossa casa ou no nosso quarto de hotel.
- Quem é? – pergunta Riba, entre adormecido e receoso.
- New York – diz a voz do homem jovem.»
[Enrique Vila-Matas, Dublinesca; em tradução para a Teorema]

2 de agosto de 2010

Breve interlúdio musical

Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

«O criado retira-se confuso, leva um lápis horrendo na orelha.
O lápis da literatura latina, pensa Riba.»

Nem sempre a lápis (67)

Há pessoas que queimam, correm o sério risco de entrar em auto-combustão e não sabem. Levam uma vida normal, nem seria de esperar vê-las assessoradas por um extintor ou um providente, mas ridículo, balde de água fria. Refiro-me apenas às que têm mais atenção e respeito pelos «bens» alheios, que os outros, nem isso; nem o risco de serem acusados de incendiários os arrefece. Denunciam-se por uma natural aptidão para o magistério, a assistência social, as claques de futebol, o canto coral, as manifes, a tecelagem com cordões-humanos, além do pára-quedismo.
Acreditam, firmemente, que só a velocidade da queda as conseguirá arrefecer, extinguir o brasido que as consome por dentro. É frequente vê-las a aquecer as mãos nas correntes de ar; sobretudo à noite, nas paragens dos autocarros que já passaram.
E então fulgem magnificamente como estrelas cadentes, sem que se perceba se são portadoras de passe ou se são passageiros de passagem.

À mão de ler (70)

«A Atlântida
Quando aquela vasta ilha, a que os antigos chamavam Atlântida, começou a afundar-se no oceano, os mais sagazes dos seus habitantes decidiram embarcar e mudar para outro continente. Lamentavelmente, os seus barcos eram pequenos e bastou uma só tempestade para engolir todos os emigrantes. Mas a grande maioria dos atlantes tinham ficado na ilha; na realidade, todas as profecias previam uma gradual subida do nível das terras, e os ilhéus, como sucede muitas vezes, crêem mais nas profecias do que na realidade que viam com os olhos e tocavam com a mão. Por isso, inundadas as planícies costeiras e ameaçadas pelas ondas as primeiras colinas, os jornais atlantes continuavam a animar a população:
"Tivemos uma nova confirmação, vinda das mais altas esferas científicas da ilha, de que está prevista a progressiva elevação da plataforma continental atlântica, cujo movimento parece ter sido tão repentino que arrastou consigo as águas do oceano; isto explica o facto de que estas tenham alcançado em algumas localidades um nível falsamente preocupante. Na espera do retorno, sem dúvida iminente das águas geologicamente impelidas, os habitantes e animais sobreviventes refugiaram-se nas montanhas que rodeiam a capital. O governo tomou as medidas apropriadas para evitar este temporário perigo, mediante oportunos diques e barreiras, enquanto os sacerdotes amorosamente se ocupam a abençoar os restos flutuantes".
Quanto mais as águas subiam, mais optimistas se tornavam os comunicados distribuídos pelas agências de notícias, mais iminente era declarado o refluxo da maré, com a consequente aquisição por parte do património nacional de novas e ilimitadas extensões de terra enriquecida pelo fértil húmus de milénios de vida submarina. Por isso ninguém fez nada e, quando o último habitante, que era justamente o presidente do conselho, deu por si no cume da mais alta montanha do país, com a água pelo peito, ouviu dizer os ministros que flutuavam à sua volta, cada um agarrado à sua própria secretária: "Coragem, excelência, o pior já passou".»