3 de setembro de 2010
Nem sempre a lápis (76)
Esta venenosa vocação, este fascínio pelo quotidiano suspenso, pela delicada decantação da monotonia. Furto-me à convivência gratuita, à integração; deambulo pela casa, troco a perna cruzada para olhar com outra perspectiva o que me pode acontecer lá fora, interromper a ressonância do argumento que interpreto. Reflectido na luminosidade da ausência, o interior do meu cérebro assemelha-se cada vez mais com o da casa; este sítio, onde a noite entra para que eu «pendure o chapéu».
À mão de ler (77)
«Abri a janela e olhei para fora. Donde me encontrava tinha vista sobre um estendal de roupa e um campo aberto. Ao longe viam-se ainda as ruínas de uma oficina de ferreiro que ardera, onde alguns trabalhadores andavam em limpezas. Apoiei os cotovelos no parapeito da janela e perscrutei o ar. Tinha aspecto de vir a ser um dia bonito; chegara o Outono, a bela e fresca estação do ano em que tudo muda de cor e perece. Nas ruas já tinha começado o rumor, o que me convidava a sair. Este quarto vazio, cujo soalho abanava a cada um dos meus passos, era como um horrível caixão cheio de gretas. Não havia um fecho em condições na porta nem um fogão de sala. De noite, costumava deitar-me em cima das meias para que elas secassem um pouco até de manhã. O único divertimento que tinha era uma pequena cadeira de baloiço vermelha, onde me sentava a dormitar ao serão, pensando em tudo e mais alguma coisa. Quando o vento soprava forte e as portas no andar de baixo estavam abertas, uma quantidade de sons estranhos e sibilantes penetrava através do soalho e subia pelas paredes, de maneira que os Morgenbladet, junto da porta, apareciam com rasgões compridos do tamanho de uma mão.» 1 de setembro de 2010
À mão de ler (76)
«O autocarro entrou em Fort Stockton às nove menos um quarto e Moss pôs-se de pé e tirou o saco de viagem que se encontrava na bagageira sob o tejadilho e pegou na mala de executivo pousada no banco e ficou parado, a olhar para a mulher.
Não tentes apanhar um avião com isso, disse ela. Eles metem-te na prisão e nunca mais de lá sais.
A minha mãe não criou filhos ignorantes.
Quando é que me telefonas.
Telefono-te daqui a uns dias.
Está bem.
Tem cuidado contigo.
Tenho um mau pressentimento, Llewelyn.
Pois eu cá tenho um bom pressentimento. Por isso, em princípio, o meu deve compensar o teu.
Espero bem que sim.
Só te posso telefonar de cabinas.
Eu sei. Telefona-me.
Eu telefono. Pára de te preocupar com tudo.
Llewelyn?
O quê.
Nada.
O que é?
Nada. Só queria dizer o teu nome.
Tem cuidado contigo.
Llewelyn?
O quê.
Não faças mal a ninguém. Estás a ouvir?
Ele olhou-a, com o saco de viagem a pender-lhe do ombro. Não prometo nada, disse. É assim que as pessoas se magoam.»
foto]
30 de agosto de 2010
Nem sempre a lápis (75)
Quando for, imaginemos que vou a Mortágua, tentarei não me esquecer de ir à olaria comprar duas peças de que senti uma alegre necessidade de ter presentes: uma bilha de barro comum, cor de barro da Gandarada, para a encher de água e saciar esse sabor fresco e argiloso, primitivo; outra, com segredo. Uma peça feita de barro preto vendida como sendo de Molelos, atraiçoada pela elegância das linhas modeladas por gerações serranas que lhe ocultaram sempre a origem, atribuindo-lhe as mais desencontradas. Vou-me fartar de divertir e de pegar na esfregona para limpar o chão, a ver que tácticas, que abordagem farão à vista do impossível gargalo decorado com seteiras – não me ocorre melhor imagem, tratando-se do concelho de Tondela (ao tom d’ela, foram-se a eles) – e consegue beber água sem a entornar; saciando-me duplamente. Desta vez, se for a Mortágua, à «terra das águas mortas», pretendo compreender como foi possível ter lá vivido quatro meses sem sentir nostalgia de um passado demolidor, para que agora sinta nostalgia de um simples trago de água, bebido no chafariz com a concha da mão, bebido de uma bilha em casa do meu avô; sempre à sombra e dentro de um prato, luxuriante vaso de sede.«É bom trabalhar nas Obras» (37)
«Uma noite de Março em Dublin, o escritor irlandês teve uma revelação definitiva, o género de revelação que causa inveja:
"No final do molhe, no vendaval, nunca o esquecerei, ali de repente tudo me pareceu claro. Por fim, a visão."
Era de noite, com efeito, e, como tantas outras vezes, o jovem Beckett errava solitário. Encontrou-se na ponta de um molhe varrido pela tempestade. E então, foi como se tudo recuperasse o seu lugar: anos de dúvidas, de buscas, de perguntas, de fracassos, ganharam de repente sentido e a visão do que teria de se realizar impôs-se como uma evidência: viu que a escuridão que sempre se tinha esforçado por rejeitar era, na realidade, a sua melhor aliada e anteviu o mundo que devia criar para respirar. Forjou-se ali uma espécie de associação indestrutível com a luz da consciência. Uma associação até ao último suspiro da tempestade e da noite.»
[Enrique Vila-Matas, Dublinesca; em tradução para a Teorema;
Foto]
28 de agosto de 2010
Às vezes, lá calha...
«No fim de contas, continuará como tem estado sempre. Só, sem geração, e é que nem sequer um resquício de piedade.»
«É bom trabalhar nas Obras» (36)
«Em breve farei sessenta anos. Há dois que me persegue a realidade da morte, ao mesmo tempo que me dedico a observar como o mundo vai mal. Como diz um amigo, acabou-se tudo, ou está a acabar-se. Não resta outra coisa além de uma grande massa analfabeta criada deliberadamente pelo Poder, uma espécie de multidão amorfa que nos enterrou a todos numa mediocridade generalizada. Existe um enorme mal-entendido. E uma trágica embrulhada de histórias góticas e editores porcos, culpados de um monumental equívoco. A edição literária, por quem dei a minha vida, já tem o seu funeral preparado em Dublin. E eu já só posso dedicar-me a respirar, a abrir o máximo de espaços possíveis aos dias que me restam, a tratar de ir à procura de uma arte do meu próprio ser, de uma arte que talvez um dia possa aperfeiçoar fazendo o inventário daqueles que foram os meus principais erros como editor. Porque tenho a impressão – num último projecto, apenas imaginário – de que seria vasto que muitos quisessem fazer o mesmo e um livro recolhesse as confissões de editores que dissessem que acreditam que andei a imiscuir-me na sua política de publicações; editores independentes que contassem como imaginaram extraordinários os livros que um dia sonharam trazer à luz do dia; editores que contassem quais foram as suas maiores esperanças e como foi que estas não se materializaram (aí ficaria bem que falasse um editor como o grande Sensini, que só publicava histórias de personagens corajosas e à deriva e que foi processado nos Estados Unidos); editores literários que contassem as misérias da literatura, hoje uma sinfonia completa de corvos perdidos no mafioso centro da selva fúnebre da sua indústria. Para terminar, editores que se atrevessem a publicar o grande mapa das suas decepções, que confessassem nele a verdade e dissessem, de uma vez por todas que, para cúmulo, nenhum encontrou um verdadeiro génio no seu caminho. Um mapa como este, iria permitir-nos avançar dentro das movediças areias da verdade. Gostaria de um dia ter a ousadia de me embrenhar nessas areias e de fazer um inventário sobre tudo o que quis alcançar no meu catálogo e nunca alcancei. Gostaria de um dia ter a honestidade de revelar as grandes sombras que se escondem atrás das luzes do meu trabalho, tão absurdamente elogiado…»
[Enrique Vila-Matas, Dublinesca; em tradução para a Teorema;
foto]
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