22 de agosto de 2010

Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

«Tem uma notável tendência para ler a sua vida como um texto literário, para interpretá-la com as deformações próprias do leitor empedernido que foi durante tantos anos.»

Nem sempre a lápis (73)

«O interior da nossa casa tem sempre um antigo e obsessivo paralelismo com o do nosso cérebro.» (Vila-Matas); assim, não me foi difícil, vi-o com previsível naturalidade no espaço do quarto seis do Pátio de La Luna. Conhecia-lhe a existência desde o determinante Verão de 2006, quando perguntei em até Jajouka, se não haveria «um quarto com varanda – é pedir muito, uma açoteia para estender uma esteira e bater uma sesta? – com vista para a praça de Asilah, com o mar à minha direita e o abismo da multidão a caminho do mercado, que vislumbro ao cimo da pequena rua que ladeia a muralha da Medina, por entre a balsâmica fumarada dos fogareiros a animar o lusco-fusco.»; acabava de vê-lo. Segundo um dos incompreensíveis recepcionistas, parece que já existia em 2001, quando passei uma semana no hotel Al-Khaïma, a escrever parte do título homónimo ao som das rolas e do mar de Setembro; devo ter uma foto sentado na esplanada ao lado da porta do La Luna, tirada no primeiro dia de 2009, feitas as despedidas de Tânger; sem café Hafa nem o de Paris. Mas não entrei, deixei-me ficar sentado à espera de nada até apanhar o autocarro; vi-a depois, tinha uma porta. Precisei do válido argumento da caducidade do passaporte para, intimamente, alijar um pouco a carga com que nos vamos sobrecarregando: deslumbramentos e trambolhões, sonhos e pesadelos, entrega e traição, passado e presente. Aberta a porta do quarto seis como um hábito – e de hábito me vestia –, vi as colunas de tijolo burro da casa do forno dos meus pais, passado de que me deserdei no apartamento número doze, em Porto Covo; vi as paredes e o telheiro do atelier do Monte Alto, feitas como as tinha visto e não as que o passado recente levantou, onde o interior da minha cabeça foi deixando de caber.
Sobrepostas, finalmente concluídas.

«É bom trabalhar nas Obras» (34)

«Admirou sempre os escritores que todos os dias empreendem uma viagem rumo ao desconhecido e, no entanto, estão o tempo todo sentados num quarto. As portas dos seus quartos estão fechadas, nunca se mexem e, no entanto, o confinamento proporciona-lhes uma liberdade absoluta para ser quem desejarem ser, para ir onde os levarem os seus pensamentos. Às vezes, entrelaça esta imagem dos solitários nos seus quartos de escrita com a que tem sido a obsessão de toda a sua vida: a necessidade de capturar um génio, um jovem que fosse muito superior aos outros e que viajasse melhor do que ninguém pelo seu quarto. Gostaria de tê-lo descoberto e publicado, mas não o encontrou e parece ainda menos provável que venha a encontrá-lo agora. Em todo o caso, suspeitou sempre que existir, existe. É só, pensa Riba, porque permanece na sombra: na solidão, na dúvida, na interrogação; é por isso que não o encontro.»
[Enrique Vila-Matas, Dublinesca; em tradução para a Teorema;

20 de agosto de 2010

Breve interlúdio musical

Porque a Net fornece um novo dia

Só espero que tenha resistido um daqueles sofás encardidos
que em tempos lidos foram de lona crua

Às vezes, lá calha...

«Ele é produto de uma infância danificada, percebeu isso há muito; o que o surpreende é que o pior dano não tenha sido causado no aconchego do lar, mas sim lá fora, na escola.»

«É bom trabalhar nas Obras» (33)

«A angústia transmitida por todo o vislumbre de demência, vai-o deixando perdido numa deriva estranha pelo perigoso bairro infantil que há nos limites da sua mente, ali onde sabe que, a qualquer momento, pode perder-se para sempre. Mas, no último segundo, consegue escapar do perigo mudando de pensamentos, recordando, por exemplo, que tem inteligência moral, embora às vezes lhe pareça muito pouco ter só isso e outras, muito. E escapa finalmente do perigo recordando também que no próximo mês irá a Dublin. E recordando uma frase de Monica Vitti, em Il deserto rosso, uma frase que, para dizer a verdade – apercebe-se agora – é quase tão perigosa como o pode ser para todo o mundo o East End mais delirante e mais obsessivamente particular:
- Os cabelos magoam-me.
Também ele agora poderia dizer o mesmo. Spider de certeza que o diria. Spider, que anda tão perdido pela vida, não sabe que poderia imitá-lo e reconstruir a sua personalidade adaptando as recordações de outras pessoas, poderia converter-se em John Vincent Moon, um herói de Borges, por exemplo, ou num aglomerado de citações literárias; poderia passar a ser um enclave mental, onde pudessem abrigar-se e conviver várias personalidades, e conseguir assim, talvez sem sequer demasiado esforço, configurar uma voz estritamente individual, suporte ambíguo de um perfil heterónimo e nómada…»
[Enrique Vila-Matas, Dublinesca; em tradução para a Teorema]

À mão de ler (74)


«Fragmento sem data.
Ideia para uma história.
Um homem, um escritor, escreve um diário. Anota nele pensamentos, ideias, acontecimentos significativos.
As coisas começam a correr-lhe mal na vida. "Dia mau", regista ele no diário, sem pormenorizar. "Dia mau", escreve, dia após dia.
Cansado de chamar dias maus a todos os dias, decide assinalar simplesmente os dias maus com um asterisco, como algumas pessoas (mulheres) assinalam com uma cruz vermelha os dias em que terão a menstruação, ou como outras pessoas (homens, mulherengos) marcam com um X os dias em que averbaram um êxito.
Os dias maus acumulam-se; os asteriscos multiplicam-se como uma praga de moscas.
A poesia, se ele fosse capaz de escrever poesia, poderia levá-lo à raiz do seu mal-estar que floresce sob a forma de asteriscos. Mas a veia da poesia parece ter secado nele.
Há a prosa à qual recorrer. Em teoria a prosa pode conseguir o mesmo efeito purificador que a poesia. Mas ele tem as suas dúvidas. Sabe por experiência própria que a prosa exige mais palavras que a poesia. De nada vale enveredar pela prosa se a pessoa não confia que estará viva no dia seguinte para prosseguir a tarefa.
Considera ideias como estas - a ideia da poesia, a ideia da prosa - como uma maneira de não escrever.
No verso das páginas do diário faz listas. Uma delas intitula-se Maneiras de Pôr Termo à Vida. Na coluna da esquerda enumera Métodos e na coluna da direita Inconvenientes.
Das maneiras de pôr termo à vida que enumerou, a sua favorita, depois de pensar maduramente, é o afogamento, ou seja, ir à noite até Fish Hoek, estacionar perto do extremo deserto da praia, despir-se no carro, vestir calção de banho (porquê?), atravessar a areia e entrar na água (terá de ser uma noite de luar), arrostar contra as ondas, dar braçadas na escuridão, nadar até ao limite da resistência física e depois deixar que o destino siga o seu curso.
Toda a sua relação com o mundo parece processar-se através de uma membrana. Como a membrana lá está, a fertilização não se dará. É uma metáfora interessante, cheia de potencial, mas, tanto quanto vê, não o leva a lado nenhum.»
[J. M. Coetzee, Verão; trad. J. Teixeira de Aguilar, D. Quixote, Fevereiro 2010]

19 de agosto de 2010

18 de agosto de 2010

Breve interlúdio musical

Porque a Net fornece um novo dia.

Às vezes, lá calha...

«Estou no cinema e como eu muitas outras mulheres sozinhas enchem a sala.
Penso: que estúpidos que os homens são.
Livreiro anónimo a pensar em ir ao cinema mais logo.»
[Foto]

Nem sempre a lápis (72)

  Feitas as contas por alto, assim a olho, encontro-me a meia centena de páginas da orfandade; de terminar Dublinesca, embora com Blanco nocturno (Piglia) no horizonte. Para ser franco, nunca apreciei Exploradores do Abismo; em contrapartida, recebi Diário Volúvel no momento em que mais precisava do acompanhamento de perspectivas determinantes para a minha contínua apetência de «mudança de atitude»; nomeadamente, em relação à leitura de diários, até então circunscrita à coutada El quadern gris de Josep Pla. Quanto a mim, ninguém me tira da cabeça que Exploradores parece corresponder aos compromissos contratuais em que um autor se obriga a publicar um livro por ano. Com que autoridade afirmo isto? Com a que me permito ter alicerçado concluída a tradução do sexto título de um permanente exercício de reescrita. O material – chamemos-lhe assim, para gáudio dos medíocres detractores de Vila-Matas – poderá ser sempre o mesmo: a construção de um enredo, de uma narrativa estimulada por uma capacidade de citação que entreabre o interior de uma sucursal da Biblioteca de Babel muito exclusiva; a perseguição onírica do (impossível, improvável) desaparecimento, rumo a um centro pessoal caleidoscópico; a colagem ou reencenação – e não reposição; isso é estratégia de sociedade recreativa – de situações anteriormente escritas e, portanto, vividas por um grupo muito privado de autores, artistas, realizadores do nada, bartlebies ou não. Mas, com Vila-Matas, é sempre assim; «acaba sempre por aparecer quem menos se esperava», o que, a umas cinquenta páginas do final, com maior incredulidade se foi entrelaçando e se esperava.

À mão de ler (73)

«Antigamente, no Natal, havia grandes reuniões na quinta da família. Vindos de toda a parte, os filhos e filhas de Gerrit e Lenie Coetzee convergiam em Voëlfontein, trazendo os respectivos cônjuges e descendência, esta mais numerosa de ano para ano, para semanas de gargalhadas, gracejos e reminiscências e, acima de tudo, comezainas. Para os homens era também uma época de caça: aves e antílopes.
Actualmente, porém, nos anos setenta, estas reuniões de família reduziram-se lamentavelmente. Gerrit Coetzee está sepultado há muito e Lenie arrasta-se num lar do Strand. Dos doze filhos e filhas, o primogénito já se juntos às sombras multitudinárias; em momentos privados...
Sombras multitudinárias?
Parece-lhe demasiado grandiloquente? Eu mudo-o. O primogénito já deixou esta vida. Em momentos privados os sobreviventes têm premonições do seu próprio fim, e estremecem.
Não gosto disso.
Eu risco-o. Não há problema. Já deixou esta vida. Entre os sobreviventes os gracejos foram esmorecendo, as reminiscências foram-se tornando mais tristes, as comezainas mais moderadas. Quanto às caçadas, já não as há: os velhos ossos estão cansados e, em qualquer caso, após anos e anos de seca, não resta nada no veld [savana, estepe] que se possa considerar caça.
Da terceira geração, os filhos e filhas dos filhos e filhas, a maioria está hoje em dia demasiado absorvida pelos seus próprios assuntos para comparecer, ou demasiado indiferente à família mais vasta. Este ano apenas estão presentes quatro da geração: o primo Michiel, que herdou a quinta, o primo John, da Cidade do Cabo, a irmã Carol e ela própria, Margot. E, dos quatro, ela desconfia que só ela recorda os velhos tempos com nostalgia.
Não compreendo. Porque é que me chama ela?
Dos quatro, Margot desconfia que só ela - Margot - recorda com nostalgia... Já viu como soa mal? É que não funciona assim. O ela que eu emprego é como se fosse eu, mas não é eu. Desagrada-lhe assim tanto?
Acho-o confuso. Mas continue.»
[J. M. Coetzee, Verão; trad. J. Teixeira de Aguilar, D. Quixote, Fevereiro 2010]

15 de agosto de 2010

Breve interlúdio musical

... pai que rouba filho, só podem ser gente de bom gosto;

quiçá, gostosos... fiufiu...

Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

«Porquê intolerante? Porque me recuso, como diria (Pierre) Michon, a converter o milagre em profissão, o talento em carreira literária. A literatura não é um ofício, é uma doença; não se escreve para ganhar dinheiro ou ser bem visto, mas porque tentamos curar-nos, porque estamos contaminados, porque fomos apanhados pela tristeza.»

Nem sempre a lápis (71)

«solto, ou não solto, o falcão que pus no Livre des Rêves.
É uma frase de trabalho, como o falcão é um falcão peregrino.» Escreveu Maria Gabriela Llansol, e O raio sobre o lápis mostrou-lhe que «não havia vento na noite.»
«É absurdo que já anoiteça, quando eu ainda precisava da luz do dia, é surpreendente que eu tenha terminado a instrução espiritual do falcão quando ainda não abandonei nem o ser, nem concluí a obra.»
Não há vento na noite; nem o adejar de um lápis.

«É bom trabalhar nas Obras» (32)

«Era o último editor? Seria o ideal, mas não. Via diariamente nos jornais as fotos de todos esses jovens novos editores independentes. Pareciam-lhe, a grande maioria, seres insuportáveis e mal preparados. Nunca pensou que viria a ter substitutos tão idiotas e custou-lhe a aceitá-lo, um processo longo e doloroso. Quatro pacóvios tinham sonhado substituí-lo e, finalmente, tinham-no conseguido. E ele próprio acabara por lhes abrir o caminho, tinha-os ajudado a crescer falando bem deles. Foi muito bem feito, por ter sido tão bastardo, por se ter mostrado tão excessivamente elegante e generoso com os falsamente discretos novos leões da edição.
Um desses novos editores, por exemplo, dedicava-se a apregoar que vivemos um período de transição para uma nova cultura e, querendo crescer sem esforço, reivindicava narradores de prosa, na realidade, obtusa, que tinham encontrado uma mina na «linguagem nova da revolução digital», tão útil para encobrir a sua falta de imaginação e de talento. Outro jovem editor procurava publicar autores estrangeiros com o mesmo gosto e estilo do próprio Riba e, na realidade, só conseguia imitar o que este já tinha feito incomparavelmente melhor. Outro queria copiar os exemplos mais vistosos do mundo da edição espanhola e sonhava vir a ser uma estrela mediática e que os seus autores fossem meros peões da sua glória. E, em todo o caso, nenhum dos três parecia suficientemente astuto para aguentar os mais de trinta anos que ele aguentou. Tinha ouvido que planeavam fazer-lhe uma homenagem em Setembro, e que o revolucionário digital, o imitador e o aspirante a superstar se encontravam à cabeça da mesma. Mas Riba só pensava em fugir deles, porque por detrás daqueles movimentos havia interesses ocultos e muito pouca verdadeira admiração.»
[Enrique Vila-Matas, Dublinesca; em tradução para a Teorema;
Foto]

14 de agosto de 2010

13 de agosto de 2010

Breve interlúdio musical

...ouvido aqui.

Porque a Net fornece um novo dia...

«É sobretudo uma livraria de poetas, que por lá vão passando para falar com o Changuito, espreitar as novidades, dizer mal ou bem deste ou daquele e encontrar outros poetas que também por lá passam para falar com o Changuito, espreitar as novidades e dizer mal ou bem deste e daquele (como dantes se passava pelas mesas do café Gelo ou do Monte-Carlo, quando ainda havia em Lisboa tertúlias literárias dignas desse nome).»

Às vezes, lá calha...

Os sonhos, a dormir bem acordado, são ficções da realidade. Sou frontal, não sou teatral, nunca aprendi a escrever na terceira pessoa do singular; é demasiado singular para mim.

Nem sempre a lápis (70)


Onde é que eu ia? Não ia, parece.
Embora tenha ficado um bocado perplexo quando levantei o lençol de água para ver o cão e, em vez dessa evocação clássica, se me deparou uma chusma de pintores a chuchar-lhe a carcaça ensanguentada.
Depois encostaram uma escada para o lado, digamos de fora da moldura, por onde desciam os mais satisfeitos.
Arrotando no espaço da tua distracção, prossegui.

À mão de ler (72)


«2 de Setembro de 1973
A noite passada, no Empire Cinema, de Muizenberg, um antigo filme de Kurosawa, Viver. Um enfadonho burocrata descobre que tem um cancro e lhe restam apenas meses de vida. Fica atordoado, não sabe o que fazer nem para onde se virar.
Convida a secretária, uma jovem efervescente mas desmiolada, para tomar chá. Quando ela tenta partir, ele retém-na, agarrando pelo braço. "Quero ser como você!", diz ele. "Mas não sei como!" Ela sente-se repugnada com a nudez da sua súplica.
 
Pergunta: como reagiria ele se o pai o agarrasse assim pelo braço.»
[J. M. Coetzee, Verão; trad. J. Teixeira de Aguilar, D. Quixote, Fevereiro 2010;

12 de agosto de 2010

11 de agosto de 2010

Breve interlúdio musical

Sem achas para o brasido

Decorrido um ano, praticamente, após a euforia 2666 – em tempo oportuno critiquei a possibilidade de se comparar o livro póstumo de Roberto Bolaño e Ulisses de James Joyce, por razões óbvias; ninguém o lê, calinada de marketing – subscrevo inteiramente tanto a avisada opinião d’ O Patrão da Barca, foi a que li primeiro, como a tomada de posição do editor do autor que, repito para que se recorde, confessava alguma dificuldade em considerar-se chileno ou mexicano. Viria a morrer em Blanes, uma terriola costeira a Norte de Barcelona. Poderá parecer irrelevante o feitio ou circunstâncias que fizeram de Bolaño um andarilho, detenho-me mais na ânsia de uma atitude apátrida, extensiva à literatura e ao uso dela. O que escrevo a seguir não adianta nada de novo: Bolaño está para a literatura, faminta de um Rimbaud, como Jim Morrison ficou para o rock; aliás, o género de música preferido pelo autor de 2666 e grande apreciador de M. C. Escher; tratava-se bem. Basta uma breve busca em imagens, no Google, para os nossos olhos passarem a ver Bolaño por tudo quanto é sítio; não me dei ao trabalho de confirmar, se grafitado também no Père-Lachaise. Nem à canseira imobiliária, de senhorio a verificar se alguma parede afirma que está vivo, preto no branco desaparecido algures no deserto de Sonora a partir teclados; é possível que lá cheguem. Quanto a 2666 propriamente dito – pedi para reservarem o exemplar especial (selado, sedado) durante a apresentação na Ler Devagar, comigo em Porto Covo – comecei a lê-lo na edição popular, mas algo se interpôs. Contaminado pela retoma da euforia, vou acreditar que se trata de mera coincidência, agora predominantemente anti-Bolaño e ele raladíssimo, procurei em Entre paréntesis (artigos, entrevistas; o restolho, digamos) um episódio vivido por Bolaño e contado a Mónica Maristain, para a revista Playboy:
«Alguma vez teve medo dos seus fãs?
Tive medo dos fãs de Leopoldo María Panero (…) Em Pamplona, durante um ciclo organizado por Jesús Ferrero, Panero encerrava o ciclo e, à medida que se aproximava o dia da leitura dele, a cidade ou o bairro onde ficava o nosso hotel, foi-se enchendo de freaks que pareciam acabados de fugir de um manicómio, que, por outro lado, é o melhor público a que pode aspirar qualquer poeta. O problema é que alguns não só pareciam loucos como também assassinos, e Ferrero e eu, tememos que alguém, a certa altura, se levantasse e dissesse: Eu matei Leopoldo Panero, e a seguir pregasse quatro balázios na cabeça do poeta e, já agora, um no Ferrero e outro em mim.»
Delinquência organizada, não hesitaria David Toscana.

Meditação na tinturaria

Ó {anita} olha eu a assinar um quadro

(é uma maçada: só vejo Rothko, Motherwell, Vareta...)

[Foto: Nico]

Porque a Net fornece um novo dia

(Neste texto há uma incorrecção: além de Nocturno Chileno, entretanto a Teorema já tinha editado Estrela Distante)

Às vezes, lá calha...

Nem sempre a lápis (69)

Feita a catarse do blogue e da ida – sem retorno – a Asilah, sinto necessidade de dar um jeito aos livros, de lhes dar um sentido que me facilite o acesso rápido, sem os incorporar na organização burocrática por autor, cronológica, bibliográfica. Exceptuando as prateleiras museológicas para o património afectivo das colecções da & etc. e da frenesi, preciso apenas de arrumá-los de acordo com a presente necessidade de saber onde está determinado livro e alguns livros de determinado autor; sem permanência que a ultrapasse, outras urgências sobrevirão. Decidi também ir a Lisboa, sexta-feira; depois do pequeno-almoço abasteço-me para um fim-de-semana de cozinha – ao domingo não há sopa para funcionários e solitários autistas –, volto a casa para abrir o e-mail e traduzir horas razoáveis até ir a Lisboa; só isso. Como é bem possível que acabe por jantar e dormir uma noite a Mortágua, tendo o cuidado de evitar a Festa das Tasquinhas; para mal dos meus (muntos) pecados, a prótese já não me permite arroz de galo nem bacalhau no forno com batatas a murro a nadar em azeite, de quem o serve.
Quanto ao solitário autista, não é inteiramente verdade; ao fim do dia, quando repito o pequeno-almoço ao lanche para despachar o jantar, a mesa de vizinhas tagarelas e o recanto da minha –, onde inventei a existência de uma minúscula cobra verde no tronco da floreira, que me dá um ar exótico e deu cabo dos nervos de uma empregada durante uma semana –, essa tertúlia e eu passámos a cumprimentar-nos depois do estardalhaço armado por um cão com um boneco no berço de um dos netos que vêm arejar. O animal estava tão irritado e ela tão distraída, que até mordeu à dona, e aí não me contive: Esta agora foi cómica; então estou com os nervos em franja e ainda por cima bates-me? É assim que se traumatizam. Rimo-nos. Cruzámo-nos mais de trinta anos a subir e a descer a praceta, cabisbaixos, cara ao lado quando não dava para apontar em frente; irritavam-me solenemente as conversas com que bombardeavam a minha ausência, me interrompiam o direito de estar a olhar para nada; obrigaram-me, várias vezes, a mudar de mesa e a levar com o vaivém dos skaters. Exceptuando uma barbie sexagenária com expressão de bulldog, mantemos uma longeva e recíproca antipatia, já peguei numa bebé ao colo, e pareceu-me ou foi mesmo verdade, que as ouvi acotovelarem-se e baixar o tom de voz, enquanto esvaziava os bolsos dos chinos e dispunha em cima da mesa – com minúcia milimétrica, rigor de instalação –, o moleskine carteira-shandy, o porta-moedas de prata em cima dele, o trambolho do telemóvel ao lado, a lata de enrolar cigarros e a onça de tabaco em cima dela, saído de casa com o lápis acabado de afiar.

«É bom trabalhar nas Obras» (31)


«Após o considerável e inútil esforço mental, sentiu-se quase de rastos. Pensou na reprodução de Stairway, o pequeno quadro de Hopper que havia no apartamento e que o tinha obcecado desde o primeiro dia. O próprio quadro tinha-lhe dito que não saísse. Era uma pintura que convidava a não sair de casa. E, no entanto, ele tinha decidido abrir a porta e lançar-se à chuva, à rua. No entanto, o quadro, apesar de Hopper ter pintado nele uma porta aberta para o exterior, tinha-o convidado, tão nítida como paradoxalmente, a ficar em casa, a não se mexer, nem louco. Mas já era demasiado tarde. Tinha desafiado o quadro, tinha saído.»
[Enrique Vila-Matas, Dublinesca; em tradução para a Teorema;

10 de agosto de 2010

Breve interlúdio musical

... servido com limão

Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

«Hoje sei, ao percorrer a extensão desta fuga
o compromisso claro entre a mágoa e o deserto.»

À mão de ler (71)

«Exerço muitas vezes o ofício de estrangeira, com pouca fé de que na impossibilidade da língua se entenda a natureza dos meus gestos.
Rasgar a água,
esgotar a paciência dos mortos.»
[Marta Chaves, onde não estou, tu não existes; Tea for One, Lisboa 2009]

9 de agosto de 2010

8 de agosto de 2010

Breve interlúdio musical

Porque a Net fornece um novo dia

«Em época de festivais
uma pérola sobre um festival
de outras épocas»

Às vezes, lá calha...

«O diário é um veículo para o meu sentido de individualidade. Representa-me como emocional e espiritualmente independente. Em consequência (infelizmente) não é um registo simples da minha vida diária - em muitos casos - oferece-lhe uma alternativa.»

«É bom trabalhar nas Obras» (30)

«- Sai – diz a casa.
- Para onde? – pergunta a paisagem exterior.»
[Enrique Vila-Matas, Dublinesca; em tradução para a Teorema;

7 de agosto de 2010

Breve interlúdio musical

6 de agosto de 2010

... e aos comentários dixit:

Dei o salto, mas voltei para fazer a tropa até à mobilização, que não chegou e só esperei sete meses pelo 25 de Abril, já com Tânger pelo meio; plantei árvores tão cedo como escrevi livros, só tive um filho mais tarde; casei-me duas vezes e do último estou separado. Cumpridos os pressupostos em vigor nessa derradeira metade do século passado, o meu declínio no novo século tem-se processado pelo abandono da máquina de escrever e a luminosa irrupção dos processadores de texto, a extinção tipográfica e a vulgaridade da edição doméstica, o fascínio pela Net até à perigosa e doentia obsessão. O passado é mais forte do que o presente, a formação apura-se ou degrada-se, não é mutante; a crisálida é do domínio físico. Só admito compromissos com o lúdico e enquanto lúdico, a tradução incluída. Percorridos cerca de quatro anos, promovi-me de co-piloto de um blogue a condutor solitário, recorrendo apenas ao acaso como GPS. Hipnotizado durante quatro meses e quinhentos e um posts, acabei por me sentir refém de um formato que eu próprio criei, armadilhado com a escravidão para a tiragem diária da meia-noite chegar composta e fresquinha às bancas do olhar. Não o omito; quase não me lembro da rádio, mas sinto nostalgia do fecho de página e uma saudade corrosiva vislumbrada nos blogues que fazem praia. Tradicionalmente maltratado por Julho e Agosto, tenho um trabalho para acabar, aceito fazer mais de uma época de Verão com Coetzee e, só depois, ocupado a rever Dublinesca, simultaneamente procurarei saber porque Este País Não É Para Velhos. Quando me sentir refeito desta persistente «atitude de trabalho», é possível que então retome o blogue; que Setembro se reinicie.
Não sei. Não sei vai-se tornando a minha expressão preferida, talvez a que gosto cada vez mais; não sei.

4 de agosto de 2010

A blog odyssey - final post

I would prefer not to

[Foto]

Breve interlúdio musical

Porque a Net fornece um novo dia

como nunca lhe chamaria a imprensa da especialidade

Às vezes, lá calha...

«Muito melhor, no final de tudo,
que as mágoas se percam e o silêncio regresse.
No fim de contas, é como tens estado sempre.
Só.»

«É bom trabalhar nas Obras» (29)


«- Na realidade, é um requiem pelo meu ofício e, sobretudo, por mim, que estou acabado – comenta Riba a Javier, enquanto dirige um olhar ansioso para Bev, como querendo indicar ao seu amigo que diz tudo isto porque ela lhe recorda que já é velho e é mortal e que, no fim de contas, já tem quase sessenta anos e conquistá-la não será a tarefa que, noutros tempos, lhe poderia ser mais fácil.
Estão de pé numa extremidade da praça, junto da primeira fila do cada vez mais numeroso público sentado.
- Não, já não precisas de me convencer de nada – diz Javier. – E ainda menos quando já chegámos ao sexto capítulo e me sinto impregnado da tua ideia do requiem. Até pensei escrever a história de alguém que se dispõe a celebrar funerais pelo mundo todo, funerais sob a forma de obras de arte. O que te parece? É alguém que procura ir aprendendo a despedir-se de tudo. Não lhe basta despedir-se de Joyce e da era da imprensa e começa a converter-se num coleccionador de funerais.
- Poderia levar gravado no chapéu este lema: "Temos de nos dedicar a fundo aos funerais." Foi o que Nietzky disse, há pouco.
Javier não pôde ter ouvido bem o final destas palavras, porque irrompe uma voz desnecessariamente atroadora no palco.
- Mas, qual o espanto? Não creio que seja necessário tanta gritaria para a visita da terrível Hades – comenta Javier.»
[Enrique Vila-Matas, Dublinesca; em tradução para a Teorema;
ilustração: David Hockney]

3 de agosto de 2010

Breve interlúdio musical

Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

«País natal, país mortal.»

Nem sempre a lápis (68)

Tenho andado tão envolvido com a tradução, a descoberta de Manguel, o reencontro com Bartleby & Companhia, a indecisão entre o novo livro de Coetzee e a reedição de O Complexo de Portnoy, com vantagem para o primeiro, à medida que leio um período ou um parágrafo ao acaso na livraria; a prospectar o Ulisses e o Google – exigências da tiragem diária do blogue –; que, nas últimas semanas, a avareza do diálogo, da comunicação, desvalorizou-se aos bons-dias à porteira, se nos cruzamos; à rotativa questão, O que é a sopa?, enquanto tomo o pequeno-almoço confirmado pelo habitual bom-dia, liquidada a despesa de cor com boa-tarde, nem sempre me lembro de um até logo; à pergunta (desnecessária) se os trocos dão jeito, na frutaria; ao silencioso alheamento da pausa no trabalho, ao fim do dia e nem sempre com o lápis à mão. Vozes amigas e bem intencionadas, mandam sms ou e-mails a perguntar, «O que é feito?», a dizer por onde andam para que apareça; um pedido no blogue da Trama para que se espere até Setembro (outra vez, dois anos depois) fazem-me pegar no telefone, sabendo que corro o risco de ficar sem Net. Vá-se lá entender porquê; é mais simples e, se calhar, mais acertado aceitá-lo como característica do modem para descansar. Exposta a aparente realidade dos factos, concedo que o cenário assume conotações serôdias de hikikomori (coladas a cuspo), dividido entre a razoável noção da falta de arejar e a desmotivadora noção de sufoco que me espera. Consumida e demolida a veleidade das relações, é possível que a distância que nos separa da parafernália nipónica, tenha reservado para os solitários confinados em casa própria, a necessidade de esperar pela velhice e a vida a sós para se perderem, adeptos compulsivos da atitude electrónica em vigor ou da clássica despedida à francesa, na realidade quotidiana dos jovens japoneses exilados em casa dos pais – por tempo indefinido e imprevisível –, onde levam uma vida virtual em frente do computador. Decorrido algum tempo, menos do que seria de esperar ou eu esperava, esqueço-me por completo da carrinha, há mais de um mês que não apanho o autocarro para Lisboa e há mais de três semanas que não almoço nem janto fora; cinema e música ao vivo, não sei de nada.
Tivesse eu casado com uma feiticeira e podia ter a certeza de que só a maçava para estalar os dedos ou franzir o nariz para ir e regressar, são e salvo de pôr os pés nos sítios onde se convenceram que me apetece. Por exemplo, vontade até nem me falta de aceitar o convite da minha namorada de colégio – a das bicicletazinhas – para jantar em casa dela e actualizarmos dois anos de silêncio quebrado pelo desejo de Boas-Festas, manifestado por ela, e o envio dos meus dois últimos livros; «Depois falamos», acusou a recepção. Mas a directiva teutónica de avisar com dois dias de antecedência, como se fosse dar um jantar de gala em que não poderei participar com o blusão pelos ombros e pendurá-lo nas costas de uma cadeira, somado à impossibilidade de a pôr a andar da sala para fora, com o olhar dividido entre a várzea a anoitecer em frente e a indisfarçável luminosidade do portátil ao lado, levam-me, vão levar-me, a inventar a desculpa mais esfarrapada enviada por e-mail e a receber, acto seguido, uma chamada com duração inferior aos angustiados momentos de me saber órfão de Net.
São cinco e tal da manhã, mais precisamente cinco horas e onze minutos do estreado mês de Agosto, fumo o último charro com a luz apagada, curioso por saber quanto mais tempo levarei a isolar e a combinar, «desaparecer» e «não»; o Vento faz-se ouvir, outra vez.

«É bom trabalhar nas Obras» (28)

«Hora: Uma e meia da madrugada.
Dia: Bloomsday.
Estilo: Sonâmbulo.
Lugar: Dublin, Morgans Hotel. Quarto 527.
Acção: Riba, despertando bruscamente, em pleno sono, quando alguém, com o seu cartão electrónico, tenta entrar no quarto. Ainda meio adormecido, recorda-se da mala vermelha abandonada no quarto, esta manhã. Levanta-se com o receio de que o cartão electrónico do intruso acabe por funcionar. Por não conseguir entrar, a pessoa que está do outro lado dá três pancadas nervosas na porta. Ouvem-se umas palavras confusas. A voz de um homem jovem. Causa um certo medo. O velho pânico de que entrem, a meio da noite, em nossa casa ou no nosso quarto de hotel.
- Quem é? – pergunta Riba, entre adormecido e receoso.
- New York – diz a voz do homem jovem.»
[Enrique Vila-Matas, Dublinesca; em tradução para a Teorema]

2 de agosto de 2010

Breve interlúdio musical

Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

«O criado retira-se confuso, leva um lápis horrendo na orelha.
O lápis da literatura latina, pensa Riba.»

Nem sempre a lápis (67)

Há pessoas que queimam, correm o sério risco de entrar em auto-combustão e não sabem. Levam uma vida normal, nem seria de esperar vê-las assessoradas por um extintor ou um providente, mas ridículo, balde de água fria. Refiro-me apenas às que têm mais atenção e respeito pelos «bens» alheios, que os outros, nem isso; nem o risco de serem acusados de incendiários os arrefece. Denunciam-se por uma natural aptidão para o magistério, a assistência social, as claques de futebol, o canto coral, as manifes, a tecelagem com cordões-humanos, além do pára-quedismo.
Acreditam, firmemente, que só a velocidade da queda as conseguirá arrefecer, extinguir o brasido que as consome por dentro. É frequente vê-las a aquecer as mãos nas correntes de ar; sobretudo à noite, nas paragens dos autocarros que já passaram.
E então fulgem magnificamente como estrelas cadentes, sem que se perceba se são portadoras de passe ou se são passageiros de passagem.

À mão de ler (70)

«A Atlântida
Quando aquela vasta ilha, a que os antigos chamavam Atlântida, começou a afundar-se no oceano, os mais sagazes dos seus habitantes decidiram embarcar e mudar para outro continente. Lamentavelmente, os seus barcos eram pequenos e bastou uma só tempestade para engolir todos os emigrantes. Mas a grande maioria dos atlantes tinham ficado na ilha; na realidade, todas as profecias previam uma gradual subida do nível das terras, e os ilhéus, como sucede muitas vezes, crêem mais nas profecias do que na realidade que viam com os olhos e tocavam com a mão. Por isso, inundadas as planícies costeiras e ameaçadas pelas ondas as primeiras colinas, os jornais atlantes continuavam a animar a população:
"Tivemos uma nova confirmação, vinda das mais altas esferas científicas da ilha, de que está prevista a progressiva elevação da plataforma continental atlântica, cujo movimento parece ter sido tão repentino que arrastou consigo as águas do oceano; isto explica o facto de que estas tenham alcançado em algumas localidades um nível falsamente preocupante. Na espera do retorno, sem dúvida iminente das águas geologicamente impelidas, os habitantes e animais sobreviventes refugiaram-se nas montanhas que rodeiam a capital. O governo tomou as medidas apropriadas para evitar este temporário perigo, mediante oportunos diques e barreiras, enquanto os sacerdotes amorosamente se ocupam a abençoar os restos flutuantes".
Quanto mais as águas subiam, mais optimistas se tornavam os comunicados distribuídos pelas agências de notícias, mais iminente era declarado o refluxo da maré, com a consequente aquisição por parte do património nacional de novas e ilimitadas extensões de terra enriquecida pelo fértil húmus de milénios de vida submarina. Por isso ninguém fez nada e, quando o último habitante, que era justamente o presidente do conselho, deu por si no cume da mais alta montanha do país, com a água pelo peito, ouviu dizer os ministros que flutuavam à sua volta, cada um agarrado à sua própria secretária: "Coragem, excelência, o pior já passou".»

1 de agosto de 2010

Breve interlúdio musical

Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

«Robert Walser sabia que escrever
não se pode escrever, também é escrever».

Nem sempre a lápis (66)

Quem não tem que fazer afia palitos», creio que era assim que se dizia na minha terra, em Mortágua, como se afiar palitos não fosse uma trabalheira e não exigisse prudência e cautelas para não cortar os dedos. Parto do princípio, não me ocorre a fiabilidade de outro, que um palito, a ter de ser afiado, deve ser afiado em cima do dedo, rodado à medida que a navalha o afia, porque afiar um palito não tem nada a ver com afiar um lápis com uma afiadeira. Adiante, antes que desate a rabiscar no monitor.

À mão de ler (69)