23 de outubro de 2010

À mão de ler (97)

«A atitude de completa indiferença dos peões na rua irrita os automobilistas. Deixem-me ainda que lhes diga rapidamente isto: tenho nele um representante que não me obedece. Ele que passe muito bem, ele mais a sua atitude de arrogância. Vou, soberanamente, votá-lo ao esquecimento. (…) Muitas pessoas que se mostram arrogantes sofrem de falta de coragem, muitas que são orgulhosas sofrem de falta de orgulho e muitas, ainda, que são fracas, não possuem força de ânimo para reconhecer a sua fraqueza. Muitas vezes os fracos comportam-se como fortes, os despeitados como satisfeitos, os humilhados como orgulhosos, os vaidosos como modestos; é o que acontece comigo, por exemplo, que nunca me vejo ao espelho, e isso apenas por vaidade, posto que o espelho é para mim insolente e malcriado.»
[Robert Walser, O Salteador; trad. Leopoldina Almeida, Relógio d’Água, Janeiro de 2003;

22 de outubro de 2010

Como quem não quer a coisa

... começo a ler esta
enquanto aguardo a crónica de Amristar

21 de outubro de 2010

Breve interlúdio musical

Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

«É bom trabalhar nas Obras» (45)

«Os dois tinham herdado do seu avô Bruno a desconfiança pelo campo e o gosto pelas máquinas e, pouco depois, começaram a trabalhar na sua empresa. O meu avô – disse Sofía – quando se retirou do caminho-de-ferro, foi representante de Massey Harrys e eles aumentaram a oficina nas traseiras da sua casa – na calle Mitra – e foi assim que tudo começou. Já te devem ter contado a cena do galinheiro do vizinho…
- Sim – disse Renzi –, soldavam a autogéneo à noite e as galinhas do vizinho olhavam a luz o tempo todo, deslumbradas, enlouquecidas e bêbedas, com os olhos como os dos papagaios, saltavam a cacarejar, alucinadas com a brancura da soldadura, como se um sol eléctrico tivesse surgido de noite…
- Drogadas – disse ela. – Cloc-cloc. As galinhas pedradas com o resplendor, e quando levantaram um taipal de chapa para isolar o brilho do autogéneo, as galinhas desesperavam e subiam a rede do galinheiro à procura dessa brancura, tinham síndroma de abstinência… Eu recordo-me de também ter visto, quando era pequena, essa luz nítida como um cristal. Íamos sempre à oficina. Vivíamos entre as máquinas, Ada e eu. Os meus irmãos fizeram-nos os brinquedos mais extraordinários que alguma rapariga alguma vez teve. Bonecas que andavam sozinhas, que dançavam, bonecas que pareciam vivas, com engrenagens e arames ligadas a um magnetofone, falavam na gíria de cá, as bonecas, faziam-no com pinta de coristas para enfurecer a minha mãe; uma vez, fizeram-me uma Mulher Maravilha que voava, dava voltas pelo pátio todo, como um pássaro, e eu segurava-a com um fio de pesca, fazia-a girar no ar, vermelha e branca, com as estrelas e as listas, tão bela, não conseguia respirar com a emoção. Nós adorávamos os meus irmãos, andávamos sempre atrás deles, começaram a levar-nos aos bailes (a minha irmã com o Lucio e eu com Luca), as duas com saltos e os lábios pintados, a fazer de conta que éramos as bailarinas da terra, com os seus namorados, íamos aos bailes das redondezas, aos clubes dos bairros, à pista preparada no campo da pelota, com as lampadazinhas às cores e a orquestra que tocava música tropical no estrado de madeira, até que a minha mãe interveio e acabou-se a farra, ou pelo menos, essa farra.»
[Ricardo Piglia, Alvo Nocturno; em tradução para a Teorema;

À mão de ler (96)

«Ontem, colhi uma vergastinha. Imaginem: um autor passeia-se numa paisagem dominical, colhe uma vergastinha, acha que faz uma belíssima figura com ela na mão, come uma sanduíche de presunto e, enquanto come a sanduíche de presunto, presume que a empregada de mesa – que, de tão maravilhosamente esbelta, parece mesmo uma vergastinha – é a pessoa certa para ele dirigir a pergunta: “A menina quer dar-me uma pancadinha na mão com a minha vergastinha?” Confusa, ela recua perante o interpelante. Nunca, até então, lhe tinham pedido uma coisa daquelas. Fui para a cidade e toquei com a minha vergasta num estudante. Havia mais estudantes num café, sentados à sua mesa redonda de tertúlia. Aquele em que eu tocara olhou para mim como se olhasse para uma alma do outro mundo e todos os outros estudantes olharam para mim da mesma maneira. Era como se, subitamente, tivessem percebido que nunca, até então, haviam compreendido muita, muita coisa em geral. O que estou eu para aqui a dizer! Seja como for, todos eles, por razões de boa educação, fingiram que estavam muito espantados e o herói do meu romance, ou aquele que ainda o há-de ser, levanta a toalha de mesa até tapar a boca e põe-se a pensar em qualquer coisa. Ele tinha o hábito de pensar sempre em qualquer coisa, de cismar, por assim dizer, conquanto ninguém lhe desse nada por isso. De um tio, que viveu sempre em Batávia, recebeu ele uma certa importância. (…) Graças a essa ajuda, ele pôde continuar de algum modo a viver a sua existência peculiar, e é com base nessa existência, não de todos os dias e, contudo, quotidiana, que eu estou aqui a escrever um livro discreto, a partir do qual não se pode aprender absolutamente nada. Há, de facto, pessoas que pretendem retirar dos livros pontos de referência para a sua vida. Lamento muito ter de dizer aos meus leitores que não é para esse género de pessoas muito respeitáveis que eu escrevo.»
[Robert Walser, O Salteador; trad. Leopoldina Almeida, Relógio d’Água, Janeiro de 2003;

19 de outubro de 2010

Breve interlúdio musical

Porque a Net fornece um novo dia

... e o e-mail,

Às vezes, lá calha...

«A incerteza não é um conhecimento,
pensou,
é a condição do desconhecimento.»

Nem sempre a lápis (95)

«Carnaxide está na moda». Quem o afirma é o convicto pano de fundo do palco montado no Centro Cívico; fora de moda, não ouvi a chamada a tempo. Admiti que a extensão irreconhecível do número confirmasse que tinhas chegado à Índia. Passei (incólume) pela livraria, fui às anonas à frutaria e voltei para casa; a chamada não atendida no fixo franqueara-te as portas do Oriente. Abro o e-mail, como o faço várias vezes por dia:
«Cheguei hoje, pelas 6h30, a Delhi, estourada mas ávida por sentir a cidade. Vínhamos do aeroporto de táxi, houve uma cena que me fez lembrar quando fomos a Marrocos e o polícia enfiou dois estalos num homem na fronteira, em Ceuta.
O rickshaw onde vínhamos ia a pisar os traços contínuos todos, tudo do pior, e uns polícias mandaram-no parar. Começaram todos aos gritos; entretanto, como aquilo não acabava, saímos do carro e fui dizer a um dos polícias que já tínhamos pago a viagem e que tínhamos de ir para o hotel... [Gramava ter visto uma algarvia a mandar vir com um chui indiano.]
Tentei telefonar-te, mas como não atendeste, e ainda bem, porque no hotel tenho computador... Apesar de não estar sempre disponível, é melhor do que nada.»
Tanto. Ontem, um e-mail de Saïd Benabdelouahed apontava a tradução de Al-Khaïma para árabe, durante o próximo ano; hoje, sento-me na aviadora a comer uma anona com sabor a outro idioma.
[En direction d'Amritsar, Penjab]

«É bom trabalhar nas Obras» (44)

«Agradou-lhe como contava aquela história, era evidente que a tinha contado tantas vezes, que a tinha ido polindo até a deixar lisa como um canto arredondado. Claro que se podia melhorar sempre uma história, pensou Renzi distraído, enquanto Bravo tinha passado a outra coisa e retomava as conjecturas sobre Durán. Pensava que Tony se tinha aproximado das irmãs Belladona só para ter acesso ao Clube Social. Com elas podia entrar, sozinho não teriam deixado.

- Quem me dera ter avisado o Tony que não viesse para cá – disse Bravo. Usa o mais que perfeito do substantivo, pensou Renzi, tão cansado que lhe surgiam esse tipo de ideias típicas da época em que andava na Faculdade e se punha a analisar as formas gramaticais e a conjugação dos verbos. Às vezes, não entendia o que lhe estavam a dizer porque se distraía a analisar a estrutura sintáctica como se fosse um filólogo embalado pelos usos tergiversados da linguagem. Agora, sucedia-lhe cada vez menos, mas quando estava com uma mulher, e lhe agradava o modo como falava, levava-a para a cama pelo entusiasmo que lhe provocava vê-la usar o pretérito perfeito do indicativo, como se a presença do passado no presente justificasse qualquer paixão. Neste caso, tratava-se só do cansaço e da estranheza que lhe causava estar nesta povoação perdida, e quando voltou a ouvir o barulho do bar deu-se conta de que Bravo lhe estava a contar a história da família Belladona, uma história igual a qualquer história de uma família argentina do campo, mas mais intensa e mais cruel.»

[Ricardo Piglia, Alvo Nocturno; em tradução para a Teorema;

picanha]

18 de outubro de 2010

Por mor das minhas habilidades...

... alguma terei feito que me impede o acesso ao hotmail, há cerca de duas semanas. Como chegam cá os comentários, para mim é um mistério. Serve a presente, para me penitenciar perante eventuais ofendidos pela involuntária indelicadeza da falta de resposta. Enquanto aguardo a normalização do serviço, aproveito também a oportunidade (pública) para esclarecer as interlocutoras do MSN que não bati a asa nem bloqueei ninguém; são boatos, são ciumeiras.
Grato pela vossa compreensão,
fiufiu...

17 de outubro de 2010

Breve interlúdio musical

Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

«Os filhos expiam a culpa dos pais e a minha é ter os olhos rasgados e a pele amarela – respondeu. – O senhor vai condenar-me por isso, por ser o mais estrangeiro de todos os estrangeiros nesta terra de estrangeiros.»

Nem sempre a lápis (94)

Já me tinha chamado a atenção umas duas vezes, entre as diferentes tribos que coabitamos a reserva do Centro Cívico. Surgiu em passo acelerado, a puxar ou puxado por um cão preso a uma corda; um «nagalho», ouço ouvir-me. Vi-o sempre de costas, com a cabeça rematada por uma boina espanhola; fugido de uma memória qualquer. Por isso, o cão, que o guia de novo ao passado.

«É bom trabalhar nas Obras» (43)

 «O meu avô, o coronel, para começar, vangloriava-se porque era do Norte, de Piemonte, só visto para crer, olhava com desprezo os italianos do Sul, que, por sua vez, olhavam com desprezo os polacos e os russos.
O coronel tinha nascido em Pinerolo, próximo de Turim, em 1875, mas não sabia nada dos seus pais nem dos pais dos seus pais e, inclusive, uma versão dizia que os seus documentos eram falsos e que o seu verdadeiro nome era Expósito e que Belladona era a palavra que o médico tinha pronunciado quando a mãe morreu num hospital de Turim, com ele nos braços. «Belladona, belladona!», tinha dito o homem como se fosse um requiem. E com esse nome o registaram. O pequeno Belladona. Era filho de si mesmo; o primeiro homem sem pai, na família. Chamaram-lhe Bruno porque era morenaço, parecia africano. Ninguém sabe como chegou, aos dez anos, com uma mala, foi parar ao internato para órfãos da Companhia de Jesus em Bernasconi, província de Buenos Aires. Inteligente, apaixonado, fez-se seminarista e começou a viver como um asceta, dedicado ao estudo e à oração. Era capaz de jejuar e de permanecer em silêncio dias inteiros e, às vezes, o sacristão surpreendia-o na capela a rezar sozinho de noite e ajoelhava-se junto dele como se estivesse com um santo. Foi sempre um fanático, um possuído, um obstinado. A sua descoberta das ciências naturais nas aulas de física e de botânica e as suas leituras na biblioteca do convento das remotas obras proibidas da tradição darwiniana distraíram-no da teologia e afastaram-no – provisoriamente – de Deus, segundo ele mesmo contava.
Uma tarde, apresentou-se diante do seu confessor e expressou o seu desejo de abandonar o seminário e ingressar na Faculdade de Ciências Exactas e Naturais. Um sacerdote podia ser engenheiro? Só de almas, responderam-lhe, e recusaram-lhe a autorização.»
[Ricardo Piglia, Alvo Nocturno; em trad. para a Teorema;

15 de outubro de 2010

Breve interlúdio musical

Só os artolas da NASA desconhecem:

Há vida em Marta

Porque a Net fornece um novo dia

o outro deve continuar perdido na hemeroteca

Às vezes, lá calha...

«Durante o dia há sempre alguém que entra no eléctrico como se nos conhecêssemos, escreve Lola no seu caderno. Mas à noite, a mesma pessoa entra como se andasse à minha procura.»

Nem sempre a lápis (93)

Por algum motivo, ainda não assimilado, decidi levantar-me e antecipar o que, há algum tempo, me tem vindo a apetecer fazer de manhã, durante o período de adaptação que se segue ao conforto do pequeno-almoço, ao ar livre. Abri ao acaso um dos potes de Prince Albert – onde conservo diferentes misturas de tabaco de cachimbo, humidificadas com casca de maçã – e carreguei um sarrafinho italiano; um bulldog Giovanni da Varese, com a gravação da marca já quase imperceptível na ligação do fornilho à boquilha, de plástico. Exemplar baratucho, não me desiludiu o equilíbrio do formato, encomendei-o no tempo em que utilizava a Net para me intoxicar quase só com informação sobre cachimbos, artesãos de peças únicas, tobacconists e produtores caseiros de misturas avulsas de tabaco; acabaria por me envolver como provador de umas quantas marcas, fornecidas a pedido da revista Pipe Magazine. Há um ano e tal, em Porto Covo esforcei-me por retomar um hábito perdido no Algarve, que me terá levado os dentes por arrasto. Ocupado com a ociosidade nas esplanadas e na praia, era quando o cachimbo me sabia melhor, manifestado por um ouriço de fósforos apagados na areia. Admito que um ataque de tosse, que me impediu de adormecer embalado pela tarefa ao acordar, possa estar na origem do travo doce e esquecido que conservo na boca, a ouvir a chuva com a garganta limpa. Bem vistas as coisas, qualquer argumento é bom e é válido, para não me prender com o que pressinto.

À mão de ler (95)

«O Sol de certa forma intitula a natureza. Eis de que forma.Durante a noite aproxima-se dela por baixo. Depois aparece no horizonte do texto, incorporando-se por instantes na sua primeira linha, da qual aliás logo se desliga. E há aí um momento sangrento.Erguendo-se pouco a pouco, atinge então no zénite a situação exacta de título, e tudo então fica justo, tudo se refere a ele segundo raios iguais em intensidade e em extensão.Mas a partir daí, ele declina pouco a pouco, em direcção ao ângulo inferior direito da página, e quando transpõe a última linha, para voltar a mergulhar na obscuridade e no silêncio, há um novo momento sangrento.Rapidamente então a sombra cresce pelo texto que em breve deixa de ser legível.»
[Francis Ponge, Alguns Poemas; selec., introd. e trad. Manuel Gusmão, Livros Cotovia, Lisboa 1996;

13 de outubro de 2010

Breve interlúdio musical

Porque a Net fornece um novo dia

«O próximo concerto é em finais de Janeiro na Gulbenkian. Os bilhetes estão esgotados há muito tempo. Vai a Gulbenkian encher-se de empalados para o ouvir. Os empalados, para quem não sabe, são aquelas pessoas que tem um pau enfiado pelo cu acima e se movimentam, muito sérios, muito direitos, digníssimos, sorrindo aqui e ali, pelos corredores dos teatros e auditórios. Em todo caso, se algum empalado - impossibilitado de ir ao concerto ou apertadinho com a crise instalada - quiser, mediante preço a acordar, dispensar-me um bilhete, eu aceito.»

Às vezes, lá calha...

«O futuro é raro,
e cada dia que vem
não é um dia que começa.»

Nem sempre a lápis (92)

O país tornou-se ensurdecedor; não é só uma questão de idade, nem de atitude, acalmem-se os possessos. Vocifera-se e opina-se, sem que nada, mas absolutamente nada justifique a hidrorreia democrática; nem o recurso, irónico, à arcaica expressão «conquistas de Abril», é valeta que lhe comporte o caudal. E sorrio, mouco; é que há muito que caguei no presente, como acabo de fazer.

À mão de ler (94)

«As cartas que realmente me animam durante alguns dias são os "isótopos" que chegam por pombo-correio – de ranzinzas, excêntricos, chalados e malucos puros e simples. Que esplêndido discernimento teríamos sobre a vida de um autor se tais missivas fossem coligidas e publicadas de vez em quando! Sempre que um autor célebre morre, há uma corrida desenfreada para desenterrar a correspondência trocada entre ele e outras celebridades de nomeada mundial. Algumas vezes isso dá boa leitura, mas é frequente não dar. Como devoto de semanários literários franceses, dou muitas mais vezes comigo a ler excertos de correspondência entre homens como Valéry e Gide, por exemplo, e a perguntar-me, enquanto o faço, porque será que estou com tanto sono. Aqueles que classifico de modo geral como "chalados" não são de modo algum doidos, mas sim excêntricos, depravados, perversos e, tratando-se de solipsistas genuínos, todos eles andam, evidentemente, de candeias às avessas com o mundo. Acho-os mais divertidos quando lamuriam pateticamente sobre a crueldade do destino. Isto pode parecer maldoso, mas a verdade é que não há nada mais hilariante de ler do que os aborrecimentos de uma pessoa que de algum modo está sempre cheia deles. O que parece montanhas a estes tipos são sempre montículos para nós. Um homem que é capaz de discorrer sobre a tragédia da radícula de uma unha, que consegue dissertar a esse respeito durante cinco ou seis páginas, é um comediante caído dos céus. Ou um homem que é capaz de desmembrar o nosso trabalho com martelo e pinça, de o analisar até o reduzir a nada e entregar-nos os membros desaparecidos num bidé antiquado que normalmente usa para servir esparguete.»
[Henry Miller, Big Sur e As Laranjas de Jerónimo Bosch; trad. Fernanda Pinto Rodrigues, Lisboa, 2000, Livros do Brasil;

11 de outubro de 2010

Breve interlúdio musical

Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

«E ele já não se dava ao trabalho de distinguir
quais as coisas feitas e quais as sonhadas.»

Nem sempre a lápis (91)

A imagem do coreto mais emocionante, mais festiva, surge de costas para o Arade, rodeado pelo arraial de barracas de oferta de serviços turísticos, fluviais e segway, geladarias e o Pavilhão de Gelados sobrevivente. Anotado do lado oposto, a deslocação do coreto desabita-o; a promessa desmorona-se no trompe l’œil reflectido no rio e pelas suas artes. Um moliceiro varado na margem do porto novo; uma nau – Dona Bernarda, com o verniz estalado – retirada de uma caixa de fósforos, nas horas vagas. Águas trocadas; nozes dadas a quem nunca teve dentes.

À mão de ler (93)

Apagam o cigarro; a que estava sentada no chão de pernas estendidas levanta-se, a outra já se lhe adiantara um pouco; nas minhas costas perco-lhes a ida até ao outro lado do parque de estacionamento; quando me volto observo que remexem na lona verde que cobre a caixa de uma carrinha estacionada; em passos largos aproximam-se de mim, rosadas, alegres, nas mãos trazem melancias listadas que encostam ao peito; e riem; pergunta-me a mais pequena se eu quero uma melancia, agradeço e recuso; e elas, na galhofa, lá ficam com as melancias escondidas no reboliço da barriga.»

10 de outubro de 2010

Datas sem data

9 de outubro de 2010

Breve interlúdio musical

Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

«outubro
(...)

Nem sempre a lápis (90)

Ontem, por volta das dez, a noite estava amena até para quem não tinha acabado de chegar de Carnaxide, mas não se via vivalma; além dos basbaques com o pescoço garrotado pelo plasma, serviço de esplanada esquecido na Casa Inglesa. Afastámo-nos da proximidade implantada de Manuel Teixeira Gomes e bebemos o café numa outra, paralela ao rio, ao lado de um insólito coreto ali instalado durante a minha ausência; cúpula de bilros. Olhando à esquerda, os pilares da ponte de ferro boiavam ao sabor dos holofotes; olhando à direita, via-se e ouvia-se a fauna lubrificada pelo bar das bombas de gasolina e seus derivados. Colchão ortopédico e regulável, um Aston-Martin, já não me lembrava como o raio do quarto é barulhento; fica dois andares ao nível da rua de trás e interpreta o solfejo do piso e a velocidade com virtuosismo, para um melómano que dorme nas nuvens de um sétimo andar suburbano. Sentado a esta mesa, da casa dos meus sogros algarvios no Porto, há nove anos passei aqui um mês e tal a traduzir Isís e Osíris (Plutarco); tinha descansado uma semana em Asilah, vindo dos confins do Sul de Marrocos. Apetrechado com as babuchas compradas em Marrakech, acabariam por entrar na capa dos Blues, saldei uns belos sapatos de vela, uns velórios, numa loja em Armação; Ocean Pacific, marca ausente em parte incerta fora do país, comunicou-me o comerciante, visivelmente entristecido com o calçado nos pés. Uma sexta-feira – como será dentro de poucas horas, para a maior parte das pessoas –, antes do almoço abri o e-mail à velocidade snail da época: Jorge Riechmann convidava-me a assistir a uma palestra e leitura com Antonio Gamoneda, numa associação com patine sindical, pareceu-me, encerrada (a palestra) com um repasto de peixe-galo grelhado, numa taberna pelas Puertas del Sol. Descartei-me do posfácio gastronómico com o argumento da directa Portimão / Madrid, para vaguear pelo Chicote, o Guijón, o Bellas Artes estava fechado, até aterrar num pronto-a-dormir da Gran Vía, nas imediações da Telefónica. Não me lembrei de Hemingway, nem de John Dos Passos, nem do Hotel Florida. De manhã, prospectei a Hiperión, entre outras, mas a memória não dá fé dos livros peneirados: José Ángel Valente? Menchu Gutiérrez? Tenho mais presente a esplanada, onde almocei o pequeno-almoço, antes do percurso inverso pelos países que tinha atravessado: dos pomares, do azeite, do queijo manchego; separação suicida ditada pela sentença, pelo tropeção geológico de Despeñaperros.
A cidade recebeu-me a dizer que o Clube Naval celebra 50 anos. Amanhã, vou até lá demolhar o olhar disposto a colher informação; espero que as parangonas não sejam decorativas, eleitorais. Por outro lado, tenciono fotografar a leitura de uma imagem adiada há tempo demais; o livro – fechado – que apresenta a Biblioteca Municipal, atirado para cima da relva. Anotado o alvo e nem uma semana decorrida desde que comecei, entrego-me a Piglia; foi a vez do último leitor voltar ao Algarve.

«É bom trabalhar nas Obras» (42)

«Entrevistaram a telefonista do hotel, a menina Coca. Magrinha, sardenta, sabia tudo de todos, Coca Castro era a pessoa mais bem informada da região, estavam sempre a convidá-la para todas as casas para que contasse o que sabia. Fazia-se rogada. Mas, por fim, lá ia sempre com as suas notícias e as suas novidades. Por isso tinha ficado solteira! Sabia tanto que nenhum homem se abalançava. Uma mulher que sabe assusta os homens, segundo dizia Croce. Saía com os vendedores à comissão e com os viajantes e era muito amiga das jovenzinhas da terra.
Perguntaram-lhe se tinha visto algo, se tinha visto entrar ou sair alguém. Mas não tinha visto ninguém nesse dia.

A telefonista estava nervosa, no caso de um assassinato todos crêem que lhes vão complicar a vida. Durán era um encanto, tinha-a convidado duas vezes para sair. Croce pensou de imediato que Durán queria saber coisas, por isso a convidou; a pequena podia dar-lhe informação. Ela tinha-se recusado, por respeito para com a família Belladona.

- Perguntou-te algo específico?

A pequena pareceu enroscar-se, enrolar-se, como um espírito na lâmpada de Aladino, de que só se via uma boca vermelha.

- Queria saber com quem Luca falava. Foi o que me perguntou. Mas eu não sabia nada.

- Telefonou para a casa das irmãs Belladona?

- Várias vezes – disse Coca. – Falava sobretudo com Ada.

- Vamos telefonar-lhes, quero que venham reconhecer o cadáver.

A telefonista marcou o número de casa dos Belladona. Tinha a expressão satisfeita de alguém que é protagonista de uma situação excepcional.

- Olá, está?, aqui Hotel Plaza – disse. – Uma chamada para as meninas Belladona.»

[Ricardo Piglia, Alvo Nocturno; em tradução para a Teorema;

central]

7 de outubro de 2010

Breve interlúdio musical

Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

Nem sempre a lápis (89)

Em Alcácer, já não eram verdes; o Sol do entardecer dourava os arrozais. Loteamento palafita, cotado pelas oscilações das marés, sedimentadas as propostas do rio. Tenho vindo a declinar noutros, a gosma da leitura; leio o que me leram. Despertado pela hipnose quilométrica da auto-estrada, dou por mim a encerrar o mês de Setembro como há trinta e nove anos, e há dois o tenho vindo a começar; em viagem, interior. Não parei na área de serviço habitual, nem vou parar na Mimosa: anoto o percurso a meio, a enrolar cigarros num ambiente de estrebaria; casta lusitano.

À mão de ler (92)

«... o fotógrafo concretiza uma ideia do protagonista do romance de Sebald: desacelerar as imagens do filme nazi, para que "as coisas e pessoas até então ocultas" se tornem visíveis. Austerlitz buscava em câmara lenta o rosto perdido de sua mãe; Blaufuks um rasto de Ernst K. Nem um nem outro tiveram sorte.»
[A cor da memória; Bibliotecário de Babel, 4 Outubro 2010]

5 de outubro de 2010

Breve interlúdio musical

Viagem para a Índia


Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

«Quando a curiosidade desaparece,
as pessoas morrem.»

Nem sempre a lápis (88)

Sem dar por ela, a consumir livros adiados e a vestir qualquer coisa por cima da t-shirt, Setembro aproximou-se do fim como se, pela primeira vez em muitos anos, tivesse feito férias sem pegar na carrinha; fui uma ou duas vezes a Lisboa, de autocarro. Pude, finalmente, passar as tardes na esplanada ocupado só com as minhas coisas. Quando retomar o trabalho, não faltará a necessidade, não deixará de soar a urgência de ir dar uma volta. Ontem, troquei o lanche com as vizinhas por uma tarde muito social; subi a Duque de Loulé para entregar a revisão de Vantagens Em Viajar de Comboio, nas Edições 70 – as boas memórias, ali na estante, que esta chancela me evoca – e depois, subi a Luciano Cordeiro até à esquina com a rua ofegante da Teorema, para apanhar as fotocópias de Blanco nocturno [Alvo Nocturno] de Piglia. Já ia com Desespero (Nabokov) fisgado, mas, qual não é o meu espanto, quando vi um caixotinho cheio de Um Pai de Filme, a rir-se para mim com a expressão franca de Skármeta. Naveguei um pouco com o Carlos Veiga Ferreira pela Internet, a vila-matearmos, surpreendido por vê-lo em atitude hikikomori; ficámos de nos encontrar na Pó dos Livros. Desta vez, a jornada de Catalunyapresenta era dedicada à tradução de No Último Azul, da maiorquina Carme Riera, apresentada pelo editor; respondeu que o tradutor também iria estar presente. Para mim, Miranda das Neves foi sempre um tradutor; mas lá iremos. Primeiro, deambulei pelo Jardim José Fontana, em busca de um banco para abrir o saco bem municionado; mas tudo o que havia, a abarrotar, era mais um quiosque, interdisciplinar com o Passos Manuel. Como o peso do saco me cortava a mão, decidi ir conhecer a Almedina, em edição lisboeta. Cabisbaixo, confesso, pelo passeio bunkerizado do Mercado do Saldanha; já lá vai o tempo das cabeças de peixe com feijão verde, das galinhas degoladas para a cabidela. O Pedro Vieira não oficiava na catedral, mas precisei de focar duas vezes para confirmar que me sorria o Nuno Moura; e não era cliente. Fomos até ao gueto de fumadores no exterior, comentar (interessantes) planos vindouros e confirmar as vantagens do segregacionismo; fornece um desfile muito criativo de coristas, sob o meu ponto de vista. Despedimo-nos e não há vez nenhuma que atravesse o Saldanha e não me lembre do tempo em que o João César Monteiro plantava ovos aos pés da estátua; era voz corrente no Monte Carlo, um saco de tarecos e bichanas, das melhores procedências. Segui, exageradamente, a Avenida da República e, como um mal centenário nunca vem só, entrei ainda pior na 5 de Outubro; a igreja de Nossa Senhora de Fátima fitava-me, ao fundo, com a meiga expressão português suave. Num ameno recanto do passeio, obstruído pela esquina de um prédio com uma loja de artigos de culto à vista desarmada, um puto acabava de acender um charro de uma qualidade que me levou a esticar o polegar, embora sem me deter; tive receio de ser mal interpretado. Refreei a compulsão para a compra de livros, num corredor entalado entre o balcão e a montra; mandei vir um descafezado e um rissol marmóreo, ruminado a folhear e a eliminar as páginas em branco e as desnecessárias para a tradução. Na Pó dos Livros correu como de costume; o Outono convida a assistência, e quando perguntei ao Carlos pelo tradutor, indicou-me a Umbelina, com a cabeça. Já nos encontrámos uma série de vezes, desde o Seminário de Tradução de Língua Catalã, há dois anos no Instinto Camões; mais uma oportunidade para verificar a minha natural tendência para dar como adquirida, a primeira coisa que me vem à cabeça.
Retomada a memória devassada até ao Marquês, esperava pelo autocarro e levei a mão ao saco para anotar este período de McCarthy no bloco que o Carlos me ofereceu: «Nas árvores havia maçãs verdes do tamanho da unha do polegar, de um verde reluzente e fogoso, um verde fatal como o abdómen das varejeiras.» Mais tarde, quando abri o bloco em casa, reparei na marca: Teorema. «Tome lá para os seus apontamentos de tradução», apetrechou-me discretamente.

[O catalão é muito bonito; para mim, tem uma sonoridade familiar ancestral.]

«É bom trabalhar nas Obras» (41)

«Até que por fim, uma tarde, viram-no entrar, divertido e conversador, com uma das duas irmãs, com Ada, dizem, no bar do Plaza. Sentaram-se a uma mesa, num canto afastado, e passaram a tarde a conversar e a rir-se em voz baixa. Foi uma explosão, um esbanjar de alegria e de malícia. Nessa mesma noite, começaram os comentários em voz baixa e a subida de tom das versões.
Disseram também, que os tinham visto entrar, ao fim da noite, na pousada da estrada que ia para Rauch e, inclusive, que o recebiam numa casita que as raparigas tinham longe da povoação, nas imediações da fábrica fechada que se erguia como um monumento abandonado, a uns dez quilómetros da povoação.
Mas foram falatórios, ditos provincianos, versões que só conseguiram fazer aumentar o seu prestígio (e, também, o das raparigas).
Logo à partida, como sempre, as irmãs Belladona tinham sido as para a frentex, as precursoras de tudo o que de interessante se passava na terra: tinham sido as primeiras a usar minissaia, as primeiras a não andarem de soutien, as primeiras a fumar marijuana e a tomar pílulas anti-contraceptivas. Como se as irmãs tivessem pensado que Durán era o homem indicado para completar a sua educação. Uma história de iniciação, era isso, como nas novelas, onde jovens arrivistas conquistam as duquesas frígidas. Elas não eram frígidas nem eram duquesas, mas ele sim, era um jovem arrivista, um Julien Sorel do Caribe, como disse, erudito, Nelson Bravo, o redactor de Sociedade do jornal local.»
[Ricardo Piglia, Alvo Nocturno; em tradução para a Teorema;

4 de outubro de 2010

3 de outubro de 2010

Breve interlúdio musical

Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

«É bom trabalhar nas Obras» (40)


Começa assim:
«Tony Durán era um aventureiro e um jogador profissional e viu a oportunidade de ganhar a aposta máxima quando tropeçou nas irmãs Belladona. Foi um ménage à trois que escandalizou a terra e ocupou a atenção geral durante meses. Aparecia sempre com uma delas no restaurante do Hotel Plaza, mas ninguém conseguia saber qual era a que estava com ele, porque as gémeas eram tão iguais que nem a letra se diferenciava. Tony quase nunca se fazia ver com as duas ao mesmo tempo, reservava isso para a intimidade, e o que mais impressionava toda a gente era pensar que as gémeas dormiam juntas. Não tanto que partilhassem o homem, mas que se partilhassem a si mesmas. Em breve os murmúrios transformaram-se em versões e em conjecturas e já ninguém falou de outra coisa; nas casas ou no Clube Social ou no armazém dos irmãos Madariaga fazia-se circular a informação a toda a hora, como se fosse o estado do tempo. Nesta terra, como em todas as terras da província de Buenos Aires, havia mais novidades num dia, do que em qualquer grande cidade numa semana, e a diferença entre as notícias da região e as informações nacionais era tão abismal que os habitantes podiam ter a ilusão de viver uma vida interessante. Durán tinha vindo enriquecer essa mitologia e a sua figura alcançou um expoente lendário muito antes do momento da sua morte.»
[Ricardo Piglia, Alvo Nocturno; em tradução para a Teorema;
capa]

1 de outubro de 2010

Breve interlúdio musical

Porque a Net fornece um novo dia

«eu poderei, na opinião do anónimo,
já o anónimo não dá a cara por ninguém.
nem por si.»

Às vezes, lá calha...

Nem sempre a lápis (87)

Perante a possibilidade de me libertar de mais dois inéditos – durante o próximo ano que, como é sabido, só acaba em Janeiro –, voltei a ter o cuidado de insistir, junto de um e outro editor, Não há pressa. Espero que tenham entendido a parcimónia, a lentidão (Milan Kundera) como uma dádiva recíproca: enquanto reúnem condições para nos despedirmos no formato de livro, confio que a distância, o desamor pelo texto, me concedam a última oportunidade de escová-lo. Não para lhe puxar o brilho, não tenho eu feito outra coisa, mas agora, como se cardasse o borboto do original. Só arrumado o passivo, poderei dedicar a necessidade de escrever apenas a este exercício; anotar os transtornos do futuro, quando intercepta o presente.

À mão de ler (91)

«Muitos crêem que o Finnegans é um livro de cerimónias fúnebres e estudam-no como o texto que funda a religião na ilha. O Finnegans é lido nas igrejas como uma Bíblia e é usado para pregar em todas as línguas pelos pastores presbiteranos e pelos sacerdotes católicos. No Génesis fala-se de uma maldição de Deus que provocou a Queda e transformou a linguagem na abrupta paisagem que hoje é. Bêbado, Tim Finnegan caiu na cave por uma escada, que imediatamente passou de ladder a latter e de latter saiu litter e da desordem a letter, a mensagem divina. A carta é encontrada numa lixeira debicada por uma galinha. Está assinada com uma mancha de chá e a prolongada permanência na lixeira danificou o texto. Tem buracos e borrões e é tão difícil de interpretar, que os eruditos e os sacerdotes conjecturam em vão sobre o verdadeiro sentido da Palavra de Deus. A carta parece escrita em todas as línguas e muda continuamente sob os olhos dos homens. É esse o Evangelho e a lixeira donde vem o mundo.»
[Ricardo Piglia, A Cidade Ausente; trad. J. F., Teorema, Maio 2010;