12 de novembro de 2010

Porque a Net fornece um novo dia


«Só quem já desapareceu percebe que é impossível definir com exactidão a hora, o minuto e os segundos em que algo ou alguém desaparece. Porque desaparecer não é apenas deixar de ser visto. No limite, é deixar de se ver a si próprio. (Só tem uma vida boa quem tem um bom esconderijo, dizia o sensato Kierkegaard.)
Desaparecer da frente dos outros requer esforço, mas é possível (o bom esconderijo resolve) – desaparecer diante do espelho, eis o grande obstáculo.»
[Gonçalo M. Tavares]

Às vezes, lá calha...

Nem sempre a lápis (104)

Este livro – O Americano Tranquilo (Graham Green) – não é meu; veio integrado no recheio de uma prateleira. O registo de propriedade é uma foto da Nico, adolescente, utilizada como marcador na página 106, a participar numa récita, num sarau do colégio da Covilhã. Traduzido por P. J. Morais e capa e fotografia de Licínio de Melo, «Esta edição Unibolso – Biblioteca Universal foi realizada por acordo com a Editora Ulisseia». Quando, não se sabe; na penúltima página, consta a discrição de ter sido «Composto e impresso por Gris Impressores, S. A. R. L. (Lisboa-Cacém) para os Editores Associados, Lda.»; no canto superior direito da primeira página, figura o preço 20.00 escudos, marcado a lápis. «Sentada no chão, uma mulher amparava no colo os restos do seu filho: por uma espécie de modéstia, cobria-o com o seu chapéu de palha de camponesa.», lê-se na contracapa sob o canto oposto à foto do autor, Graham Green. No verso do marcador fotográfico, tecnicolor, anotaram um surpreendente 25.00, também a lápis e que se adivinham escudos contemporâneos da edição do livro; na frente, quatro meninas levantam a pernoca com os bracinhos no ar, vigiadas por um friso de seis vestais, estáticas e vestidas com longas túnicas cinzentas, como se acautelassem o decoro entre as ceroulas no palco e a comoção paternal na plateia. Detestei sempre essas cenas, festas de finalistas, jogos florais – a menos que metessem baile, quando o público se fosse embora –, mas passo-me, entrego-me a conversas com leituras vadias; encontre-as eu. Comecei a apreciá-las na Trama, até uma noite dar por mim a ler à desgarrada com o Miguel Manso, acompanhado por um espontâneo à guitarra portuguesa; depois, puxei pelas cordas vocais e paguei também umas rodadas de um Curso Intensivo de Jardinagem, no Bar da Barraca, até chegarmos ao fim do livro e voltarmos ao princípio, porque «o princípio de um livro é precioso»; finalmente, assisti a duas leituras no extinto Bar na Cave do Miguel Martins, uma (Marta Chaves) com público que excedeu a dimensão íntima da mesa junto ao balcão, onde decorreu a última (Renata Botelho). Há uns dias atrás, despertou-me a curiosidade que uma das fontes de tráfego fosse o blogue de um Clube de Leitura do Colégio de Nossa Senhora da Boavista, em Vila Real; e que bons olhos o vejam. Fui ver do que se tratava e esperava-me um vídeo clipe pronto a utilizar, onde creio ver no início da sequência dos diaporamas a preto e branco, o sereno perfil de Pires Cabral. Embalado pelo som eléctrico do cravo, da espineta, o que mais me fascina, o que mais me comove, são as expressões; de quem lê e do público, que muitas vezes ouço como marcador de leitura do blogue.

À mão de ler (107)

«Na verdade, para a minha geração, a Internet é um complemento precioso, mas não mais do que um complemento. Há uns meses, tive que identificar um milhar de títulos franceses de filmes negros, a maioria americanos, a partir de um livro italiano. Sem o recurso a alguns sites de cinema italianos, nunca teria conseguido. Já para não dizer que nesses sites encontrei informações actualizadas e que ainda não constam dos livros sobre o mesmo tema da minha biblioteca, que remontam, pela força das coisas editoriais, ao que se sabia há três ou quatro anos. Como benefício de uma formação classicamente fundada no livro, tenho do instrumento Internet uma visão particular. Mas o que acontecerá às gerações que hão-de crescer com ela? Não sei se será melhor ou pior; sei que será diferente. Eu sirvo-me desajeitadamente destes instrumentos, mas eles fazem parte de um esquema específico e preestabelecido. (Do mesmo modo, tendo aprendido a fazer contas na época da tabuada e do cálculo mental, sou menos dependente da calculadora e também… menos rápido). Já Robert Musil dizia que “todo o progresso traz consigo uma regressão". A História mostra que nunca escapamos ao progresso útil.»
[Jacqes Bonnet, Bibliotecas Cheias de Fantasmas; trad. José Mário Silva, Quetzal / textos breves, Outubro 2010]

11 de novembro de 2010

Um hino à ternura

(Click na imagem para se enternecer melhor...)

10 de novembro de 2010

Breve interlúdio musical

Porque a Net fornece um novo dia

«Uma profusão de molas
Hoje passei por um blogue com uma coluna de blogues favoritos sob os quais pontuavam as últimas mensagens. O impacto tremendo do tempo das últimas mensagens. Em regra, 1 mês, 6 meses, mais ainda. Espreitei alguns, curiosa, como nas visitas às aldeias em redor da vila. Encontram-se ainda portas abertas em alguns lugares, fruta da época, um estendal de calças, aventais e camisolas de lã com acrílico, quase sempre em vermelho-tijolo e um verde estranhíssimo, carcaças inertes de automóveis, caixotes de plástico. Ocasionalmente, de madeira. Telhas e molas, uma profusão de molas. Às vezes, livros velhos e manchados, folhas do jornal da paróquia, o cheiro dos enchidos e um rádio de mesa sintonizado na Renascença.»

Às vezes, lá calha...

«Mas como desfazer-me, por exemplo, de O Apelo da Selva, sem apagar um dos poucos marcos da minha infância, ou de Zorba, o Grego, que com um pranto selou a minha adolescência.»

Nem sempre a lápis (103)

Quando me deitei ao volante de Bibliotecas Cheias de Fantasmas, percebi logo que estava com graves problemas de travões. Contrariado, estacionei-as na noite seguinte, bem à mão ao lado da cama; não com aquela frustrante (para mim) sensação de rapidinha – vai ser tão bom, não foi? –, mas com a certeza de que não ficávamos por ali. Bem vistas as coisas, vivo numa casa de papel; às vezes, papel de arroz. Jacques Bonnet tinha-se colado ao pedido de A Costa das Sirtes, mas acabou por ser trazido pel’A Viagem À Índia e o bloco com a capa do livro de Moravia, para a Nico anotar a ideia com que veio de lá. Entretido a recuperar do rascunho da tradução de Alvo Nocturno e de uma ida e volta ao Sul – tendo o cuidado de não atropelar uma ruça jovem, encadeada na Nacional; não faço distinção entre lebres, gatos, coelhos, cães –, deleguei na Net a capacidade de esmorecer a vontade de ir até Lisboa e evitar o confronto com a turbulência de sábado à tarde; soalheiro, ainda por cima. Gosto mais de flanar pela cidade fardada à civil, ocupada com o relógio de ponto. Entre tantos blogues que folheei e os que li, algo se terá sobreposto à toada das ragas em fundo e fui procurar A Casa de Papel e não o autor, no Google, que me atirou aos olhos a capa da colecção Pequenos Prazeres, redireccionada para a Leya. Existe. Enquanto riscava o título da lista de livros a comprar numa próxima ida a Huelva, a Sevilha, a Madrid, sorri a estabelecer uma (feliz) continuidade entre a colecção da ASA dirigida por Manuel Alberto Valente, e as “pequeno formato” e “textos breves”, que Francisco José Viegas concebeu para a Quetzal. Depois, liguei para a Letra Livre, que me aconselhou a contactar a Avelar Machado, na segunda-feira; mas, como estava e estou com pressa, liguei para a Pó dos Livros, onde um exemplar já terá sido visto e fico a aguardar a habitual sms. Entretanto, compro – intacto ou bem lido e não sublinhado – o livrinho que, embora com outra capa e outra filiação, acima ilustra a urgência do meu estado de alma por pequenos, brevíssimos prazeres de 80 páginas, assim resumidas:
«Bluma Lennon foi uma das vítimas da Literatura. Na Primavera de 1998, Bluma, uma lindíssima professora de Cambridge, acaba de comprar um livro de poemas de Emily Dickinson quando é atropelada. Após a sua morte, um colega e ex-amante recebe um exemplar de A Linha da Sombra, de Joseph Conrad, em que Bluma escrevera uma misteriosa dedicatória e que lhe era agora devolvido. Intrigado, parte numa busca que o leva a Buenos Aires com o objectivo de procurar pistas sobre a identidade e o destino de um obscuro mas dedicado bibliófilo e a sua intrigante ligação com Bluma.»

À mão de ler (106)

«Há livros que li e esqueci (muitos), e alguns que me limitei a espreitar e de que me lembro. Ou seja, nem todos foram lidos, mas todos foram folheados, cheirados, sopesados. Depois disso, a obra pode tomar três direcções possíveis (refiro-me aos livros escolhidos por mim e por isso já “seleccionados”, e não aos livros simplesmente recebidos): leitura imediata ou a breve prazo, leitura para mais tarde (o que pode levar semanas, meses ou anos, se as circunstâncias forem particularmente desfavoráveis e o afluxo demasiado intenso, formando-se “pilhas de livros a ler”), ou leituras para arrumar nas prateleiras. Mas mesmo estes últimos livros foram, de certa maneira, “lidos”, e ficaram arrumados tanto numa parte qualquer do meu espírito como na minha biblioteca. Eles servirão um dia, embora não saiba quando nem porquê. Há decerto uma razão para estarem aqui. Deveríamos falar igualmente dos livros que lemos e que falhámos, desses com os quais nunca nos conseguimos entender, porque, embora sejam geniais, não nos correspondem, desses outros livros que precisam de ser relidos para que os assimilemos, dos que temos vontade de reler por puro prazer, dos que certamente nunca mais voltaremos a abrir mas de que não nos queremos separar, dos autores que prometemos reler integralmente um dia ou descobrir, etc. (“Na verdade, uma biblioteca, seja qual for o seu tamanho, não precisa de ter sido lida de uma ponta à outra para ser útil; cada leitor beneficia de um equilíbrio exacto entre saber e ignorância, memória e esquecimento”, Alberto Manguel). Séneca chegava ao ponto de considerar que os numerosos rolos da Biblioteca de Alexandria eram “decorações de sala de jantar".»
[Jacqes Bonnet, Bibliotecas Cheias de Fantasmas; trad. José Mário Silva, Quetzal / textos breves, Outubro 2010;

8 de novembro de 2010

Breve interlúdio musical

Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

Nem sempre a lápis (102)

«Diários daqueles em que se anotam minuciosamente os sentimentos, até agora só tive um. Na adolescência. Quando o meu pai o descobriu e julgou encontrar nele a provável razão de, com os meus amores, eu ter descurado o estudo, obrigou-me a ouvir a leitura irónica e declamada que dele fez. Eu tinha dezasseis anos, a humilhação deixou marcas. Hoje, as ameaças desse dia e os insultos e bofetadas que me deu depois, já não contam. Mas mais que a dor e a humilhação física, o ele ter violado os meus pensamentos e anseios íntimos foi das coisas que nunca consegui esquecer ou perdoar.»
E é assim, lida a contracapa – à lupa, à Joyce – com um indisfarçável nó na garganta, que me ponho a pensar: anda toda a gente aos gritos, toda a gente indignada (o toda, é da hora) com o descrédito em que caiu a edição do livro e o livro por arrasto (o toda, é indissociável da generalização), mas ainda ninguém se lembrou que há males que podem vir por bem. Neste momento, o que mais me apetecia era pegar no telefone e ligar para uma book-hut, uma livro-na-brasa e encomendar uma dose de Tempo Contado. «Deseja o seu pedido em link ou em papel?», ficciono para ver se estimulo o interesse de algum jovem empresário. Não, homem, com contracapa. Ah, e basta tocar a campainha só uma vez; depois das oito da noite, tenho de descer para abrir a porta da rua. «Número quatro, sétimo esquerdo?», rebobina a gravação para, enquanto confirmo o endereço, inserir os dados no GPS. «O seu pedido será satisfeito dentro de meia hora.» Era mesmo o que me apetecia para ir nadar no conforto do leito, enquanto ouço uma motoreta às voltas na praceta, a entregar pizzas.

À mão de ler (105)

«As conversas em família eram raras e as decisões dos progenitores não primavam pela racionalidade. O tédio da infância só podia ser combatido se enveredássemos pelo desporto e pela leitura. Esta última tinha qualquer coisa do rio edénico com quatro cabeças, partindo à descoberta dos quatro horizontes. Na leitura não havia distâncias. Através dela podia transportar-me instantaneamente para as regiões mais afastas, onde prevaleciam os costumes mais estranhos. A mesma coisa com o tempo: bastava abrir um livro para deambular pela Paris do século XVII, correndo o risco de levar na cabeça com o conteúdo de um penico, ou então podia defender as muralhas de uma Bizâncio prestes a cair às mãos dos Otomanos, ou passear em Pompeia na véspera do dia em que foi sepultada por uma torrente de lava e cinzas. A dada altura, apercebi-me de que os livros não eram apenas um meio de evasão salutar, mas que eles continham igualmente os instrumentos que permitem decifrar a realidade circundante. A pequena burguesia com aspirações a subir na vida quis perpetuar a sua ascensão e para isso dispôs-se a pagar os estudos aos filhos. Era o tempo de passar do comércio para a barra dos tribunais, para a medicina ou para a finança. E é aí que estão as verdadeiras raízes do Maio de 68: as crianças tornaram-se mais inteligentes, ou pelo menos mais conhecedoras, do que os seus pais (o que não era difícil) e começaram a levantar questões inéditas que nada tinham de absurdo e que só obtiveram um início de resposta quando voaram os primeiros paralelepípedos. Evasão e conhecimento, tudo isso passava pelos livros. Fiquei-lhes eternamente grato, uma espécie de dívida moral que ainda não acabei de saldar. Foi também uma forma de fugir aos trilhos familiares, e daí a ambição, que valia por muitas, de aproveitar a vida para ler todos os livros.»
[Jacqes Bonnet, Bibliotecas Cheias de Fantasmas; trad. José Mário Silva, Quetzal / textos breves, Outubro 2010;

7 de novembro de 2010