26 de janeiro de 2011

Papiro do dia (28)

«Até um velho, analfabeto, com pouca força de braços, e incapaz de dizer uma única frase sensata, até um homem desses, um homem secundário, conseguia controlar aquele jardim, aquela outra máquina, aquela máquina verde.
Mas Frederich alertara desde cedo os filhos para o outro momento da natureza, o momento em que a natureza se torna guerreira – “só aí vale a pena tirar fotografias”, dizia. Nesses momentos – numa tempestade, por exemplo – em que as mudanças rápidas substituem a mudança lenta, vem à superfície a incompatibilidade moral, utilize-se esta palavra, entre o sistema dos homens e o sistema da natureza. No limite: o que era crime de um lado não era crime do outro.
E por isso, defendia Frederich, é que a natureza com que se convivia nos dias comuns, nos “dias fracos”, enganava.
E o engano era este: num dia de sol, pacífico, abria-se a janela e olhava-se para o que lá fora não fora feito pela inteligência do homem com a benevolência com que se olha para um conjunto de quadros dispostos nas paredes de um museu. O erro, precisamente, era ver a natureza semelhante a um museu que cresce. Museu cujas peças mudam de posição de modo quase imperceptível, parecendo fruto da timidez ou simplesmente da fraqueza desses elementos. Nos dias em que o que não era humano podia ser retalhado em pedaços, copiando a divisão de uma máquina nas suas partes, nesses dias, nos quais o homem poderia orgulhar-se de limpar os sapatos ao mundo que existira antes de si, a natureza era realmente um museu.»
[Gonçalo M. Tavares, Aprender a rezar na Era da Técnica; Caminho, Outubro 2007;

24 de janeiro de 2011

Breve interlúdio musical

Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

«É bom trabalhar nas Obras» (64)

Começa assim:
«Não se vão acreditar, vão dizer que sou tonto, mas quando era criança os meus sonhos eram voar, tornar-me invisível e ver filmes em minha casa. Diziam-me: espera que chegue a televisão, vai ser como teres um cinema no teu quarto. Agora já sou adulto e rio-me de tudo isso. Claro, há televisões em toda a parte e sei que ninguém consegue voar, a menos que entre num avião. A fórmula da invisibilidade ainda não foi descoberta.
Lembro-me da primeira vez. Instalaram um aparelho em Regalos Nieto, e na esquina da avenida Juárez com a San Juan de Letrán havia tumultos para ver as figurinhas. Só passavam documentários: cães de caça, esquiadores, praias do Havai, ursos polares, aviões supersónicos.
Mas, a quem me dirijo eu? É suposto que ninguém venha a ler este diário. No Natal ofereceram-me o bloco e não quis pôr nada nas suas páginas. Escrever um diário parece-me coisa de mulheres. Fiz troça da minha irmã porque anota muitas parvoíces no dela: “Querido diário, hoje foi um dia tristíssimo, esperei pelo telefonema do Gabriel em vão”; coisas do género. Daqui aos sobrescritos perfumados, vai um passo. O que os meus colegas de escola não se iriam rir se soubessem que também ando metido nestas mariquices.
O professor Castañeda recomendou-nos que escrevêssemos um diário. Segundo ele, ensina a pensar. Ao redigi-los, arrumamos as coisas. Com o tempo, torna-se interessante ver como éramos, o que fazíamos, qual era a nossa opinião, como mudámos. Por falar nisso, Castañeda deu um dez à minha redacção sobre a árvore e publicou os versos que escrevi para o dia da mãe na revista do liceu. Em ditados e redacções ninguém me ganha; dou erros, mas tenho melhor ortografia e pontuação do que os outros. Também sou bom a história, a inglês e a civismo. Em contrapartida, sou uma besta a física, a química, a matemática e a desenho. Na minha sala não há mais nenhum que tenha lido El tesoro de la juventude quase todo, nem Emilio Salgari todo e muitos romances de Alexandre Dumas e Júlio Verne. Adoro livros, mas o professor de ginástica disse-nos que ler muito enfraquece a vontade. Ninguém entende os professores, um diz uma coisa e o outro, o contrário.
Escrever tem o seu encanto: espanta-me ver como as letras se unem e formam palavras e saem coisas que não pensávamos dizer. Além disso, o que não se escreve, esquece-se: desafio quem quer que seja a dizer-me, dia a dia, o que fez o ano passado. A partir de agora, proponho-me contar o que me acontecer.
Vou esconder este caderno. Se alguém o lesse, eu iria ficar muito envergonhado.»
[José Emilio Pacheco, O Princípio do Prazer; em tradução para a Colecção Ovelha Negra / Oficina do Livro;

Papiro do dia (27)

«Não havia neste choro o mínimo de falsidade. A mulher de Lenz era sincera, mão havia qualquer interferência da intenção. O que existia era, sim, a manifestação de uma eficácia impressionante por parte daquele mecanismo a que chamamos enterro. Cada pessoa que chorava, e algumas tinham sido vistas a baixar a cabeça, chorava não pelo morto mas pelo ruído que as rodas daquele mecanismo libertavam. Havia, tanto nas palavras religiosas quanto nos gestos quase universais dos soldados a baixarem o caixão em direcção à terra, a fixação num ponto que era comum e não já individual. Esse ponto que unia a comunidade dos presentes era a sensação de que cada um deles poderia, no dia seguinte, ser o morto que os outros homens respeitam. Chorava-se em conjunto pelo fracasso da cidade: ainda não se encontrara antídoto para aquele ruído que parecia ser libertado em cada enterro. Cada homem reivindicava que a morte – e o seu sistema de funcionamento – terminasse antes de chegar a si. E em cada funeral a despedida do morto era também o relembrar de um fracasso comum, de um fracasso, inclusive, da mais alta referência dos humanos: a sua cultura, a sua forma de raciocinar que construíra um novo mundo e que quase tornara o perigo, em tempo de paz, uma energia não normal, extraordinária mesmo. De facto, nas cidades sem guerra, o perigo tornara-se raro, mas a morte, essa, continuava abundante; parecia impossível ao homem dominar o seu preço: este continuava baixo, acessível, igual ao de qualquer produto insignificante. A morte, cada morte individual, manifestava o fracasso económico, técnico e cultural das cidades.»
[Gonçalo M. Tavares, Aprender a rezar na Era da Técnica; Caminho, Outubro 2007;

22 de janeiro de 2011

Breve interlúdio musical

Porque a Net fornece um novo dia

Nem sempre a lápis (125)

Para que conste (e se compreenda, e se dê o desconto), a minha cabeça encontra-se num estado francamente invejável. Ando a ler Gonçalo M. Tavares (Papiro do dia), comecei a traduzir os contos de José Emilio Pacheco (É bom trabalhar nas Obras) e um prefácio de Vila-Matas (Às vezes, lá calha…), continuo a folhear blogues (Porque a Net fornece um novo dia) e, como se não bastasse, tenho o desplante de anotar estas coisas (Nem sempre a lápis) num caderno emagrecido a duas folhas; apontamentos de Tânger.

Papiro do dia (26)

«O Dr. Lenz, cirurgião importante da cidade, homem possuidor absoluto dos seus prazeres privados, apreciador de pequenas humilhações a prostitutas, e que ganhara o hábito recente de receber em casa um vagabundo, de lhe oferecer esmolas chorudas, de lhe dar pão e comida, e acima de tudo, de o humilhar, de atrasar a esmola, a comida, de saborear o prazer de estar na parte forte e de ter dois olhos sãos e claros para ver o que a claridade do mundo mostrava: a rudeza desse mesmo mundo, a violência e a indiferença entre quem tem saúde e quem não a tem, quem tem dinheiro e quem não o tem, quem é velho e quem não o é, quem é feio ou deficiente e quem não o é, quem tem marcas de acidente no rosto, queimaduras, cortes que desfiguram a beleza média e quem, pelo contrário, não tem nada que manche o seu orgulho, o seu orgulho exterior, físico, a única moeda comum a todos os séculos, a todos os países, a todas as línguas. Era isto que os olhos sãos e claros de Lenz viam, era isto que a claridade do mundo lhe mostrava.»
[Gonçalo M. Tavares, Aprender a rezar na Era da Técnica; Caminho, Outubro 2007;

20 de janeiro de 2011

Breve interlúdio musical

desviei-lhe a (.)(.)na cá cuma pinta

Porque a Net fornece um novo dia

(Travessa da Galé, 36, Alcântara, Lisboa – junto da antiga FIL)

Às vezes, lá calha...

Nem sempre a lápis (124)

Insinuando-se, sorrateira, o Algarve passou a significar condução, depois da viagem; eu gosto é de viajar. Quando o destino deixou de ser a «casa de ninguém», com o tejadilho do carro a servir de tabuleiro para as cagadas das gaivotas e outros voláteis – praia e mercado a dois passos, lentos –, passei anos a ir a Portimão duas vezes por dia; pelo menos. Entretanto, como não é de ninguém, a utilização da casa de Armação delegou a manutenção no que viesse a seguir, que, por sua vez, a delegava no seguinte, e assim sucessivamente, até ao abandono por inabitável. Previ-lhe sempre a sorte de ser um segundo andar, para agonizar a meio do prédio, onde será encontrada sozinha no chão do desmazelo; com o carro à porta. Quando o Herberto pergunta, «E o que é o Outono?», não há meio de se convencerem de que a poesia não é uma estação do ano; e eu vou estender a roupa, antes que chova.

Papiro do dia (25)

«No dia seguinte, quando olhou para a carta, ainda no mesmo sítio, embora já ligeiramente mexida – uns milímetros talvez mais para dentro do armário –, fixou-a de uma maneira completamente diferente. Agora, Lenz não estava desatento, não estava embrenhado em quaisquer raciocínios interiores ou desviado para preocupações futuras. Lenz olhou para a carta, viu-a com nitidez e pensou nela.
O que queria aquela mulher? Por que o tinha escolhido a ele para levar a carta ao correio?
Ele era médico. Saberia essa mulher que nos afazeres e nos deveres mais extensos de um médico não estaria certamente a função de carteiro? Quem se considerava ela? Os moribundos exigiam tudo dos outros, parecendo novos reis, uma espécie de monarquia intempestiva instalada não pela força absoluta, espada ou genes, mas pela qualidade oposta: a fraqueza. Os actos de compaixão não poderiam instalar monarquias ou novos reinos, pensava Lenz, senão a cidade em pouco tempo seria devorada. A natureza está à espera, lá fora, mas mantém exactamente a mesma força: recuou, é certo, mas não está sequer prisioneira. Está num outro sítio, num outro ponto da batalha, e afia as lâminas; não reza, não suplica, não pede piedade.
Não reza, afia as lâminas.»
[Gonçalo M. Tavares, Aprender a rezar na Era da Técnica; Caminho, Outubro 2007;

19 de janeiro de 2011

18 de janeiro de 2011

Breve interlúdio musical

Porque a Net fornece um novo dia

«Empecé a escribir un diario a fines de 1957 y todavía lo sigo escribiendo. Muchas cosas cambiaron desde entonces, pero me mantengo fiel a esa manía.»

Às vezes, lá calha...

Nunca me tinha acontecido uma destas; dar por mim a ler como se estivesse de joelhos, a aprender a rezar na era da técnica.

Nem sempre a lápis (123)

Nunca gostei de paredes esmurradas; cor hipnótica ou paredes velhas, legíveis. Também nunca me senti impelido a escrever nem a pintar na parede, daí o assombro que conservo por ver uma camioneta-de-carreira, e não um autocarro, desenhada a lápis na cal do antigo hospital, visível entre os escombros do incêndio, onde pereceu o artista sem-abrigo local. O Bruces, corruptela do nome do legionário francês exilado em Mortágua, como mestre de palavrões, às escondidas consentidas dos pais. É possível que esta (entre outras) paranóia, fobia, a tenha herdado da senhora minha mãe; honra-me a possibilidade de estar «escrita» nas paredes do destino. Conhecedor da necessidade de conviver com as duas paredes, sobreponho-as, penduro quadros, camisas; esqueço a inutilidade do prego na parede de cor plana, reconforta-me o carácter provisório. É curioso que a camisa que ali pendurei seja a mesma que comprei na feira de Pataias, animado pela ideia de a utilizar em Marrocos, à boleia, quando fiz cinquenta anos. Acabei por nunca a levar nem fazer Marrocos à boleia, recorrendo a ela para fazer a capa de Longe do Mundo, à boleia na então chamada «casa de Armação». Gosto de vê-la regressada à casa donde saiu, para pendurá-la no prego que encontrámos; itinerância.

«É bom trabalhar nas Obras» (63)

«- Posso perguntar-te uma coisa? Preciso de esclarecer umas quantas coisas. – Tinhas deixado o calendário no seu lugar, levantavas o olhar mostrando-te impávido e em defesa dos teus interesses.
Ela deu-lhe as respostas com uma gentileza comercial, distante, de relações públicas. Nunca tinha conhecido nenhum gordo com bigode que se chamasse Orozco; na realidade, durante o tempo em que Carlos tinha vivido com ela, manteve-se afastado de certos assuntos. Jogava, sim, mas por conta dele e os seus desaparecimentos eram muito breves (assim mentia a relações públicas, deste modo subtil reformulava alguns parágrafos das suas memórias). Desde logo, nunca lhe teria deixado trazer para casa nenhum daqueles seres carregados de sujidade que nos observam com o queixo baixo só para calcular a tua coragem, o dinheiro que a tua frequência acabará por lhes levar às mesas de jogo; defesas que Silvia esgrimia com mais audácia do que astúcia e não tinham em conta as vidas paralelas de Carlos, aquela simultaneidade, porque não a tinha querido suportar ou não tinha sabido ou o que fosse… Sem parar de fumar, insistia que, como o próprio Ignacio podia confirmar, ela não era a testa de ferro de ninguém; o dono da discoteca era um respeitável advogado, um amigo seu desde sempre. Continuou a suspirar até que chegou a hora de olhar para o relógio. «Temos de continuar a ver-nos.» E os dois tinham a certeza de que aquela era a última vez; a vergonha obrigava-os a isso. Beijaste-lhe as faces apressadamente e olhaste-a querendo dizer-lhe (continuaste a falar com o seu espectro a subir as escadas, naquela praça tétrica, a caminho de tua casa, entre ruas idênticas): obrigado por não me contares o que pode ter sido, obrigado por continuares a ser uma puta de ti mesmo e deixares-me sozinho com o meu ridículo, com a minha desespero de fantoche burlado. Já muito perto de casa dela, meteu-te dó tanto dramatismo.»
[Francisco Casavella, Um Anão Espanhol Suicida-se em Las Vegas; em tradução para a Minotauro]

16 de janeiro de 2011

Breve interlúdio musical

Porque a Net fornece um novo dia

A literatura ensina a apreciar [esplanada]

Às vezes, lá calha...

Meus amigos, tenho o prazer de vos apresentar

Nem sempre a lápis (122)

Quando se lembram de chamar qualquer coisa à minha escrita – quanto a mim, acho-a apenas irrequieta –, por tão depressa desatar a correr atrás das palavras, numa ânsia inventariante, para logo a seguir se deter, contemplativa e delíriolírica, em meia dúzia de linhas – ocorre-me, mas não digo –, ocorre-me arrumar o assunto e explicar que são os meus heterónimos. Bem vistas as coisas, o Pessoa e eu só temos dois dias de diferença. Ele, nasceu a 13 de Junho e eu, a 15; o ano não interessa, parece mal.

«É bom trabalhar nas Obras» (62)

«E foi durante as primeiras horas daquele anoitecer, ao dar-me conta de que já não podia ter acesso à cerimónia das estirpes que viviam sob o mesmo céu de inocência, quando comecei a ser outro.
Primeiro, tinha compreendido que os representantes daquelas estirpes não olhavam para mim, porque eu estava do outro lado das recordações, dos que tinham as costas pesadas de remorsos; e a carga estava tão bem grudada como a bossa dos camelos. Depois, compreendi que os dois lados das recordações eram como os dois lados do meu corpo: apoiava-me num ou noutro, mudava de posição como quem não consegue dormir e não sabe sobre qual dos dois iria cair a benesse do sono. Mas antes de dormir, estava por conta das recordações como um espectador obrigado a presenciar o trabalho de duas companhias com particularidades muito distintas e sem saber que cenário e que recordações se iriam iluminar primeiro, como seria a sua alternância e as relações que teriam os que actuavam, pois as companhias tinham uma sala e um empresário comum, participava quase sempre um mesmo autor e actuavam sempre uma criança e um homem.»
[Felisberto Hernández, Contos Reunidos; lá para Março na Col. Ovelha Negra / Oficina do Livro;

14 de janeiro de 2011

Breve interlúdio musical

Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

«... algumas pessoas têm direito a um certo cinema. Ver a sequência do filme que se desenrola no interior da própria cabeça. É quase um divertimento, igual a qualquer outro. Mas claro que este divertimento acaba mal. Sabe uma coisa: vou buscar-lhe comida. Quer dinheiro?»

«É bom trabalhar nas Obras» (61)

- É melhor esperarmos na rua. E olhar. Às vezes, há surpresas agradáveis.
Não as houve a noite toda, mas Ignacio já não estava ali. Tinha-se ido embora. Estava a recordar o «agora» porque já tinha viajado, e tinha deixado de ser ele e voltava sobre os seus passos. Não havia perigo, só recordação. Desfiles de carros com os copos, cheios de música, fanfarronice estudantil, incentivo rasca, por entre uma pétrea disposição cubista de blocos com olhos que se iam apagando, claridades de lua artificiais ao longo das ruas, sincronização de semáforos. O tempo e o espaço, um salto em frente, outro para trás, tinham-se convertido numa brincadeira, um complicado laço que não enlaçava nada excepto a sua própria abstracção. Ignacio era um olho que via, umas pernas que acompanhavam uma cabeça que pensava nas suas coisas e a quem era indiferente esperar em qualquer sítio. E ainda lhe restava capacidade para pensar o que teria sido da perseverança do seu irmão (os seus sistemas infalíveis, os seus percursos, uma lógica íntima) canalizada por outros rumos. Caminharam a noite toda. Caminharam e fumaram, quase sem falar. Sentavam-se nos bancos donde se vislumbrava uma persiana metálica meia fechada e, atrás dela, uma luz e movimentos fugazes. Carlos observava. Ignacio, que não entendia, recordava na sua esfera de tempos simultâneos. E recordava a última noite que passou com Vicky, festas e lutas e aquele corpo e aquelas palavras que se tornaram um hábito e, agora, alguns meses depois, não eram nada. E só podia recordar antes que o seu único irmão dissesse «anda, vamos» como, através da vidraça, nos relvados que tinha imaginado saturados do cheiro a relva acabada de cortar, embranquecidos pela luz, tinha visto dois homens, quase iguais e muito diferentes, que não pareciam estar ali e de repente se tinham posto a rir. Tinha-lhe parecido uma cena absurda.
- Vamos onde está a massa.»
[Francisco Casavella, Um Anão Espanhol Suicida-se em Las Vegas; em tradução para a Minotauro]

Papiro do dia (24)

«Havia, sem dúvida, a sensação de luta por um espaço. O património material, e também o nome de família, era motivo de uma repulsa que apenas era capaz de adiar um conflito explícito. Quem tinha mais direito de usar o nome da família? Eis a questão mais relevante. Porque aqui não havia a possibilidade de divisão: um nome não era um terreno, que uma régua mais ou menos bem intencionada possa dividir, mantendo dois lados minimamente satisfeitos. Um nome não se pode dividir.»
[Gonçalo M. Tavares, Aprender a rezar na Era da Técnica, Caminho, Outubro 2007]

12 de janeiro de 2011

Breve interlúdio musical

Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

Nem sempre a lápis (121)

Chego a casa e ponho-me à vontade; arrumo a prótese, calço as babuchas, olho para o saco com vinte e três livros que trouxe; dois ou três idos daqui. Como não deu para ir ao peixe ao mercado e fazer uma fritada com arroz de tomate, quase trezentos quilómetros depois, tenho uma sopa de nabiça ao lume, para o jantar. Sou um gajo solitário; prezo muito, e cultivo ainda mais, a minha secreta solidão. À minha esquerda, Alcácer refulgia ao Sol; do outro lado, só retalhos de verde conseguiam iluminar o céu plúmbeo da margem sul.
«No canto superior direito, / o índice dos teus dedos, / a tua sombra em tantas páginas.» (Margarida Ferra)

Papiro do dia (23)

«Só de olhos fechados compreendíamos a escuridão dos olhos
o comprimento azulado dos homens que partiam
fabricantes de janelas de tecidos de ruas
com cheiro de peixes vivos.
Era um linguajar mitológico: cada fonema solar
glorificando a cegueira uma morte igual à morte –
os autos das barcas que naquela tarde.

Avistei a boca ao entardecer.

A língua não vinha nos mapas, mas no palato agrupavam-se diversas constelações

e pertencia-lhe a aventura dos meus dedos.

Não havia notícias de outros povos

nem sequer uma mácula de cerejas.

Plantei o primeiro seio

a que chamámos macieira

e abandonei o ventre

à generosidade vegetal.

Nessa noite dormimos por dentro e por fora

do mundo.»

[Catarina Nunes de Almeida, A Metamorfose das Plantas dos Pés, Deriva, Porto, Maio 2008]

10 de janeiro de 2011

Breve interlúdio musical

Porque a Net fornece um novo dia...

«La pureza de los seres imaginarios, creados a partir de la memoria identitaria de la tierra por medio del copal quedaría en breves instantes reducida a cenizas si empleásemos el ocote. Creación y desaparición, es la esencia misma del lenguaje, la entrada a la caverna literaria.»

Às vezes, lá calha...

«Sentimos nostalgia de uma linguagem mais primitiva do que a nossa. Os antepassados falam de uma época em que as palavras se estendiam com a serenidade da planície.»
[saído daqui, para ali]

Nem sempre a lápis (120)

Venham dias de Sol – chuva já basta e é de sequeiro – que, lá mais para o fim do mês, gostava de vir cá abaixo ver brotar os rebentos da figueira sem necessidade de me deslocar, desatento, à Avenida da República; deixemo-la sossegada. Em Carnaxide não há figueiras, que eu saiba. Sorte que não calhou ao limoeiro, o sossego; o crescimento pô-lo em conflito com toda a espécie de fios que (para mim) têm o condão de electrocutar o olhar, a mais simples e despretensiosa fotografia; para mais tarde, confirmar. Não faço a menor ideia onde possa estar a foto que tirei à majestosa árvore na pequena colina em frente, e que achei por bem chamar castanheiro. Era o tempo em que ainda precisava da revelação no papel – e, neste caso, a cores –, onde tive a oportunidade de ver o que para trás ficou escrito.

Papiro do dia (22)

«Todos os anos ofereço pelo menos cinquenta exemplares aos meus alunos, mas não consigo deixar de acrescentar uma nova estante, outra fila dupla; os livros avançam pela casa, silenciosos, inocentes. Não consigo detê-los.
Amiúde é mais difícil desfazermo-nos de um livro do que obtê-lo. Ligam-se a nós num pacto de necessidade e de esquecimento, como se fossem testemunhas de um momento das nossas vidas ao qual não regressaremos. Mas enquanto aí permanecerem, presumimos tê-los juntado. Vi que muita gente coloca a data, o dia, o mês e o ano da leitura; traçam um discreto calendário. Outros escrevem o seu nome na primeira página, antes de os emprestarem, anotam numa agenda o destinatário e acrescentam-lhe a data. Vi volumes carimbados como os das bibliotecas públicas ou com um delicado cartão do proprietário no seu interior. Ninguém quer extraviar um livro. Preferimos perder um anel, um relógio, o chapéu-de-chuva, do que o livro cujas páginas não mais leremos mas que conservam, na sonoridade do seu título, uma antiga e talvez perdida emoção.»
[Carlos María Domínguez, A Casa de Papel; trad. Henrique Tavares e Castro, ASA, (2.ª ed.) Maio 2010;

9 de janeiro de 2011

9 de Janeiro de 1955

esta é a cabra que corre na superfície do sonho
– ligeira, marítima –
o arco que lança o Vento,
um corno em cada olho,
porque não cabes nos horóscopos das minhas mãos,
os cascos batem-me com alegria no peito,
no tropel ígneo do olhar –
tu és a cabra, a terra para as aves virem beber

8 de janeiro de 2011

Breve interlúdio musical

Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

«Entre ele, Lenz, e a peça de caça, ainda viva, havia uma negociação prévia: ele recusava-se a matar um único animal nos primeiros minutos. Havia a exigência de habituação, um respeito em relação a um espaço que se invade. Aquela não era a sua casa.»

Nem sempre a lápis (119)

Passei uns dias no Monte Alto, em casa da Nico, sem nostalgias nem mágoas; é outra casa, a Sul, em Asilah também chove. Escrevo à mesa que mandei fazer para o atelier, ainda convicto de que acertaria uma, entre tantas aldrabices feitas durante as obras; mas até o desenho foi desrespeitado e as pranchas casadas do tampo substituídas pela fiabilidade do pinho colado, informaram-me com a criança nos braços e a factura na mão. Durante os cinco anos que o ocupei, soube sempre como este espaço, tão desejado e ponderado, nunca conseguiu ser intérprete do que procurava e persigo. Viria a encontrá-lo na casa onde vivo, no meu retiro, e no Pátio de La Luna, em Asilah, o ano passado. Quando cheguei três anos depois, fui recebido pela azáfama das limpezas de uma casa de campo ao fim-de-semana e, um pouco mais tarde e sem o esperar, pela elegância e a imponência de brincar do moliceiro, no parapeito da janela. A mesa, esta mesa, estava ocupada com livros retirados de caixotes que acabei por não levar e poucos irei levar. Apercebi-me de que, assim como repeti livros desde que voltei a viver em Carnaxide, não estou para repetir os que (ainda) não encontrei e fico mais descansado sabendo que estão aqui, os que trouxe. Olho lá para fora, bem me apetecia ler Ruy Duarte de Carvalho, procurar pastores banidos pelos muros dos novos proprietários do que era campo de pasto para o olhar. Acendo a salamandra, sentado num sofá que era de Carnaxide; olho para os quadros, meus e de outros, para a velha cadeira de tabua ocupada pelo casal que resta da matilha, para os livros nas prateleiras, olho para a cor com que a Nico iluminou um espaço sombrio por onde passei e sinto-me bem. É diferente; vai saber melhor chegar a casa.

Papiro do dia (21)

«Meti-o dentro do envelope, guardei-o na minha pasta e limpei o pó da secretária com o cuidado de um ladrão.
Poisei o livro no atril de uma mesa do meu gabinete e confesso que, durante algumas noites, olhei para ele com intrigada ansiedade. Talvez porque o aspirador de Alice não deixava uma grama de pó nas estantes mais altas da minha biblioteca, quanto mais na carpete ou em qualquer das mesas, o exemplar desequilibrava o quarto como um vagabundo numa festa do palácio imperial. A edição pertencia à Emecé, de Buenos Aires, e fora impressa em Novembro de 1946. Com algum trabalho pude averiguar que fazia parte da colecção «A Porta de Marfim», dirigida por Borges e Bioy Casares. Sob a cal ou o cimento ainda se podia entrever o desenho de um barco e daquilo que pareciam ser uns peixes, embora não tivesse a certeza.
Nos dias seguintes, Alice pôs uma flanela debaixo do atril para evitar que o pó sujasse o vidro e mudava-a de manhã com aquela muda discrição que, desde o seu primeiro dia de trabalho, tinha conquistado a minha inteira confiança.»
[Carlos María Domínguez, A Casa de Papel; trad. Henrique Tavares e Castro, ASA, (2.ª ed.) Maio 2010]

6 de janeiro de 2011

Breve interlúdio musical

Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

Nem sempre a lápis (118)

Aguardei que a livraria abrisse, em simultâneo com o estanco do tabaco, e entrei disposto a confirmar que não havia nada do que levava apontado no bloco. Cheguei a pegar em Dublinesca para mostrar à livreira os autores que insistia em não entender, escritos por mim. Entretanto, a Nico desencantava Querida Brenda, Las cartas de amor de Henry Miller a Brenda Venus (edição única da Seix Barral, Novembro 1986), com prefácio de Lawrence Durrell: «Aos 84 anos, quando já era “uma ruína física”, segundo as suas próprias palavras, Henry Miller conheceu a actriz Brenda Venus e viveu com ela, no quinquénio final da sua vida, a sua última história de amor, uma maravilhosa euforia de amizade amorosa, oferecendo um completo retrato de si mesmo na ombreira da morte.» À minha frente, nas minhas barbas, podemos dizê-lo, dois parêntesis curvos chamaram-me a atenção numa capa da Alfaguara: Con la esperanza entre los dientes. John Berger esperava-me outra vez, em Huelva.

Papiro do dia (20)

«Não havia carta dentro do envelope, apenas o maltratado livro que não me decidia a segurar nas mãos. Ao levantar a capa com os dedos, descobri a dedicatória de Bluma. Era a sua letra, escrita a tinta verde, cerrada e redonda, como todas as coisas de Bluma, e não me custou a decifrá-la: “Para Carlos, este romance que me acompanhou de aeroporto em aeroporto, como recordação dos dias loucos de Monterrey. Lamento ser um pouco bruxa e ter logo pressentido que nunca farias nada capaz de me surpreender. 8 de Junho de 1996.”
Conhecia o apartamento de Bluma, a comida dietética que guardava no frigorífico, o cheiro dos seus lençóis, o perfume da sua roupa interior. Nós, dois subchefes do departamento, e um estudante que se tinha colado à lista, compartilhávamos a sua cama. E tal como os demais, eu estava a par da sua viagem a um congresso em Monterrey, onde deve ter mantido um daqueles romances fugazes com que Bluma se presenteava para conservar a sua vaidade, ameaçada pelo abandono da juventude, dos seus dois maridos e do sonho de percorrer de canoa o rio Macondo, uma obsessão que Cem Anos de Solidão lhe legara. Mas porque retornava o livro a Cambridge, dois anos depois? Onde estivera? E que deveria ler Bluma nos restos do cimento?
Tive nas mãos esses maravilhosos contos de fadas irlandeses, os Irish Fairy and Folk Tales, com prólogo de William Butler Yeats e as ilustrações originais de James Torrance, a Correspondance inédite du Marquis de Sade et de ses proches et de ses familiers, tive a oportunidade de segurar em incunábulos por breves minutos, de lhes abrir as páginas, de lhes sentir o peso, esse solitário privilégio, mas nenhum outro livro conseguiu perturbar-me tanto quanto aquele exemplar brochado cujas páginas, humedecidas e arqueadas, reclamavam só por si uma leitura.»
[Carlos María Domínguez, A Casa de Papel; trad. Henrique Tavares e Castro, ASA, (2.ª ed.) Maio 2010;

4 de janeiro de 2011

Breve interlúdio musical

Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

Não me faltam cinzeiros, em casa; mas anda daí, e já agora

Nem sempre a lápis (117)

Interrompi a leitura precisamente naquela fase em que o morrão de hash mal desfeito se preparava para cair a todo o momento e lembrei-me da djellaba crivada de queimadelas do djin de Al-Khaïma. É noite de Natal; feia, suja, viscosa. Apago o morrão, olho em volta, ouço: «Não nos falem de frio por ser Inverno. / As árvores despidas não cobrem o sexo.» (Catarina Nunes de Almeida) Depois, continuei a Aprender a rezar na Era da Técnica; o catecismo, o manual comprado para ler no Monte Alto.

Papiro do dia (19)

«Na Primavera de 1998, Bluma Lennon comprou numa livraria do Soho um velho exemplar dos Poemas, de Emily Dickinson, e, ao chegar ao segundo poema, na primeira esquina, foi atropelada por um automóvel.
Os livros mudam o destino das pessoas. Uns leram O Tigre da Malásia e converteram-se em professores de literatura em remotas universidades. Siddhartha levou ao hinduísmo dezenas de milhares de jovens, Hemingway converteu-os em desportistas, Dumas transtornou a vida de milhares de mulheres e não poucas foram salvas do suicídio por manuais de cozinha. Bluma foi uma vítima deles.
Mas não a única. O velho professor de línguas antigas Leonard Worth ficou hemiplégico ao levar na cabeça com cinco volumes da Enciclopédia Britânica, que se desprenderam de uma estante da sua biblioteca; o meu amigo Richard partiu uma perna ao tentar chegar ao Absalão, Absalão!, de William Faulkner, mal colocado numa estante, o que o levou a cair da escada. Outro amigo de Buenos Aires adoeceu de tuberculose nos sótãos de um arquivo público e conheci um cão chileno que morreu de indigestão com Os Irmãos Karamazov, depois de devorar as suas páginas numa tarde de fúria.
Sempre que a minha avó me via a ler na cama, costumava dizer-me: “Larga isso, que os livros são perigosos”. Durante muitos anos acreditei na sua ignorância, mas o tempo demonstrou a sensatez da minha avó alemã.»
[Carlos María Domínguez, A Casa de Papel; trad. Henrique Tavares e Castro, ASA, (2.ª ed.) Maio 2010;

2 de janeiro de 2011

Breve interlúdio musical

Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

É inevitável, a idade não permite equívocos. Assim que ouço falar ou leio Google Reader, lembro-me logo do Readers Digest e de uma retrete; a leitura à socapa, conventual.

Nem sempre a lápis (116)

Repugna-me — porque seria ainda mais trágico dizer que me faz sorrir — a mágoa com que alguns se queixam por se sentirem estrangeiros rejeitados pela sociedade que insistem em integrar, sustentar obsessivamente; pela geração que pretendem incorporar ou a teia antropofágica da família. Dedico-me, com êxito, à demissão de todas essas amarras e, decorridos vinte e muitos anos, chego à conclusão de que já nem sequer vivo em Carnaxide, mas apenas numa casa em Carnaxide.

Papiro do dia (18)

«O Sol já ia alto quando alcancei a cabana. Ele fitou-me por alguns momentos e depois recolheu-se. Ouvi-o trancar a porta. O calor tremeluzia sobre o vasto horizonte do Mojave. Dirigi-me ao Ford, levantei do assento o exemplar do meu livro, o meu primeiro livro. Procurei um lápis, abri o livro e escrevi na primeira página:
Para Camilla, com amor,
Arturo
De livro na mão, avancei alguns metros pela desolação adentro, no sentido sudeste. Lancei o livro pelo ar, com toda a força, na direcção que ela tinha tomado. Depois meti-me no carro, liguei o motor e regressei a Los Angeles.»
[John Fante, Pergunta Ao Pó; trad. Rui Pires Cabral, Ahab, Outubro 2010]