8 de fevereiro de 2011

Breve interlúdio musical

Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

«Não há caridade para quem descobre a amargura e vê o seu fantasma projectado num espelho circular e também quadrado. Uma questão de graça, o perigo de trabalhar sozinho e como nos encontramos perto da loucura. Da loucura iludida.»

Nem sempre a lápis (130)

Quando fui tomar o pequeno-almoço, tive dificuldade em tomar as providências com que adormeci e não fui ao supermercado. Um dos meus netos adoptivos, filho de uma das empregadas, fez questão de saborear o meu colo depois de lhe ter apertado os botões do blazer e ter feito festas à crina. Para a semana, chegam mais duas, com oito e cinco anos, a Isadora, apresentadas pela mãe no telemóvel; é verdade, fixei o nome da eleita, da preferida do avô da esplanada. Passámos a trocar um sorriso cúmplice todas as manhãs, quando o serviço impede que lhe sussurre, Já falta menos um dia. Se fosse possível, marcava uma cruz na parede do restaurante, bem visível, como fazíamos nas casernas, para lhe alegrar o dia e toda a gente ficar a saber os dias que separam a Patrícia do fim do serviço militar; há dois anos que não vê as filhas. O pai, fiquei ao corrente durante a apresentação via álbum de telemóvel, é o Chantilly, empregado na grelha do franguinho em frente e um dos muitos que nos cumprimentamos pela montra; polegar bem esticado, tudo a rolar. Nunca tal me passaria pela cabeça, até ver as fotos e detectar, à vista desarmada, o segundo contributo para explicar a beleza das miúdas. Entretanto, dá-se a feliz coincidência de o meu filho fazer anos e voltar a ser segunda-feira e também estar um dia de sol do caraças, sem necessidade de ir até ao Chiado nem interceptar ninguém n’A Brasileira para explodir de alegria por ser pai. «Oh, pá, é um gajo!», disse a Nico, e eu com a biqueira da bota a impedir que me fechassem as portas nas trombas e não me deixassem ver nascer o meu filho; querias… Calculei que estivesse no emprego e mandei-lhe, pontualmente, uma sms às onze horas da manhã de Carnaxide (Hospital Particular e freguesia de São Sebastião da Pedreira, há trinta e quatro anos); estava. Mãe não manda sms; queixa-se que não é atendida. Deixo o caso à (entediante) consideração dos especialistas em recusarem-se a aceitar as coisas tal como elas são. Não por acaso, já sentado na esplanada, mas lá iremos, ouvi um especialista em medicina alternativa sugerir a uma lastimosa, com ar de quem anda necessitada de atenção, que não há nada melhor do que dar uma martelada no dedo para esquecer a dor no pé; ela coxeava, quando se separaram, amigos como sempre e cumprimentos lá em casa. Já tinha decidido ir ao supermercado e fui interceptado pelo bléque antes de entrar na reserva do Centro Cívico. Surpreendeu-me vê-lo a entrar para um carro – acompanhado de uma dama ao volante que desviou a cara; agradeço-lhe a atenção, pelo enunciado – e a afivelar um sorriso quando me viu, seguido de um promissor, Então, ó cota! Acham-me piada; esquecem-se ou a pedra estimula-lhes a agronometria, que ainda eles andavam à procura dos testículos do pai e já eu fumava. E como me acham piada e eu retribuo, sou bem servido sem interceptar ninguém; sem a ansiedade do empregado da Remax a varejar o corredor da galeria de cima de uma ponta à outra agarrado ao telemóvel, a bater com os nós dos dedos no corrimão de ferro (dará sorte?, será masoquista, na intimidade?), a roer as unhas até ao sabugo, já tive a oportunidade de ver, quando se sentou numa mesa próxima e o ouvi dizer que gosta de trabalhar sob stress. Ao que um gajo chega, expor-se nos pára-brisas e caixas do correio, com o rosto sorridente sob o nome e o contacto bem visível; por favor, não se enganem. E não me enganou, o bléque; verifico duas horas depois de ter queimado um charro na esplanada, a beber um chá (é mais barato e mais lento do que um café), ladeado de donas de casa, com os olhos postos no quotidiano do pátio, onde a única alteração foi a entrada em vigor da Q livros, arrumada a Obras Completas. Interceptada a atitude à Perec, «o que se passa quando não se passa nada», chego-me a casa para anotar isto e fazer um arroz de figos secos com tomate que não me sai da cabeça. Não é um prato vegetariano, kung-fu, mas será um pitéu do Sul, sem ser risotto. Trouxe arroz redondo de Huelva, de paella; sempre atento, o físico exige-me que não ande só a livros.
[Refogar uma cebola média, uma cabeça de alho esmagados, um pimento, uma embalagem de figos secos (não havendo melhores) cortados ao meio, dois ou três tomates; e esqueci-me dos coentros, bolas]

«É bom trabalhar nas Obras» (69)

«Setembro, o mês em que devia ir para os Estados Unidos, começava a ser um ponto longínquo num caminho que era necessário preencher com feitos excitantes. Tinha de lhe acontecer qualquer coisa. E nunca lhe acontecia nada.
Amiúde, convencia-se a si mesmo como era fácil, como era inútil, insistir em convencer-se; e como nos preocupamos demasiado em guardar na mais escura das nossas gavetas interiores, três ou quatro verdades incómodas para não embaciar a recordação e permitirmo-nos crer, um dia, que a nossa falta de juízo comum foi adorável. Uma dessas verdades, com que Ignacio nunca se tinha confrontado, era que, graças ao desaparecimento de Carlos e ao golpe de sorte que tinha permitido tanta condescendência na família, tinha uma vida regalada, em que cada conselho e cada admoestação dos seus pais estava devidamente aferida com um objectivo: não o perder; convencer-se de que o taciturno, embora sossegado, nada respondão, se bem que nada indefeso (era tudo uma questão de convicção), o infantil Ignacio que durante duas dezenas inteiras de anos comeu bolos de chocolate a navegar nas águas seguras do sofá doméstico, um dia pudesse certificar que tinham sido pais da melhor maneira possível, que tinham amado como pais. Ele aproveitava-se.
Tinha começado o curso de arquitectura e tinha-o abandonado no segundo ano, impelido pela vontade de «ser alguém», não se limitar a olhar através do buraco a labareda e o riso, os beijos nos cantos, e a ter um nome num mundo de música, vigílias maratonistas, jovial ajuntamento nos lavabos e promiscuidades artísticas, onde cada indivíduo se pudesse destacar da forma que melhor soubesse: muita lábia, um grande penteado, beleza, desigual estilo de indumentária ou culto da imoralidade nalguma das formas artísticas mais urgentes. Ele, além do mais, tinha um grande obstáculo.
- O teu irmão Carlos, esse é que era…
E depois, deixavam cair os braços.»
[Francisco Casavella, Um anão espanhol suicida-se em Las Vegas; em revisão para a Minotauro;

7 de fevereiro de 2011

6 de fevereiro de 2011

Breve interlúdio musical

... e assim acontece

Porque a Net fornece um novo dia

«... são-me sumamente repelentes as alegrias excursionistas proporcionadas por esse tipo de assembleia nacional (...) antologias, só tendenciosíssimas, apaixonadamente tendenciosas; como seria de organizar algumas se entretretanto não estivéssemos todos a morrer.»

Às vezes, lá calha...

«O passado não reaparece
com as mãos nos bolsos e a expressão
"Então, que me contas?"»

«É bom trabalhar nas Obras» (68)

«Os olhos passavam pelas colunas do jornal, subiam e desciam, outra página.
- Acordei e não sabia onde estava. Na rua, tive de perguntar… Voz de atrasado mental:
- «Onde estou? Que rua é esta? Que bairro?» Imagina tu, em Barcelona. Só me faltava dizer que tinha o disco voador na esquina…
Voz metálica, extra-terrestre:
- «Que planeta ser este?» Foi por isso que me atrasei, não foi por mais nada. Olha! Apareces no jornal! A sério! «O censo de Barcelona é de 1.655.420 habitantes…» É uma brincadeira…
Mais páginas. Leve movimento dos olhos. Olhar em frente. Sorriso. Subtil indicação com o dedo a solicitar atenção, confidencialidade. Ignacio aproximou a cabeça. Carlos diminuiu o estrondo da sua voz e converteu a lixa do seu timbre num rumor eclesiástico.
- A Verónica leva uma bela vida. O travesti… Trabalha aqui, no Bagdad, um número muito fino. A mãe anda sempre por perto, de bar em bar, tem o lábio rachado. Um chulo, há uns anos. E calças aos quadrados.
Uma voz de anciã com trejeitos de marquesa:
- «A minha filha trabalha nas varietésVarietés, diz ela. Vende tabaco…
E um grito de estivador:
- Verónica, acorda!
De repente, o silêncio.
Os olhos de Carlos aproximaram-se do jornal aberto, com paixão e esquecido do mundo, como se fosse beijá-lo. Ignacio observou os movimentos atabalhoados de uma Verónica sobressaltada. Uma hora antes, quando se sentou na esplanada, esteve a olhá-la pelo canto do olho até se confrontar com um inusitado número de calçado e a perturbadora realidade; permitiu que as suas sobrancelhas viajassem até o mais alto da testa e fixou a vista num ponto qualquer do outro lado da avenida, que nesse momento não estivesse a apontar para ele e a rir-se a esfregar a barriga. Foi então que descobriu que o Paralelo era a rua dos últimos sonhos da noite.
- Já está!
Carlos fechou o jornal e atirou-o para cima da mesa.
- Os cegos, nem me viram. Tinha cá uma fezada, e é como vês. Disse-te que tinha de fazer uns recados? Vens comigo? Depois vamos comer a um sítio porreiro. Barato, mas porreiro.»
[Francisco Casavella, Um anão espanhol suicida-se em Las Vegas; em revisão para a Minotauro;

Papiro do dia (31)

«Sobre as virtudes da esperança tem-se escrito muito e parolado muito mais. Tal como sucedeu e continuará a suceder com as utopias, a esperança foi sempre, ao longo dos tempos, uma espécie de paraíso sonhado dos cépticos. E não só dos cépticos. Crentes fervorosos, dos de missa e comunhão, desses que estão convencidos que levam por cima das suas cabeças a mão compassiva de Deus a defendê-los da chuva e do calor, não se esquecem de lhe rogar que cumpra nesta vida ao menos uma pequena parte das bem-aventuranças que prometeu para a outra. Por isso, quem não está satisfeito com o que lhe coube na desigual distribuição dos bens do planeta, sobretudo os materiais, agarra-se à esperança de que o diabo nem sempre estará atrás da porta e de que a riqueza lhe entrará um dia, antes cedo que tarde, pela janela dentro. Quem tudo perdeu, mas teve a sorte de conservar ao menos a triste vida, considera que lhe assiste o humaníssimo direito de esperar que o dia de amanhã não seja tão desgraçado como o está sendo o dia de hoje. Supondo, claro, que haja justiça neste mundo. Ora, se nestes lugares e nestes tempos existisse algo que merecesse semelhante nome, não a miragem do costume com que se iludem os olhos e a mente, mas uma realidade que se pudesse tocar com as mãos, é evidente que não precisaríamos de andar todos os dias com a esperança ao colo, a embalá-la, ou embalados nós ao colo dela. A simples justiça (não a dos tribunais, mas a daquele fundamental respeito que deveria presidir às relações entre humanos) se encarregaria de pôr todas as coisas nos seus justos lugares. Dantes, ao pobre de pedir a quem se tinha acabado de negar a esmola, acrescentava-se hipocritamente que “tivesse paciência”. Pense que, na prática, aconselhar alguém a que tenha esperança não é muito diferente de aconselhá-la a ter paciência. É muito comum ouvir-se dizer da boca de políticos recém-instalados que a impaciência é contra-revolucionária. Talvez seja, talvez, mas eu inclino-me a pensar que, pelo contrário, muitas revoluções se perderam por demasiada paciência. Obviamente, nada tenho de pessoal contra a esperança, mas prefiro a impaciência. Já é tempo de que ela se note no mundo para que alguma coisa aprendam aqueles que preferem que nos alimentemos de esperanças. Ou de utopias.»
[José Saramago, O Caderno; Caminho, Lisboa, Março 2009;

4 de fevereiro de 2011

Breve interlúdio musical

(dedicado a certos tenrinhos que por aqui passam, fiufiu...)

Porque a Net fornece um novo dia

... e uma capa mais bem focada

Às vezes, lá calha...

«A pescada mordia, inclemente, o rabo com a sua boca de serra, o olhar desconfiado dirigido para Ignacio. «Tu vais ser o próximo», profetizava. Duas batatas cozidas e um pimento duvidoso tinham fugido para uma extremidade do prato, sem quererem saber. O conjunto parecia uma ameaça siciliana.»

Nem sempre a lápis (129)

Começo a desconfiar que Paul Auster já é para o caderno azul português o que Bruce Chatwin foi para o moleskine. Instalou-se a barulheira; êxito caucionado pelo mercado norte-americano – ou um bairro de Nova Iorque? – reportado pela imprensa, a que desconhece «um novo dia» (Herberto Helder). Mais baratos, a capacidade (por enquanto) de serem «diferentes» para quem não os conheceu como carteira de gente modesta, escritório shandy fechado com um elástico das meias da minha senhora ou uma rodela de câmara-de-ar cortada à tesoura. Começo a vê-lo relegar os assertivos moleskine para a vulgaridade que lhe era natural, até à Patagónia. Tenho há algum tempo um caderno azul de reserva, não tenho escrito tanto à mão e andado ainda menos a pé; catrapisquei os falsos moleskine oferecidos por uma revista, de banca em banca. Como era facultativo, apenas por um euro, apanhei os que pude sem comprar a revista. Todos de capa preta, declinei as capas vermelho maoísta; não sigo breviários.

«É bom trabalhar nas Obras (67)

«Ignacio decidiu que tinha esperado o suficiente: um minuto mais e casa. Na manhã plúmbea do Paralelo, empregados de escritório, turistas de época baixa e figuras decididamente estrambólicas, o puro gatafunho da indigência, proclamavam sem discrição o mesmo desmaio e a mesma falta de interesse; o travesti da mesa contígua, o seu único companheiro naquela esplanada hostil, cabeceava de tempos a tempos e caíam-lhe no chão, uma e outra vez, os óculos de sol inúteis. Ignacio via-se obrigado a olhar para o outro lado, para não ter de se agachar e demonstrar a sua caridade. Imaginou-se a si mesmo, bastante tempo mais tarde, a contar que uma manhã de Novembro tinha combinado encontrar-se com o seu irmão Carlos (aqui as explicações da praxe), que não via há dezoito anos (mais explicações), e o maldito Senhor Paradeiro Desconhecido fizera questão de não estar presente. Um daqueles episódios sobre o qual os seus filhos viriam a especular quando fizessem uso da razão:
- O tio Carlos, o tio Carlos… O anúncio… Um dia, o papá encontrou-se com ele.
Sussurros emocionados nas sombras do jardim, enquanto os adultos acabavam as bebidas. Ele tinha feito o mesmo com outras histórias e estava a começar a compreender: certas lendas domésticas não passavam de uma fonte de ansiedade, de imprecisões desnecessárias de uma biografia satisfatória.»
[Francisco Casavella, Um anão espanhol suicida-se em Las Vegas; em revisão para a Minotauro;

2 de fevereiro de 2011

Breve interlúdio musical

Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

Verdes estão os campos, com o Sol dourado e tal,
mas não há nada a fazer.
Sou da idade do Mecano, já não apanhei a do Lego; delego.