8 de fevereiro de 2011
Às vezes, lá calha...
«Não há caridade para quem descobre a amargura e vê o seu fantasma projectado num espelho circular e também quadrado. Uma questão de graça, o perigo de trabalhar sozinho e como nos encontramos perto da loucura. Da loucura iludida.»
Nem sempre a lápis (130)
[Refogar uma cebola média, uma cabeça de alho esmagados, um pimento, uma embalagem de figos secos (não havendo melhores) cortados ao meio, dois ou três tomates; e esqueci-me dos coentros, bolas]
«É bom trabalhar nas Obras» (69)
«Setembro, o mês em que devia ir para os Estados Unidos, começava a ser um ponto longínquo num caminho que era necessário preencher com feitos excitantes. Tinha de lhe acontecer qualquer coisa. E nunca lhe acontecia nada.
Amiúde, convencia-se a si mesmo como era fácil, como era inútil, insistir em convencer-se; e como nos preocupamos demasiado em guardar na mais escura das nossas gavetas interiores, três ou quatro verdades incómodas para não embaciar a recordação e permitirmo-nos crer, um dia, que a nossa falta de juízo comum foi adorável. Uma dessas verdades, com que Ignacio nunca se tinha confrontado, era que, graças ao desaparecimento de Carlos e ao golpe de sorte que tinha permitido tanta condescendência na família, tinha uma vida regalada, em que cada conselho e cada admoestação dos seus pais estava devidamente aferida com um objectivo: não o perder; convencer-se de que o taciturno, embora sossegado, nada respondão, se bem que nada indefeso (era tudo uma questão de convicção), o infantil Ignacio que durante duas dezenas inteiras de anos comeu bolos de chocolate a navegar nas águas seguras do sofá doméstico, um dia pudesse certificar que tinham sido pais da melhor maneira possível, que tinham amado como pais. Ele aproveitava-se.
Tinha começado o curso de arquitectura e tinha-o abandonado no segundo ano, impelido pela vontade de «ser alguém», não se limitar a olhar através do buraco a labareda e o riso, os beijos nos cantos, e a ter um nome num mundo de música, vigílias maratonistas, jovial ajuntamento nos lavabos e promiscuidades artísticas, onde cada indivíduo se pudesse destacar da forma que melhor soubesse: muita lábia, um grande penteado, beleza, desigual estilo de indumentária ou culto da imoralidade nalguma das formas artísticas mais urgentes. Ele, além do mais, tinha um grande obstáculo.
- O teu irmão Carlos, esse é que era…
E depois, deixavam cair os braços.»
[Francisco Casavella, Um anão espanhol suicida-se em Las Vegas; em revisão para a Minotauro;
7 de fevereiro de 2011
6 de fevereiro de 2011
Porque a Net fornece um novo dia
«... são-me sumamente repelentes as alegrias excursionistas proporcionadas por esse tipo de assembleia nacional (...) antologias, só tendenciosíssimas, apaixonadamente tendenciosas; como seria de organizar algumas se entretretanto não estivéssemos todos a morrer.»
(Cesariny)
«É bom trabalhar nas Obras» (68)
- Acordei e não sabia onde estava. Na rua, tive de perguntar…
Voz de atrasado mental:
- «Onde estou? Que rua é esta? Que bairro?» Imagina tu, em Barcelona. Só me faltava dizer que tinha o disco voador na esquina…
Voz metálica, extra-terrestre:
- «Que planeta ser este?» Foi por isso que me atrasei, não foi por mais nada. Olha! Apareces no jornal! A sério! «O censo de Barcelona é de 1.655.420 habitantes…» É uma brincadeira…
Mais páginas. Leve movimento dos olhos. Olhar em frente. Sorriso. Subtil indicação com o dedo a solicitar atenção, confidencialidade. Ignacio aproximou a cabeça. Carlos diminuiu o estrondo da sua voz e converteu a lixa do seu timbre num rumor eclesiástico.
- A Verónica leva uma bela vida. O travesti… Trabalha aqui, no Bagdad, um número muito fino. A mãe anda sempre por perto, de bar em bar, tem o lábio rachado. Um chulo, há uns anos. E calças aos quadrados.
Uma voz de anciã com trejeitos de marquesa:
- «A minha filha trabalha nas varietés.» Varietés, diz ela. Vende tabaco…
E um grito de estivador:
- Verónica, acorda!
De repente, o silêncio.
Os olhos de Carlos aproximaram-se do jornal aberto, com paixão e esquecido do mundo, como se fosse beijá-lo. Ignacio observou os movimentos atabalhoados de uma Verónica sobressaltada. Uma hora antes, quando se sentou na esplanada, esteve a olhá-la pelo canto do olho até se confrontar com um inusitado número de calçado e a perturbadora realidade; permitiu que as suas sobrancelhas viajassem até o mais alto da testa e fixou a vista num ponto qualquer do outro lado da avenida, que nesse momento não estivesse a apontar para ele e a rir-se a esfregar a barriga. Foi então que descobriu que o Paralelo era a rua dos últimos sonhos da noite.
- Já está!
Carlos fechou o jornal e atirou-o para cima da mesa.
- Os cegos, nem me viram. Tinha cá uma fezada, e é como vês. Disse-te que tinha de fazer uns recados? Vens comigo? Depois vamos comer a um sítio porreiro. Barato, mas porreiro.»
[Francisco Casavella, Um anão espanhol suicida-se em Las Vegas; em revisão para a Minotauro;
Papiro do dia (31)
«Sobre as virtudes da esperança tem-se escrito muito e parolado muito mais. Tal como sucedeu e continuará a suceder com as utopias, a esperança foi sempre, ao longo dos tempos, uma espécie de paraíso sonhado dos cépticos. E não só dos cépticos. Crentes fervorosos, dos de missa e comunhão, desses que estão convencidos que levam por cima das suas cabeças a mão compassiva de Deus a defendê-los da chuva e do calor, não se esquecem de lhe rogar que cumpra nesta vida ao menos uma pequena parte das bem-aventuranças que prometeu para a outra. Por isso, quem não está satisfeito com o que lhe coube na desigual distribuição dos bens do planeta, sobretudo os materiais, agarra-se à esperança de que o diabo nem sempre estará atrás da porta e de que a riqueza lhe entrará um dia, antes cedo que tarde, pela janela dentro. Quem tudo perdeu, mas teve a sorte de conservar ao menos a triste vida, considera que lhe assiste o humaníssimo direito de esperar que o dia de amanhã não seja tão desgraçado como o está sendo o dia de hoje. Supondo, claro, que haja justiça neste mundo. Ora, se nestes lugares e nestes tempos existisse algo que merecesse semelhante nome, não a miragem do costume com que se iludem os olhos e a mente, mas uma realidade que se pudesse tocar com as mãos, é evidente que não precisaríamos de andar todos os dias com a esperança ao colo, a embalá-la, ou embalados nós ao colo dela. A simples justiça (não a dos tribunais, mas a daquele fundamental respeito que deveria presidir às relações entre humanos) se encarregaria de pôr todas as coisas nos seus justos lugares. Dantes, ao pobre de pedir a quem se tinha acabado de negar a esmola, acrescentava-se hipocritamente que “tivesse paciência”. Pense que, na prática, aconselhar alguém a que tenha esperança não é muito diferente de aconselhá-la a ter paciência. É muito comum ouvir-se dizer da boca de políticos recém-instalados que a impaciência é contra-revolucionária. Talvez seja, talvez, mas eu inclino-me a pensar que, pelo contrário, muitas revoluções se perderam por demasiada paciência. Obviamente, nada tenho de pessoal contra a esperança, mas prefiro a impaciência. Já é tempo de que ela se note no mundo para que alguma coisa aprendam aqueles que preferem que nos alimentemos de esperanças. Ou de utopias.»
[José Saramago, O Caderno; Caminho, Lisboa, Março 2009;
4 de fevereiro de 2011
Às vezes, lá calha...
«A pescada mordia, inclemente, o rabo com a sua boca de serra, o olhar desconfiado dirigido para Ignacio. «Tu vais ser o próximo», profetizava. Duas batatas cozidas e um pimento duvidoso tinham fugido para uma extremidade do prato, sem quererem saber. O conjunto parecia uma ameaça siciliana.»
Nem sempre a lápis (129)
«É bom trabalhar nas Obras (67)
«Ignacio decidiu que tinha esperado o suficiente: um minuto mais e casa. Na manhã plúmbea do Paralelo, empregados de escritório, turistas de época baixa e figuras decididamente estrambólicas, o puro gatafunho da indigência, proclamavam sem discrição o mesmo desmaio e a mesma falta de interesse; o travesti da mesa contígua, o seu único companheiro naquela esplanada hostil, cabeceava de tempos a tempos e caíam-lhe no chão, uma e outra vez, os óculos de sol inúteis. Ignacio via-se obrigado a olhar para o outro lado, para não ter de se agachar e demonstrar a sua caridade. Imaginou-se a si mesmo, bastante tempo mais tarde, a contar que uma manhã de Novembro tinha combinado encontrar-se com o seu irmão Carlos (aqui as explicações da praxe), que não via há dezoito anos (mais explicações), e o maldito Senhor Paradeiro Desconhecido fizera questão de não estar presente. Um daqueles episódios sobre o qual os seus filhos viriam a especular quando fizessem uso da razão:
- O tio Carlos, o tio Carlos… O anúncio… Um dia, o papá encontrou-se com ele.
Sussurros emocionados nas sombras do jardim, enquanto os adultos acabavam as bebidas. Ele tinha feito o mesmo com outras histórias e estava a começar a compreender: certas lendas domésticas não passavam de uma fonte de ansiedade, de imprecisões desnecessárias de uma biografia satisfatória.»
3 de fevereiro de 2011
2 de fevereiro de 2011
Às vezes, lá calha...
mas não há nada a fazer.
Sou da idade do Mecano, já não apanhei a do Lego; delego.
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