10 de março de 2011

Às vezes, lá calha...

«Não ser demasiadamente
é a condição primeira
para o desabrochar consciente e pacífico.»
(Rainer Maria Rilke)

«É bom trabalhar nas Obras» (76)

«...vamos ver, diz a guia, apenas uma ínfima parte do que se calcula que os artistas astecas produzira sem instrumentos de metal nem rodas para transportar os grandes blocos de pedra, está aqui quase tudo o que sobreviveu à destruição de México-Tenochtitlan, a grande cidade enterrada debaixo deste mesmo chão que as senhoras e os senhores pisam,
a violência imóvel da escultura asteca provoca no senhor uma reacção que nenhuma obra de arte lhe tinha suscitado, quando menos esperava vê-se diante do ácido monólito em que um escultor sem nome gravou como quem petrifica uma obsessão a imagem implacável de Coatlicue, mãe de todas as divindades, do Sol, da Lua e das estrelas, deusa que cria a vida neste planeta e recebe os mortos no seu corpo,
o senhor fica magnetizado por ela, magnetizado, não há outra palavra, irá suspender os tours a Teotihuacan, Taxco e Xochimilco, para voltar ao Museu às quintas, sextas e sábados, sentar-se em frente de Coatlicue e reconhecer nela algo que o senhor intuiu sempre, capitão,
a sua insistência provoca suspeitas entre os funcionários, para se justificar, para disfarçar esse fascínio aberrante, o senhor compra um bloco e começa a desenhar Coatlicue em todos os seus pormenores,
no domingo irá parecer-lhe absurdo o seu interesse por uma escultura que afinal lhe é alheia, e em vez de voltar ao Museu irá inscrever-se na excursão FESTA BRAVA, os amigos que fez nesta viagem irão perguntar-lhe por que é que não foi com eles a Taxco, a Cuernavaca, às pirâmides e aos jardins flutuantes de Xochimilco, onde se meteu durante estes dias, será que não leu D. H. Lawrence, não sabe que a cidade de México é sinistra e que um perigo mortal espreita em cada esquina?, não, não, nunca saia sozinho, capitão Keller, com estes mexicanos, nunca se sabe,
não se preocupem, sei cuidar de mim, não me viram porque passei os dias todos em Chapultepec a desenhar as melhores peças, e eles, porque é que perde o seu tempo, pode comprar livros, postais, slides, reproduções em miniatura,
quando a conversa termina, na plaza México soa o toque do clarim, ouve-se um pasodoble, os matadores e as suas quadrilhas aparecem na arena, sai o primeiro touro, toureiam-no com a capa, espicaçam, bandarilham e matam, o senhor horroriza-se com o espectáculo, não suporta ver o que fazem ao touro, e diz aos seus compatriotas, mexicanos selvagens, como é possível torturar-se os animais desta maneira, que país, esta maldita FESTA BRAVA explica o seu atraso, a sua miséria, o seu servilismo, a sua agressividade, não têm qualquer futuro, deviam ser todos fuzilados, o senhor levanta-se, abandona a praça, apanha um táxi, volta ao Museu para contemplar a deusa, para continuar a desenhá-la durante o pouco tempo em que a sala ainda estará aberta...»
[José Emilio Pacheco, O princípio do prazer; em tradução para a colecção Ovelha Negra / Oficina do Livro]

Papiro do dia (39)

«No es que tenhamos ninguna prevención a priori contra todo lo que reluce, pero siempre hemos preferido los reflejos profundos, algo velados, al brillo superficial y gélido; es decir, tanto en las piedras naturales como en las materias artificiales, ese brillo ligeramente alterado que evoca irresistiblemente los efectos del tiempo. “Efectos del tiempo”, eso suena bien, pero en realidad es el brillo producido por la suciedad de las manos. Los chinos tienen una palabra para ello, “el lustre de la mano”, los japoneses dicen “el desgaste”: el contacto de las manos durante un largo uso, su frote, aplicado siempre en los mismos lugares, produce con el tiempo una impregnación grasienta; en otras palabras, ese lustre es la suciedad de las manos.
Esto explica que al aforismo que reza: “el refinamiento es frío” se le haya podido añadir “... y algo sucio”. Sea como fuere, es innegable que en el buen gusto del que alardeamos entran elementos de una limpieza algo dudosa y de una higiene discutible. Contrariamente a los occidentales que se esfurzan por eliminar radicalmente todo lo que sea suciedad, los extremo-orientales la conservan valiosamente y tal cual, para convertirla en un ingrediente de lo bello. Es un pretexto, me dirán ustedes, y lo admito, pero no es menos cierto que nos gusten los colores y el lustre de un objecto manchado de grasa, de holín o por efecto de la intemperie, o que parece estarlo, y que vivir en un edificio o entre utensilios que posean esa cualidad, curiosamente nos apacigua el corazón y nos tranquiliza los niervos.»
[Tanizaki, El elogio de la sombra; trad, Julia Escobar, Biblioteca de Ensayo Siruela, 10.ª ed. Outubro de 2000;

8 de março de 2011

Breve interlúdio musical

sugerido por quem, de direito:

Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

«- Sai - diz a casa.
- Para onde? - pergunta a paisagem.»

... voltou assim

«É bom trabalhar nas Obras» (75)

«Esse encontro ficou-me gravado na alma. Se ia ao cinema ou me sentava a ver televisão ou a folhear revistas, encontrava sempre belas mulheres parecidas com a Rosalba. No trabalho, quando me calhava atender uma rapariga que tivesse algum traço dela, tratava-a mal, inventava dificuldades, procurava formas de humilhá-la diante dos outros empregados para sentir: Estou a vingar-me da Rosalba.
O senhor perguntará, padre, o que é que a Rosalba me fez. Nada, o que se chama nada. Isso era o pior e o que me punha mais furiosa. Insisto, padre: foi sempre boa e carinhosa comigo. Mas abafou-me, arruinou-me a vida, só por existir, por ser tão bela, tão inteligente, tão rica, tão tudo.
Eu sei o que é estar no Inferno, padre. No entanto, não há sol que sempre duro e há mais marés do que marinheiros. Aquele encontro em Santa María deve ter sido em 1946. De maneira, que esperei um quarto de século. E finalmente hoje, padre, esta manhã vi-a na esquina de Madero com Palma. Primeiro, ao longe; depois, muito perto. Não pode imaginar, padre: aquele corpo maravilhoso, aquela cara, aquelas pernas, aqueles olhos, aquele cabelo, perderam-se para sempre num tonel de sebo, pregas, sinais, rugas, papadas, varizes, brancas, maquilhagem, pó-de-arroz, rímel, dentes falsos, pestanas postiças, lentes de fundo de garrafa.
Apressei-me a beijá-la e a abraçá-la. Tinha acabado o que nos separou. O antes, deixou de ter importância. Nunca mais seríamos, uma a feia e a outra, a bonita. Agora a Rosalba e eu somos iguais. Agora a velhice tornou-nos iguais.»
[José Emilio Pacheco, O princípio do prazer; em tradução para a colecção Ovelha Negra / Oficina do Livro;

Papiro do dia (38)

«Dicen que el papel es un invento de los chinos; sin embargo, lo único que nos inspira el papel de Occidente es la impresión de estar ante un material estrictamente utilitario, mientras que sólo hay que ver la textura de un papel de China o de Japón para sentir un calorcillo que nos reconforta el corazón. A igual blancura, la de un papel de Occidente difiere por naturaleza de la un hosho* o un papel blanco de China. Los rayos luminosos parecen rebotar en la superficie del papel occidental, mientras que la del hosho o del papel de China, similar a la aterciopelada superficie de la primera nieve, los absorbe blandamente. Además, nuestros papeles, agradables al tacto, se pliegan y arrugan sin ruido. Su contacto es suave y ligeramente húmedo como el de la hoja de un árbol.
* Papel japonês de alta qualidade, grosso e completamente branco, reservado para as ordens imperiais.»
[Tanizaki, El elogio de la sombra; trad. Julia Escobar, Biblioteca de Ensayo Siruela, 10.ª ed. Outubro de 2000]

6 de março de 2011

Breve interlúdio musical

lá vou eu passear as jeans, fiufiu...

Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

«En Occidente, el más poderoso aliado de la belleza fue siempre la luz; en la estética tradicional japonesa lo esencial está en captar el enigma de la sombra. Lo bello no es una sustancia en sí sino un juego de claroscuros producido por la yuxtaposición de las diferentes sustancias que va formando el juego sutil de las modulaciones de la sombra. Lo mismo que una piedra fosforescente en la oscuridad pierde toda su fascinante sensación de joya preciosa si fuera expuesta a plena luz, la belleza pierde toda su existencia si se suprimen los efectos de la sombra.»

Nem sempre a lápis (141)

Adormeci a ouvir-te dizer,
«Encheste-me a casa de palavras.»
Vim até à minha,
lidar com elas.

Papiro do dia (37)

4 de março de 2011

Breve interlúdio musical

Porque a Net fornece um novo dia

[play it again, Enrique]

Às vezes, lá calha...

«Albert não mantivera a biblioteca do pai numas prateleiras e a sua noutras; pelo contrário, juntara autores, refizera a ordem, arrumara, enfim, os livros pelas letras do alfabeto num movimento rudimentar que revelava o seu fraco carácter – misturara a força com o alfabeto.»

Nem sempre a lápis (140)

Apanho-me a olhar para o monitor com ar aburrado, e não ensimesmado, palavra que não uso; só em serviço, a trabalhar, horas e horas seguidas dão nisto. Mas sempre com o título de Bruce Chatwin, O Que Faço Eu Aqui, como nota de rodapé a lastrar a ausência. É impressionante o caudal de frases, períodos, reflexões, que me ocorrem e encheriam páginas e páginas de texto avulso e indecifrável. O que aqui anoto é uma caricatura do que não comporto; uma finta à loucura, com rima pobre, encalacrada.

«É bom trabalhar nas Obras» (74)

«Padre, as coisas que não terá ouvido no confessionário e aqui na sacristia… O senhor é jovem, é homem. Vai-lhe ser difícil entender-me. Não sabe quanto lamento roubar-lhe tempo com os meus problemas, mas em quem, se não no senhor, posso confiar? Na verdade, não sei como começar. É pecado alegrarmo-nos com o mal alheio. Todos o cometemos, não é verdade? O senhor repare quando há um acidente, um crime, um incêndio. Que alegria que os outros sentem porque não lhes ter calhado pelo menos uma, entre tantas desgraças deste mundo.
O senhor não é de cá, padre, não conheceu México quando era uma cidade pequena, preciosa, muito confortável, não a monstruosidade que sofremos agora, em 1971. Então, nascíamos e morríamos no mesmo sítio, sem nunca nos mudarmos de bairro. Éramos de São Rafael, de Santa Maria, da colónia Roma. Nada voltará a ser igual… Desculpe, estou a divagar. Não tenho ninguém com quem falar e quando me solto… Ai, padre, que vergonha, se soubesse, jamais me teria atrevido a contar isto a alguém, nem ao senhor. Mas já que aqui estou. Depois, vou sentir-me mais aliviada.
Olhe, a Rosalba e eu nascemos em prédios da mesma rua, apenas com três meses de diferença. As nossas mães eram muito amigas. Levavam-nos as duas à Alameda e a Chapultepec. Ensinaram-nos a falar e a caminhar às duas. Desde que entrámos na escola da pré-primária a Rosalba foi a mais bonita, a mais graciosa, a mais inteligente. Toda a gente engraçava com ela, era delicada com todos. Na primária e na secundária, a mesma coisa: a melhor aluna, a porta-bandeira nas cerimónias, dançava, actuava ou recitava nos festivais. "Estudar, não me dá trabalho nenhum", dizia. "Basta-me ouvir qualquer coisa para ficar a sabê-la de cor."
Ai, padre, porque é que as coisas estão tão mal distribuídas? Porque é que o bom calhou à Rosalba e o mau a mim? Feia, gorda, bruta, antipática, grosseira, desordeira, com mau feitio. Enfim… Já deve imaginar o que nos aconteceu ao chegarmos ao liceu, quando poucas mulheres alcançavam esses níveis. Queriam todos namorar com a Rosalba. A mim, que me comessem os cães: ninguém ia reparar na amiga feia da rapariga bonita.»
[José Emilio Pacheco, O princípio do prazer; em tradução para a colecção Ovelha Negra / Oficina do Livro]

3 de março de 2011

A isto é que se chama, "ao pintar da amora"...

com premonitoras pinceladas de tinta-da-china

2 de março de 2011

Breve interlúdio musical