24 de fevereiro de 2011

Às vezes, lá calha...

«Vim a pé para casa, com vontade de chorar mas aguentando-me, com vontade de mandar tudo para o diabo. E, no entanto, disposto a escrever isto e a guardá-lo para ver se um dia chego a achar cómico o que agora vejo tão trágico… Mas, quem sabe. Se, na opinião da minha mamã, esta que vivo é "a etapa mais feliz da vida", como serão as outras, caraças.»

Nem sempre a lápis (137)

Se tivesse dormido em Mortágua – arranjava-a bonita, com o temporal que fez durante a noite e a manhã –, o jantar seriam uns tordos caçados pelo meu primo no fim-de-semana. Comidos e chuchados à mão, a perguntar a como estão agora; se os comprou ao quilo ou à unidade. Mais novo semana e meia, permito-me desviar-lhe a mira quando se põe a armar ó adulto. Enquanto bebíamos um café na churrasqueira ao lado do hotel, o Nuno Monteiro convidou-me para jantar com eles. Eles, serão as pessoas ou parte das pessoas que se empenharam para o que me espera e só quero saber no momento e enquanto ele decorrer; sobrevivência garantida. Ontem, já tinha visto a miragem da vitrina, aspirado no ar o sabor da grelha, a beber meia de leite com uma complacente fatia de bola de carne. Não cometi a indelicadeza de recusar, lembrei-lhe apenas que não me sinto à vontade a comer em público tudo o que exceda uma torrada, uma sopa; vá lá, um peixinho da rocha só com legumes. Como tem trinta e cinco anos demorou uns segundos a entender, compreendo; também me lembro do incómodo de ver as pessoas a metralharem gafanhotos, com o coice da prótese. São seis e meia da tarde, daqui a duas horas vêm buscar-me; vou à churrasqueira fazer de conta que como qualquer coisa. Só espero não ter de falar muito para a corega não me trair; sempre à mão, no bolso. Não faltará, por certo, oportunidade de voltar a ocupar-me deste assunto. Vens comigo, Walser?

Papiro do dia (35)

«Mas todo o elemento comum pressupõe uma série de seres isolados, distintos. Antes deles, isto não era senão um todo desprovido de relação, mesmo consigo próprio. Não era nem pobre nem rico. Desde que algumas dessas partes se distanciam da unidade maternal, entram em oposição com a mesma; desenvolvem-se afastando-se dela. Mas ela não as larga da mão. A raiz faz questão de ignorar os frutos, o que não a impede de os alimentar.
E nós somos como os frutos. Pendemos do alto de ramos estranhamente tortuosos e suportamos bem os ventos. O que temos é a nossa maturidade, a nossa doçura e a nossa beleza. Mas a força para tal emana de uma raiz que se propagou até cobrir mundos e mundos em todos nós. E, se quisermos testemunhar a favor do seu poder, então devemos utilizar, cada um, o nosso mais solitário sentido. Quanto mais solitários houver, mais solene, comovente e poderosa será a sua comunidade.»
[Rainer Maria Rilke, Notas sobre a melodia das coisas; trad. Sandra Filipe, Averno, Janeiro 2011;

22 de fevereiro de 2011

Breve interlúdio musical

Porque a Net fornece um novo dia

«The wonderful adventures
Odysseus had cruising the Mediterranean,
were dreamed up by Homer
while waiting for his wife to serve lunch.»
[chega-se aqui, por aqui]

Às vezes, lá calha...

«Interessava-se por tudo. Na verdade, se apenas tivesse uma palavra para a evocar, essa palavra seria avidez. Queria experimentar tudo, provar tudo, ir a toda a parte, fazer tudo (...) Penso que, para ela, a alegria de viver e a alegria de saber eram uma e a mesma coisa.»

Nem sempre a lápis (136)

Vivo comigo e com os meus livros num espaço calmo; o silêncio do quotidiano tornou-se a música de fundo mais presente, mas não repetitiva. Quando estico e cruzo as pernas em cima da mesa da sala da Nico, o espelho em frente pergunta se estou em Carnaxide, no Monte Alto; se no Monte Alto, em Carnaxide. É uma virtude não encontrar nada que se assemelhe à necessidade de uma resposta. Levanto os olhos do bloco e sorriem do lado de fora da pastelaria, em Vila Real; embora mais agasalhado, acabo de ser atraiçoado por uma foto, pela atitude.

Papiro do dia (34)

«Isto ocorre-me a partir desta observação: nós ainda pintamos os homens sobre fundo dourado, como os primitivos. Detêm-se frente ao indeterminado. Por vezes dourado, por vezes cinza. Às vezes por dentro da luz e, muitas vezes, por trás deles, com uma insondável escuridão.
Percebe-se. Para reconhecer o Homem, há que isolá-lo. Mas, depois de uma longa experiência, é mais justo reintegrar as considerações isoladas e acompanhar com um olhar amadurecido os seus gestos mais amplos.»
[Rainer Maria Rilke, Notas sobre a melodia das coisas; trad. Sandra Filipe, Averno, Janeiro 2011;
consta que há aqui e no Bartleby]

20 de fevereiro de 2011

Breve interlúdio musical

Porque a Net fornece um novo dia

«...vender livros é tocar no outro.
o meu trabalho é tocar no outro e deixar-me tocar pelo outro.
é por isso que vender livros não é o mesmo que vender batatas.»

... e os Correios, por vezes

«Não temas a trovoada,
o aconchego do relâmpago.
Senti-la aqui tão perto
é um regalo a poucos concedido.
Se a casa tremer,
lembra-te que não é de medo
nem do frio das paredes.
As casas só tremem
porque estão de pé,
fundadas na terra que recebe
as ossadas dos relâmpagos;
as trovoadas.
Não temas os mortos
nem o aconchego dos vivos,
nem deixes morrer nos vivos
as trovoadas que fazem tremer
as casas.»
[já cá (en)canta e não é fotocopiado, fiufiu...]

Às vezes, lá calha...

«Era alguém que nascera e fora educado para matar
e por devaneio intelectual
decidira exercer a medicina.»
(Gonçalo M. Tavares)

Nem sempre a lápis (135)

Fiz bem em vir de véspera, com o rascunho d’ O princípio do prazer no portátil e John Berger (Con la esperanza entre los dientes) na mochila. Passei um fim-de-semana demasiado turbulento para o meu gosto e necessidade, salvou-me ter estado à conversa com o Rui Pires Cabral no Bartleby e ter aparecido o Luís Manuel Gaspar. Terminadas as reflexões sobre As Lições dos Mestres (George Steiner), convidei o Luís – «Finalmente, até que enfim; eras o último que me faltava», celebrou o contrato – para fazer a vinheta, e a capa?, de Nem sempre a lápis; um bloco de apontamentos cerzido pela Inês Mateus, distribuído em saquetas tea for one, lá mais para Abril. Comecei a semana com o olho posto no ícone meteorológico do Google, sintonizado para Vila Real; chuva e trovoada, máximas de seis e oito graus, tive o cuidado de evitar as mínimas. Decidi pôr termo ao impasse e fazer uma viagem com destino, mas sem horário. Só levei com uma carga de água entre Santarém e a saída para Torres Novas, só parei na área de serviço da barragem da Aguieira, sem ir a Mortágua; talvez no regresso, quero chegar ao Sul em roda livre. Já perto de Peso da Régua, cruzei-me com um camião em marcha lenta – com o aviso, bem visível, de que andava a pôr o asfalto em salmoura – e quanto a água, só a do Vouga e a do Douro e a do Corgo, que não vi, além da levantada pelos secadores das estradas; depois, estampam-se e sorteiam a reforma. Segui as indicações dadas pelo Rui, pelo Nuno Monteiro – o grande culpado de tudo isto, que nunca saberei como lhe agradecer –, mas (ainda) não vi nenhuma locomotiva em pose de monumento; e se eu vinha com ela fisgada. Nevou durante a noite, mostraram-me os cerros que justificam o nome do hotel: Miraneve e olha que linda; ontem não a viste, passaste ao lado do Caramulo de noite. Quando entreguei os livros ao Nuno para montar a banca e termos oportunidade de sairmos do e-mail e da bloga – ele é alérgico a telemóveis, como eu a televisão –, caiu uma carga de granizo que deu o toque em falta ao granito para me receber, reconheço. Bom anfitrião, lamentou que o tempo não me deixasse perder pela cidade, como adivinhou que gostaria; sorri, sem me apoquentar, a ver o Vento.

Papiro do dia (33)

«Dadas as suas capacidades intelectuais – a sua cultura flexível contrastava com o monopólio de certas ideias que dominavam a maior parte das cabeças dos que agora eram os seus pares –, Lenz Buchmann rapidamente subiu no Partido. Lenz Buchmann, assim, sempre: o apelido tornara-se uma exigência do primeiro nome; o vocábulo Lenz ganhara apetite – espectador que quer ter alguém na cadeira ao lado, para assim olhar, acompanhando, o mundo. Posto de vigia, esse, que ganhara uma nova importância com a associação do apelido.
Lenz aprendia então com velocidade novos conteúdos. Não a nova matemática ou a nova física, mas a velha ciência de ligação e separação dos homens. Alianças e declarações de guerra eram amputadas, é certo, da sua virilidade final mas permaneciam, na sua essência, em todas as relações humanas dentro do Partido. Habituado a lidar sozinho com as circunstâncias da vingança de células particulares em relação a um corpo, Lenz estava agora “com mais gente ao lado”. A sua equipa médica nas operações mais complicadas nunca ultrapassara as sete pessoas, e agora ele via-se envolvido em reuniões em que as suas declarações eram escutadas por dezenas de colegas de Partido.
Este sentimento de comunidade era uma das invenções deste novo tempo em que Lenz entrara. Não tinham sido discutidos pressupostos, ou seja, homens vindos de sangues completamente distintos, de famílias que nunca se haviam cruzado na cama ou nos grandes pactos de rendição ou de declaração de vitória, estavam agora, lado a lado, parecendo, afinal, ter combatido durante séculos o mesmo exército.
Essa ilusão – que o era – não cegava Lenz.»
[Gonçalo M. Tavares, Aprender a rezar na Era da Técnica; Caminho, Outubro 2007;

18 de fevereiro de 2011

Breve interlúdio musical

(redesenhado por Luís Manuel Gaspar; até para a semana)

Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

Nem sempre a lápis (134)

Desci o vidro para perguntar a um ramo de mimosas, apanhadas no passeio ao lado de um semáforo, onde ficava o hotel que procurava. Não tenho GPS, o meu sistema de navegação continua a ser o contacto com as pessoas. Entreolharam-se, hesitantes, e a mais decidida indicou a torre iluminada em frente; fiquei nesse há muitos anos, andava a fazer o Caminho de Santiago com um cajado 4x4. O que procuro, é só para dormir, não é para visitar a mobília e a decoração; a AR.CO começou ou deve estar a começar, em Madrid. Depois de ter contornado duas vezes uma rotunda para dar com a saída, a conduzir à inglesa, solicitei a informação a dois putos em frente de uma loja (encerrada) de tattoo & piercing. Entreolharam-se e um sugeriu ao outro, a apertar o capacete amarelo, frisou bem: Oh pá, vamos lá levar o senhor. E seguindo os batedores numa acelera, com os olhos postos no capacete, vim ter ao hotel com um dia de antecedência. Chove e faz um frio de rachar, como se prenunciasse neve. Amanhã, tenho o dia todo para concretizar um sonho da adolescência, atiçado por Bolaño no início de 2666: envelhecer pelo país a vender um livro editado por mim; antes ou depois de o terem levado à cena, como se propõem.

Papiro do dia (32)

«- Nesta casa o medo é ilegal – era uma das frases mais marcantes de Frederich Buchmann.
Esta frase, diga-se ainda, foi determinante para Lenz – o seu pai sabia bem a importância de ser consequente.
Frederich castigava as manifestações de medo de qualquer dos seus filhos fechando-os à chave num compartimento da casa, «a prisão», em que tapara as janelas, em que não havia uma única peça de mobília ou objecto.
Poucas vezes (embora marcantes) Lenz foi colocado na «prisão» por cometer a ilegalidade de mostrar medo. Pelo contrário, o seu irmão Albert era constantemente trancado naquele espaço que suspendia o lado lúdico, o ataque ou a defesa. Era, em absoluto, um espaço neutro, onde as funções dos gestos se tornavam nulas: o movimento era desnecessário e quase ridículo. As paredes não eram superfícies estimulantes para um humano, muito menos sendo ainda, esse humano, uma criança. Era um espaço, por isso, que esmagava a infância – uma massa pesada esmagando outra bem menos robusta –, era impossível naquele espaço agir ou mesmo pensar de acordo com a idade.»
[Gonçalo M. Tavares, Aprender a rezar na Era da Técnica; Caminho, Outubro 2007;

15 de fevereiro de 2011

14 de fevereiro de 2011

Breve interlúdio musical

Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

«La escritura, tal como la concibo, no tiene un territorio propio. El acto de escribir no es más que el acto de aproximarse a la experiencia sobre la que se escribe; del mismo modo, se espera que el acto de leer el texto escrito sea otro acto de aproximación.»

Nem sempre a lápis (133)

Estreio um novo bloco – com as folhas que passam a ser o verso, as costas, utilizadas como diário de bordo da ida a Brest no 2CV, em 1994 – para anotar a transcendência, pasme-se, de fazer um ano que A Cicatriz do Ar foi apresentado na Trama; momentos tão inesquecíveis como calorosos e íntimos. Dentro de dois dias, o Clube de Literatura do Colégio de Nossa Senhora da Boavista apresenta-mo em Vila Real; malhas que a Net tece, no plaino superpovoado que a soalheira brisa antecede, movimenta-se vivo e cicatriza, o livro de seu autor. Ainda serei eu?

«É bom trabalhar nas Obras» (72)

«Querido Jórge, perdôame não terte escrito mas foi porque não tive tempo, porque houveram muitos problemas e não me deixam um minuto sozinha. Fica a saber que quando chegámos a minha tia contou tudo ao meu papá que saía contigo e nos abraçávamos e beijávamos no paredão e enfim sabesse lá que mais lhe dice.
Açim que a minha tia se foi embora o meu papá chamoume e diceme o quela tinha dito e eu dicelhe que não era verdade, que saíamos mas com as tuas irmãs. Bom, não julgues que sacreditou.
Jórge os dias parecême séculos sem verte, ando sempre a pensar em ti, à noite deitome a pensar em ti, cria terte sempre junto de mim, mas não vejo maneira como.
Jórge tem atensão nas aulas para ver sé possível vires a Jalapa, queu ir a Veracruz sei lá cuando será.
Bom querido Jórge, cumprimentos à Nena e à Marycarmen, à tua mamã e ao teu papá tão bem e muito especialmente ao Durán e à namorada dele.
Não me mandes cartas para esta direcção, se quiseres escrever falo para a posta-restante de correios Jalapa Veracruz em nome de LUISA BERROCAL, entregãma carta porque tenho uma credencial com ece nome.
Bom, a Deus Jórge, recebe muitos beijos da que te quere e não consegue esquecer Ana Luisa.
Uma vez copiada a carta à letra (Ana Luisa falava bem, porque será que escreve desta forma? Deve ser porque não lê), vou fazer aqui mesmo o rascunho da minha resposta:
Meu amor (Não.) Querida Ana Luisa (Também não: soa indiferente.) Queridíssima e inesquecível Ana Luisa (Nunca: saiu piroso.) Minha querida (Melhor:) Minha muito querida Ana Luisa (Assim está bem, creio eu):
Não podes imaginar a enorme alegria que a tua carta me deu, a carta mais esperada do mundo. (Soa mal, mas enfim.) Também não imaginas a falta que me fazes e a necessidade que tenho de te ver. Agora sei, mesmo a sério, que te amo e que estou apaixonado por ti. No entanto, devo dizer-te com toda a sinceridade que há três coisas estranhas na tua carta:
Primeira. Julgava que a senhora com quem vives era a tua mamã, e afinal é tua tia. (Aliás, nunca me disseste que o teu papá estava em Jalapa. Tive sempre receio que nos apanhasse quando eu te deixava na esquina da tua casa.)
Segunda. Porque é que não podes regressar? Porque tens de estar sempre a ir a Jalapa? Tudo isto preocupa-me muito. Peço-te que me esclareças as dúvidas.
Terceira. Envio esta carta para a posta-restante dos correios e dirigida da forma que me indicas; mas não entendo porque é que tens uma credencial com um nome que não é o teu. Vais explicar-me isto a sério?
Não te conto nada como as coisas correm por cá porque é tudo horrível sem ti. Volta depressa. Preciso de ti. Adoro-te. Mando-te muitos beijos com o meu mais sincero amor:
Jorge
Bom, o princípio e o fim são bastante parecidos com as cartas que o Gabriel manda à Maricarmen. (As que li sem ela saber.) Mas creio que no conjunto, é mais ou menos aceitável. Vou passá-la a limpo e dá-la ao Durán para amanhã a pôr no correio.»
[José Emilio Pacheco, O princípio do prazer; em tradução para a Colecção Ovelha Negra / Oficina do Livro;

13 de fevereiro de 2011

(1925 - 2011)

À atenção de tradutores

Entre nós, profissionais da tradução, é do conhecimento geral a estratégia praticada (não sei se ainda em vigor) por uma editora; publicava um anúncio à procura tradutores, esquartejava o livro para o distribuir pelos candidatos sob a forma de teste e, posteriormente, enviava-lhes uma circular a agradecer e a manifestar o apreço pelo trabalho e a intenção de os contactar muito em breve. Recolhido o patchwork, uma revisão conivente e para isso remunerada, tornava o livro publicável com os custos de tradução reduzidos ao anúncio e à perversa circular.
Não tenho por hábito guardar e-mails nem vocação para alimentar, no papel ou na bloga, Piratarias seguido de Corrida de Pernas de Pau. A duração da resposta às dúvidas colocadas aos autores termina após a revisão – é a minha providência cautelar, ainda não utilizada, a verificar-se incompreensão do revisor –, sucedendo o mesmo com as contas até à liquidação do trabalho por mim prestado.
Sei que em meados de Dezembro enviei um CV às Edições Ahab, como o faço em relação a outras, a manifestar disponibilidade de colaboração, se o interesse e a ocasião se proporcionassem. Além de ter sido bem recebido, as Edições Ahab comunicaram-me que aguardavam a concretização da compra dos direitos de um autor sul-americano, caro a Enrique Vila-Matas, até ao dia 10 de Janeiro do ano em curso, e se estaria disponível para o traduzir. Recorri ao número de telemóvel e ao nome do senhor Tiago, visíveis no e-mail, para dizer que estava, sem esconder a curiosidade por saber qual era o autor e se o meu pressentimento batia certo; Julio Ramón Ribeyro, Prosas Apátridas. Confirmámos que se tratava da versão completa, continuados os textos das edições de 1975 (até à pág. 76) pelos da página 79 até à 140, com que termina a edição da Seix Barral Biblioteca Breve, Janeiro de 2007. Confirmámos termos também o livro Cuentos, não recordo se na minha 2.ª edição de 2008, organizada por María Teresa Pérez para Catedra Letras Hispânicas, com introdução dividida em nove subtítulos ilustrados, nota de edição e bibliografia.
Como tantos outros autores, Ribeyro foi-me apresentado por Vila-Matas, enquanto traduzia Paris Nunca Se Acaba. Adquiri o livro e não resisti à tentação de ir traduzindo textos ao sabor do prazer da leitura, nove ao todo e nem todos completos, além da epígrafe de Tagore e a Nota do Autor. Textos que foram publicados aqui e aqui e aqui e aqui e aqui e aqui e enviados ao senhor Tiago; que os aceitou e nunca mais os referiu, sem tugir nem mugir, como sói dizer-se.
Mais uma ou duas trocas de e-mails e, como tínhamos acordado, recebi o prefácio de Vila-Matas para a edição castelhana de Contos Carnívoros (Bernard Quiriny), entregue poucos minutos depois das 15:49 de 20 de Janeiro, data e hora do documento em arquivo. Quanto ao livro de Ribeyro, ainda não haveria resposta dos herdeiros, surpreendendo-me que O Café dos Loucos o anunciasse como dado adquirido, quatro dias depois do envio de Um catálogo de ausentes; o prefácio de Vila-Matas.
As Edições Ahab agradeceram a prontidão e aceitaram a minha proposta – reciprocamente vantajosa, na minha sincera opinião – de liquidar 65,54 € brutos, em livros. Quanto a Prosas Apátridas, ainda não havia resposta nem foram aludidos os textos por mim enviados.
Na sexta-feira estranhei o silêncio, e como não gosto de alimentar equívocos e saber com o que conto, telefonei ao senhor Tiago. Não atendeu, não insisti; recebi por volta das 21 horas uma sms em que reconhecia estar em falta comigo e a explicar que não atendera por estar no tribunal, e que hoje (sábado) me ligaria; como o fez por volta do meio-dia, para acabar por dizer que a tradução de Prosas Apátridas – que ele, senhor Tiago, teria feito durante o Verão – fora atribuída a um tradutor ou tradutora; há quanto tempo, não disse nem perguntei, optando por lhe pedir licença para desligar o telemóvel.
Não percam Prosas Apátridas, é um livro magnífico; quanto a mim, não quero perder a oportunidade de ler a Nota do Autor, os textos 1, 2, 5, 16, 57, 59, 60, 68, 143 e o primeiro período do número 3.
Como disse, é raro guardar e-mails; mas não consigo evitar a frase de Vila-Matas (História Abreviada da Literatura Portátil) para se referir aos que «tornaram possível que hoje se possa desmascarar com mais facilidade aqueles que, como disse Hermann Broch, “não é que sejam maus escritores [editores], mas sim delinquentes”».
Postas as coisas nestes termos, as Edições Ahab devem-me apenas UM exemplar de Contos Carnívoros; mas, se assim o entenderem, podem esquartejar o livro e mandar só o prefácio, por mim traduzido.
Quanto ao e-mail que recebi das Edições Ahab, após ter pedido licença para desligar o telemóvel, e a minha resposta, vou guardá-los para memória (privada) futura; aprendi.
[Nota: Não serão publicados comentários]

12 de fevereiro de 2011

Breve interlúdio musical

(miau desviado de um blog cheio de pulgas, de um gineceu...)

Porque a Net fornece um novo dia

... fui à lenha ao fim da tarde,
para dar ouvidos à noite:

Então não é que a TEA FOR ONE diz ter o prazer de nos convidar para o lançamento do livro Mamas, do poeta Rui Caeiro, a ter lugar hoje, pelas 22h, no Bar Bartleby (Rua da Imprensa Nacional, 116 b, Cave do Restaurante BS, em Lisboa). A obra é ilustrada por Ana Biscaia e o grafismo ficou a cargo de Inês Mateus.

(eu seja ceguinho, de preferência, se não for lá confirmar a consistência do volume, do livro; fiufiu...)

Sinopse

zoom

Às vezes, lá calha...

«Acho que em Portugal há um julgamento estranho da modéstia. Batem-se palmas a quem basicamente diz que não é muito bom a fazer o que faz. E quando alguém diz que tem confiança no que faz, utiliza-se uma palavra pejorativa: arrogante. Eu claramente tenho confiança no que faço, e nesse aspecto não sou modesto. Agora, precisamente porque tenho essa confiança não me passa pela cabeça falar mal de alguém. Não por eu ser um coração maravilhoso, mas porque seria perder tempo precioso para aquilo que tenho de fazer.»
(Gonçalo M. Tavares, in "Mil Folhas", Público, 2005)

Nem sempre a lápis (132)

Às vezes, passo pelo Príncipe Real e apetece-me descer a rua a correr e ir ver do Changuito; sem estar em falta com a reserva de um livro. Não o faço mais vezes com receio de me cruzar com um funcionário da Emissora Nacional, sexagenário, a subir a rua ofegante, vindo dos estúdios de São Marçal; perdido no tempo, à hora do almoço.

«É bom trabalhar nas Obras» (71)

«Quinze minutos antes do encontro, aluguei uma cadeira de lona na esplanada frente à praia e pus-me a ler o Compendio de filosofía, um livro da Nena, para que a Ana Luisa me visse com ele. Não entendi uma única palavra. Estava inquieto e não conseguia concentrar-me. Deram as doze e nada. As doze e meia e também nada. Pensei que não ia aparecer. Já me tinha preparado para ir embora, quando a Ana Luisa apareceu.
- Desculpa a demora: não conseguia escapar-me.
- De quem?
- Da minha mamã. Não me deixa sair.
- Recebeste a minha carta?
- Qual carta?
- O meu recado, quero dizer.
- Claro, respondi-te: por isso estamos aqui, não?
- Tens razão. Sou mesmo bruto… E o que achas?
- De quê?
- Do que te dizia.
- Ah, pois não sei. Dá-me tempo.
- Já tiveste muito tempo: decide-te.
- Como queres que me decida se não te conheço?
- Ana Luisa, eu também não te conheço e é como vês…
- Como vejo o quê?
- … Estou apaixonado por ti.
Corei. Estava seguro de que Ana Luisa se ia rir. Mas em vez de me responder pegou-me na mão como se não estivéssemos rodeados de gente, em plena esplanada entre o salão de baile e a praia. Não quis que a convidasse para tomar nada. Fomos caminhando pelo paredão à beira-mar até à bifurcação de Reforma. Sentia-me feliz, embora com medo que alguém lá de casa nos apanhasse. Porque é suposto que eu ainda não tenho idade para andar com mulheres; tentá-lo, é um delito que dá cabo dos estudos e do desenvolvimento normal e deve ser castigado com a pena máxima. Não sei, o prazer de caminhar com a mão dela na minha mão, perto de Ana Luisa, que é tão formosa com a sua cara tão bela e o seu corpo perfeito, valia todos os riscos. Por fim, Ana Luisa falou:
- Bom, devo confessar-te que também gosto de ti.
Fiquei em silêncio. Detive-me a olhá-la.
- Mas há um problema.
- Qual?
- És uns dois ou três anos mais novo do que eu. Vou fazer dezasseis.
- E que importância tem?
- A sério?
- Claro que não tem importância.
Aproximou-se de mim. Abracei-a. Beijámo-nos. Gostava de escrever tudo o que se passou depois. Mas as minhas irmãs acabam de chegar. Era uma desgraça se lessem este bloco. Vou guardá-lo no mais fundo do roupeiro. Só anoto que me senti feliz e que correu tudo mil vezes melhor do que eu esperava.»
[José Emilio Pacheco, O princípio do prazer; em tradução para a Colecção Ovelha Negra / Oficina do Livro;

10 de fevereiro de 2011

Breve interlúdio musical

Porque a Net fornece um novo dia

... clikando empesta-se melhor

Às vezes, lá calha...

«O leitor inteligente procura alternativas que o salvem da morte sem livros. Por enquanto alimento-me das estantes que fui forrando quando podia. Não estou interessada em nenhuma espécie de e-book reader (apesar de ser muito fan de todo o tipo de gadgets e não ser idiota), mas estou ainda menos interessada em ficar sem livros para ler.»

Nem sempre a lápis (131)

Quando somos jovens, temos uma especial apetência para confundir maturidade com cinismo; saudável incontinência da guelra. Na verdade, passei a falar menos e a sorrir mais, a ouvir e a ler outro tanto; de barbatana cruzada. Sabe-me bem dar uns mergulhos na torrente de escrita a que nunca teria acesso a um ínfimo salpico, sem a Net. Por outro lado, começo a desconfiar se somos um país de poetas ou de meros fingidores, entre tantos e tantas línguas; apátridas na Rede. Revejo-me nesse caudal e lembro a ansiedade da escrita; à toa, tanto melhor. Se fosse, mas felizmente não é possível nem desejável revê-los com a minha idade, gostava de ver a maturidade com que encaravam o cinismo; a opção.

«É bom trabalhar nas Obras» (70)

«# No domingo, a Ana Luisa, a Nena e a Maricarmen vão ao cinema e depois ao toque de recolher na praça. A Maricarmen perguntou-me se eu gostava da Ana Luisa. Como bom cobarde, respondi –: Não, como é possível pensares isso: há raparigas mil vezes mais bonitas.
# Cheguei à praça às seis e meia. Encontrei o Pablo e outros da escola e pus-me a andar às voltas com eles. Pouco depois, apareceu a Ana Luisa com a Maricarmen e a Nena. Convidei-as para comer gelados no Yucatán. Falámos de filmes e de Veracruz. A Ana Luisa quer ir para México. O Durán veio buscar-nos com o carro grande e fomos deixar a Ana Luisa. Quando ela desceu, as minhas irmãs começaram a fazer troça de mim. Às vezes, odeio-as mesmo a sério. O pior foi quando a Maricarmen disse –: Não tenhas ilusões, pequerrucho: a Ana Luisa tem namorado, só que não está cá.
# Depois de muito hesitar, à tarde esperei pela Ana Luisa na paragem do eléctrico. Quando desceu com as amigas, cumprimentei-a e deixei-lhe um papelinho na mão:
Ana Luisa: Estou apaixonado por ti. É urgente falar contigo a sós. Amanhã vou-te cumprimentar como agora. Dá-me a tua resposta da mesma forma. Diz-me quando e onde podemos ver-nos, ou se preferes que não te volte a incomodar.
Depois, pareceu-me que meti a pata na poça na última frase, mas já não há remédio. Não creio que me vá responder. É mais que certo que me vai mandar para o diabo.
# Passei o dia todo muito inquieto. Ao contrário do que esperava, a Ana Luisa respondeu:
Jórge, cumo tás apaixonado por mim, asseito que falemos, vemonos no domingo ó meidia nos acentos de Villa del Mar.
# Durán –: Estás a ver? Não te disse que eram favas contadas. Agora, segue os meus conselhos para não a chateares no domingo.
Maricarmen –: Olha lá, o que é que tu tens? Porque é que andas tão contente?
O pior, é que não tenho estudado nada.»
[José Emilio Pacheco, O princípio do prazer; em tradução para a Colecção Ovelha Negra / Oficina do Livro]

8 de fevereiro de 2011

Breve interlúdio musical

Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

«Não há caridade para quem descobre a amargura e vê o seu fantasma projectado num espelho circular e também quadrado. Uma questão de graça, o perigo de trabalhar sozinho e como nos encontramos perto da loucura. Da loucura iludida.»

Nem sempre a lápis (130)

Quando fui tomar o pequeno-almoço, tive dificuldade em tomar as providências com que adormeci e não fui ao supermercado. Um dos meus netos adoptivos, filho de uma das empregadas, fez questão de saborear o meu colo depois de lhe ter apertado os botões do blazer e ter feito festas à crina. Para a semana, chegam mais duas, com oito e cinco anos, a Isadora, apresentadas pela mãe no telemóvel; é verdade, fixei o nome da eleita, da preferida do avô da esplanada. Passámos a trocar um sorriso cúmplice todas as manhãs, quando o serviço impede que lhe sussurre, Já falta menos um dia. Se fosse possível, marcava uma cruz na parede do restaurante, bem visível, como fazíamos nas casernas, para lhe alegrar o dia e toda a gente ficar a saber os dias que separam a Patrícia do fim do serviço militar; há dois anos que não vê as filhas. O pai, fiquei ao corrente durante a apresentação via álbum de telemóvel, é o Chantilly, empregado na grelha do franguinho em frente e um dos muitos que nos cumprimentamos pela montra; polegar bem esticado, tudo a rolar. Nunca tal me passaria pela cabeça, até ver as fotos e detectar, à vista desarmada, o segundo contributo para explicar a beleza das miúdas. Entretanto, dá-se a feliz coincidência de o meu filho fazer anos e voltar a ser segunda-feira e também estar um dia de sol do caraças, sem necessidade de ir até ao Chiado nem interceptar ninguém n’A Brasileira para explodir de alegria por ser pai. «Oh, pá, é um gajo!», disse a Nico, e eu com a biqueira da bota a impedir que me fechassem as portas nas trombas e não me deixassem ver nascer o meu filho; querias… Calculei que estivesse no emprego e mandei-lhe, pontualmente, uma sms às onze horas da manhã de Carnaxide (Hospital Particular e freguesia de São Sebastião da Pedreira, há trinta e quatro anos); estava. Mãe não manda sms; queixa-se que não é atendida. Deixo o caso à (entediante) consideração dos especialistas em recusarem-se a aceitar as coisas tal como elas são. Não por acaso, já sentado na esplanada, mas lá iremos, ouvi um especialista em medicina alternativa sugerir a uma lastimosa, com ar de quem anda necessitada de atenção, que não há nada melhor do que dar uma martelada no dedo para esquecer a dor no pé; ela coxeava, quando se separaram, amigos como sempre e cumprimentos lá em casa. Já tinha decidido ir ao supermercado e fui interceptado pelo bléque antes de entrar na reserva do Centro Cívico. Surpreendeu-me vê-lo a entrar para um carro – acompanhado de uma dama ao volante que desviou a cara; agradeço-lhe a atenção, pelo enunciado – e a afivelar um sorriso quando me viu, seguido de um promissor, Então, ó cota! Acham-me piada; esquecem-se ou a pedra estimula-lhes a agronometria, que ainda eles andavam à procura dos testículos do pai e já eu fumava. E como me acham piada e eu retribuo, sou bem servido sem interceptar ninguém; sem a ansiedade do empregado da Remax a varejar o corredor da galeria de cima de uma ponta à outra agarrado ao telemóvel, a bater com os nós dos dedos no corrimão de ferro (dará sorte?, será masoquista, na intimidade?), a roer as unhas até ao sabugo, já tive a oportunidade de ver, quando se sentou numa mesa próxima e o ouvi dizer que gosta de trabalhar sob stress. Ao que um gajo chega, expor-se nos pára-brisas e caixas do correio, com o rosto sorridente sob o nome e o contacto bem visível; por favor, não se enganem. E não me enganou, o bléque; verifico duas horas depois de ter queimado um charro na esplanada, a beber um chá (é mais barato e mais lento do que um café), ladeado de donas de casa, com os olhos postos no quotidiano do pátio, onde a única alteração foi a entrada em vigor da Q livros, arrumada a Obras Completas. Interceptada a atitude à Perec, «o que se passa quando não se passa nada», chego-me a casa para anotar isto e fazer um arroz de figos secos com tomate que não me sai da cabeça. Não é um prato vegetariano, kung-fu, mas será um pitéu do Sul, sem ser risotto. Trouxe arroz redondo de Huelva, de paella; sempre atento, o físico exige-me que não ande só a livros.
[Refogar uma cebola média, uma cabeça de alho esmagados, um pimento, uma embalagem de figos secos (não havendo melhores) cortados ao meio, dois ou três tomates; e esqueci-me dos coentros, bolas]

«É bom trabalhar nas Obras» (69)

«Setembro, o mês em que devia ir para os Estados Unidos, começava a ser um ponto longínquo num caminho que era necessário preencher com feitos excitantes. Tinha de lhe acontecer qualquer coisa. E nunca lhe acontecia nada.
Amiúde, convencia-se a si mesmo como era fácil, como era inútil, insistir em convencer-se; e como nos preocupamos demasiado em guardar na mais escura das nossas gavetas interiores, três ou quatro verdades incómodas para não embaciar a recordação e permitirmo-nos crer, um dia, que a nossa falta de juízo comum foi adorável. Uma dessas verdades, com que Ignacio nunca se tinha confrontado, era que, graças ao desaparecimento de Carlos e ao golpe de sorte que tinha permitido tanta condescendência na família, tinha uma vida regalada, em que cada conselho e cada admoestação dos seus pais estava devidamente aferida com um objectivo: não o perder; convencer-se de que o taciturno, embora sossegado, nada respondão, se bem que nada indefeso (era tudo uma questão de convicção), o infantil Ignacio que durante duas dezenas inteiras de anos comeu bolos de chocolate a navegar nas águas seguras do sofá doméstico, um dia pudesse certificar que tinham sido pais da melhor maneira possível, que tinham amado como pais. Ele aproveitava-se.
Tinha começado o curso de arquitectura e tinha-o abandonado no segundo ano, impelido pela vontade de «ser alguém», não se limitar a olhar através do buraco a labareda e o riso, os beijos nos cantos, e a ter um nome num mundo de música, vigílias maratonistas, jovial ajuntamento nos lavabos e promiscuidades artísticas, onde cada indivíduo se pudesse destacar da forma que melhor soubesse: muita lábia, um grande penteado, beleza, desigual estilo de indumentária ou culto da imoralidade nalguma das formas artísticas mais urgentes. Ele, além do mais, tinha um grande obstáculo.
- O teu irmão Carlos, esse é que era…
E depois, deixavam cair os braços.»
[Francisco Casavella, Um anão espanhol suicida-se em Las Vegas; em revisão para a Minotauro;

7 de fevereiro de 2011

6 de fevereiro de 2011

Breve interlúdio musical

... e assim acontece

Porque a Net fornece um novo dia

«... são-me sumamente repelentes as alegrias excursionistas proporcionadas por esse tipo de assembleia nacional (...) antologias, só tendenciosíssimas, apaixonadamente tendenciosas; como seria de organizar algumas se entretretanto não estivéssemos todos a morrer.»

Às vezes, lá calha...

«O passado não reaparece
com as mãos nos bolsos e a expressão
"Então, que me contas?"»

«É bom trabalhar nas Obras» (68)

«Os olhos passavam pelas colunas do jornal, subiam e desciam, outra página.
- Acordei e não sabia onde estava. Na rua, tive de perguntar… Voz de atrasado mental:
- «Onde estou? Que rua é esta? Que bairro?» Imagina tu, em Barcelona. Só me faltava dizer que tinha o disco voador na esquina…
Voz metálica, extra-terrestre:
- «Que planeta ser este?» Foi por isso que me atrasei, não foi por mais nada. Olha! Apareces no jornal! A sério! «O censo de Barcelona é de 1.655.420 habitantes…» É uma brincadeira…
Mais páginas. Leve movimento dos olhos. Olhar em frente. Sorriso. Subtil indicação com o dedo a solicitar atenção, confidencialidade. Ignacio aproximou a cabeça. Carlos diminuiu o estrondo da sua voz e converteu a lixa do seu timbre num rumor eclesiástico.
- A Verónica leva uma bela vida. O travesti… Trabalha aqui, no Bagdad, um número muito fino. A mãe anda sempre por perto, de bar em bar, tem o lábio rachado. Um chulo, há uns anos. E calças aos quadrados.
Uma voz de anciã com trejeitos de marquesa:
- «A minha filha trabalha nas varietésVarietés, diz ela. Vende tabaco…
E um grito de estivador:
- Verónica, acorda!
De repente, o silêncio.
Os olhos de Carlos aproximaram-se do jornal aberto, com paixão e esquecido do mundo, como se fosse beijá-lo. Ignacio observou os movimentos atabalhoados de uma Verónica sobressaltada. Uma hora antes, quando se sentou na esplanada, esteve a olhá-la pelo canto do olho até se confrontar com um inusitado número de calçado e a perturbadora realidade; permitiu que as suas sobrancelhas viajassem até o mais alto da testa e fixou a vista num ponto qualquer do outro lado da avenida, que nesse momento não estivesse a apontar para ele e a rir-se a esfregar a barriga. Foi então que descobriu que o Paralelo era a rua dos últimos sonhos da noite.
- Já está!
Carlos fechou o jornal e atirou-o para cima da mesa.
- Os cegos, nem me viram. Tinha cá uma fezada, e é como vês. Disse-te que tinha de fazer uns recados? Vens comigo? Depois vamos comer a um sítio porreiro. Barato, mas porreiro.»
[Francisco Casavella, Um anão espanhol suicida-se em Las Vegas; em revisão para a Minotauro;

Papiro do dia (31)

«Sobre as virtudes da esperança tem-se escrito muito e parolado muito mais. Tal como sucedeu e continuará a suceder com as utopias, a esperança foi sempre, ao longo dos tempos, uma espécie de paraíso sonhado dos cépticos. E não só dos cépticos. Crentes fervorosos, dos de missa e comunhão, desses que estão convencidos que levam por cima das suas cabeças a mão compassiva de Deus a defendê-los da chuva e do calor, não se esquecem de lhe rogar que cumpra nesta vida ao menos uma pequena parte das bem-aventuranças que prometeu para a outra. Por isso, quem não está satisfeito com o que lhe coube na desigual distribuição dos bens do planeta, sobretudo os materiais, agarra-se à esperança de que o diabo nem sempre estará atrás da porta e de que a riqueza lhe entrará um dia, antes cedo que tarde, pela janela dentro. Quem tudo perdeu, mas teve a sorte de conservar ao menos a triste vida, considera que lhe assiste o humaníssimo direito de esperar que o dia de amanhã não seja tão desgraçado como o está sendo o dia de hoje. Supondo, claro, que haja justiça neste mundo. Ora, se nestes lugares e nestes tempos existisse algo que merecesse semelhante nome, não a miragem do costume com que se iludem os olhos e a mente, mas uma realidade que se pudesse tocar com as mãos, é evidente que não precisaríamos de andar todos os dias com a esperança ao colo, a embalá-la, ou embalados nós ao colo dela. A simples justiça (não a dos tribunais, mas a daquele fundamental respeito que deveria presidir às relações entre humanos) se encarregaria de pôr todas as coisas nos seus justos lugares. Dantes, ao pobre de pedir a quem se tinha acabado de negar a esmola, acrescentava-se hipocritamente que “tivesse paciência”. Pense que, na prática, aconselhar alguém a que tenha esperança não é muito diferente de aconselhá-la a ter paciência. É muito comum ouvir-se dizer da boca de políticos recém-instalados que a impaciência é contra-revolucionária. Talvez seja, talvez, mas eu inclino-me a pensar que, pelo contrário, muitas revoluções se perderam por demasiada paciência. Obviamente, nada tenho de pessoal contra a esperança, mas prefiro a impaciência. Já é tempo de que ela se note no mundo para que alguma coisa aprendam aqueles que preferem que nos alimentemos de esperanças. Ou de utopias.»
[José Saramago, O Caderno; Caminho, Lisboa, Março 2009;

4 de fevereiro de 2011

Breve interlúdio musical

(dedicado a certos tenrinhos que por aqui passam, fiufiu...)

Porque a Net fornece um novo dia

... e uma capa mais bem focada

Às vezes, lá calha...

«A pescada mordia, inclemente, o rabo com a sua boca de serra, o olhar desconfiado dirigido para Ignacio. «Tu vais ser o próximo», profetizava. Duas batatas cozidas e um pimento duvidoso tinham fugido para uma extremidade do prato, sem quererem saber. O conjunto parecia uma ameaça siciliana.»

Nem sempre a lápis (129)

Começo a desconfiar que Paul Auster já é para o caderno azul português o que Bruce Chatwin foi para o moleskine. Instalou-se a barulheira; êxito caucionado pelo mercado norte-americano – ou um bairro de Nova Iorque? – reportado pela imprensa, a que desconhece «um novo dia» (Herberto Helder). Mais baratos, a capacidade (por enquanto) de serem «diferentes» para quem não os conheceu como carteira de gente modesta, escritório shandy fechado com um elástico das meias da minha senhora ou uma rodela de câmara-de-ar cortada à tesoura. Começo a vê-lo relegar os assertivos moleskine para a vulgaridade que lhe era natural, até à Patagónia. Tenho há algum tempo um caderno azul de reserva, não tenho escrito tanto à mão e andado ainda menos a pé; catrapisquei os falsos moleskine oferecidos por uma revista, de banca em banca. Como era facultativo, apenas por um euro, apanhei os que pude sem comprar a revista. Todos de capa preta, declinei as capas vermelho maoísta; não sigo breviários.

«É bom trabalhar nas Obras (67)

«Ignacio decidiu que tinha esperado o suficiente: um minuto mais e casa. Na manhã plúmbea do Paralelo, empregados de escritório, turistas de época baixa e figuras decididamente estrambólicas, o puro gatafunho da indigência, proclamavam sem discrição o mesmo desmaio e a mesma falta de interesse; o travesti da mesa contígua, o seu único companheiro naquela esplanada hostil, cabeceava de tempos a tempos e caíam-lhe no chão, uma e outra vez, os óculos de sol inúteis. Ignacio via-se obrigado a olhar para o outro lado, para não ter de se agachar e demonstrar a sua caridade. Imaginou-se a si mesmo, bastante tempo mais tarde, a contar que uma manhã de Novembro tinha combinado encontrar-se com o seu irmão Carlos (aqui as explicações da praxe), que não via há dezoito anos (mais explicações), e o maldito Senhor Paradeiro Desconhecido fizera questão de não estar presente. Um daqueles episódios sobre o qual os seus filhos viriam a especular quando fizessem uso da razão:
- O tio Carlos, o tio Carlos… O anúncio… Um dia, o papá encontrou-se com ele.
Sussurros emocionados nas sombras do jardim, enquanto os adultos acabavam as bebidas. Ele tinha feito o mesmo com outras histórias e estava a começar a compreender: certas lendas domésticas não passavam de uma fonte de ansiedade, de imprecisões desnecessárias de uma biografia satisfatória.»
[Francisco Casavella, Um anão espanhol suicida-se em Las Vegas; em revisão para a Minotauro;

2 de fevereiro de 2011

Breve interlúdio musical

Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

Verdes estão os campos, com o Sol dourado e tal,
mas não há nada a fazer.
Sou da idade do Mecano, já não apanhei a do Lego; delego.

Nem sempre a lápis (128)

Antes que me esqueça, e nem me dou ao trabalho de procurar a instamatic, saí da Nacional no acesso a Castro da Cola, onde uma noite vi uma javali com os filhotes, uma matrona tipo educadora de infância, enquanto fazia uma mijinha; lá tive de recuar em mínimos. Sem ser o eucalipto, qual é o arbusto, às vezes árvore, que detestas o cheiro? A partir de Ourique, as mimosas (mamouss) estavam todas em flor; a partir da várzea de Messines, do Enxerim, começavam as amendoeiras; não anotei o nome, também não documentei a situação.
Finalmente, uma laranja e uma lareira para queimar as cascas; não se julgue que é obra de pouca monta.

Papiro do dia (30)

«Hemingway: Costuma ir às corridas?
Entrevistador: Sim, de vez em quando.
Hemingway: Então lê o programa das corridas…
Aí tem a verdadeira arte da ficção.»