23 de março de 2011

Meditação na confraria

Belinha apaga o cigarro para ir moer Pedro Burmester
afoguemos as maldições do Alvor desfiadas pelo Miguel Calapez
a gerente da concorrência encontrava-se a meditar ao relente, déb...
[reportagem: Patrícia Rodrigues]

22 de março de 2011

Breve interlúdio musical

é tudo a brincar

Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

«É sempre preciso escolher entre o erro e a vida que se confunde com o papel de parede. Partir vem de dentro do inconciliável. É outra coisa.»

Nem sempre a lápis (144)

Fiquei tão esmalmado que não encontro nada susceptível de alegrar a situação; mercado resguardado do Sol à volta da praça, alcofa na mão. No sábado, cheguei tarde e já não havia os brócolos minúsculos do senhor António, condenando-me aos bonsai assustadores das grandes superfícies, expostos a meias com obras de Saramago e oferta de auto-ajuda. Enquanto escolhia batatinha olho-de-perdiz, ainda tive coragem para perguntar à mulher como fazia o arroz de brócolos. Apanhada desprevenida com a intimidade, olhou para o marido, que lhe terá feito sinal para dizer que faz um refogado normal, cebola e alho. Imaginada a cozinha na fazenda, permiti-me sugerir umas rodelas de chouriço, de porco preto cevado com bolota e amêndoa abandonadas nos cerros, e respondeu que sim, mas do nosso. Invejosos de merda; é que tiram logo o apetite a uma pessoa. Ora, Há muitos, muitos anos, era eu uma criança (José Cid), enchido caseiro só feito pela minha mãe e as vizinhas, às corridas; de então para cá, tem sido só salsicharia.

Papiro do dia (44)

«Toda a espécie de caminhos que levam a parte nenhuma irradiam da minha casa. Não foram abertos. Apareceram simplesmente. Quando aqui cheguei usei, é claro, os caminhos dos animais porque não havia mais nada disponível para além dos caminhos que levam a nenhures, mas cedo tive de concluir que o meu modo de pensar não coincidia com o dos outros seres deste lugar. E procurei, e abri caminho e encontrei.
Encontrei, digo. Aterrador.
O bem mais importante, a água, não tive de a procurar. Há em abundância. É visível e audível. Escavo a ondulação do rio com a concha de ovo de avestruz que me foi oferecida. Levo a concha à límpida curva da água que escorre sobre uma pedra áspera, de modo a apanhar a luz e o som. Tiro com a concha repetidamente, e verto o espírito da água tremeluzente e murmurante dentro do pote de argila que me foi oferecido. Depois ergo devagar o pote cheio, com ambas as mãos, por cima da minha cabeça, dobro os joelhos para apanhar a minha concha, e regresso pelo caminho da água até ao baobá.
Encontrei: toda a espécie de alimentos da estepe; e apercebi-me também que ao arrancar, escavar e colhê-los, eu entrava em competição com os animais, que as árvores não cresciam, floresciam e davam frutos para saciar a minha fome, e que os tubérculos e as raízes não cresciam debaixo da terra para mim, que o ébano verde não gotejava o seu néctar em minha honra, que não era para me refrescar que estendia a sua sombra em lugares estratégicos, que não era para me agradar que as orquídeas salpicadas se exibiam, que não era para mim que a árvore violeta levantava as suas tendas de perfume no início do Verão.
Depois dos javalis terem pastado, uma novata vasculha o pedaço de estepe onde os experientes tinham esquadrinhado, ajoelha-se como eles, tenta perfurar o chão duro com um pau, porque lhe faltavam as presas, tenta usar a visão para procurar, porque não era dotada de um faro apurado para as raízes e bolbos comestíveis, e afasta-se, triste, com um punhado apenas. Depois dos babuínos terem pastado, o mesmo procedimento, excepto que se assegura de que eles estão longe, antes de se aventurar no território deles.
Eu tenho mais receio das caretas do babuíno do que das presas do javali e do porco-espinho. Ele é muito parecido comigo. Tenho receio de me reconhecer na sua cara feia. Sou forçada a recordar a minha posição inferior, aqui onde estou, e do meu pouco conhecimento. Sinto-me vexada por os meus desejos e humores se reflectirem na monstruosidade deles, e sinto que o meu refinamento é ridículo, porque esta vulgar criatura de quatro patas prova-me que é supérfluo. Desprezo-os, à sua força, à sua astúcia, o seu auto-evidente poder neste mundo. Desprezo os babuínos, sem excepção. Estes comilões de bochechas gordas revoltam-me. A sua horrível cópula pública, o rebaixamento das fêmeas ao implorar, a submissão delas às pesadas mãos dos machos e a rouca repreensão, e os olhos muito juntos como se vê nos animais irracionais, e que penso ser também um sinal de cupidez. Conheço-os demasiado bem para meu gosto. Dentro de uma jaula seria bem capaz de me rir deles. Quanto ao que eles sabem sobre mim, nada revelam naqueles olhares de soslaio. Suponho que para eles não passo de um estorvo. Uma estranha, afastada do seu mundo de actividades.»
[Wilma Stockenström, Viagem ao Baobá; trad. Fernando Luís Sampaio, Assírio & Alvim, col. Outros Lugares, Lisboa 2006]

20 de março de 2011

Breve interlúdio musical

Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

«Não vais dizer "perdi os melhores dias". Aprendeste cedo que tudo é disperso. Belo é estar aqui, sem sufocar, neste abandono em que nada basta e nada falta.»

Nem sempre a lápis (143)

Falávamos de palavras e do som, por baixo; a pontuação latejava no olhar, irreconciliável. Não procures o sorriso onde lavra o brasido. E se julgas que o Sol, de repente, se abre e te recebe, não esqueças a boca e as pronúncias ouvidas.

«É bom trabalhar nas Obras» (80)

«Seja como for, à noite Andrés dizia a Hilda, a minha vocação era escrever e de uma maneira ou de outra estou a cumpri-la. / Ao fim e ao cabo, as traduções, os folhetos e até mesmo os ofícios burocráticos podem estar tão bem escritos como um conto, não achas? / Só por um conceito elitista e arcaico se pode julgar que a chamada “literatura de criação” é a única coisa válida, não te parece? / Além disso, não quero entrar em competição com os escritorzecos mexicanos inchados pela publicidade; romancezecos como os que os pseudo-críticos que padecemos agora tanto elogiam, eu podia fazer dez deles por ano, não é verdade? / Hilda, quando todos os livros que têm êxito no México estiverem feitos em pó, alguém irá ler Fabulaciones e então… /
E agora, por um conto – o primeiro numa década, o único posterior a Fabulaciones – estava pronto para receber o que ganhava durante meses de tardes inteiras em frente da máquina a traduzir o que definia como ilegivros. Ia pagar as dívidas da secretária, comprar coisas que lhe faziam falta, comer em restaurantes, ir de férias com Hilda. Graças a Ricardo, tinha recuperado o seu impulso literário e deixava para trás os pretextos para esconder o seu fracasso essencial a si mesmo:
Não se pode ser escritor no subdesenvolvimento. / Estamos em 1971: o livro morreu: nunca mais ninguém voltará a ler: agora o que me interessa são os mass media. / Bom, quando se trata de escrever tudo serve, não há trabalho perdido: com a minha experiência burocrática, vais ver, vão sair coisas. /
Com o indicador da mão esquerda escreveu “os arrozais flutuam no ar” e prosseguiu sem se deter. Nunca antes o tinha feito com tanta fluidez. Às cinco da manhã, pôs o ponto final a seguir a “entre os dois vulcões”. Leu as suas páginas e sentiu uma plenitude desconhecida. Quando foi dormir, tinha fumado um maço de Viceroy e bebido quatro coca-colas, mas acabava de escrever A FESTA BRAVA.»
[José Emilio Pacheco, O princípio do prazer; em tradução para a colecção Ovelha Negra / Oficina do Livro]

18 de março de 2011

Chega a Primavera

Sendo assim lá vai e repito:

Breve interlúdio musical

Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

Já se ouvem as estevas a estrelar as primeiras flores à beira da estrada; reabertas as áreas de serviço para o olhar.

«É bom trabalhar nas Obras» (79)

«Ricardo tinha visto a sua tarefa interrompida quando um escritor se suicidou vítima de um comentário. Não houve ninguém no meio que o defendesse do escândalo. Em contrapartida, o advogangster veio nos jornais e argumentou: Ninguém se mata por uma notícia de má-fé; o senhor sofria de problemas e doenças suficientes para se recusar a continuar a viver. O suicídio e o ressentimento acumulado fizeram com que a cidade se tornasse irrespirável, para Ricardo. Por não encontrar editor para o que ia ser a sua tese, teve de se humilhar e imprimi-la à sua conta. O grande esforço para rever o romance mexicano só encontrou um eco: Ruben Salazar Mallén, um dos mais antigos críticos, lamentou como finalmente reagiria a aplicação dogmática das teorias de Georg Lucáks. O repúdio do seu modelo a tudo o que significasse vanguardismo, fragmentação, alienação, condenava Arbeláez a não entender os livros do momento e destruía as suas pretensões de novidade e de originalidade. Até então, Ricardo tinha sido o juiz e não o julgado. Ficou deprimido, mas teve a nobreza de admitir que Salazar Mallén estava certo nas suas considerações.
Como tantos que prometeram tudo, Ricardo estatelou-se contra o muro do México. Voltou por algum tempo para Havana e depois obteve um lugar como professor de espanhol na Checoslováquia. Estava em Praga quando se deu a invasão soviética de 1968. A última coisa que Hilda e Andrés sabiam era que tinha emigrado para Washington e trabalhava para a OEA. Os anos sessenta passaram num segundo, o mundo mudou, Andrés fez trinta anos em 1966, o México era diferente e outros jovens enchiam os sítios onde, entre 1955 e 1960, eles escreveram, leram, discutiram, aprenderam, publicaram Trinchera, amaram-se, afastaram-se, seguiram o seu caminho ou frustraram-se.»
[José Emilio Pacheco, O princípio do prazer; em tradução para a colecção Ovelha Negra / Oficina do Livro;
phantom staircase]

Papiro do dia (43)

«Mauricio teria gostado de saber porque é que era melhor deixá-los assim, mas não se atreveu a perguntar. “Talvez sim, talvez seja melhor assim”, disse para consigo, querendo dar alguma razão à mulher, confiando nela embora ela não o soubesse, nem precisasse. Por via das dúvidas, Mauricio tirou do saco o único pão que lhe tinha sobrado do almoço, cortou-o em dois pedaços e atirou um pedaço ao cão. O cão recuou uns passos sem deixar de o olhar e voltou a ficar quieto. Era evidente que o cão não queria comida, que estava ali só para o observar. Nem sequer se aproximou para cheirar o pedaço de pão. Limitava-se a olhá-lo, com insistência mas sem curiosidade, um homem sentado à porta de uma loja, nada mais.
Aceitando o desafio, Mauricio susteve-lhe o olhar. Podia ver o movimento do seu corpo a respirar, parecia que lhe custava fazê-lo. O sol destacava as manchas cinzentas sobre o seu corpo cinzento. A língua pendia-lhe de um lado, escura, e o focinho pareceu-lhe demasiado negro. Mauricio, de repente, estremeceu ao pensar que o cão estava prestes a colocar-lhe uma perguntar. Mas o cão continuava quieto, mudo, como se estivesse a avaliar se valia a pena perguntar a esse homem o que tinha de perguntar.»
[Ricardo Romero, Nenhum Lugar; trad. Patrícia Louro, Deriva, Setembro 2010]

17 de março de 2011

Meditação na peixaria

(Vale uma aposta que a menina à minha frente e o menino ao meu lado acabam de se bater com uma lula de Ferragudo - dizem, não lhe vi o BI - com esparguete, depois de um estaladiço chouriço assado repousado em fofas fatias de pão oriundo da Padaria da Dona Conceição - passe a publicidade - localizada no lugar de Odiáxere? Vale ou não? O local onde ocorreu a tragédia que vitimou a lula, não é da minha incumbência revelá-lo. Recomendam-me os cães e certos doutoramentos; exacto)

Ah, e é assim que se abre o caixote

... então pois não é: limpo-lhes o pó
e eles limpam-me o sebo, fiufiu...

16 de março de 2011

Breve interlúdio musical

Porque a Net fornece um novo dia

«Há poesia em tudo – na terra e no mar, nos lagos e nas margens dos rios. Há-a também na cidade – não o neguemos – facto evidente para mim enquanto aqui estou sentado: há poesia nesta mesa, neste papel, neste tinteiro.»

Às vezes, lá calha...

«Aun sabiendo que sólo son sombras insignificantes, experimentamos el sentimiento de que el aire en esos lugares encierra una espesura de silencio, que en esa oscuridad reina una serenidad eternamente inalterable. En definitiva, cuando los occidentales hablan de los “misterios de Oriente”, es muy posible que con ello se refieran a esa calma algo inquietante que genera la sombbra cuando possee esta cualidad.»

Nem sempre a lápis (142)

Ler Tanizaki estimula a minha intransigência ao contacto com a qualidade do papel, à impessoalidade da luz crua. Seria impensável o próprio livro acompanhar-me há mais de dez anos, noutro formato e com outra paginação. Um pouco como a densidade da luz da sala, a pairar no momento em que apago as luzes e o velho candeeiro e eu perdemos a noção do tempo. «O termo “biblioteca” provém do que outrora, como indica o nome, era um lugar para ler.»

Papiro do dia (42)

«O tempo todo que esteve a falar com o homem olhava-o e a seguir voltava-se na direcção que lhe tinha indicado. Não tinha mudado nada na sua amabilidade, embora agora se conseguisse perceber que estava menos interessado em falar com Maurício. Não só as suas palavras lhe chegavam mais distantes, pelo facto de o homem se ter afastado, mas também porque havia entre eles outra forma de distância, algo oblíquo e de alguma forma necessário. Maurício viu-o afastar-se e não se atreveu sequer a agradecer-lhe a informação. Até quanto estava de costas havia algo de irreal naquele homem que sorria. Caminhava devagar, os seus passos eram longos debaixo de um sol alto e duro. Maurício viu as horas. Eram nove e um quarto. O dia tinha começado e ele não sabia para quê.
O miúdo saiu da loja. O saco cheio, o corpo inclinado para equilibrar o peso. Ao atravessar a praça cruzou-se com um charco que parecia não ter visto antes. Parou. Hesitava entre atravessá-lo ou dar-lhe a volta. Olhou o saco e voltou a olhar o charco que mais parecia um lamaçal. Da torneira continuava a sair água aos borbotões. Pegou numa pedra e atirou-a para o meio do charco. No final, decidiu dar-lhe a volta.»
[Ricardo Romero, Nenhum Lugar; trad. Patrícia Louro, Deriva, Setembro 2010;

14 de março de 2011

Breve interlúdio musical

Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

«Para quem comeu haxixe,
Versalhes não é grande o bastante,
e a eternidade dura um átimo.
As cortinas são intérpretes da linguagem dos ventos.»
(Walter Benjamin)

«É bom trabalhar nas Obras» (78)

«A preferência fez estragos no grupo. A partir de então, Hilda reparou em Andrés. Entre os de Trinchera, ele era o único que sabia escutá-la e apreciar os seus poemas. No entanto, não tinham sido íntimos porque Hilda estava sempre ao lado de Ricardo. A sua relação nunca ficou esclarecida. Às vezes, parecia a discípula intocável e admiradora de quem lhes indicava o que ler, que opinião ter, como escrever, quem admirar ou detestar. Por vezes, apesar da diferença de idades, Ricardo tratava-a como uma namorada da altura e, de quando em quando, tudo indicava que tinham uma relação muito mais íntima.
Arbeláez passou umas semanas em Cuba para fazer um livro, que não chegou a escrever, sobre os primeiros meses da revolução. Insinuou que tinha sido apresentado a Ernesto Guevara e a Fidel Castro e como agradecimento, ambos o convidavam para festejar o triunfo. Esta mentira, pensou Andrés, comprovava que Arbeláez era um mitómano. Durante a sua ausência, Hilda e Quintana viram-se todos os dias e a toda a hora. Convencidos de que não conseguiriam separar-se, decidiram falar com Ricardo quando voltasse de Cuba.
Na mesma tarde da conversa no café Palermo, no dia 28 de Março de 1959, as forças armadas desmantelaram a greve ferroviária e detiveram o seu líder, Demetrio Vallejo. Arbeláez não colocou obstáculos à união dos seus amigos, mas afastou-se deles e não voltou a Filosofia nem a Letras. Os amores de Hilda e Andrés marcaram o fim do grupo e a morte de Trinchera.
Em Fevereiro de 1960, Hilda ficou grávida. Andrés não hesitou um instante em casar-se com ela. A mãe (que o marido tinha abandonado com duas filhas pequenas) aceitou o casamento como um mal menor. Os senhores Quintana consideraram-no um equívoco: à beira de fazer vinte e cinco anos, Andrés deixava os estudos quando já só lhe faltava apresentar a tese e não iria conseguir sobreviver como escritor. Ambos eram católicos e membros do Movimento Familiar Cristão. Estremeciam só de pensar num aborto, numa mãe solteira, num filho sem pai. Resignados, presentearam os novos esposos com algum dinheiro e uma casinha pseudo-colonial das que o arquitecto tinha construído em Coyoacán, com materiais das demolições na antiga cidade.
Andrés, que ainda continuava a trabalhar todas as noites nos seus contos e se recusava a publicar um livro, nunca escreveu notícias nem resenhas. Já que não podia dedicar-se ao jornalismo, enquanto tentava abrir caminho como guionista de cinema teve de redigir as memórias de um general revolucionário. Nenhum script satisfez os produtores. Pelo seu lado, Arbeláez começou a colaborar todas as semanas em Mexico en la Cultura. Durante um tempo, as suas críticas ferozes foram muito comentadas.
Hilda perdeu a criança ao sexto mês de gravidez. Ficou incapacitada para conceber, abandonou a Universidade e nunca mais voltou a fazer poemas. O general morreu quando Andrés ia a meio do segundo volume. Os herdeiros cancelaram o projecto. Em 1961, Hilda e Andrés mudaram-se para um sombrio apartamento interior da colónia Roma. O aluguer da sua casa em Coyoacán era tanto como o que Andrés ganhava a traduzir livros para uma empresa que fomentava o pan-americanismo, a Aliança para o Progresso e a imagem de John Fiztgerald Kennedy. No Suplemento de referência naqueles anos, Arbeláez (sem mencionar Andrés) denunciou a casa editorial como tentáculo da CIA. Quando a inflação lhe pulverizou o orçamento, as amizades familiares obtiveram o lugar de revisor na Secretaria de Obras Públicas para Andrés. Hilda ficou empregue, como a irmã, na boutique de Madame Marnat, na Zona Rosa.»
[José Emilio Pacheco, O princípio do prazer; em tradução para a colecção Ovelha Negra / Oficina do Livro;

Papiro do dia (41)

«Perto ou longe só crescia o vento, o resto parecia limitado a uma resignação vazia e imensa. Maurício, ao observar tudo isto, sentiu a vã necessidade de dizer-se o seu nome em voz baixa, de o recordar.
Maurício abriu a boca para dizer alguma coisa, mas não soube que responder à distraída irreverência do condutor. Acabou por morder o lábio inferior, arrependido logo por ter falado, como se ao fazê-lo tivesse quebrado um pacto óbvio e necessário entre os dois homens que sulcam a noite na surda profundidade do deserto, como se o deserto fosse o caminho certo que os libertava de qualquer desvio do qual, suspeitava, não havia regresso, por não haver a onde regressar.
Depois disso, não se atreveu a dirigir-lhe a palavra, e limitou-se apenas a insistir uns minutos mais com o olhar no espelho retrovisor. Contudo, o taxista não voltou a procurá-lo. Imutável, olhava em frente, para a estrada interminável. Finalmente, Maurício desistiu e ocupou-se a observar o céu rígido e abundante através da janela. Não queria pensar em nada. As distâncias absorviam-no, como se o facto de tudo estar ou parecer distante o situasse num desterro intransitável entre ele e os seus pensamentos. Sem esforço foi-se deixando estar, inclinado sobre a janela, a olhar as fugidias figuras dos arbustos e das pedras e a sentir o frio da noite na testa apoiada no vidro.»
[Ricardo Romero, Nenhum Lugar; trad. Patrícia Louro, Deriva, Setembro 2010]

12 de março de 2011

Breve interlúdio musical

Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

Confiei que o frio da tarde e véspera de Carnaval tivessem libertado a esplanada de militares. Às vezes, sofre-se, impõem um tom de messe de oficiais. E estava certo, posso deixar arrefecer o chá da mudança de atitude: jovens mães puxadas pelos filhos, sem que se distinga a máscara de quem, enfiado o boné que nunca aqui usei. Já passei dez anos sem escrever. Sejamos francos; o que é que José Emilio Pacheco me quer contar em O princípio do prazer?

«É bom trabalhar nas Obras» (77)

«Havia anos que não trabalhava de noite, com o pretexto de que o barulho da máquina incomodava os vizinhos. Na realidade, estava ocupado, sem fazer nada mais do que traduções e prosas burocráticas. Andrés descobriu a sua vocação de contista quando era criança. Quando era adolescente, a sua biblioteca estava formada sobretudo por colecções de contos. Ao contrário da dispersão dos seus amigos, ele quase que se orgulhava por não ler poemas, romances, ensaios, dramas, filosofia, história, livros políticos e, pelo contrário, frequentar os contos dos grandes narradores vivos e mortos.
Durante alguns anos, Andrés frequentou o curso de arquitectura, obrigado a seguir a profissão do pai como filho único. À tarde, assistia como ouvinte aos cursos de Filosofia e Letras que pudessem ser úteis para a sua formação como escritor. Na Cidade Universitária recém inaugurada, Andrés conheceu o grupo da revista Trinchera, impressa em papel sobrado de um jornal de cor vermelha, e o seu director Ricardo Arbeláez que, sem o dizer, actuava como professor desses jovens.
Passados trinta e vários anos depois de se ter formado em Direito, Arbeláez queria fazer o doutoramento em literatura e converter-se no grande crítico que ia estabelecer uma nova ordem nas letras mexicanas. Na Faculdade e no Café de las Américas, falava sem cessar dos seus projectos: uma nova história literária a partir da estética marxista e de um grande romance capaz de representar para o México daqueles anos, o que Em busca do tempo perdido significou para a França. Ele insinuava que havia rompido com a sua família aristocrática, uma mentira que bradava aos céus, e portanto escreveria o seu livro com verdadeiro conhecimento de causa. Até então, a sua obra limitava-se a resenhas sempre adversas e a textos contra o PRI e o governo de Ruiz Cortines.
Ricardo era um mistério, mesmo para os seus amigos mais próximos. Murmurava-se que tinha mulher e filhos e, contrariando as suas ideias, de manhã trabalhava no escritório de um advogangster, defensor dos indefensáveis e famoso pelos seus escândalos. Nunca ninguém o visitou nem no escritório nem em casa. A vida pública de Arbeález começava às quatro da tarde na Cidade Universitária e terminava às dez da noite no Café de las Américas.
Andrés seguiu os ensinamentos do professor e publicou os seus primeiros contos em Trinchera. Sem renunciar à sua atitude crítica, nem à exigência de que os seus discípulos escrevessem a melhor prosa e o melhor verso possíveis, Ricardo considerava Andrés “o contista mais prometedor da nova geração”. No seu balanço literário de 1958, fez o elogio definitivo: “Para narrar, ninguém como Quintana”.
[José Emilio Pacheco, O princípio do prazer; em tradução para a colecção Ovelha Negra / Oficina do Livro;

Papiro do dia (40)


«A investigação policial deu origem a uma descoberta sensacional. Não a do assassino, que não tardou, mas a uma descoberta de outro interesse, profundamente humana. O vendedor de hortaliça tinha sucumbido, ao que parece, sob a pressão fortíssima de um penico em terracota que lhe atirou à cabeça, da janela do seu pardieiro, Radwan Aly, o homem mais pobre do mundo. A profunda humanidade do acontecimento residia no seguinte: o penico com que Radwan Aly tinha atingido o vendedor era o único bem, o único móvel da sua casa, e não hesitou em sacrificá-lo para salvaguardar o sono todo da rua. Perante um tal sentido de sacrifício, até os próprios polícias ficaram confundidos.»
[Albert Cossery, Os Homens Esquecidos de Deus; trad. de Ernesto Sampaio, Antígona, 2002]

11 de março de 2011

10 de março de 2011

Breve interlúdio musical

Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

«Não ser demasiadamente
é a condição primeira
para o desabrochar consciente e pacífico.»
(Rainer Maria Rilke)

«É bom trabalhar nas Obras» (76)

«...vamos ver, diz a guia, apenas uma ínfima parte do que se calcula que os artistas astecas produzira sem instrumentos de metal nem rodas para transportar os grandes blocos de pedra, está aqui quase tudo o que sobreviveu à destruição de México-Tenochtitlan, a grande cidade enterrada debaixo deste mesmo chão que as senhoras e os senhores pisam,
a violência imóvel da escultura asteca provoca no senhor uma reacção que nenhuma obra de arte lhe tinha suscitado, quando menos esperava vê-se diante do ácido monólito em que um escultor sem nome gravou como quem petrifica uma obsessão a imagem implacável de Coatlicue, mãe de todas as divindades, do Sol, da Lua e das estrelas, deusa que cria a vida neste planeta e recebe os mortos no seu corpo,
o senhor fica magnetizado por ela, magnetizado, não há outra palavra, irá suspender os tours a Teotihuacan, Taxco e Xochimilco, para voltar ao Museu às quintas, sextas e sábados, sentar-se em frente de Coatlicue e reconhecer nela algo que o senhor intuiu sempre, capitão,
a sua insistência provoca suspeitas entre os funcionários, para se justificar, para disfarçar esse fascínio aberrante, o senhor compra um bloco e começa a desenhar Coatlicue em todos os seus pormenores,
no domingo irá parecer-lhe absurdo o seu interesse por uma escultura que afinal lhe é alheia, e em vez de voltar ao Museu irá inscrever-se na excursão FESTA BRAVA, os amigos que fez nesta viagem irão perguntar-lhe por que é que não foi com eles a Taxco, a Cuernavaca, às pirâmides e aos jardins flutuantes de Xochimilco, onde se meteu durante estes dias, será que não leu D. H. Lawrence, não sabe que a cidade de México é sinistra e que um perigo mortal espreita em cada esquina?, não, não, nunca saia sozinho, capitão Keller, com estes mexicanos, nunca se sabe,
não se preocupem, sei cuidar de mim, não me viram porque passei os dias todos em Chapultepec a desenhar as melhores peças, e eles, porque é que perde o seu tempo, pode comprar livros, postais, slides, reproduções em miniatura,
quando a conversa termina, na plaza México soa o toque do clarim, ouve-se um pasodoble, os matadores e as suas quadrilhas aparecem na arena, sai o primeiro touro, toureiam-no com a capa, espicaçam, bandarilham e matam, o senhor horroriza-se com o espectáculo, não suporta ver o que fazem ao touro, e diz aos seus compatriotas, mexicanos selvagens, como é possível torturar-se os animais desta maneira, que país, esta maldita FESTA BRAVA explica o seu atraso, a sua miséria, o seu servilismo, a sua agressividade, não têm qualquer futuro, deviam ser todos fuzilados, o senhor levanta-se, abandona a praça, apanha um táxi, volta ao Museu para contemplar a deusa, para continuar a desenhá-la durante o pouco tempo em que a sala ainda estará aberta...»
[José Emilio Pacheco, O princípio do prazer; em tradução para a colecção Ovelha Negra / Oficina do Livro]

Papiro do dia (39)

«No es que tenhamos ninguna prevención a priori contra todo lo que reluce, pero siempre hemos preferido los reflejos profundos, algo velados, al brillo superficial y gélido; es decir, tanto en las piedras naturales como en las materias artificiales, ese brillo ligeramente alterado que evoca irresistiblemente los efectos del tiempo. “Efectos del tiempo”, eso suena bien, pero en realidad es el brillo producido por la suciedad de las manos. Los chinos tienen una palabra para ello, “el lustre de la mano”, los japoneses dicen “el desgaste”: el contacto de las manos durante un largo uso, su frote, aplicado siempre en los mismos lugares, produce con el tiempo una impregnación grasienta; en otras palabras, ese lustre es la suciedad de las manos.
Esto explica que al aforismo que reza: “el refinamiento es frío” se le haya podido añadir “... y algo sucio”. Sea como fuere, es innegable que en el buen gusto del que alardeamos entran elementos de una limpieza algo dudosa y de una higiene discutible. Contrariamente a los occidentales que se esfurzan por eliminar radicalmente todo lo que sea suciedad, los extremo-orientales la conservan valiosamente y tal cual, para convertirla en un ingrediente de lo bello. Es un pretexto, me dirán ustedes, y lo admito, pero no es menos cierto que nos gusten los colores y el lustre de un objecto manchado de grasa, de holín o por efecto de la intemperie, o que parece estarlo, y que vivir en un edificio o entre utensilios que posean esa cualidad, curiosamente nos apacigua el corazón y nos tranquiliza los niervos.»
[Tanizaki, El elogio de la sombra; trad, Julia Escobar, Biblioteca de Ensayo Siruela, 10.ª ed. Outubro de 2000;

8 de março de 2011

Breve interlúdio musical

sugerido por quem, de direito:

Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

«- Sai - diz a casa.
- Para onde? - pergunta a paisagem.»

... voltou assim

«É bom trabalhar nas Obras» (75)

«Esse encontro ficou-me gravado na alma. Se ia ao cinema ou me sentava a ver televisão ou a folhear revistas, encontrava sempre belas mulheres parecidas com a Rosalba. No trabalho, quando me calhava atender uma rapariga que tivesse algum traço dela, tratava-a mal, inventava dificuldades, procurava formas de humilhá-la diante dos outros empregados para sentir: Estou a vingar-me da Rosalba.
O senhor perguntará, padre, o que é que a Rosalba me fez. Nada, o que se chama nada. Isso era o pior e o que me punha mais furiosa. Insisto, padre: foi sempre boa e carinhosa comigo. Mas abafou-me, arruinou-me a vida, só por existir, por ser tão bela, tão inteligente, tão rica, tão tudo.
Eu sei o que é estar no Inferno, padre. No entanto, não há sol que sempre duro e há mais marés do que marinheiros. Aquele encontro em Santa María deve ter sido em 1946. De maneira, que esperei um quarto de século. E finalmente hoje, padre, esta manhã vi-a na esquina de Madero com Palma. Primeiro, ao longe; depois, muito perto. Não pode imaginar, padre: aquele corpo maravilhoso, aquela cara, aquelas pernas, aqueles olhos, aquele cabelo, perderam-se para sempre num tonel de sebo, pregas, sinais, rugas, papadas, varizes, brancas, maquilhagem, pó-de-arroz, rímel, dentes falsos, pestanas postiças, lentes de fundo de garrafa.
Apressei-me a beijá-la e a abraçá-la. Tinha acabado o que nos separou. O antes, deixou de ter importância. Nunca mais seríamos, uma a feia e a outra, a bonita. Agora a Rosalba e eu somos iguais. Agora a velhice tornou-nos iguais.»
[José Emilio Pacheco, O princípio do prazer; em tradução para a colecção Ovelha Negra / Oficina do Livro;

Papiro do dia (38)

«Dicen que el papel es un invento de los chinos; sin embargo, lo único que nos inspira el papel de Occidente es la impresión de estar ante un material estrictamente utilitario, mientras que sólo hay que ver la textura de un papel de China o de Japón para sentir un calorcillo que nos reconforta el corazón. A igual blancura, la de un papel de Occidente difiere por naturaleza de la un hosho* o un papel blanco de China. Los rayos luminosos parecen rebotar en la superficie del papel occidental, mientras que la del hosho o del papel de China, similar a la aterciopelada superficie de la primera nieve, los absorbe blandamente. Además, nuestros papeles, agradables al tacto, se pliegan y arrugan sin ruido. Su contacto es suave y ligeramente húmedo como el de la hoja de un árbol.
* Papel japonês de alta qualidade, grosso e completamente branco, reservado para as ordens imperiais.»
[Tanizaki, El elogio de la sombra; trad. Julia Escobar, Biblioteca de Ensayo Siruela, 10.ª ed. Outubro de 2000]

6 de março de 2011

Breve interlúdio musical

lá vou eu passear as jeans, fiufiu...

Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

«En Occidente, el más poderoso aliado de la belleza fue siempre la luz; en la estética tradicional japonesa lo esencial está en captar el enigma de la sombra. Lo bello no es una sustancia en sí sino un juego de claroscuros producido por la yuxtaposición de las diferentes sustancias que va formando el juego sutil de las modulaciones de la sombra. Lo mismo que una piedra fosforescente en la oscuridad pierde toda su fascinante sensación de joya preciosa si fuera expuesta a plena luz, la belleza pierde toda su existencia si se suprimen los efectos de la sombra.»

Nem sempre a lápis (141)

Adormeci a ouvir-te dizer,
«Encheste-me a casa de palavras.»
Vim até à minha,
lidar com elas.

Papiro do dia (37)

4 de março de 2011

Breve interlúdio musical

Porque a Net fornece um novo dia

[play it again, Enrique]

Às vezes, lá calha...

«Albert não mantivera a biblioteca do pai numas prateleiras e a sua noutras; pelo contrário, juntara autores, refizera a ordem, arrumara, enfim, os livros pelas letras do alfabeto num movimento rudimentar que revelava o seu fraco carácter – misturara a força com o alfabeto.»

Nem sempre a lápis (140)

Apanho-me a olhar para o monitor com ar aburrado, e não ensimesmado, palavra que não uso; só em serviço, a trabalhar, horas e horas seguidas dão nisto. Mas sempre com o título de Bruce Chatwin, O Que Faço Eu Aqui, como nota de rodapé a lastrar a ausência. É impressionante o caudal de frases, períodos, reflexões, que me ocorrem e encheriam páginas e páginas de texto avulso e indecifrável. O que aqui anoto é uma caricatura do que não comporto; uma finta à loucura, com rima pobre, encalacrada.

«É bom trabalhar nas Obras» (74)

«Padre, as coisas que não terá ouvido no confessionário e aqui na sacristia… O senhor é jovem, é homem. Vai-lhe ser difícil entender-me. Não sabe quanto lamento roubar-lhe tempo com os meus problemas, mas em quem, se não no senhor, posso confiar? Na verdade, não sei como começar. É pecado alegrarmo-nos com o mal alheio. Todos o cometemos, não é verdade? O senhor repare quando há um acidente, um crime, um incêndio. Que alegria que os outros sentem porque não lhes ter calhado pelo menos uma, entre tantas desgraças deste mundo.
O senhor não é de cá, padre, não conheceu México quando era uma cidade pequena, preciosa, muito confortável, não a monstruosidade que sofremos agora, em 1971. Então, nascíamos e morríamos no mesmo sítio, sem nunca nos mudarmos de bairro. Éramos de São Rafael, de Santa Maria, da colónia Roma. Nada voltará a ser igual… Desculpe, estou a divagar. Não tenho ninguém com quem falar e quando me solto… Ai, padre, que vergonha, se soubesse, jamais me teria atrevido a contar isto a alguém, nem ao senhor. Mas já que aqui estou. Depois, vou sentir-me mais aliviada.
Olhe, a Rosalba e eu nascemos em prédios da mesma rua, apenas com três meses de diferença. As nossas mães eram muito amigas. Levavam-nos as duas à Alameda e a Chapultepec. Ensinaram-nos a falar e a caminhar às duas. Desde que entrámos na escola da pré-primária a Rosalba foi a mais bonita, a mais graciosa, a mais inteligente. Toda a gente engraçava com ela, era delicada com todos. Na primária e na secundária, a mesma coisa: a melhor aluna, a porta-bandeira nas cerimónias, dançava, actuava ou recitava nos festivais. "Estudar, não me dá trabalho nenhum", dizia. "Basta-me ouvir qualquer coisa para ficar a sabê-la de cor."
Ai, padre, porque é que as coisas estão tão mal distribuídas? Porque é que o bom calhou à Rosalba e o mau a mim? Feia, gorda, bruta, antipática, grosseira, desordeira, com mau feitio. Enfim… Já deve imaginar o que nos aconteceu ao chegarmos ao liceu, quando poucas mulheres alcançavam esses níveis. Queriam todos namorar com a Rosalba. A mim, que me comessem os cães: ninguém ia reparar na amiga feia da rapariga bonita.»
[José Emilio Pacheco, O princípio do prazer; em tradução para a colecção Ovelha Negra / Oficina do Livro]

3 de março de 2011

A isto é que se chama, "ao pintar da amora"...

com premonitoras pinceladas de tinta-da-china

2 de março de 2011

Breve interlúdio musical

Porque a Net fornece um novo dia

«..."there are too many monks in the world
who think are artists".

Às vezes, lá calha...

Já cortei lenha, com serra e machado, mas ainda não fui à do Abel, ao Pára Aqui, descansar as costas e comer uma bifana com um semol de laranja. Enfim, conviver com o trânsito da 125 e os seus protagonistas, de minezita e calce de medronho na mão; os filólogos da valeta.
[acuse-se o autor e pago uma rodada]

Nem sempre a lápis (139)

Acontece a todos, e também ós melhores e ós maiores – onde, naturalmente, não me incluo –, sermos literalmente lidos por um livro e voltarmos ao princípio, sem darmos pela dimensão; A Casa de Papel e O Segredo de Joe Gould, sessenta páginas separam estes exemplos imediatos. Outros há, que depois de nos filarem durante um número esquecido de horas de leitura, seguros de nos terem reféns exigem pausas reflexivas para Aprender a rezar na Era da Técnica. O que distingue estes exemplos, em nada antagónicos nem poluídos pelo item qualitativo arruaceiro, é a forte personalidade da escrita; uma, já está a limpar os lábios quando pegamos na primeira linha e a outra, desossa-nos com luxúria de gastrónomo. Ora, se eu armo um escarcéu com Vila-Matas, Cormac, Sebald, Berger, Piglia, Walser, Toscana, porque carga de água (tromba, tsunami) não hei-de gritar aos sete ventos que ando delirante com Gonçalo M. Tavares e as entrevistas a que vou tendo acesso? Por não ser um autor importado; por ser da casa e ter o atrevimento de escrever como escreve em língua portuguesa? Não é por cobardia, mas, tendo em conta a herpes da destinatária, ninguém melhor do que o César Monteiro para fazer minhas as suas previdentes palavras: «Eu quero que as más-línguas se fodam.»

Papiro do dia (36)

«Cuando el 11 de septiembre vi las tomas por televisión, me recordaron instantáneamente el 6 de agosto de 1945. En Europa escuchamos las noticias del bombardeo de Hiroshima durante la tarde de aquel mismo día.
Las correspondencias inmediatas entre estos dos sucesos involucran una bola de fuego que desciende del cielo claro sin aviso alguno; ambos ataques fueron programados para coincidir con el momento en que los civiles de la ciudad objetivo se dirigían a su trabajo, las tiendas estaban abriendo y los niños en la escuela trabajaban sus lecciones. Es semejante la reducción a cenizas, y que los cuerpos, lanzados por el aire, se volvieran escombro. Son comparables la incredulidad y el caos provocados por una nueva arma de destrucción que se emplea por vez primera: la bomba atómica, hace sesenta años, y una aeronave civil el otoño pasado. En todas partes del epicentro, en cada cuerpo e objeto, un grueso manto de polvo.
Las diferencias en contexto y escala son, por supuesto, enormes. En Manhattan el polvo no era radiactivo.
Las bombas arrojadas sobre Hiroshima y Nagasaki anunciaron que Estados Unidos era, de ahí en delante, la suprema potencia armada del mundo. El ataque del 11 de setiembre anunció que esta potencia ya no tenía garantizada la invulnerabilidad en su propia casa. Ambos eventos marcan el principio y el fin de un cierto período histórico.»
[John Berger, Con la esperanza entre los dientes; trad. Ramón Vera Herrera, Alfaguara 2010;

1 de março de 2011

O último leitor

CORRENTES D’ ESCRITAS EM LISBOA
Instituto Cervantes, às 18h30
10ª MESA: Para lá deste lugar, ninguém diz as palavras
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