3 de setembro de 2012

Papiro do dia (255)

«Sempre imaginei que a história da minha vida, se e quando a escrevesse, teria uma primeira frase grandiosa: uma coisa lírica como “Lolita, luz da minha vida, fogo da minha virilidade”, de Nabokov; ou, caso eu não tivesse queda para o lírico, então uma coisa epopeica como “Todas as famílias felizes são iguais, mas as famílias infelizes são-no cada uma à sua maneira”, de Tolstoi. São palavras que as pessoas não esquecem, mesmo que já não se lembrem do resto dos livros. No que diz respeito a primeiras frases, porém, a melhor, na minha opinião, é sem dúvida a que inicia O Bom Soldado de Ford Madox Ford: “Esta é a história mais triste que alguma vez ouvi.” Já a li dezenas de vezes e continua a deixar-me de rastos. Ford Madox Ford era dos Grandes.
Toda a minha vida foi uma luta para conseguir escrever, mas aquilo com que lutei mais virilmente – sim é esse o termo, virilmente – foram os inícios. Sempre me pareceu que se eu acertasse com eles, o resto viria automaticamente. Considerava a frase inicial uma espécie de útero semântico recheado de irrequietos embriões de páginas por escrever, pequenas pepitas brilhantes de génio praticamente a pedir para vir ao mundo. Desse fabuloso receptáculo jorraria, por assim dizer, a história. Que ilusão! Passa-se exactamente o contrário. Não que não existam boas primeiras frases. Saboreiem estas, por exemplo: “Quando o telefone tocou às três da manhã, Morris Monk sabia, antes mesmo de pegar no auscultador, que a chamada era de uma senhora e sabia ainda outra coisa: chamadas de senhoras trazem problemas.” (…) Quem não se deixa impressionar por frases como estas? São tão ricas de significado, tão, atrevo-me a dizer, fartas de significado, que quase rebentam de capítulos inteiros por escrever – por escrever, mas já presentes, já ali!
Infelizmente, afinal não passavam de bolhas, ilusões, todas elas. Cada uma dessas frases maravilhosas, que tanto prometiam, era como um lindo embrulho nas mãos ansiosas de uma criança, daqueles embrulhos que contêm apenas cascalho e escória, embora produzam um som tão aliciante quando chocalhados. A criança pensa que vai encontrar guloseimas lá dentro! Eu pensava encontrar literatura. (…) Eu nunca seria capaz de voltar a escrever uma frase tão boa como a minha primeira frase. Basta olhar para mim agora. Vejam como comecei este livro, a minha última obra, a minha grande obra: “Sempre imaginei que a história da minha vida, se e quando…” Francamente, “se e quando”! Estão a ver o problema? Um horror. Esqueçam.»
[Sam Savage, Firmin; trad. Sofia Gomes, Planeta, Janeiro 2009]

1 de setembro de 2012


[agora, sim]

31 de agosto de 2012




29 de agosto de 2012

Notícias do interior

Rafael e Gustavo (Seyboth Santos Silva) Mallmann Fallorca
(22h55 / 22h57, 28 de Agosto de 2012,
2,450 e 2,600 kgs)
[em actualização]

28 de agosto de 2012

Breve interlúdio musical




Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

«Estou satisfeito por o meu velho bloco-notas ter desaparecido. Não tenho qualquer desejo de o voltar a ver. Reaparece apenas por vezes como uma espécie de longa nota de rodapé.»
(Saul Bellow)

Nem sempre a lápis (313)

Animais Domésticos
(1970/1980)


Se é certo viajar-se no tempo através da argila, imagine-se a surpresa com que cada um se encontra na olaria.



26. Aconselharam-me o Sul. Disseram: espaços, as aves, a cal. Aprendi depois, também o mar. Devorei o Azul ouriçado de espanto, em cada esquina.
Aconselharam-me o Sul. Disseram-me noutros espaços, que não o das aves, de cal em cal. Talvez eu tenha pensado:
se calhar o mar ouriçado de Azul. Espanto. Voracidade em cada esquina – o Sul,
aconselharam-me: talvez eu tenha pensado demais, em cada azul. Depois:
o mar.


27. A pequena praia limitava-se a um extenso areal ventoso. Num lugar cercado por casas de madeira, as crianças levantavam as cabeças dos avós nos papagaios.


28. Os seus métodos eram outros: as mulheres torciam a roupa, e ele desejava essa pequena humidade –
ser desalojado assim, por um gesto secretamente feminino.
Ou ser cordel, ligar a infância a um papagaio.
Possuir todos os graus da relação.


29. Aqui não se vê nascer o sol, nem pôr-se sobre o mar.
Sentimo-lo passar como uma língua de fogo
doce


30. A minha vontade era possuir-te sobre o mar, vir-me no azul como uma gaivota.


31. Às vezes estou a despir-me e paro a ouvir o vento.
Vocês estão a dormir, e fico nu no meio da sala às escuras, até ouvir só o Vento.
Depois, vou-me deitar.
Dou por isso todas as manhãs.




Uma noite, apenas –
escrevemos sobre a mão uma casa decisiva.
Depois os dedos são uma floresta restituída à árvore.

Papiro do dia (254)

«Para mim, uma inteligente nota de rodapé tem redimido mais de um texto. E eu dou-me conta de como estou agora a usar uma longa nota de rodapé para abrir um assunto sério – mudando num movimento rápido para Paris, para uma suite do Hotel Crillon. Princípios de Junho. Hora do pequeno-almoço. O anfitrião é o meu bom amigo Professor Ravelstein, Abe Ravelstein. A minha mulher e eu, também hóspedes no Crillon, temos um quarto por baixo, no sexto piso. Ela ainda está a dormir. O andar inteiro por baixo do nosso (isto é absolutamente irrelevante, mas de algum modo não consigo deixar de o mencionar) está ocupado neste mesmo momento por Michael Jackson e a sua entourage. Ele actua à noite num qualquer vasto auditório parisiense. Dentro em pouco chegarão os seus fãs franceses e uma multitude de rostos ficará voltada para cima, gritando em uníssono, Mikell Jack-soune. Uma barreira de polícia mantém os fãs à distância. Cá dentro, do sexto piso, quando olhamos para baixo pelas escadas de mármore vemos os guarda-costas de Michael. Um deles está a fazer as palavras cruzadas no Paris Herald
[Saul Bellow, Ravelstein; trad. Rui Zink (a preço silly pelo “DN”)]

27 de agosto de 2012


25 de agosto de 2012

Breve interlúdio musical




Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

«Até então, eu não fizera a menor ideia do que fossem as “belas letras”. Agora, seguia-se Lenau, Schiller, depois Goethe e Shakespeare, e a pálida ideia da literatura transformou-se em mim numa grande divindade.»
(Hermann Hesse)

Nem sempre a lápis (312)

Animais domésticos
(1970/1980)

Este é o espaço destinado a todos os equívocos, com gente assomando – estridentemente – às colunas por onde se esvai a escrita.
Porque a necessidade deixou de ser travessa e assume-se como gazua.




21. A erva não está cortada, mas olhos verdes viram-na rir. Traduzida depressa para as frases mortas das paredes, depois de um cisne passar.
E quando disse mãe, do outro lado respondeu-lhe a Morte, fotografada pelo olhar horrorizado de uma criança.

As pedras também não morrem.

23. É uma mancha verde correndo pelo campo fora, ou saltando como circunferência de pêlo redondo. Exaltação dos dedos na mão dentro da terra – quentes, quase nunca verticais. Húmidos. Acesos no fim da boca, redondos como mancha verde assustada no pêlo da circunferência. Campos altos, natas mordidas pelas manchas dos frutos verticais. Boca convulsionada, terra da circunferência quente.
É uma mancha verde correndo,
correndo das (nas) mãos.

24. Boca de peixe, com os motores da mãe rugindo na areia –. Arde o peito, arde a memória, tragada pela breve humidade das costas, como uma pedra quente sobre cidades europeias.
Como a respiração das pessoas dentro da boca das outras pessoas.
Aquário onde assisto ao fuzilamento dos nomes, com o fascínio de uma janela entreaberta na puberdade.


25. (...) porque uma praia acordou pouco depois de partirmos. Entretanto, era o deserto queimado –
o teu sangue no musgo das mãos que passam. Ave cinzenta das dunas, quando a voz gela nos ombros que se foram embora.
Por onde ardia, uma árvore rendia-se às águas mortas

– Algeciras é no corpo em frente


Papiro do dia (253)

«E aos poucos, quanto mais eu lia, quanto mais maravilhosa e estranha me tocava a visão sobre os telhados, as ruas e o dia a dia, tanto mais frequentemente surgia em mim, hesitante e opressiva, a sensação de que também eu seria, talvez, um vidente; e o mundo que diante de mim se estendia, aguardava que eu elevasse parte dos seus tesouros, os libertasse do véu do acaso e da mediocridade, e que o assim descoberto, pela força da poesia, o viesse arrancar à destruição, eternizando-o.
Timidamente, comecei a fazer alguma poesia e, aos poucos, fui enchendo alguns cadernos com versos, com projectos e pequenos contos. Eles perderam-se, e provavelmente teriam pouco valor, mas proporcionaram-me grande e sincera excitação e um secreto prazer. Só aos poucos a crítica e a autocrítica se seguiram a estes ensaios, e apenas no último ano escolar surgiu a primeira e indispensável grande desilusão. Eu começara a pôr de lado os meus poemas de principiante e a olhar os meus escritos em geral com desconfiança quando, por acaso, me caíram nas mãos alguns volumes de Gottfried Keller, que eu logo li duas e três vezes seguidas. Vi então, numa percepção súbita, quanto os meus sonhos imaturos estavam longe da autêntica, crua e verdadeira arte, queimei os meus poemas e novelas e olhei sóbria e tristemente o mundo, com o doloroso sentimento de ser um miserável.»
[Hermann Hesse, Peter Camenzind; trad. Isabel de Almeida e Sousa (a preço silly pelo “DN”);

24 de agosto de 2012

23 de agosto de 2012