30 de setembro de 2012
29 de setembro de 2012
28 de setembro de 2012
Às vezes, lá calha...
«É para coisas dessas que me estou a ver cada vez mais virado desde que decidi não me afligir muito mais com aquilo que não depende de mim (aprendi em Marco Aurélio e Epicteto.)»
(Ruy Duarte de Carvalho)
Nem sempre a lápis (321)
A mulher pegou num livro, sem curiosidade. Apenas o tempo e as andanças os distinguiam, agora amontoados na estante que ele montara e arrumara; a última, dissera-lhe. Era uma estante escrita da esquerda para a direita, linha a linha, prateleira a prateleira, com notas à margem, empilhadas. Se não houvesse tiras de papel e bilhetes de autocarro e pacotes de açúcar (vazios) a marcar leituras, lidas e relidas, dir-se-ia que os livros nunca tinham sido abertos. Não eram os que o viu ler e anotar, recebidos depois de escritos na língua dele; por ela. A mulher sentou-se a folhear um livro; afigurou-se-lhe que devia lê-los, concluir a morte dele.
Papiro do dia (263)
«A distância entre aquelas sandálias, que ao fim da manhã estariam prontas, novas, de couro cru, rude, e as que o próprio Ketia-Ketia calçava então, moídas pelo tempo e pelos seus andares, eis o que me interpelava. O objecto impregnado pela relação do uso. É à volta disso que há-de residir toda a carga que empresta tamanho valor àquelas peças, de uso quotidiano, imediatamente perecíveis nestas sociedades, quando são introduzidas nos circuitos da arte e o mercado internacional depois preserva e valoriza como tesouros. Uma cabaça para bater o leite, aqui, nova ainda mas aparelhada já para prover à sua função, e até adornada, tem já inscrito nela todo o investimento criativo que compete a uma obra de arte. Mas só o uso útil que se lhe vai extrair há-de conferir-lhe estatuto de coisa com valor plenamente simbólico. E, ainda assim, ninguém irá poupá-la ao uso, seria negá-la a ela e ao seu valor real, até que um dia quebre e o tempo normal a extinga depois. Qualquer coisa assim para relacionar com muita outra matéria e associar às modalidades e à moda do efémero nas artes modernas. Delírios…»
[Ruy Duarte de Carvalho, Os papéis do inglês; Cotovia, 2000;
claro...]27 de setembro de 2012
25 de setembro de 2012
Porque a Net fornece um novo dia
QUINTAS DE LEITURA
27 de Setembro | 22h
Café-teatro do Teatro do Campo Alegre
PEDRO MEXIA // poeta convidado
João Luis Barreto Guimarães // apresentação
Adriana Faria, Rita Loureiro, Teresa Coutinho e Pedro Mexia // leituras
Ana Deus (voz) e Ricardo Caló (piano) // entre leituras
Olga Roriz dá corpo ao solo «Mon Amour» // performance
B Fachada // concerto
Nem sempre a lápis (320)
«A nobreza de uma casa vê-se pela palmeira e pelos cavalos», explicou e acrescentou, com justificado orgulho: «A casa de um lavrador não tem sala». E se dos cavalos não resta outra memória além da dela, octogenária, e se a palmeira sucumbiu à praga que dizimou os brasões das casas do campo, franqueou-me a cadeira de madeira de laranjeira e o olhar para o lume; o fogão caiado na lareira.
Papiro do dia (262)
«Desde que os bois tinham começado a ser abatidos, e a carne a ser cozinhada segundo as regras da sua divisão, da sequência do seu consumo e do acesso estatutário às partes, o chão tremia com as danças que muitos homens adultos e mulheres sobretudo mais-velhas não largavam. Os rapazes das famílias anfitriãs permaneciam, por dever de função, à volta da carne, a dividi-la e a cozê-la, enquanto as mulheres não paravam de trazer água e lenha, hieráticas silhuetas de braços erguidos e passo pesado a fluir e a refluir em filas e a dar corpo e voz às torrentes do crepúsculo.
Aquela era uma noite de junho, era mesmo a noite do solstício de junho, quando o sol inverte a marcha dos seus lugares de nascer e pôr-se, eu via o fogo, os fogos, havia fogos por todo o lado, e não podia deixar de evocar fogos, fogueiras, solstícios por toda a parte do mundo, por todos os hemisférios, evocações que hei-de encontrar em casa, voltando a Luanda, certamente em Eliade e Caillois, sobre o sagrado, sobre festas, orgias, saturnais, e num belo texto qualquer que eu sei que há, da Yourcenar, e outro nos Diálogos com Leuco, de Pavese, de que Jean-Marie Straub extraiu um daqueles límpidos episódios, talhados em pedra branca, do La Nuée et la Resistance…»
[Ruy Duarte de Carvalho, Os papéis do inglês; Cotovia, 2000]
24 de setembro de 2012
23 de setembro de 2012
22 de setembro de 2012
Nem sempre a lápis (319)
Não, não li e também ninguém me contou, mas imagino que assim se passe, enquanto aguardo o verde no semáforo da estrada que estanca a aridez do lameiro, vindo até perder de vista. Quando o vento que traz a chuva parte com ela e os campos se alagam, a memória da lagoa emerge do leito aluviado o tempo necessário para o Sol chocar os ovos das rãs na lama amassada pela lentidão do gado. As cegonhas chegam com as primeiras filas de trânsito e as rãs desovam nas escassas poças do pântano. Depois, são levadas no bico e Lagoa continua a ser uma placa à beira da estrada, com o gado de olhos postos no trânsito; nas idades do semáforo.
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