10 de novembro de 2012

Nem sempre a lápis (334)

água tatuada
(1999)
 
Ultimamente apoio-me muito na parede. Às vezes, põem-me uma capa de sombras pelos ombros, donde assisto ao meu futuro. E é a sorrir na água do teu olhar que te estendo um discurso de tábuas.
Já outros me disseram que não devemos descer à rua com rostos alugados.
 
[fizeram-se aqui] 

Papiro do dia (276)

«Riam as Menganéz. D. Suncha, porém, manteve-se séria.
O facto de ter confundido o seu filho José Luís com um negrito, não lhe casou graça. Instintivamente olhou para Don Alberto, ao mesmo tempo que lhe veio à ideia o pensamento daquele avô de forma tão inoportuna cravado com a sua tenda na árvore genealógica dos Sotomayor.
Entretanto, José Luís Mengánez, repimpado na carruagem, recorria ao passeio com o intuito de procurar na poética transformação da claridade sedosa dos campos, ao entardecer, a voz da sua musa – porque José Luís sentia-se poeta. Melhor dizendo: era poeta. Lançava olhares errantes pelas suaves leivas das colinas adormecidas numa paz doce, de écloga, à luz espessa e dourada do crepúsculo de Janeiro, deixando a alma deleitar-se com estéticas emoções – ao que chamava, muito orgulhoso da novidade da metáfora, a taça extravagante dos céus.»
[Romulos Gallegos, Antologia do Conto Moderno; trad. José Ferreira Monte, Atlântida, Livraria Editora, Coimbra, 1960]

7 de novembro de 2012

Breve interlúdio musical




Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

«Ao longo de milénios, nós passamos mas a norma fica e não se muda, rosa, rosae.»
(Teolinda Gersão)

Nem sempre a lápis (333)

água tatuada
(1999)
 
O olhar movimenta paisagens adolescentes. O vento é oblíquo. A tarde amadurece numa ladainha de nódoas. Mesmo o lodo não sabe que fazer da água.
É por isso – deve ser por isso – que tudo levita à passagem da tatuagem perplexa.
 
[fizeram-se aqui]

Papiro do dia (275)

«E tudo isso se repetiu durante anos, durante anos ela imitou os gestos aprendidos, as palavras aprendidas, fingiu que falava a mesma língua, mas a tensão crescia, dentro dela, e um dia estalou de repente e as palavras soltaram-se, todas estrangeiras, de súbito ela cortou todas as falsas pontes e ficou como sempre estivera, isolada, dentro de outro contexto, de outro mundo, e havia uma palavra que ela repetia muitas vezes, algo como inas – inastranka, não sei, não me recordo ao certo, uma palavra absurda e louca e perigosa, porque não significava para nós coisa alguma mas tinha certamente sentido noutro código de que não possuíamos a chave, uma palavra inimiga, que estava para além do nosso alcance e nos agredia, nos insultava talvez sem nós sabermos, e outras vezes soava apenas como uma palavra resignada e morta, que não atingia ninguém e não significava coisa alguma, vibrava apenas no silêncio sem mudar nada, sem tocar em nada, uma palavra de vidro, de pedra, solta, isolada, neurótica, arrancada de todas as raízes, uma anémona do mar movendo no vazio os seus muitos braços, os seus cabelos roxos, uma anémona num aquário, por detrás de paredes de vidro.»
[Teolinda Gersão, O silêncio; Sextante, Setembro 2007;
por detrás]

6 de novembro de 2012

«Devia haver uma teoria para o ódio português.»
João de Melo

5 de novembro de 2012

O que há de comum

entre uma papelaria e um Isetta?

4 de novembro de 2012

Breve interlúdio musical




Porque a Net fornece um novo dia




[tem dias]

Às vezes, lá calha...

«O deserto era uma enorme extensão sem tempo, apenas de onde em onde um cacto levantado, uma massa escura, sem ramos nem folhas, sobre a vaga ondulação da areia uniforme.»
(Teolinda Gersão)
[massa] 

Nem sempre a lápis (332)

água tatuada
(1999)
 
Só o gume da água segura este delírio atómico. Mesmo que uma janela cante na pele iluminada, adivinha-se uma matilha de pêlos – sob a tatuagem.
Nem sempre o mar consegue adiar o rosto.
 
[fizeram-se aqui]

Papiro do dia (274)

«Subiu do mar, contornou o cais, voltou descalça por sobre as pedras, sentou-se ao lado, ofegante ainda, escorrendo água, um cardume negro passou, rápido, muito perto da superfície, mil peixes, disse ela seguindo-os com os olhos, cem peixes, disse ele, cem peixes apenas, passou uma das mãos nos seus cabelos molhados, fez deslizar os dedos ao longo do seu rosto – as suas mãos mudando um rosto, uma mulher deitada, debaixo da luz forte das lâmpadas, um novo rosto surgindo, moldado, esculpido com a ponta do bisturi sobre a carne de argila, uma mulher acordando diferente, olhando no espelho a sua imagem, uma mulher água, vento folha, que não sabia da sua própria forma e a procurava através do homem – não quero entrar no teu mundo nem mudar o meu rosto, quero ficar como saí do mar agora, os meus cabelos verdes, os meus olhos conchas, o meu corpo alga, as minhas mãos gaivotas, e se não ma amares assim vai-te embora e deixa-me ficar, absurda e doida e conte de mim, deitada na rocha – sentou-se ao lado e levantou a cabeça para o sol: Eram mil peixes, disse. Contei-os um por um e eram mil.»
[Teolinda Gersão, O silêncio; Sextante, Setembro 2007]

3 de novembro de 2012

Una furtiva cotovelada...

[Faruk, o cão, 20 anos aos pés da Mana, 96 anos; ainda 63; Yanka, não sei; Isilda, 88; Francisco, 90; fotógrafa, 57]

2 de novembro de 2012

 

1 de novembro de 2012

Breve interlúdio musical




Porque a Net fornece um novo dia

RASO COMO O CHÃO
Um espectáculo de Ana Deus e João Sousa Cardoso

A partir de Raso como o Chão de Álvaro Lapa
Com Ana Deus e João Sousa Cardoso | Fotografia João Tuna 
Produção Três Quatro Lente Associação Cultural do Porto
No Teatro da Politécnica de 31 de Outubro a 3 Novembro
(4ªf às 21h00 | 5ªf a Sáb às 19h00)