16 de dezembro de 2012
Às vezes, lá calha...
«Quando Adolfo Marsanich saiu de casa, às 9 da manhã, imediatamente sentiu o peso de todo aquele dia; como de costume, entrou na sua rua de mau humor.»
(Elio Vittorini)
Nem sempre a lápis (340)
água tatuada
(1999)
A tatuagem sufoca a pele e nada me recorda o veneno dos teus odores. Sacudo o pó do coração, o enxofre dos lábios – pétala de gelo, acocorada no teu vulcão.
Assim como te evoco no saldo do desejo, somos cruéis até onde se morde a voz.
Papiro do dia (282)
Sonhava como uma mulher que consumiu toda a sua juventude, toda a sua beleza na província e se lamenta de nunca ter pecado, nunca ter traído o marido, a casa, os filhos, de se ter deixado envelhecer na família, imaginando agora um futuro licencioso e desenfreado, cheio de excessivas orgias. Era preciso, antes de tudo, que o nomeassem comendador. Todos os funcionários do arquivo, de manhã à tarde, o cumprimentariam desse modo: “comendador”, em vez do pouco respeitoso “cavaleiro”. O governador perguntaria por ele aos porteiros com outro tom de voz: “Chama o comendador Mazzone, o comendador Mazzone, percebeste?” E, gritando do fundo dos corredores e do vão da escada, o seu nome seria ouvido por todas as repartições, até pelos da Polícia, e os pálidos ou os gordos colegas aguçariam o ouvido, roídos lá por dentro por um subtil caruncho de inveja.
Momentaneamente, satisfazia-o plenamente a concessão do título de comendador, a sua fantasia quase renunciava a ir mais longe e parava, saboreando longamente a voluptuosidade desta primeira ilusão.
Durante alguns dias gastava nela toda a meia hora de nirvana, mas, com o decorrer do tempo, a própria ilusão se libertava, o seu sonho aumentava e, no espaço de cinco, dez minutos, punha o cérebro num caos para despojar os superiores: o conselheiro de primeira, o inspector, o chefe do gabinete, o vice-governador, até que conseguia sentar-se à mesa de Sua Excelência, àquela enorme mesa de nogueira brilhante e entalhada, onde, de pé, tinha tremido mil vezes no esforço de se exprimir com precisão, de convencer com o olhar, de explicar com precisão, o coração apertado pela angustioso timidez que fomentava nele a presença daquele senhor situado oito degraus acima dele em ordenado e posição.»
[Elio Vittorini, Pequenos Burgueses; trad. Maria Manuela Gonçalves, Os Livros das Três Abelhas, Julho 1962;
buffet froid]
buffet froid]
9 de dezembro de 2012
7 de dezembro de 2012
Nem sempre a lápis (339)
água tatuada
(1999)
Tem por única dor o rosto. Tudo o resto é progressão do medo, duplicidade da voz no deserto da pele. Nunca outra ave me doeu no peito, como o voo adiado ou interrompido sob o sangue.
Eu trabalho para que o teu sexo me amordace, num beijo mortífero e demorado.
Papiro do dia (281)
«A cozinha era escura e húmida; recordo-me de que o avô se lamentava continuamente e repetia a terrível palavra “húmida, húmida” com o mesmo ar de quando achava a sopa salgada. Ora a cozinha só tinha aquele nome por causa da grande chaminé, em volta da qual, nas noites de Inverno, se reuniam homens a beber e a jogar às cartas; de resto, servia de arrumação e armazém e encontrava-se apinhada de caixotes de rum vazios e de garrafas de água de Seltz, e nós, os garotos, estabelecemos aí o nosso quartel-general de acaso, como nos sugeria o nosso amor à guerra. Esquecerei alguma vez aquela grande casa com arcos, que cheirava a estrebaria e a selva e ressoava de cavalgadas, de abordagens, de pequenos gritos de macacos e de papagaios? Com uma pena de galo nos cabelos, o primo Boris e eu declarávamo-nos subitamente inimigos. Emilietta seria a nossa prisioneira. E foi; raptámo-la alternadamente, obrigando-a por vezes a ficar escondida num caixote, durante longas emboscadas imaginárias, aclamando-a rainha do Far-West, rainha do Mato Grosso, que eram os reinos onde Boris atirava o laço e eu esperava atingir com um tiro de Winchester o tigre de bico de águia e cauda de cascavel quando ele passasse.
Mas eu possuía ainda uma felicidade só minha, durante a noite, tremendo de frio no canapé de riscas vermelhas e amarelas, ou quando trepava ao monte de sacos de café para disparar sobre o acampamento de Boris. Excitava-me a proximidade do cinema, apesar de fechado, com os seus cartazes abandonados à entrada; o brilho da máquina de café palpitava dentro de mim como um nó de lágrimas, assim como o vapor angustiante do café brasileiro; depois foi a vez de ver a palavra “cólera”, que o avô agitou, ameaçadora, por cima da sopa, fazer voltar ao meu espírito o terror bíblico dos flagelos que eu conhecera através das histórias do ano anterior sobre o deserto banhado pelo meu pranto das babilónias destruídas.
Na cozinha, durante a noite, ouvia os estrondos do bombardeamento. “O que é um tiro de canhão?”, perguntava a mim mesmo. E parecia-me que devia sair deles um cavalo depois da explosão, um cavalo negro e sem cabeça, como o da minha outra infância de Siracusa, que saía das badaladas da meia-noite e galopava, galopava, na calçada da cidade com um espectro enorme na garupa. E de manhã, ao ir buscar uma tigela de leite, com as mãos nas algibeiras, eu via restos de ferro fumegando no ar silencioso, que me pareciam caçarolas ou frigideiras esquecidas ao lume, de passeio a passeio, depois da orgia de um povo em fuga.»
[Elio Vittorini, Pequenos Burgueses; trad. Maria Manuela Gonçalves, Os Livros das Três Abelhas, Julho 1962]
6 de dezembro de 2012
4 de dezembro de 2012
3 de dezembro de 2012
2 de dezembro de 2012
Às vezes, lá calha...
«Todas as novelas policiais são iguais. Uma por ano, está bem. Mas uma por semana revela falta de imaginação no leitor.»
(Ernesto Sabato)
Nem sempre a lápis (338)
água tatuada
(1999)
[fizeram-se aqui]
(1999)
Morre-se a boca na tez crepuscular, retábulo de ardósia e liquescência. Mesmo que o pavor urbanize o desejo, com seus exércitos de fantasmas e hálitos podres, descubro-me de um belicismo que aterroriza a caça e coabita com as feras.
O Sol é um tigre ferido às portas do sono.
[fizeram-se aqui]
Papiro do dia (280)
[Ernesto Sabato, O Túnel; trad. Francisco Vale, Relógio d’Água, s. d.]
29 de novembro de 2012
28 de novembro de 2012
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