9 de fevereiro de 2013

Às vezes, lá calha...

«Com os braços pendentes, o olhar atónito, o ex-doente escuta-nos. É agora prisioneiro, não em nome do passado mas em nome do futuro.»
(Albert Londres)

Nem sempre a lápis (346)

até Jajouka
(2006)

6(...) o Caramulo foi a minha inconsciente Patagónia. Talvez por isso, o Caramulo tenha sido a mais verdadeira, a mais pura, a minha mais consistente Patagónia. (...) Abordei a serra pelos vários caminhos que fui aprendendo e aventurando-me pelos que me foram sulcando o mapa ainda em branco da imaginação. (...) Durante a subida pela velha estrada que liga Mortágua ao Campo de Besteiros, foi mais a partir daqui que me surpreendeu a ausência das laranjeiras protegidas pela serra e da água a jorrar para as bermas da estrada onde, nalgumas poucas curvas, ainda resistem as velhas guardas de rede que balizam as ribanceiras. A estrada é praticamente a mesma que fazia de mota (...) tirando um ou outro chalé alpino decrépito e algumas corajosas placas de metal e betão que enfrentam o avanço da fosforescente actualidade comunitária, quase não dei pelos sinistros edifícios dos sanatórios – que me ameaçaram a infância como um papão –, nem vislumbrei manadas de vacas na serenidade dos prados, agora decepada pelo silêncio quixotesco das pás eólicas a rodar (...) pareceu-me ver muitos mais cafés às moscas. Passado o cruzamento para o Cabeço da Neve e o Caramulinho, à medida que as luzes que brilhavam lá em baixo se iam tornando cada vez mais próximas e identificáveis, compreendi que já me tinha despedido há muito tempo desse fantasma. Mas não delirava pela serra, quando aos vinte e dois ou vinte e três anos tudo em que então acreditava era «escolher Tânger para se perder» (...)
 

Papiro do dia (288)

«E no meio desta sarabanda alucinante, há com os loucos homens que o não são.
Mal penetramos no antro, correm para junto de nós pensionistas a estender-nos mãos com cartas, a suplicarem que olhemos para eles: “Olhe lá para mim! Por que estou aqui? Não sou louco. É uma infâmia. Vão deixar-me morrer nesta prisão?”
Gritos, gestos vivos não provam que estes emparedados tenham perdido o juízo. O homem que cai no fundo de um poço fará ouvir a sua voz, mal oiça alguém passar perto.
Outros estão calmos:
- Não nego que tive uma anemia cerebral, mas já lá vão três anos. Há mais de dois que não sinto nada, estou tão lúcido como antes estava. Por que me não dão alta?
Se fosse um doente do fígado, dos brônquios, dos intestinos, mal estivesse curado sairia do hospital. É isso que está nos hábitos, por a medicina geral ser mais velha do que a psiquiatria. Daqui a vários séculos a psiquiatria terá bases sólidas. No ano 2100 o curado terá direito a estar curado. Nos nossos dias tem de esperar pela sua hora; como a ciência espera a sua! O louco nasceu cedo de mais.
- Doutor, este homem está mesmo curado?
- É possível que sim. Há meses que o seu estado é normal. Mas não terá uma recaída?
Mais vale um homem ser bandido do que louco. Quando o bandido já cumpriu a pena, abrem-lhe a porta da prisão sem perguntar se vai voltar ao mesmo.»
[Albert Londres, Com os loucos; trad. Aníbal Fernandes, Sistema Solar, Julho 2012]

8 de fevereiro de 2013

Aqui faz solinho; bom fds




Concordo

porque não tentar um individual?

6 de fevereiro de 2013

Breve interlúdio musical


Porque a Net fornece um novo dia

 

Às vezes, lá calha...

«Ele imaginara como seria quando tivesse vinte anos. E ela tinha o rosto branco como uma flor e era tudo o que sabia a seu respeito.»
(Carson McCullers)

Nem sempre a lápis (345)

até Jajouka
(2006)
 
5. «Oh, pá, parecias-me tu, mas estava longe de te saber por cá. Então e que tal?» E, acto contínuo, instala-se a incomodidade de um silêncio devassado pela memória. Sorrimos. Timidamente, infantilmente, sorrimos, incapazes de assumir o que a memória nos devolve como um ferro em brasa, temperado pela forja incandescente do livro sobre a mesa. Até que um, e não necessariamente o mais corajoso, volta a perguntar: «Então e que tal?» Novo silêncio. Agora, ambos sabemos que não há mais nada a dizer – e ambos gostaríamos de falar de tanta coisa, sem recorrer à bengala cansada de estarmos mais velhos – que, o mais provável, é precisarmos de outros vinte e tal anos para nos voltar a ser concedida a alegria com que nos encontramos:
«Então e que tal?»
Às vezes, é quase insultante; é como se se empenhassem em continuar a recusar-me o direito de acompanhá-los, de envelhecer com eles.
Enquanto se afasta, retomo o livro sem mágoa, e John Berger tranquiliza-me: «Encontramos nos braços do outro uma forma de partir juntos, um meio de nos transportarmos para outro lado».

Papiro do dia (287)

«Conhecia as traseiras daquelas casas como o seu próprio quintal, os velhos tanques de lavar, os arcos de barris, as ameixieiras, as latrinas, a carcaça de automóvel sem pneus que estava havia anos atrás de uma das casas. Conhecia o Quarter nos domingos de manhã quando as mulheres penteavam e entrançavam os cabelos das crianças ao sol nos degraus da frente, quando as raparigas crescidas andavam de um lado para o outro nos longos vestidos de seda brilhante, e os homens olhavam e assobiavam baixinho os blues. E depois do jantar também o conhecia. Então a luz das lâmpadas de óleo piscavam no interior das casas e fazia nascer longas sombras cá fora. E havia o cheiro de fumo e peixe e milho assado. E havia sempre alguém a dançar ou a tocar harpa.
Mas havia uma altura em que o Quarter era estranho para ele, e era tarde na noite. Algumas vezes ao regressar tarde a casa depois de uma caçada, ou quando estava simplesmente inquieto, passara na rua àquela hora. As portas estavam todas fechadas ao luar e as casas pareciam ter encolhido e tinham o ar de choupanas vazias há muito tempo. Ao mesmo tempo havia aquele silêncio que nunca se instala num lugar abandonado, e só se faz sentir num lugar onde há muita gente a dormir. Mas enquanto ouvia aquele silêncio absoluto, tomava gradualmente consciência de um som, e era isso que tornava o Quarter um lugar estranho tarde na noite.»
[Carson McCullers, Contos Escolhidos [Fragmento sem título]; trad. Ana Teresa Pereira, Relógio d’Água, Agosto 2012;

5 de fevereiro de 2013

Uns, omitem


2 de fevereiro de 2013

Breve interlúdio musical




Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

Nem sempre a lápis (344)

até Jajouka
(2006)
4. Faz um calor sufocante; ao longo do rio e das margens da barragem da Aguieira vêem-se bandos de famílias espojados na relva. Vistos da ponte lembram uma feira, um arraial de plásticos coloridos, em hilariante contraste com a arrogância metalizada dos veículos acautelados sob o recato dos freixos e chorões. (...) «Já cheira a Algarve…», disse-me a Olga com expressão sonhadora a primeira vez que chegámos a Santana da Serra, a meio de uma tarde de Maio de 1976. Decorridos trinta anos continuo a sentir esse cheiro intacto ao alcance da mão e das minhas narinas surpreendidas; motivo de peso para continuar a usar a Nacional com os vidros da carrinha bem abertos.
(...) Parei o carro para o meu pai cumprimentar um rapaz da sua criação – «Já não te lembras de mim, ó Arelo?», enquanto o outro folheava um álbum com oitenta anos à procura da expressão ou da voz que lhe era familiar, catano! – e vi por entre a voragem do mato o que resta da eira. Gostava de me deitar ali depois de jantar, nas lajes quentes, a ouvir os manguais a malhar pão e tretas cochichadas e interditas às primas, que nos ficavam a ver sentadinhas nos degraus da escada, a uma distância que as tias lá sabiam por que a consideravam suficientemente prudente. Se calhar, roídas de inveja; se calhar, talvez não. Volta e meia viravam a cabeça e via-as com a mão a tapar a boca e a rirem-se a olhar-nos pelo canto do olho, as grandes ranhosas!
(...) encaminho-me para o Café do Casino – esperançado de que o aspecto exterior corresponda ao interior – decidido a comprar um livro e uma lapiseira. Mas quando entro, enquanto o meu sobrinho pedia as bicas a uma empregadita vestida à civil, como uma vulgar cliente, não vi as estantes baixas onde, como se atraído pela inevitabilidade do destino, achei o único exemplar de Apresentação do Rosto (Herberto Helder) entre um amontoado de livralhada para os decadentes veraneantes que, no início dos anos 70, ainda teimavam em ir a águas para o Luso. Nessa altura, eu só tinha lido, emprestado e com prazo de devolução, A Colher na Boca, e marimbei-me para o filme que acho que ia ver (...) deixando-me ficar a ler no café até os empregados, fardados como funcionários do casino, pigarrearem de toalha na mão para me darem a entender que já chegava; podia estragar a vista.
 

Papiro do dia (286)

«Le cuento a Robert que el lunes de Pentecostés, en el estreno de El sueño de Strindberg, estuve sentado justo detrás de Thomas Mann. Me llamaron la atención su larga y puntiaguda nariz y su cabello espeso, que no había encanecido. Robert dice:
- Ésa es la higiene del éxito. ¡Cuántos hay a quienes el fracaso lleva antes de tiempo a la tumba. Thomas Mann lo ha tenido todo desde su juventud: tranquilidad burguesa, seguridad, felicidad familiar, reconocimiento. Ni siquiera la emigración fue capaz de derribarlo. Siguió escribiendo en suelo extranjero como un diligente gestor en su oficina, y por eso las novelas de José, que resultan secas y sudorosas, no son ni con mucho tan bellas como sus asombrosas primeras obras. De algún modo, a las cosas tardías se les nota el aire del despacho, y ése es también el aspecto de quien las compone: el de alguien que siempre ha estado sentado, laborioso, al escritorio y ante los libros de contabilidad. Pero su formalidad burguesa y su esfuerzo, casi científico, por poner cada detalle en el sitio adecuado tienen algo que impone respeto.
Más tarde, mientras pasamos a toda prisa ante un grupo de árboles cargados de fruta, dice:
- Los árboles sí que tienen suerte. Pueden dar fruto todos los años.
[Carl Seelig, Paseos con Robert Walser (e 6 fotos); trad. Carlos Fortea, Siruela, 3.ª ed. Setembro 2009]