19 de fevereiro de 2013

Papiro do dia (290)

«“Selvagem e bárbaro” certamente, escreveu P., mas não indigno. Na época em que Carrère [Joseph-Barthélemy-François] escreveu, os portugueses não eram ainda aquela massa de gente amorfa criada pelo fim trágico das revoluções, em meados do século XIX, esse engano sangrento que amarfanhou todo um povo e lhe quebrou a espinha, dando origem à humilhação e desencanto que foram confirmados depois pelo falhanço da República e pelo regime de medo difuso de Salazar, e finalmente pela ópera bufa do desmanche da revolução do 25 de Abril e da entrega do país à União Europeia.
Cada vez que saía de casa, o horror que era Portugal aparecia-lhe como um pesadelo de que não se consegue emergir, de que ele próprio não conseguiria de facto emergir, e como uma espécie de confirmação do destino. Dizia que vivera os mais destrutivos cinquenta anos do último século e meio da história do país e que, pelo acaso do nascimento, fora forçado a assistir ao desmantelamento do que restava do Portugal antigo e à sua substituição por um país não apenas moralmente corrupto, mas também o mais feio da Europa ocidental.»
[Paulo Varela Gomes, O Verão de 2012; Tinta-da-China, Janeiro 2013]

17 de fevereiro de 2013

Sem se vir

[perdão, sem-se-ver]

16 de fevereiro de 2013

Então, até logo

(em Lagoa, claro)

15 de fevereiro de 2013

Breve interlúdio musical




Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

 
 
«O futuro, sem contornos, tornara-se de repente uma imagem nítida. Isto, que pareceria assustador, era afinal um estímulo à paz, porque até ao fim daquele prazo não aconteceria nada.»
(Paulo Varela Gomes)

Nem sempre a lápis (347)

até Jajouka
(2006)
7. Já estou outra vez no Monte Alto e acordei firmemente determinado a ir a Sevilha ou a dar um pulinho ali a Huelva. (...) Estimulado o alarme comercial, existem biografias para todos os gostos e escolas para todas as alternativas: psicóticas, paranóicas, religiosas, ficcionadas, fotográficas, fac-similes dos famosos papelinhos ilegíveis escritos a lápis, com o seu inevitável esquadrão de especialistas, de intérpretes e descodificadores. Depois, é aguardar que sejam profícuos em contradições e argumentos, para alimentar polémicas e nada esclarecer. Deduzo ser essa, fundamentalmente, a ideia de Robert Walser. Suíço, mas cantão alemão, esclareça-se. (...) Walser só não é achincalhado como poeta-chapéu, porque teve a sorte ou o azar, de não ser português. E já agora, ao reler Reflexões Sobre a Mentira fiquei com a impressão que Alexandre Koyré se antecipou e escreveu-me este período: «Qualquer agrupamento secreto, quer seja doutrinário quer voltado para a acção, uma seita ou uma conspiração – a fronteira entre estes dois tipos de agrupamento é, aliás bastante difícil de traçar, sendo o agrupamento de acção, ou nisso se tornando quase sempre, um agrupamento doutrinário –, é um agrupamento com um segredo, ou segredos

Papiro do dia (289)

«Ao longo daqueles dias, tão cheios de premonição que não tiveram história, tão obcecados com o que vinha que mal se aperceberam do que já era, conseguiu acalmar a terrível angústia da mulher e encarar os amigos com risos e graças acerca do cancro. Todavia, por detrás da resignação, estava não apenas a esperança de que, milagrosamente, todos estivessem enganados, quer dizer, estavam não apenas as mentiras que a vida conta para enganar a morte, mas também uma espécie de satisfação pelo cumprimento da profecia antiga, pela realização do destino, uma satisfação próxima do sentimento suicida das crianças: quando proclamava à sua volta que não tinha importância, que era até um alívio, que se ia embora contente, que sessenta anos eram anos bastantes, que só tinha pena dos próximos, a mulher, os filhos, os pais e irmãs, os cães, estava a reproduzir a ameaça, não inteiramente retórica, antes cheia de perigo e de terror, que a criança ou o jovem adolescente formulam num pedido desesperado de socorro: eu morro e depois vocês vão ver… Disse-me, numa das sessões, que experimentava uma grande ambiguidade de sentimentos quando algum dos seus amigos, ao saberem o que o esperava, começavam a chorar ou ficavam terrivelmente angustiados, tentando animá-lo mas precisando antes que os animassem a eles. A ambiguidade provinha do facto de a piedade e o desgosto confirmarem a sentença de morte. Estes amigos confessavam ao chorar que não podiam fazer nada por ele, e a criança, desprotegida e indefesa, sentia ao mesmo tempo medo e fúria.»
[Paulo Varela Gomes, O Verão de 2012; Tinta-da-China, Janeiro 2013]

13 de fevereiro de 2013

O caminho para casa

 

 
 
[no Panda con el señor erizo]

11 de fevereiro de 2013

Com eles na relva

... e a ternura pelo meio

10 de fevereiro de 2013

Olhem,

9 de fevereiro de 2013

Breve interlúdio musical




Porque a Net fornece um novo dia


Às vezes, lá calha...

«Com os braços pendentes, o olhar atónito, o ex-doente escuta-nos. É agora prisioneiro, não em nome do passado mas em nome do futuro.»
(Albert Londres)

Nem sempre a lápis (346)

até Jajouka
(2006)

6(...) o Caramulo foi a minha inconsciente Patagónia. Talvez por isso, o Caramulo tenha sido a mais verdadeira, a mais pura, a minha mais consistente Patagónia. (...) Abordei a serra pelos vários caminhos que fui aprendendo e aventurando-me pelos que me foram sulcando o mapa ainda em branco da imaginação. (...) Durante a subida pela velha estrada que liga Mortágua ao Campo de Besteiros, foi mais a partir daqui que me surpreendeu a ausência das laranjeiras protegidas pela serra e da água a jorrar para as bermas da estrada onde, nalgumas poucas curvas, ainda resistem as velhas guardas de rede que balizam as ribanceiras. A estrada é praticamente a mesma que fazia de mota (...) tirando um ou outro chalé alpino decrépito e algumas corajosas placas de metal e betão que enfrentam o avanço da fosforescente actualidade comunitária, quase não dei pelos sinistros edifícios dos sanatórios – que me ameaçaram a infância como um papão –, nem vislumbrei manadas de vacas na serenidade dos prados, agora decepada pelo silêncio quixotesco das pás eólicas a rodar (...) pareceu-me ver muitos mais cafés às moscas. Passado o cruzamento para o Cabeço da Neve e o Caramulinho, à medida que as luzes que brilhavam lá em baixo se iam tornando cada vez mais próximas e identificáveis, compreendi que já me tinha despedido há muito tempo desse fantasma. Mas não delirava pela serra, quando aos vinte e dois ou vinte e três anos tudo em que então acreditava era «escolher Tânger para se perder» (...)
 

Papiro do dia (288)

«E no meio desta sarabanda alucinante, há com os loucos homens que o não são.
Mal penetramos no antro, correm para junto de nós pensionistas a estender-nos mãos com cartas, a suplicarem que olhemos para eles: “Olhe lá para mim! Por que estou aqui? Não sou louco. É uma infâmia. Vão deixar-me morrer nesta prisão?”
Gritos, gestos vivos não provam que estes emparedados tenham perdido o juízo. O homem que cai no fundo de um poço fará ouvir a sua voz, mal oiça alguém passar perto.
Outros estão calmos:
- Não nego que tive uma anemia cerebral, mas já lá vão três anos. Há mais de dois que não sinto nada, estou tão lúcido como antes estava. Por que me não dão alta?
Se fosse um doente do fígado, dos brônquios, dos intestinos, mal estivesse curado sairia do hospital. É isso que está nos hábitos, por a medicina geral ser mais velha do que a psiquiatria. Daqui a vários séculos a psiquiatria terá bases sólidas. No ano 2100 o curado terá direito a estar curado. Nos nossos dias tem de esperar pela sua hora; como a ciência espera a sua! O louco nasceu cedo de mais.
- Doutor, este homem está mesmo curado?
- É possível que sim. Há meses que o seu estado é normal. Mas não terá uma recaída?
Mais vale um homem ser bandido do que louco. Quando o bandido já cumpriu a pena, abrem-lhe a porta da prisão sem perguntar se vai voltar ao mesmo.»
[Albert Londres, Com os loucos; trad. Aníbal Fernandes, Sistema Solar, Julho 2012]

8 de fevereiro de 2013

Aqui faz solinho; bom fds




Concordo

porque não tentar um individual?