12 de março de 2013

Papiro do dia (396)

«Compreendia agora que os romancistas nos proponham fantasmas que se lamentam. Os mortos continuam entre os vivos. Custa-lhes mudar de costumes, renunciar ao tabaco, ao prestígio de violadores de mulheres. A manipulação destas ideias provocava-me uma euforia crescente. Acumulei provas que demonstravam que a minha relação com os intrusos era uma relação entre seres de diferentes dimensões. Nesta ilha poderia ter sucedido uma catástrofe imperceptível para os seus mortos (eu e os animais que a habitavam); depois teriam chegado os intrusos.
Estar morto, eu! Como esta ideia me entusiasmava (vaidosamente, literariamente).
Recapitulei a minha vida. A infância, pouco estimulante, com as suas tardes no Passeio do Paraíso; os dias anteriores à minha detenção, como se me fossem estranhos; a minha grande fuga; os meses desde que me encontro na ilha. A morte tinha duas oportunidades para entrar na minha história.»
[Adolfo Bioy Casares, A invenção de Morel; trad. Miguel Serras Pereira e Maria Teresa Sá, Antígona, Janeiro 2003;
pela esquerda]

11 de março de 2013

9 de março de 2013

7 de março de 2013

Breve interlúdio musical




Porque a Net fornece um novo dia

 
 
 
 
 
 

Às vezes, lá calha...

«Se as marés transformaram os seus costumes, a vida nestas terras baixas tornar-se-á ainda mais precária. Mas cá me hei-de arranjar.»
(Adolfo Bioy Casares)

Nem sempre a lápis (353)

até Jajouka
(2006)
 
13. Tivesse eu pachorra para amamentar patologias e o ideal seria escrever este capítulo amanhã – chamemos-lhes capítulos – e corresponder-lhe o número 15. Como nunca tive pachorra para amamentar patologias, para estabelecer ligações entre o que se repele tão naturalmente como a água e o azeite, para pretender ler páginas em branco e detectar sinais, onde nada é tudo o que existe, divirto-me a escrever que tenho o azar deste capítulo ser o número 13 e de começá-lo na véspera de fazer cinquenta e sete anos, dia 15. (...) Qualquer coisa como o já demasiado citado Walser disse ao seu amigo e confidente Carl Seelig, embora noutro contexto: «Quando se vai a caminho dos sessenta, deve saber-se pensar noutra forma de vida.» Nada que os poetas sufís já não soubessem e não afirmassem aos ouvidos incrédulos dos cépticos, dos ambiciosos: «A liberdade é a ausência de escolha.»

Papiro do dia (395)

«Não devo permitir-me esperanças. Escrevo-o, e surge-me uma ideia que é uma esperança. Não creio ter insultado a mulher, mas talvez um desagravo fosse oportuno. Que faz um homem em ocasiões dessas? Manda flores. Trata-se de um projecto ridículo… mas até as banalidades, quando são humildes, podem governar por completo o coração. Na ilha há muitas flores. Quando cá cheguei havia alguns maciços à volta da piscina e do museu. Poderei com certeza fazer um jardinzito no prado que ladeia os rochedos. Talvez a natureza me possa servir para conquistar a intimidade de uma mulher. Talvez me sirva para acabar com o silêncio e as cautelas. Será este o meu último recurso poético. Nunca tentei combinar as cores; não percebo quase nada de pintura… Contudo espero poder fazer um trabalho modesto, denotando gosto pela jardinagem.»
[Adolfo Bioy Casares, A invenção de Morel; trad. Miguel Serras Pereira e Maria Teresa Sá, Antígona, Janeiro 2003]

5 de março de 2013

Breve interlúdio musical




Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

«Não tinha qualquer ideia da hora, sabia apenas que passava da meia-noite e ainda não amanhecera. Pensava que já devia estar no Sul, mas faltavam muitas horas de viagem para chegar a casa.»
(Carson McCullers)

Nem sempre a lápis (352)

até Jajouka
(2006)
 
12. Acabei a tradução. (...) Andamos todos, todos sem excepção, desde que o primeiro homem escreveu a primeira palavra que deu origem à primeira frase escrita, a escrever obsessivamente o mesmo livro. O livro impossível, inalcançável, que se nos escapa e perseguimos com uma delirante e enfadonha sucessão de títulos, até ao abismo do silêncio que a todos nos espera e entendo como a nossa única e possível obra-prima. E, como se esta dissimulada frustração não bastasse, nunca ninguém escreve o texto que pretendia. Por mais que se tente, por mais que se persiga e tente iludir as partidas que nos prega logo de início, não passamos de um mero instrumento que transcreve um outro texto que se impõe e acaba por adquirir uma autonomia a que somos completamente alheios. Esse texto poderá satisfazer-nos (parcialmente) ou não, assiste-nos o direito, a possibilidade e também o bom senso de o eliminar, mas nunca lhe poderemos chamar nosso. Nunca poderemos dizer, sou o autor deste texto.
A literatura (parece-me desnecessário recordá-lo) tresanda, está cheia de cadáveres, de suicidas, de loucos, que tiveram a infelicidade de a levar literalmente à letra, sem que uns e outros, a literatura e as suas vítimas, nada ganhassem ou empobrecessem com isso. Salvo os que caíram nas malhas das poderosas e sempre renováveis, sempre adaptáveis às inventadas necessidades dos sismógrafos do marketing.
Fico-me pelo Herberto: «A cultura fica longe, na demência. É tudo quanto tenho para dizer».

Papiro do dia (394)

«Estivera muito tempo sentado à mesa, com uma garrafa de cerveja ainda meia, numa posição descontraída, as coxas afastadas e o pé direito sobre o tornozelo esquerdo O seu cabelo precisava de ser cortado e as madeixas irregulares caíam suavemente para a testa; a sua expressão ao olhar para a mesa era absorta mas não imóvel, mudava rapidamente com o passar dos pensamentos. O rosto era magro e sugeria inquietação e uma certa perplexidade inocente e pura. No chão ao lado do rapaz havia duas malas e um caixote, cuidadosamente etiquetados, com um cartão onde estava dactilografado o seu nome, Andrew Leander, e um endereço numa das maiores cidades da Geórgia.
Chegara àquele lugar embriagado, em parte pelas goladas de aguardente que um homem no autocarro lhe oferecera, mas sobretudo pela expectativa que se apoderara dele nas últimas horas de viagem. E esse sentimento não era sem motivo. Três anos antes, quando tinha dezassete anos, o jovem saíra de casa num impulso violento, um viajante inexperiente que entrava com medo no desconhecido, certo de nunca voltar ao ponto de parida. E agora, depois de três anos, estava de regresso.
Sentado à mesa daquele restaurante de uma pequena cidade sem nome, Andrew sentia-se mais calmo. Mas enquanto estava sentado com a sua cerveja (de tal forma um estranho, que era como se estivesse magicamente suspenso da própria terra) a memória de todos os de casa passavam dentro dele – com a claridade das bobinas de um filme – por vezes precisa e com padrões bem definidos, e de novo numa desordem caótica.
E havia um pequeno episódio que voltava uma e outra vez à sua mente, embora antes daquela noite não o tivesse recordado durante anos. Era da altura em que ele e a irmã tinham feito um planador no pátio das traseiras, e talvez se lembrasse dele porque as coisas que sentira então se pareciam tanto com a expectativa que esta viagem trazia agora.»
[Carson McCullers, Contos Escolhidos [Fragmento sem título]; trad. Ana Teresa Pereira, Relógio d’Água, Agosto 2012;
serrenho monchiqueiro]

2 de março de 2013

Breve interlúdio musical




Porque a Net fornece um novo dia

 
[é só seguir as instruções]

Às vezes, lá calha...

«O pequeno talento de uma única história… é a coisa mais traiçoeira que Deus pode dar. Trabalhar continuamente, esperando, acreditando, até a juventude desaparecer… vi isso acontecer muitas vezes. Um pequeno talento é a pior maldição de Deus.»
(Carson McCullers)

Nem sempre a lápis (351)

até Jajouka
(2006)
11. Para evitar detestáveis equívocos e pedante destino, esclareço desde já que conheço Marrocos muito mal. (...)  contam-se pelos dedos de uma só mão as vezes que passei uma tarde no Café Hafa, empoleirado nos socalcos abertos na falésia a beber um chá; ou que fui lá apenas para fumar um sebsi sossegadamente. (...) E, para minha surpresa, foi isto que senti há trinta anos, quando fui pela primeira vez à feira do Algoz – o nome já era promissor –, e reencontrei, estupefacto, uma réplica do Petit Socco. Naturalmente regido por outros códigos, insuficientes para embaciarem a nitidez da origem nesse ofuscante contraluz de Setembro. E vi negociar o impensável para a minha condição de beirão; um grupo de lavradores a avaliar silenciosamente e com mão sábia, a maleabilidade, o comprimento, o rectilíneo irrepreensível das varas minuciosamente escolhidas de um molho.
Para varejar a azeitona, a amêndoa, a alfarroba?
Quando lá volto, na ilusão de reencontrar a simplicidade do espectáculo, nunca o exotismo, apanho-me a ponderar esta dúvida, que gosto de conservar como legenda intocável de uma memória em desuso.

Papiro do dia (393)

«Ao fim de alguns momentos Ken começou a perguntar a si mesmo porque estava ali. Não conhecia ninguém na festa além do anfitrião e a pintura do lixo e dos sóis verdes irritava-o. No quarto cheio de estranhos não havia nenhuma voz para o guiar e o xerez era áspero na sua boca seca. Sem se despedir de ninguém, Ken deixou o quarto e desceu as escadas.
Lembrou-se de que não tinha dinheiro e deveria caminhar até casa. Ainda estava a nevar, e o vento assobiava nas esquinas das ruas e a temperatura aproximava-se de zero. Estava a muitos quarteirões de casa quando viu um drug store numa esquina familiar e pensou em café quente. Se pudesse beber um café bem quente, com as mãos à volta da chávena, então o seu cérebro ficaria mais claro e teria forças para se apressar a caminho de casa e enfrentar a mulher e a coisa que ia acontecer quando estivesse em casa. E então algo aconteceu que a princípio pareceu comum, mesmo natural. Um homem com um chapéu Homburg ia a passar por ele na rua deserta e quando estavam muito próximos Ken disse: – Olá, devem estar uns zero graus, não?
O homem hesitou um momento.
– Espere – continuou Ken. – Estou numa situação complicada. Perdi o meu dinheiro, não importa como, e pergunto a mim mesmo se me daria uma moeda para um café.
Depois de as palavras serem ditas, Ken compreendeu de repente que a situação não era comum e ele e o estranho trocaram o olhar de vergonha mútua, desconfiança, entre o pedinte e o indivíduo a quem pede. Ken ficou parado, com as mãos nos bolsos (perdera as luvas nalgum sítio), e o estranho deitou-lhe um último olhar, e depois acelerou o passo.
– Espere – chamou Ken. – Pensa que sou um ladrão… não sou! Sou um escritor… não um criminoso.
O estranho afastou-se rapidamente para o outro lado da rua, a pasta a bater-lhe nos joelhos. Ken chegou a casa depois da meia-noite.»
[Carson McCullers, Contos Escolhidos; trad. Ana Teresa Pereira, Relógio d’Água, Agosto 2012;
oremos]

1 de março de 2013