15 de março de 2013
Às vezes, lá calha...
«Narrando o que me aconteceu, obrigo os meus pensamentos a ordenarem-se. E se tiver de morrer, eles darão conta da atrocidade da minha agonia.»
(Adolfo Bioy Casares)
Nem sempre a lápis (355)
até Jajouka
(2006)
15. Eu detesto a expressão e a mesquinhez subjacente, mas pela força adquirida até acredito que o criminoso acabe por conceder uma vista de olhos ao local do crime. Por outro lado, não me ocorre maneira mais propícia de cumprir a vocação de um lugar-comum para voltar a citar-me a mim mesmo, repescando um texto vagamente esquecido numa disquete. (...)
«É fatal como o destino. (...) Não adianta. Se começo a lembrar-me do jardim-escola, da escola, do colégio, da tropa, dos empregos, estraga-se logo tudo, e o melhor é deixar o cargueiro e a tripulação em paz, desligar o portátil e entreter-me a catar gralhas em Ultramarina.»
Papiro do dia (397)
«No meu cansaço voltei a sentir o precipitar-se da agitação. Tenho de a reprimir. Reprimindo-a acharei maneira de sair.
Narro circunstanciadamente o que me aconteceu: voltei-me e caminhei com os olhos baixos. Ao olhar a parede tive a sensação de me encontrar desorientado. Procurei o buraco que tinha aberto na parede. Não estava lá.
Ao narrar circunstanciadamente esta acção, repeti-a. Espero não repetir o seu final.
Os horrores do dia ficaram escritos no meu diário. Escrevi muito: parece-me inútil procurar inevitáveis analogias com os moribundos que fazem projectos de vastos futuros ou que vêem, no instante de afogar-se, uma minuciosa imagem da sua vida. O momento final deve ser agitado, confuso; estamos sempre tão longe que não podemos imaginar as sombras que vêm perturbá-lo. Agora deixarei de escrever para me dedicar, serenamente, a descobrir a forma de parar estes motores.»
[Adolfo Bioy Casares, A invenção de Morel; trad. Miguel Serras Pereira e Maria Teresa Sá, Antígona, Janeiro 2003;
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13 de março de 2013
12 de março de 2013
Nem sempre a lápis (354)
até Jajouka
(2006)
Papiro do dia (396)
«Compreendia agora que os romancistas nos proponham fantasmas que se lamentam. Os mortos continuam entre os vivos. Custa-lhes mudar de costumes, renunciar ao tabaco, ao prestígio de violadores de mulheres. A manipulação destas ideias provocava-me uma euforia crescente. Acumulei provas que demonstravam que a minha relação com os intrusos era uma relação entre seres de diferentes dimensões. Nesta ilha poderia ter sucedido uma catástrofe imperceptível para os seus mortos (eu e os animais que a habitavam); depois teriam chegado os intrusos.
Estar morto, eu! Como esta ideia me entusiasmava (vaidosamente, literariamente).
Recapitulei a minha vida. A infância, pouco estimulante, com as suas tardes no Passeio do Paraíso; os dias anteriores à minha detenção, como se me fossem estranhos; a minha grande fuga; os meses desde que me encontro na ilha. A morte tinha duas oportunidades para entrar na minha história.»
[Adolfo Bioy Casares, A invenção de Morel; trad. Miguel Serras Pereira e Maria Teresa Sá, Antígona, Janeiro 2003;
pela esquerda]
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11 de março de 2013
9 de março de 2013
7 de março de 2013
Às vezes, lá calha...
«Se as marés transformaram os seus costumes, a vida nestas terras baixas tornar-se-á ainda mais precária. Mas cá me hei-de arranjar.»
(Adolfo Bioy Casares)
Nem sempre a lápis (353)
até Jajouka
(2006)
13. Tivesse eu pachorra para amamentar patologias e o ideal seria escrever este capítulo amanhã – chamemos-lhes capítulos – e corresponder-lhe o número 15. Como nunca tive pachorra para amamentar patologias, para estabelecer ligações entre o que se repele tão naturalmente como a água e o azeite, para pretender ler páginas em branco e detectar sinais, onde nada é tudo o que existe, divirto-me a escrever que tenho o azar deste capítulo ser o número 13 e de começá-lo na véspera de fazer cinquenta e sete anos, dia 15. (...) Qualquer coisa como o já demasiado citado Walser disse ao seu amigo e confidente Carl Seelig, embora noutro contexto: «Quando se vai a caminho dos sessenta, deve saber-se pensar noutra forma de vida.» Nada que os poetas sufís já não soubessem e não afirmassem aos ouvidos incrédulos dos cépticos, dos ambiciosos: «A liberdade é a ausência de escolha.»
Papiro do dia (395)
[Adolfo Bioy Casares, A invenção de Morel; trad. Miguel Serras Pereira e Maria Teresa Sá, Antígona, Janeiro 2003]
5 de março de 2013
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