até Jajouka
(2006)
5. «Oh, pá, parecias-me tu, mas estava longe de te saber por cá. Então e que tal?» E, acto contínuo, instala-se a incomodidade de um silêncio devassado pela memória. Sorrimos. Timidamente, infantilmente, sorrimos, incapazes de assumir o que a memória nos devolve como um ferro em brasa, temperado pela forja incandescente do livro sobre a mesa. Até que um, e não necessariamente o mais corajoso, volta a perguntar: «Então e que tal?» Novo silêncio. Agora, ambos sabemos que não há mais nada a dizer – e ambos gostaríamos de falar de tanta coisa, sem recorrer à bengala cansada de estarmos mais velhos – que, o mais provável, é precisarmos de outros vinte e tal anos para nos voltar a ser concedida a alegria com que nos encontramos:
«Então e que tal?»
Às vezes, é quase insultante; é como se se empenhassem em continuar a recusar-me o direito de acompanhá-los, de envelhecer com eles.
Enquanto se afasta, retomo o livro sem mágoa, e John Berger tranquiliza-me: «Encontramos nos braços do outro uma forma de partir juntos, um meio de nos transportarmos para outro lado».