21 de abril de 2013

Às vezes, lá calha...

«Não que haja muitas ideias, naturalmente, porque você não se atreve a pensar. Faz seja lá o que for para não pensar.»
(Aldous Huxley)

Nem sempre a lápis (361)

até Jajouka
(2006)
21. A ansiedade que antecede a partida só é comparável à do regresso. À medida que preparo as coisas e anseio por ir até Jajouka, não estarei apenas ansioso por regressar ao Monte Alto? (...) Entre as melhores maneiras de regressar, não duvido de que uma delas é, com toda a certeza, a partir de um livro que se descobriu ou relê com emoção; entregarmo-nos à escrita sem que ela pressuponha necessariamente um livro. Ou, precisamente porque o não pressupõe, muito menos ainda a necessidade de outro destinatário.
«A tarde está calma
porque sob esse ângulo – o de enriquecer o esquecimento –, os nomes são iguais.»

Papiro do dia (403)

«Queres decifrar o teu pensamento antigo, mas, para isso, à tua disposição só tens os teus próprios pensamentos. E agora eles estão mais velhos, como que perderam dimensão física: altura, largura, comprimento; perderam ainda elasticidade, agilidade de salto, capacidade para, rastejando, ver o que está em cima e para, saltando, ver o que encontrou já o seu melhor lugar em baixo. De pernas trôpegas, o pensamento tenta perceber porque começou a correr, de onde veio o primeiro impulso, o impulso original, e para onde se dirigia esse movimento. Sem obterem resposta, os teus pensamentos esquecem o julgamento da sua própria biografia e, como prostitutas que há muito perderam vigor e capacidade de atracção, abandonam-se em cadeiras, desleixados. E em vez de escolherem o objecto da sua acção, aceitam ser escolhidos; e hoje, agora, como prostitutas num bordel decadente, os teus pensamentos já se contentam (e como!) quando um velho os escolhe.»
[Gonçalo M. Tavares, Breves notas sobre o medo; Relógio d’Água, Maio 2007;
respire fundo]

20 de abril de 2013

19 de abril de 2013

18 de abril de 2013

Breve interlúdio musical




Porque a Net fornece um novo dia


 

Às vezes, lá calha...

 
 
«Já tivera momentos altos na vida. Uma vez, de noite, andando pelo parque à chuva no Outono. Uma outra, no deserto, sob as estrelas, quando rodei com a Terra em torno do seu eixo.»
(Ursula K. Le Guin)

Nem sempre a lápis (360)

até Jajouka
(2006)
20. A Nico chamou-me para vermos pela enésima vez, a Fallingwater, a célebre casa projectada por Frank Lloyd Wright no final dos anos 30, aceitando o desafio de construi-la não em frente nem ao lado da cascata, como seria previsível, mas em cima dela, complementando-se reciprocamente. Foi casa de fim-de-semana dos Kaufmann, entre 1937 e 1963, abrindo ao público no ano seguinte e recebido mais de dois milhões e setecentos mil visitantes, desde então. Segundo o mesmo site, a Fallingwater é a única casa de Wright que permanece intocável e conserva o mobiliário da época. (...) Enquanto os responsáveis pela dispendiosa conservação e manutenção da Fallingwater, a que não será alheia a abertura ao público, a impedem de uma existência futura destinada à ruína, pondero se não será a dispendiosa remoção da casa de Salgueirais que a continua a preservar de se converter numa ruína, prevalecendo como memória indelével de um passado irremediavelmente arruinado à mercê da predação pública, que fotografei emocionado como se pronunciasse a palavra casa.

Papiro do dia (402)

14 de abril de 2013

O Domingos (e quando calha)

precisava de narta para ir a Lagos;
além do jantar de ontem,
 já vou no 4.º saco e a cagar-me para Hannah Arendt

13 de abril de 2013

12 de abril de 2013

Breve interlúdio musical

Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

«Não há espaço para almas universais,
excepto, talvez, na Antárctida ou nos mares altos.»
(J. M. Coetzee)

Nem sempre a lápis (359)

até Jajouka
(2006)

19. Julgo ter cometido um erro de palmatória, quando pedi para imprimirem estas cinquenta e tal folhas, irreconhecíveis e desmotivadoras, que me observam aqui ao lado. (...) Admito que possa parecer paradoxal, contraditório que, depois de anos a fio a recusar-me a ler ou rever directamente no monitor, exigindo uma rápida e urgente impressão do que tivesse escrito, agora considere um erro de palmatória, insisto, ter imprimido o que tenho vindo a repetir, a citar-me, e pretendo, na medida do possível, que continue privado dada a impossibilidade de permanecer anónimo. (...) E à medida que as pinhas pegam e o carvão começa a crepitar, na estrada, atrás do eucaliptal ao lado ouvem-se passar camiões fúnebres carregados com os derradeiros troncos de pinheiro, a verdadeira mancha verde que caracterizava e era a principal indústria de Mortágua. Desse passado, resta uma estrada – que julgo única e entregue ao livre trânsito das ervas daninhas – com a faixa descendente de paralelepípedos, para que as pesadas rodas dos carros de bois não cortassem o alcatrão quando a desciam para trazer os troncos para as serrações, hoje entregues ao esquecimento e vandalizadas pelo tempo, que optou pelo lucro fácil e duvidoso do eucalipto, fertilizado por um número crescente de incêndios.
Olho para o meu sobrinho neto e – por mais que tente, por mais que me esforce por não lhe estorvar a liberdade de quem está a ser – não consigo deixar de pensar: como será uma geração que perdeu, que não chegou a conhecer a alegria ancestral de talhar barcos à navalha em carcódoas de pinheiro?

Papiro do dia (401)

«Noël veio fazer uma inspecção. Havia só dois prisioneiros na enfermaria: Michaels e o homem em coma. Falámos sobre Michaels, em voz baixa, apesar de ele estar a dormir.
– Ainda o podia salvar se usasse um tubo – disse eu a Noël –, mas não quero forçar ninguém que não tenha desejo de viver. Os regulamentos são bastante claros: proibida a alimentação forçada; proibido o prolongamento forçado da vida; proibida a publicidade à greve de fome.
– Quanto tempo lhe resta de vida? – perguntou Noël.
– Talvez duas ou três semanas – respondi.
– Pelo menos, é um fim tranquilo – observou ele.
– Não – disse eu –, é um fim doloroso e bem desgraçado.
– Não há qualquer injecção que lhe possa ministrar?
– Para acabar com ele?
– Não, não quero dizer isso. Apenas para lhe facilitar o fim.
Eu recusei-me a tal. Não quero assumir essa responsabilidade enquanto houver possibilidade de Michaels mudar de ideias. E a conversa ficou por aí.»
[J. M. Coetzee, A vida e o tempo de Michael K; trad. Ricardo Fernandes, Bibliotex Editor 2003;
mais ou menos assim]