até Jajouka
(2006)
«De uma maneira geral, os livros sabem ao cheiro do café» Sam Savage
«K nunca chegou a descobrir quem esfaqueou o guarda ou se este chegou a recuperar, pois esta foi a sua última noite no acampamento. Meteu os seus haveres no casaco preto, esgueirou-se silenciosamente para o exterior do acampamento e ocultou-se atrás da cisterna, aguardando que fossem todos para a cama e as últimas cinzas se apagassem, até que tudo mergulhou em silêncio, à excepção do vento que soprava sobre a planície. Esperou mais uma hora, tremendo de frio, por não fazer qualquer movimento. Depois, descalçou os sapatos, pendurou-os ao pescoço, deslizou na ponta dos pés até à cerca de arame junto das latrinas, atirou a trouxa para o outro lado, e trepou. Houve um momento em que, ao transpor a barreira, as calças se lhe prenderam no arame farpado, e ele foi um alvo fácil no azul prateado, mas desembaraçou-se e seguiu em bicos de pés num chão surpreendentemente igual ao do acampamento.»
17. Sejamos francos, haverá alguém que resista ao convite para comer um balde de sardinhas assadas no quintal de uma casa empoleirada na falésia da Senhora da Rocha? (...) Apreciei-lhe a perspicácia, que procurei retribuir ouvindo com atenção os comentários ao Portugal / Inglaterra da tarde anterior. Cheguei ao ponto de rebuscar na memória esse jogo visto num café em Mortágua, quando era muito miúdo, e a única coisa que recordo com nitidez – tanta quanto permitia a televisão a preto e branco e o emissor da Lousã –, era que as duas equipas se limitavam praticamente à aura que rodeava dois adversários, Eusébio e Best, e que um dos espectadores volta e meia tirava o chapéu da cabeça e roía-o de raiva.
«Eu podia viver aqui para sempre, ou até morrer, pensou. Nada aconteceria, cada dia seria igual ao dia anterior, nada haveria que dizer. A ansiedade que o assaltava na estrada começava a deixá-lo. Por vezes, enquanto caminhava nem se dava conta se estava acordado ou a dormir. Compreendeu porque é que as pessoas se isolavam aqui e ali, se fechavam em quilómetros e quilómetros de silêncio; compreendeu o seu desejo de assegurarem aos filhos e aos netos, para todo o sempre, o privilégio deste grande silêncio. Pôs-se a pensar se não haveria, entre as vedações, cantos, ângulos, corredores esquecidos que não pertencessem a ninguém. Se fosse capaz de voar, poderia certificar-se.»
16. Transcrito o texto encontrado numa disquete acabei por ceder à tentação – porque disso se tratou, contrariando todas as minhas expectativas – de passar os olhos pelo que ando a escrever há quase um mês e à deriva, correndo o risco de ser interpretado como um diário dos meses que antecedem esta espera de Godot para ir até Jajouka. (...) Não nego que gostava de ver publicados os que considero como os meus dois últimos livros: este e a reorganizada e aumentada A Cicatriz do Ar. Gostava de vê-los tal como os concebo, mas sem me privar do prazer de continuar a escrevê-los às escondidas, como tenho escrito praticamente toda a vida, e volta e meia pegar-lhes para aparar esta ou aquela frase como uma interminável pescada-de-rabo-na-boca; work in progress, se preferirem. (...) E fiel à determinação de deixar que o texto se organize como um puzzle imprevisível, reconheço que gosto de me contradizer. Na verdade, nem se trata de gostar, creio fazer parte de mim mesmo, e horroriza-me a coerência com que algumas personagens ilustram a História – Hitler, Estaline, Mao, Nixon, Fidel, Salazar, Cunhal – e fiquemo-nos por estas para não nos massacrarmos mais. Gosto de me contradizer e, se umas páginas atrás pretendi evitar mais citações, motivado pela enxurrada que transborda da tradução, vou-me contradizer só mais um bocadinho citando, precisamente, Walt Whitman, com o seu conclusivo: «Contradigo-me? Pois bem, contradigo-me».
«Não foi aquilo que esperamos de um concerto. Por um lado, o quarto era tão alto e nu que tornava os sons mais altos, fortes, de tal modo que pareciam ressoar dentro dos nossos ossos (mais tarde, explicou-me que era o sítio ideal para praticar porque assim conseguia aperceber-se da mais pequena falha). Ela fazia caretas e resmungava muito, enquanto tocava e tornava a tocar o mesmo trecho vezes sem conta. Aquela corrida estrepitosa que estava a tocar quando cheguei deve tê-la feito dez ou quinze vezes seguidas, por vezes continuando o trecho, outras vezes voltando atrás, sempre a recomeçar. E de cada vez era ligeiramente diferente. Até que, finalmente, saiu igual duas vezes seguidas. Tinha conseguido. Logo a seguir continuou. E quando tocou todo o movimento, aquele trecho soou igual pela terceira vez. Já estava. Porreiro.
15. Eu detesto a expressão e a mesquinhez subjacente, mas pela força adquirida até acredito que o criminoso acabe por conceder uma vista de olhos ao local do crime. Por outro lado, não me ocorre maneira mais propícia de cumprir a vocação de um lugar-comum para voltar a citar-me a mim mesmo, repescando um texto vagamente esquecido numa disquete. (...)
«No meu cansaço voltei a sentir o precipitar-se da agitação. Tenho de a reprimir. Reprimindo-a acharei maneira de sair.
«Compreendia agora que os romancistas nos proponham fantasmas que se lamentam. Os mortos continuam entre os vivos. Custa-lhes mudar de costumes, renunciar ao tabaco, ao prestígio de violadores de mulheres. A manipulação destas ideias provocava-me uma euforia crescente. Acumulei provas que demonstravam que a minha relação com os intrusos era uma relação entre seres de diferentes dimensões. Nesta ilha poderia ter sucedido uma catástrofe imperceptível para os seus mortos (eu e os animais que a habitavam); depois teriam chegado os intrusos.
12. Acabei a tradução. (...) Andamos todos, todos sem excepção, desde que o primeiro homem escreveu a primeira palavra que deu origem à primeira frase escrita, a escrever obsessivamente o mesmo livro. O livro impossível, inalcançável, que se nos escapa e perseguimos com uma delirante e enfadonha sucessão de títulos, até ao abismo do silêncio que a todos nos espera e entendo como a nossa única e possível obra-prima. E, como se esta dissimulada frustração não bastasse, nunca ninguém escreve o texto que pretendia. Por mais que se tente, por mais que se persiga e tente iludir as partidas que nos prega logo de início, não passamos de um mero instrumento que transcreve um outro texto que se impõe e acaba por adquirir uma autonomia a que somos completamente alheios. Esse texto poderá satisfazer-nos (parcialmente) ou não, assiste-nos o direito, a possibilidade e também o bom senso de o eliminar, mas nunca lhe poderemos chamar nosso. Nunca poderemos dizer, sou o autor deste texto.
«Estivera muito tempo sentado à mesa, com uma garrafa de cerveja ainda meia, numa posição descontraída, as coxas afastadas e o pé direito sobre o tornozelo esquerdo O seu cabelo precisava de ser cortado e as madeixas irregulares caíam suavemente para a testa; a sua expressão ao olhar para a mesa era absorta mas não imóvel, mudava rapidamente com o passar dos pensamentos. O rosto era magro e sugeria inquietação e uma certa perplexidade inocente e pura. No chão ao lado do rapaz havia duas malas e um caixote, cuidadosamente etiquetados, com um cartão onde estava dactilografado o seu nome, Andrew Leander, e um endereço numa das maiores cidades da Geórgia.
«Ao fim de alguns momentos Ken começou a perguntar a si mesmo porque estava ali. Não conhecia ninguém na festa além do anfitrião e a pintura do lixo e dos sóis verdes irritava-o. No quarto cheio de estranhos não havia nenhuma voz para o guiar e o xerez era áspero na sua boca seca. Sem se despedir de ninguém, Ken deixou o quarto e desceu as escadas.
10. Fui dar o retoque trimestral ao cabelo e enquanto esperava ser atendido chamou-me a atenção a vitrina de uma agência de viagens textualmente camuflada com promoções dos destinos mais incríveis ao alcance de qualquer bolsa. (...) E, já agora, o que é que se entende por um bom leitor? As melhores respostas para o absurdo desta pergunta foram-me dadas por Piglia, sob as mais variadas e enriquecedoras formas em O Último Leitor, onde também se escalpelizam situações susceptíveis de nos interrogarmos ou meditarmos sobre o que é, verdadeiramente, um último leitor. E, a sê-lo, é-o porque lê o quê?