14 de maio de 2013

Papiro do dia (409)

«Ele pensa calmamente: “Eu não deveria ter perdido o hábito de rezar.” Depois já não ouve os passos. Agora ouve unicamente os numerosos e intermináveis insectos, encostado à janela, respirando o cheiro quente e ricamente maculado da terra, pensando em como ele tinha amado a escuridão enquanto era jovem, um jovem que andava ou ficava sentado sozinho entre árvores, à noite. Depois o solo, as cascas das árvores, tornaram-se verdadeiros, selvagens, repletos, evocativos, estranhos e desgostosos meios prazeres e meios horrores. Tinha medo disso. Temia; amava tendo medo. Depois, um dia no seminário, descobriu que já não tinha medo. Era como se uma porta se tivesse fechado algures. Já não tinha medo da escuridão. Simplesmente a odiava; costumava fugir dela para a proximidade de paredes, para a luz artificial. “Pois é”, pensa ele, “eu nunca deveria ter perdido o hábito de rezar.” Afasta-se da janela. Uma das paredes do escritório está forrada de livros. Pára em frente a eles, procurando até encontrar aquele que procura. É de Tennyson. Está deformado por um uso abundante. Tem-no desde o tempo do seminário. Senta-se debaixo do candeeiro e abre-o. Não demora muito. Em breve a linguagem fina e galopante, o definhar desvitalizado repleto de árvores sem seiva e luxúrias desidratadas começa a pairar meloso, veloz e pacífico. É melhor do que rezar, sem se dar ao trabalho de pensar em voz alta. É como ela não tivesse estado à espera de fazer tanto barulho ao falar.»
[William Faulkner, Luz em Agosto; trad. Jorge Telles de Menezes, Bibliotex, 2003]

13 de maio de 2013

C'os pés prá cova, alguém lá iria

Pelo cano


12 de maio de 2013

11 de maio de 2013

Breve interlúdio musical




Porque a Net fornece um novo dia

edição reguila na Guilherme Cossoul
(ontem e hoje e porque não, sempre?)

Às vezes, lá calha...

«E a memória sabe isto: vinte anos depois, a memória acredita: “Foi naquele dia que me tornei um homem.”»
(William Faulkner)

Nem sempre a lápis (366)

até Jajouka
(2006)
 
26. Entretido à espera de arrancar até Jajouka, lembro-me que a imagem mais agradável – praticamente, única e indelével – que conservo da minha excessivamente longa permanência em Lisboa, é a de um vulgar entardecer, no final de Setembro ou princípio de Outubro de 74, com um banco sob a copa de uma árvore enorme, logo no começo do jardim do Príncipe Real, vindo do Rato.
Tinha um quarto ali perto. Enquanto pude, recusei ter uma casa e deambulei pelos mais variados quartos – de pensões, alugados, emprestados, vagamente partilhados, cheguei a dormir com a Nico no armazém da & etc., um antigo estábulo de fidalgos na rua da Emenda –, até à iminência do nascimento do Diogo. Só em Dezembro de 76 alugámos o opressivo e deprimente 7.º andar em Carnaxide, Praceta Gomes Leal, onde cheguei a alimentar a esperança de me sentir em casa; a compra, forçada, uns dois anos depois, gorou todas as possibilidades de me sentir em paz e integrado numa casa, como me sinto aqui, no Monte Alto.
Tinha um quarto ali perto, numa das ruas do quarteirão que delimita um outro jardim – o das Amoreiras, pelo qual não nutria especial simpatia, talvez pelo risco de tropeçar nos inteligentes que conspiravam num bar da zona –, e quando acabava o período de reclusão no edifício da antiga Emissora Nacional, no cruzamento da Duarte Pacheco com a Artilharia 1, gostava de descer a pé até à Livraria Opinião, à cervejaria da Trindade e, raras vezes, até à Brasileira do Chiado, a saborear uma Lisboa ainda semi-adormecida, mas com as paredes já irreversivelmente tatuadas pela fulgurante passagem da revolução.
Admito que possa ser uma mania minha, uma obsessão, uma perspectiva de lesa-majestade, por insistir em considerar que o 25 de Abril durou a estupefacção e explosão de alegria que decorreu entre essa manhã e a tarde do primeiro 1.º de Maio; a tarde em que a Revolução foi loteada, adeus ó vindima. Fui variadíssimas vezes ameaçado e apelidado de tudo e mais alguma coisa que, concedo, só o delírio febril que então se vivia poderá justificar. O futuro encarregou-se de comprovar, para mim foi inequivocamente revelador do verdadeiro íntimo das tais excrescências revolucionárias que, também elas, foram determinantes para os compadres da Alameda lhe lavrarem a certidão de óbito, oficializada e tornada pública com o tétrico e vagamente chileno 25 de Novembro. Vagamente, porque nos ficamos sempre e em tudo, apenas pela encenação, artesanal e barata, mais por amor à camisola do que verdadeiramente ao corpo que, como se sabe, deve ser quem mais ordena.
Eram caminhadas deliberadamente lentas – alheias a qualquer desconhecido pretensiosismo walseriano –, não só porque não sabia nem queria ter nada para fazer, mas sobretudo para saborear as montras das pequenas mercearias, cafés, drogarias, cabeleireiros, retrosarias e tascas que, a partir da tríade habitual, constituída por antiquários, lojas de decoração e a galeria de arte (muito dada aos surrealistas e onde vi desenhos de Michaux), começavam a transmitir vida vivida à rua. Ela ainda era percorrida pelo vaivém ronceiro dos eléctricos apinhados de gente e mãos-leves, para rabos e carteiras, com penduras nos estribos de um eléctrico que se prezasse, sem que o revisor jamais se atrevesse a repreender esses camaradas; revisores e penduras, encontravam-se todos, mas todos ao lado do povo. Essas caminhadas, quando saía com entrada condicionada, por me encontrar detido pelo trabalho na E. N. logo a seguir ao 25 de Abril, começavam, invariavelmente, por me abastecer com um copo, demorado e autista, sentado – quando não ocupada pelo casal residente, a Paula Almada Negreiros e o Álvaro Cabeça de Vaca – à mesa de pedra junto à janela da taberna na esquina do largo do Rato com a rua de São Mamede, entretanto travestida de não sei quê, porque fizemos sempre questão de manter a fachada.
Nessa tarde, a tarde em que me sentei num banco sob a copa de uma árvore enorme do jardim do Príncipe Real, sentia-me possivelmente radiante por ter apanhado o elevador para o refeitório e ter sido alvo de provocações de elementos do MRPP, ter subido do refeitório e ter sido alvo de provocações de elementos do PCP, sendo a ordem absolutamente arbitrária e entediantemente repetitiva sem que alguma vez me desse por achado. Encontrava-me ainda deslumbrado pela facilidade com que tinha chegado à cidade e arranjado um emprego vistoso, não os conhecia de lado nenhum e recusava-lhes qualquer espécie de proximidade, escolhendo cuidadosamente a mesa onde me sentava, preferencialmente sozinho, a almoçar. Nessa altura, e se é que ainda tinha dúvidas quanto à minha ocupação, o Vitor [Silva Tavares] ficou ao corrente até que ponto eu fazia de conta na E. N. Lembro-me que era sábado e me tinha calhado o castigo rotativo de ficar a olhar para os jornais e a olhar para a rua, empoleirado num estirador quatro andares acima do passeio da Duarte Pacheco, quando ele me telefonou, muito excitado, a perguntar se eu sabia alguma coisa sobre uma tal silenciosa Manifestação Silenciosa. Jurei-lhe, a pés juntos, não ter ouvido nada; absolutamente nada.
Descia eu esse demorado percurso – que me separava da agreste incompatibilidade com a realidade para me entregar progressivamente na imensidão do devaneio ao entardecer, como jovem poeta que era – quando, percorridas talvez centenas de vezes o mesmo irrepetível percurso; quando terminado o pano de casas onde a rua cede o nome ao jardim, dei com o tronco levemente tombado e as raízes mais ansiosas pela secular autonomia a aflorarem o chão, num esforço irreprimível que levantava a calçada do passeio. Possivelmente, esperei que os automobilistas desrespeitassem a prioridade dos peões, admitindo que me tenha dado jeito prolongar o sabor da chegada, como os passageiros aguardam que o navio atraque e encostem a escada ao portaló; a manga seja acoplada à fuselagem do avião; o comboio pare e as portas se abram com um silvo pneumático, e só depois percorri os poucos metros de asfalto listado para me sentar no banco vazio que me aguardava sob a copa de uma árvore enorme do Príncipe Real.
Era um velho banco com ripado de madeira, assente numa estrutura de ferro fundido pintada de verde ou alumínio, igual aos bancos que faziam parte do mobiliário urbano de uma Lisboa provinciana, onde se pretendia que os costumes eram brandos, mas o Império embravecido desmoronava-se a olhos vistos, sem necessidade de assomarmos à rua da Misericórdia para nos compadecermos com o vazio do rio. Aproximei-me dele como dois desconhecidos com encontro marcado se reconhecem à medida que entre eles diminui a distância e a reserva inicial, e sentei-me sensivelmente a meio, abrindo os braços como se avaliasse a dimensão do assento e os meus dedos procurassem decifrar nos veios de madeira descuidada, sinais ou memórias que o dourado do entardecer ajudasse a reconhecer, encaixilhadas para o futuro. Permaneci ali até o banco e eu darmos por terminado, saciado o tempo que, possivelmente, ambos necessitávamos, sem darmos pela diminuição do trânsito, das filas para o eléctrico e para o autocarro; sem nos apercebermos que o lento violeta dos candeeiros cedera ao amarelo coalhado que iluminava a noite; noite da tarde em que não desci até à Livraria Opinião, à cervejaria da Trindade, menos provável ainda à Brasileira do Chiado, como se, inconscientemente, antecipasse a leitura de um livro de John Berger, onde viria a compreender que, também eu, esperava que «dentro de uma ou duas semanas, África, que começa, digamos, na outra margem do Tejo, começasse a impor a sua presença, distante, mas palpável.»

Papiro do dia (408)

«A consciência, não o sofrimento, traz-lhe à memória milhares de ruas solitárias e abandonadas. Elas começaram a correr desde aquela noite em que estava estendido no chão quando ouviu o último passo e depois a última batida da porta (eles nem sequer apagaram as luzes), e depois ficou deitado, calmamente, de costas, com os olhos abertos enquanto por cima o globo suspenso ardia com um brilho fixo e doloroso, como a luz de uma casa onde toda a gente tivesse morrido. Não sabia há quanto tempo se encontrava ali. Não pensava de todo, nem sofria. Talvez tivesse consciência de que algures, no seu íntimo, os dois terminais desunidos dos fios da vontade e da sensibilidade, agora sem contacto, esperavam restabelecê-lo, unir-se de novo para que ele pudesse mover-se. Enquanto acabavam os seus preparativos para partirem, os outros passavam de vez em quando por cima dele, como pessoas que estando prestes a deixar uma casa para sempre passam por cima de um objecto qualquer que tencionam deixar para trás.
Depois, desapareceram: o passo final, a porta final. Depois ele ouviu o carro abafar o ruído dos insectos, pairar por cima dele, baixando depois de nível, ficando mais baixo do que o nível dos insectos, de forma que por fim ele só ouvia os insectos. Estava ali deitado por baixo da luz. Ainda não se podia mexer, do mesmo modo que podia olhar sem ver, ouvir sem ter consciência; os dois terminais ainda desunidos enquanto ele estava estirado calmamente, lambendo de vez em quando os lábios, como fazem as crianças.»
[William Faulkner, Luz em Agosto; trad. Jorge Telles de Menezes, Bibliotex, 2003;
por vezes um puro é apenas um charuto]

10 de maio de 2013

Puxar a brasa à sarda

 
[lá para Setembro, se correr bem]

8 de maio de 2013

Breve interlúdio musical




Porque a Net fornece um novo dia

[éclogas do Trombas]

Às vezes, lá calha...

«O olhar dele tornou-se quase humano e começou a olhar em volta do quarto, como se nunca tivesse contemplado antes um quarto de mulher: um quarto fechado, quente, desarrumado, com um suave odor feminino.»
(William Faulkner)

Nem sempre a lápis (365)

até Jajouka
(2006)

25. E de repente, bloqueio. Abro o e-mail, onde um link me direcciona para o blogue da frenesi [entretanto desactivado] e bloqueio, literalmente soterrado por uma imagem vagamente esquecida; tenho uma cópia mas não faço a menor ideia por onde possa andar. A foto fala por si, e pode ler-se nas expressões dos artistas, como nos chamou o artista que fez questão de posar connosco para a posteridade, o que ela nos reservou.
«Inverno de 1975 – De pé: o desenhador Nuno Tabaquinho, um desconhecido ocasional à hora do “metro operário”, Jorge Fallorca o portador do estandarte lendário. Na primeira linha: João Ruas, António Coelho, ou Tó Coelho (falecido recentemente), Paulo da Costa Domingos.»

Segundo o horário estabelecido na legenda, a foto documenta uma habitual directa de charros e muita criatividade, do lado oposto de uma estação de metro que já não existe ou sufocaram-lhe o grito. Suponho ter sido tirada pela Margarida Lagarto, a musa inspiradora do Tabaquinho. Conduzia-o à trela e ele aproveitava a ausência dessa fada mazinha da casa onde vivíamos – onde sobrevivíamos – na rua Gomes da Silva, ao bairro do Arco do Cego, para se vingar da imagem que cultivavam, como um puto mimado e mal-educado. Até fazia dó. Corneava-a como um obsessivo, com toda e qualquer vassoura de saias, na alcova artística donde pretendiam transmitir a imagem de uma relação obviamente diferente dos flutuantes residentes e frequentadores desse sótão. Muitas vezes, quando entrávamos éramos obrigados a fazer uma autêntica gincana entre sacos-cama que ressonavam ao cimo da escada e no corredor; a fazer ouvidos de mercador aos gemidos dos casais que apareciam por lá especificamente para dar uma foda que, por vezes, partilhavam reconhecidos com a famosa hospitalidade da malta da Gomes da Silva. Mas na Gomes da Silva não se swingava, tínhamos apenas aquele swing natural de estarmos permanentemente pedrados.
Olhando a foto, confronto-me com uma torrente de imagens que me interrompem o curso do texto. Não sei se comece pela casa, o sótão – que durante algum tempo explorou a fama de ter dado guarida ao Vaneigem ou outro dos situacionistas que vieram fazer turismo político até ao 25 de Abril – numa altura (o famoso Verão quente) em que tudo o que eu pretendia era voltar as costas a uma encruzilhada. (...) Francamente, não sei por onde começar, ou até mesmo se deva começar, porque «ainda hoje há algo de ilusionista e ilusório na relação com o tempo e o espaço quando viajamos e é por isso que, cada vez que regressamos, não temos bem a certeza de termos realmente estado fora», recorda-me Austerlitz. É certo que quando regresso sinto-me ainda mais estupefacto por encontrar tudo absolutamente na mesma, como se permanecesse estagnado e alheio ao tempo em que me excluí.
Na Gomes da Silva, como era familiarmente denominado esse sótão no bairro do Arco do Cego, quando me mudei para lá ainda era palpável o conflito entre a memória de comunidade deixada pelo clã que a particularizara e os costumes impostos pelos novos bárbaros. Uma das coisas que me surpreendeu, e surpreendia quem lá ia, era que as portas de cada quarto, de cada cela, estivessem fechadas a cadeado, em flagrante desrespeito pela privacidade de uma porta fechada; à chave ou não. Enquanto o Tó Coelho, por exemplo, assegurava a continuidade dessa memória sem cadeados, o João Ruas, que nunca cheguei a perceber quem era na realidade, rapidamente viria a desempenhar o papel de guru, trazido pela mão do Tabaquinho e especialmente receptivo a guias culturais e novidades. Sobretudo as importadas e ainda a cheirar a carimbo no passaporte, na medida do possível vindas de Paris e observadoras in loco do Maio de 68.
Mas talvez seja melhor pegar em cada um dos artistas e tentar descrevê-los tal como os via ou nos vemos, naturalmente disfarçados, tanto mais que sou o autor do texto.
O estudante de Belas-Artes Nuno Tabaquinho, ilustrou o hors-texte do meu primeiro livro (Imitação da Morte dos Outros) com capa do Carlos Ferreiro editado pela & etc., praticamente na véspera de abandonar a Gomes da Silva de braço dado com a Olga e o nosso filho na barriga, decidido a meio dos Concertos para 2 Cravos, J. S. Bach. Contam-se pelos dedos de uma mão, e sobrarão, as vezes que voltei a vê-lo. Retenho apenas duas situações: um encontro num restaurante de Entre Campos, onde a neblina do álcool me impedia de ver como ele se debatia com uma manada de garranos nas veias; e um pouco mais tarde, quando já libertado das miragens etílicas, o vi tentar abrir-me a porta do carro para me cravar uma nota, que eu também não tinha, num semáforo da mesma zona da cidade. Muitos anos depois, parámos acidentalmente em Estremoz para beber uma bica numa pastelaria. Dando-nos a entender que nutria por ele uma condescendente ternura, a empregada não nos soube dizer se concretizara ou não o projecto de ir dar aulas para São Tomé – decisão a que (também) não era alheia a tentativa de continuar ou finalmente comer uma ex-colega da Olga, visita lá de casa –, acrescentando, com aquela naturalidade alentejana a quem não perguntou mais nada, «que ele estava muito melhor, embora tivesse dias que era uma pena. Mas sempre muito brincalhão», fez questão de frisar.
A segunda figura, o verdadeiro artista, não faço, nem nenhum de nós fazia a menor ideia de quem fosse. Recordo-me apenas que o metro estava ainda consideravelmente vazio àquela «hora operária», o que talvez nos tenha permitido entrar na estação devidamente caracterizados, e ele terá visto a possibilidade de chegar ao emprego, impecavelmente penteado e com o jornalinho dobrado, com uma belíssima história para contar aos colegas: que tinha entrado num anúncio?, num filme?, num beco sem saída? Não faço ideia e lamento que não tivesse podido levar uma cópia da foto para provar aos colegas que era verdade o que dizia, mas não teria evitado que lhe fizessem a cabeça em água durante algum tempo, até ele mesmo, admito, começar a duvidar se pousou ou não na foto onde o vemos.
É o único que não está disfarçado, o único que não faz de conta, ao contrário de mim, por exemplo, que me encontro devidamente disfarçado de funcionário público e identificado com o cartão da Emissora Nacional – ou seria já RDP, onde continuei mais de uma dezena de anos a fazer de conta? – na lapela de um casaquinho de ganga oferecido pelo Ferreiro em Paris, fazendo questão de não abrir o bico; tudo o que tinha a dizer resumia-se a um premonitor balão em branco.
Eles que escrevam, eles que digam.
Na primeira linha de baixo, com a sua proletária samarra e uma oportuna pala de pirata num olho, que não me lembro se já trazia com ele ou não, o João Ruas, acocorado com umas blue-jeans e botas caneleiras que não vemos, num antecipação filosófica de Bruce Springsteen dos anos setenta. Poucas semanas depois fomos a Paris, fornecendo eu o carro e uma quota-parte para o Ruas comprar erva, que se encarregou de vender e fumar aos e com os amigos, e eu estafei a minha percentagem com uma artista de St. Denis e uma série de livros, discos e tabaco de cachimbo que me tinha ficado no goto quando lá estive em Setembro de 74, em casa do Ferreiro.
Nunca fui grande espingarda para os negócios, é um facto. Cedi o carro, prensámos mais de um quilo de erva numa espécie de bolacha, de pizza a tresandar a resina na oficina do meu pai, quando passámos por Mortágua a caminho de Vilar Formoso. Na fronteira, havia fronteiras, o Nuno foi interrogado pela polícia por causa do irmão – Armando Tabaquinho; deu-lhe para aderir às BR’s e auto-proclamava-se desertor na Gomes da Silva, só saía à noite para ir beber copos no Pote e na Munique – correndo o risco de irmos todos de cana. O Nuno, sempre brincalhão, resolveu responder à bófia, com os olhos fosforescentes e os bolsos cheios de erva para a viagem, que mesmo que soubesse onde estava o irmão não lhes dizia.
Creio ser todo o seu curriculum revolucionário.
Quando finalmente passámos a fronteira a proeza foi elogiadíssima pelo Ruas, que enrolava charros com uma mão e conduzia com a outra, enquanto eu, encolhido no banco de trás do meu velho VW (parecia retirado de uma página do Crumb) e a cabeça apoiada na almofada de erva o ouvia dissertar sobre Vaneigem, Cohen-Bendit, dizendo que Assim falava Zaratustra, e eu acreditei, quem era eu para pô-lo em dúvida?, enquanto o Nuno cofiava o bigode – não o da foto, o real – e o seguia deslumbrado e eu francamente cansado. Foi tal a canseira que nunca mais nos vimos. Foi como veio, retendo dele apenas o zumbido contínuo da palestra ou seminário em que converteu a viagem, quando não dormia e eu conduzia silenciosamente a saborear a pedra; a viagem.
O melhor disfarce do Tó Coelho era a ironia. No Inverno usava um sobretudo apertado até ao pescoço, que lhe dava um inconfundível ar de almotolia, e é dele a autoria da frase que transcrevi lá para trás, quando a erudição começava a rançar e a estragar o bom da pedra: «Eu já disse isto tantas vezes, que também já me posso citar a mim mesmo.» Nunca fomos especialmente próximos, e nunca mais o vi desde que desertei da comunidade, embora o Paulo me fosse dando notícias quando me lembrava de perguntar por ele, obrigando-me a ligar-lhe para explicar a razão do parêntesis na legenda. Morte macaca, contrariando todos os prognósticos que lhe podiam pôr a saúde em dúvida, mas não o fim que não merecia a justiça de lhe utilizar a citação.
Finalmente o Paulo, com uma camisola que comprei ao Tabaquinho e ele adorava vestir quando íamos dar uma volta muito pedrados e punha a cabeça de fora do VW para arejar a juba, enquanto me concentrava ao volante para tentar não amarrotar aquela autêntica página de banda desenhada por entre o trânsito. Conheci-o ainda na Mãe d’Água, onde nasceu e crescia a revista & etc., numa das minhas viagens de contacto – na altura tinha acabado a tropa e fazia de conta em Estremoz – com a grande cidade e os escritores. Estava ansioso por conhecer escritores, pintores, artistas, críticos, chupa-tintas, jornalistas, pantomineiros, etc. Queria ser como eles. Felizmente, como o acesso (aparentemente) era mais fácil pelo & etc., entrei depressa nos eixos. A segunda vez, encontrámo-nos, acidentalmente, na esplanada do Pão de Açúcar, na Alameda, com uma djellaba a cheirar a Tânger e o hálito de um charro afegão que me dispensava as palavras. Depois de tudo o que passámos e fizemos juntos, ele era das poucas pessoas com quem podia estar mais de um ano sem nos vermos ou falarmos, e quando nos encontrávamos, satisfeita a natural verborreia inicial, era possível deixar pousar um silêncio sem que ele tivesse necessidade de tirar a venda kamikaze, nem eu precisasse de sujar o balão em branco.

Papiro do dia (407)

«A memória acredita antes de o conhecimento poder recordar. Acredita durante mais tempo do que ela se lembra, durante tanto tempo que até espanta o conhecimento. Ela conhece, lembra-se, acredita num corredor povoado de ecos gélidos, de um enorme e longo edifício com empenas, feito de tijolos vermelhos escuros, batido pela fuligem de muitas chaminés para além da sua própria, situada por trás de uma cerca num terreno sem relva cheio de resíduos de escória, cercado pelos confins de fábricas fumarentas e vedado por uma barreira de arame e aço, como uma penitenciária ou um jardim zoológico, e onde surgem, num acaso errático, órfãos vestidos com fardas idênticas de sarja azul, soltando os seus agudos palrares infantis, entrando e saindo das recordações, mas constantes no conhecimento, tal como os muros ermos e as janelas solitárias onde a chuva parece tracejar lágrimas negras com a fuligem das chaminés vizinhas.
No corredor vazio e tranquilo, durante a hora da sesta, ele era como uma sombra, pequeno até para os seus cinco anos, sóbrio e calmo como uma sombra. Ninguém poderia dizer por onde é que ele se tinha sumido, por trás de que porta, para dentro de que quarto. Mas a esta hora não havia mais ninguém no corredor, e ele sabia disso. Já fazia isto há quase um ano, desde o dia em que descobrira acidentalmente a pasta dentífrica que a dietista usava.»
[William Faulkner, Luz em Agosto; trad. Jorge Telles de Menezes, Bibliotex, 2003;
pasta medicinal escroto]

6 de maio de 2013

«Salazar sempre viveu rodeado de gays

5 de maio de 2013

Retensão de líquidos