22 de maio de 2013
21 de maio de 2013
20 de maio de 2013
Às vezes, lá calha...
«Estou a escrever isto e estou a imaginar-me vista de fora, o aspecto que devo ter para alguém que espreite da rua em baixo: uma senhora de idade de pé à janela, a olhar para o exterior, os braços levantados à altura da cabeça, as mãos encostadas ao vidro.»
(Sam Savage)
Nem sempre a lápis (369)
até Jajouka
(2006)
Gostava que este livro, se tiver de ser um livro, ao folheá-lo sentisse o toque da tua pele e ouvisse a tua respiração enquanto dormes; permanecesse secreto e inacabado, escrito e reescrito como o livro que me recuso a escrever, onde não houvesse lugar para lugares-comuns e, à falta de melhor, o silêncio se impusesse à previsível conclusão de cada período; fosse um palimpsesto onde latejam outras páginas, em branco e decifráveis, sobrepostas como sucessivas camadas de cal dos montes do Sul e as escamas de ardósia dos derradeiros telhados da Beira, comunicativas e arejadas como açoteias de Tânger e de Asilah; memória amnésica, fronteira de fronteiras derrubadas.
30. (de Setembro)
Já arrumei a mochila e atestei o Land-Rover. Esta madrugada arranco até Jajouka.
[até Jajouka, Monte Alto / Mortágua | Maio / Setembro de 2006]
Papiro do dia (411)
«Quero dizer antes de mais que Clarence era uma pessoa sinceramente afável, embaraçosamente afável, achava eu, quando íamos a festas e ele fazia figuras tristes. Na presença de certo tipo de pessoas – com uma inteligência ou um talento acima da média, ou com muito dinheiro, o género de pessoas que não conseguia deixar de achar bem-sucedidas – sentia-se intimidado, por causa das suas origens e porque ele próprio foi, mesmo no seu age, apenas em parte bem-sucedido, e depois tornava-se odioso ao fim de uns copos, apesar de começar por ser incrivelmente afável, e com “incrivelmente” quero dizer “efusivamente”. Fazia isso porque, ao mesmo tempo que tentava mostrar esse tipo de afabilidade, estava também a tentar defender-se e era frequente acabar a falar daquele modo espalhafatoso, incoerente, que as pessoas acham tão irritante. Curioso era que quanto mais ele se tornava um escritor de festivais mais britânico ficava, embora nunca tivesse vivido na Grã-Bretanha, excepto, como acho que já disse, durante algumas semanas num Verão – britânico na maneira de vestir, na pronúncia, até no vocabulário – e quanto mais bebia mais imperialmente inglês se tornava, até estar bêbedo que nem um cacho e de repente voltar a ser um típico filho da Carolina do Norte. Clarence, quando começava a ficar alegre e a falar sem parar, reparava no meu silêncio de desaprovação e dizia qualquer coisa como: “Pareces muito chateada, miúda.” Eu odiava que ele me tratasse por miúda. Claro que depois arrependia-se. Às vezes, após uma noite a dar espectáculo, quando voltava a ficar sóbrio e eu lhe explicava o que tinha acontecido, encurvava-se a tremer, cheio de remorsos – no chão, por vezes na terra húmida, as folhas e as ervas deixando nódoas no seu casaco – e choramingava de mortificação e vergonha. As ressacas físicas deviam ser também horríveis.»
[Sam Savage, As recordações de Edna; trad. Sofia Gomes, Planeta, Janeiro 2013;
18 de maio de 2013
Às vezes, lá calha...
os músculos preparam, meticulosamente, a própria derrota.»
(Gonçalo M. Tavares)
Nem sempre a lápis (368)
até Jajouka
(2006)
28. Esta manhã, creio ter feito as coisas como devem ser feitas: deixei a Olga em Portimão, vim pelo Parchal – bebi outra bica, enquanto enrolava quatro cigarros – e levantei cem euros no Multibanco; passei no cruzamento de Porches para o Monte Alto caladinho que nem um rato e entrei naturalmente na Via do Infante, em Alcantarilha, sem ser assediado pelas habituais ruminações se tivesse entrado em Lagoa e, com o mar azul a brilhar à minha direita, percorri bonacheironamente os cento e cinquenta quilómetros até Huelva, apenas atento ao manómetro do gasóleo e da temperatura deste jipe a que ainda não me habituei – e tive de largar dois mil e quinhentos euros para substituir a Azulinha, a Volvo 245; só lhe faltava falar, caraças – e não faço a menor ideia de quanto tempo precisarei, nem de quanto dinheiro que não tenho para gastar com a educação deste Cherokee teenager, nome e cor de xarroco. Verifiquei, surpreendido e simultaneamente incrédulo, que o arco à entrada da ponte sobre o Guadiana foi finalmente substituído por um fundo marítimo, mais cúmplice com o que encontrou quem sai do Algarve, do que o prepotente relvado que ali permaneceu dois anos, se não estou em erro, substituindo a discutível e crescente realidade dos campos de golfe por um interminável estádio de futebol a que parecem querer condicionar-nos; em cada casa e em cada carro, bandeiras ao vento. Mantendo a velocidade que me permite divagar sem perigo, cheguei a Huelva sem sobressaltos – além da habitual rajada de mensagens no telemóvel, onde o big brother, a pretexto de me fornecer não sei que espécie de informações não solicitadas, está pura e revoltantemente a controlar-me e a dizer «Com que então, em Espanha, seu maroto…» –, confirmando o preço mais baixo do gasóleo, e estacionei, como habitualmente, no parque Damas – embora duvide que se possa estabelecer qualquer analogia entre o nome da empresa de autocarros e o livro do Mário Zambujal, Primeiro as Damas –, depois de ter subido o silo até ao sexto piso, onde arrumei logo à primeira, sem me debater com a natural preguiça para fazer manobras. Enganei-me no elevador e saí para a rua do lado oposto à que me convinha e conduz directamente à Librería Saltés, parando primeiro numa loja de artigos fotográficos, onde também não tinham um rolo para a instamatic (quando precisei dela, verifiquei que a tinha deixado no jipe) e entrei na tabacaria ao lado onde, feitas as contas, poupei em dez onças de tabaco o suficiente para o parque de estacionamento e o almoço, a encaminhar-me determinado e transpirado para a livraria, a fumar o quarto e último cigarro enrolado no Parchal (bem me parecia que bastam quatro para fazer o percurso), onde entrei com o dedinho espetado que (sem dificuldade de monta) retirou do expositor o ambicionado Entre paréntesis de Bolaño, e aproveitei para encomendar La ciudad ausente de Piglia – evitando, assim, o confronto do Land-Rover com o trânsito sevilhano quando por lá passar a caminho de Jajouka –, garantindo à morenaça que me atendeu que não tinha pressa e pode comunicar a chegada durante o mês de Setembro, como prometeu. Livros para traduzir não me faltam, até Dezembro e, no intervalo, leitura de sobra por conta de Bolaño, como não tardaria a verificar. Saí para a rua ocupada por viveiros de pernocas douradas (claro que olhei) que mais pareciam apeadas de cartazes a anunciar as virtudes do ozono da Isla Canela, e sebes de pernões de moças da minha geração empoleiradas em cima de chinelas periclitantes e com aquele ar meio atarantado da menopausa, creio, e atalhando pela rua pedonal para não cair na tentação de me sentar numa esplanada a folhear o Bolaño, dirigi-me ao mercado por vielas coloridas, com os olhos a cobiçarem dois ocres revelados por uma demolição e a luz do meio-dia (hora de Portugal), e entrei no mercado pelo lado oposto ao habitual, dando rédea solta ao olfacto atordoado pela bordoada das frutas e dos legumes, os sacos de cominhos e açafrão, evitando as bancas de peixe vivo que não podia trazer, mas comprei lombos altos de bacalhau de fazer crescer água na boca, e estava com uma sede que nem vos conto, figos, pimentos e cebolinho a um euro o quilo, o tomate a sessenta cêntimos, saindo pela porta habitual para me sentar no Alba e poisar os sacos que me cortavam as mãos, enquanto pedia uma tapa de pescada frita fresquíssima, com um quarto de limão e meio litro de água, entretendo-me finalmente a abrir Entre paréntesis, lida a contracapa e escolhido o texto que dá o título ao livro, «El narrador en la intimidad», onde li «A minha forja [cocina, no original] literária é, frequentemente, uma divisão vazia, onde nem sequer há janelas. (…) Confrontado com estes dilemas, geralmente faço o que faz toda a gente: perco o equilíbrio e penso que sou imortal. Não quero dizer imortal literariamente falando, porque isto só pode sê-lo um imbecil e não sou homem para tanto, mas literalmente imortal, como os cães e as crianças e os bons cidadãos que ainda não adoeceram.» Saboreada a pescadinha, e porque o Alba faz questão de só servir café durante as horas que lhe justificam o nome, fui tomá-lo, servido num eterno copo de vidro, sentado à janela de um café decorado com cabeças de dois supostos Miuras e uma exposição antológica de cartazes de touradas, de Huelva e das redondezas, uns mais recentes e outros a tresandarem à Espanha do pós-guerra, onde fui abordado por dois ciganos muito interessados na minha caixa de enrolar cigarros, dizendo-me que era uma maravilha para enrolar porros, joé! (charros, não vá o leitor não saber), como quem diz, «E que tal uma troca?», mas o que eles sabem já eu me esqueci, e informei-os que as vendiam na tabacaria onde antes comprei o tabaco (saindo-me o parque de estacionamento e o almocinho de borla, mas creio já ter dito isto, desculpem), insistindo o mais teimoso – com o cabelo encaracolado à trolha (sem ofensa) a brilhar como se o tivesse penteado com azeite (de Jaén?) – em vender-me um espampanante cachucho dourado, ao que respondi esticando a singela anilha de prata que me caracteriza o dedo mindinho e, finalmente enrolados quatro cigarros (está mais que visto que são os necessários) e bebido o café, bebido o portuguesíssimo vício da bica, dirigi-me ao parque recusando-me terminantemente a ver a tal parede que só me apeteceu assinar, eu que raramente assino o que pinto, desci e abasteci o Xarroco na estação de serviço à saída de Huelva, decidido a chegar a casa e escrever este texto que transcrevo praticamente de cor.
Papiro do dia (410)
«Da mão direita à outra do mesmo homem vai por vezes uma distância obscura. Não se trata de uma parte esconder intenções ou até acções. É outra coisa.
Quando, para receberes alguém, abres os braços, a referida distância aumenta e a mão, em cada ponta, assinala um certo modo com que o teu corpo se dispersa. Quando o abraço se concretiza e nas costas do outro as mãos finalmente se reencontram, formalizam um símbolo ao mesmo tempo desolador e esperançoso: é que só nas costas do outro as tuas duas partes se unem com uma energia digna de admiração. Experimenta, sem outro corpo no meio, unir com força, com violência até, as tuas mãos, e verás o ridículo, perceberás a diferença de intensidade.
Mas por vezes – como bem sabes – não há outro corpo.»
[Gonçalo M. Tavares, Breves notas sobre o medo; Relógio d’Água, Maio 2007]
17 de maio de 2013
«Na próxima sexta-feira, dia 17, Dia Internacional de Luta contra a Homofobia e Transfobia, o Parlamento vai discutir diplomas do BE e do PS. (...) Em Fevereiro do ano passado, idêntico projecto-lei do Bloco foi chumbado, embora 58 deputados tivessem votado a favor: 38 do PS, 9 do PSD, 8 do BE, 2 dos Verdes e 1 do CDS-PP (mas nenhum do PCP).»16 de maio de 2013
Apanha malhas
«... pediu ao balcão o livro do último prémio Leya. Andaram por ali, largando comentários sobre a essencialidade da literatura nas suas vidas e mostrando a sua relação íntima com os livros. Até que a mais gorda, arrebitando a crista, abanando o pelancame vermelho da barbela, olhou em redor e cacarejou assim ”Eu, se pudesse, levava a livraria toda!”. Saí, claro está. Fui enfiar-me numa loja chinesa a comprar collants. São mais baratos, a qualidade do fio é a mesma e as cores têm nomes bonitos: muskade, duna, tropical.»
«... pediu ao balcão o livro do último prémio Leya. Andaram por ali, largando comentários sobre a essencialidade da literatura nas suas vidas e mostrando a sua relação íntima com os livros. Até que a mais gorda, arrebitando a crista, abanando o pelancame vermelho da barbela, olhou em redor e cacarejou assim ”Eu, se pudesse, levava a livraria toda!”. Saí, claro está. Fui enfiar-me numa loja chinesa a comprar collants. São mais baratos, a qualidade do fio é a mesma e as cores têm nomes bonitos: muskade, duna, tropical.»14 de maio de 2013
Às vezes, lá calha...
«A sua voz é repentina e grave, quase rude mas não muito alta. É como se ela não tivesse estado à espera de fazer tanto barulho ao falar.»
(William Faulkner)
Nem sempre a lápis (367)
até Jajouka
(2006)
27. O início do quarto crescente – com a Lua resumida a uma unha roída pendurada no lusco-fusco, a anteceder o gradual e perturbante esplendor da lua cheia – é um dos motivos mais estimulantes para pegar na cadeira de tabua e sentar-me lá fora para me esvaziar do esforço de ter cumprido mais um dia. Os outros são os infindáveis crepúsculos vistos daqui.
Partilho, como toda a gente, memórias inesquecíveis de crepúsculos e luas cheias que me colheram nos sítios e situações mais inesperadas. Para não falar dos que procurei, chegando a percorrer quilómetros, como tanta gente, para me sentar numa praia, numa falésia, no cimo de um cabeço, com a mesma ansiedade e entusiasmo de quem se desloca a um espectáculo, a um concerto único e intransmissível. Estou a lembrar-me, por exemplo, dos Police no estádio do Belenenses quando, um pouco antes do espectáculo começar, toda a gente viu uma rulote de bifanas descer a avenida levada em ombros pela torrente humana literalmente, walking on, walking on the moon e, já sentado nas bancadas de frente para o rio, vi, como toda a gente viu a Lua cheia poisar sobre o palco, ao mesmo tempo que passava um cargueiro, na mais fantástica, real e inesquecível montagem; com uma precisão que nenhum espectáculo multimédia, como então começava a estar em voga e hoje julgo repetirem-se até à exaustão dos efeitos especiais, jamais se poderia dar à vulgaridade de sincronizar.
Mas, se nesta situação as testemunhas, felizmente, abundam e é (era) frequente encontrar pessoas com quem, a meio da conversa, nos sentíamos subitamente ligados pela mesma corrente que electrizou o estádio do Belenenses, infelizmente, tive de me aguentar sozinho com as labaredas de uma lua cheia que pareciam incendiar o montado à volta de Terena, quando regressava a Reguengos de Monsaraz depois de jantar no Alandroal e ter ido até Badajoz só para passar o tempo. Inconscientemente, começava a sentir-me manifestamente incapaz de continuar a fingir que me interessava o tipo de convívio, a que então me forçava a actividade como responsável pelo gabinete de imprensa da prova alentejana de todo-o-terreno.
Sim, também passei por essas; entre outras.
A Lua surgiu-me inesperadamente ao nível do chão calcinado do montado; que eu quase jurava ter visto revolto e empoeirado pela surpresa, revelando as árvores espectrais no contraluz avermelhado de uma incomensurável câmara escura. Só tive tempo de corrigir a trajectória para não ir parar à valeta, enquanto me debatia com uma inexplicável (para mim) falta de rede das operadoras nacionais, abafadas pelas suas potentes e úteis congéneres espanholas, que me impediu de tentar partilhar o espanto, a surpresa com a Olga que, àquela hora, devia dormir absolutamente alheia às minhas habituais e imprevisíveis digressões nocturnas de antanho.
Não senti a ausência de um ou dois anos antes, quando despertei e dei por mim com o carro a trabalhar, à beira da estrada entre Saragoça e Barcelona, em plenos Mons Blancs. Ainda hoje, não me lembro do motivo que me levou a atirar com o carro para a valeta, e muito menos quanto tempo assim estive, até voltar a sentar-me ao volante e percorrer os restantes quilómetros que me separavam de Barcelona, entretido a brincar às escondidas com a Lua, que não me lembro se estava cheia ou se se esvaziava, como eu mais tarde comecei a desconfiar que me esvaziava de um determinado tipo de vida. Demorei alguns anos a contar este episódio à Olga, talvez porque «ninguém sabe explicar ao certo o que se passa connosco quando se abrem as portas que escondem os terrores da nossa infância», se é que Austerlitz não se enganou, e o mesmo se pode dizer de quaisquer portas da nossa existência, presente ou futura.
Saímos do Monte Alto com a melhor das intenções de irmos ver a Lua a Sines, decididos a não perder o Festival de Músicas do Mundo – agora já não havia desculpa, com ou sem os Master Musician of Jajouka –, percorrendo a velha estrada litoral a partir de Lagos, fazendo o percurso inverso ao que me revelou o reino do Al-Gharb, há cerca de trinta e cinco anos, sem que eu pudesse adivinhar que viria a viver exactamente a meia dúzia de quilómetros do Carvoeiro, que serviu de pretexto para arrancar de madrugada de Coimbra, rumo ao Sul. Enquanto a Olga sorria, a ver-me guardar o bloco e o lápis e a instamatic na mochila, para o que desse e viesse, prudentemente foi arrumando as toalhas e uma garrafa de água para o que veio: duas horinhas de praia na Amoreira, a catar pedras e a reviver histórias, a dar banho à nossa rotina.
Quando chegámos a Sines, estacionei sem dificuldade atrás do palco montado na marginal sob a falésia, onde se degrada, entregue ao vazio ou à indecisão tão habitual entre nós dos herdeiros, não sei, a casa que conheço como sendo a do avô do Al Berto. Sem me deixar abalar pelo medo das janelas vazias a olharem desorbitadas o entardecer, lembrei-me, inevitavelmente, de ali termos estado quase todos os que deram corpo às primeiras folhas volantes frenesi, então expostas no Centro Emmerico Nunes, onde fui ter com eles como jornalista do Diário de Lisboa limitado a meia dúzia de bytes. E enquanto ouvia a electrizada e electrizante saharauí Mariem Hassan, os meus olhos deliciaram-se a ver os netos que não tenho e os filhos que não tive, juntamente com os companheiros que fui perdendo pelo caminho, ou nos separámos na encruzilhada onde enveredámos por outro caminho, reconhecendo-nos na cumplicidade de um olhar onde já não há lugar para o medo.
A Lua espreitava-nos por entre o cotão de curvas desde o Cercal até à entrada de Odeceixe, como se viajássemos dentro deste velho texto, escrito na Hermes 2000 que herdei do meu avô:
«Tenho uma visão (a cores) para António Reis:
sigo por um caminho velho, sob um azul forte. Ao longe, há uma povoação dos meus contos infantis e, indistintamente, de uma gravura antiga. O pó levanta-se atrás de mim, para onde vejo, e ouve-se o malhão. Se parar, cessará imediatamente, sei-o de um pavor anterior à visão. Nesse silêncio, ouvir-se-á o matraquear da Hermes 2000, que vem de cima e está fora de campo, embora se ouça ininterruptamente. O azul vai-se pondo, e quando regresso - trôpego, com a madrugada - mantém-se ao longe o arraial para onde vou.»*
sigo por um caminho velho, sob um azul forte. Ao longe, há uma povoação dos meus contos infantis e, indistintamente, de uma gravura antiga. O pó levanta-se atrás de mim, para onde vejo, e ouve-se o malhão. Se parar, cessará imediatamente, sei-o de um pavor anterior à visão. Nesse silêncio, ouvir-se-á o matraquear da Hermes 2000, que vem de cima e está fora de campo, embora se ouça ininterruptamente. O azul vai-se pondo, e quando regresso - trôpego, com a madrugada - mantém-se ao longe o arraial para onde vou.»*
A Lua espreitava-nos por entre os cerros do Cercal ate à entrada de Odeceixe, onde ainda subsistem, heróicas e feridas – o presente dedica-se a correr o passado à pedrada – as placas que insistem em indicar as desactualizadas distâncias que já não me separam do Algarve.
Papiro do dia (409)
«Ele pensa calmamente: “Eu não deveria ter perdido o hábito de rezar.” Depois já não ouve os passos. Agora ouve unicamente os numerosos e intermináveis insectos, encostado à janela, respirando o cheiro quente e ricamente maculado da terra, pensando em como ele tinha amado a escuridão enquanto era jovem, um jovem que andava ou ficava sentado sozinho entre árvores, à noite. Depois o solo, as cascas das árvores, tornaram-se verdadeiros, selvagens, repletos, evocativos, estranhos e desgostosos meios prazeres e meios horrores. Tinha medo disso. Temia; amava tendo medo. Depois, um dia no seminário, descobriu que já não tinha medo. Era como se uma porta se tivesse fechado algures. Já não tinha medo da escuridão. Simplesmente a odiava; costumava fugir dela para a proximidade de paredes, para a luz artificial. “Pois é”, pensa ele, “eu nunca deveria ter perdido o hábito de rezar.” Afasta-se da janela. Uma das paredes do escritório está forrada de livros. Pára em frente a eles, procurando até encontrar aquele que procura. É de Tennyson. Está deformado por um uso abundante. Tem-no desde o tempo do seminário. Senta-se debaixo do candeeiro e abre-o. Não demora muito. Em breve a linguagem fina e galopante, o definhar desvitalizado repleto de árvores sem seiva e luxúrias desidratadas começa a pairar meloso, veloz e pacífico. É melhor do que rezar, sem se dar ao trabalho de pensar em voz alta. É como ela não tivesse estado à espera de fazer tanto barulho ao falar.»
[William Faulkner, Luz em Agosto; trad. Jorge Telles de Menezes, Bibliotex, 2003]
13 de maio de 2013
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