4 de maio de 2013
Às vezes, lá calha...
«Era como se ele não pudesse destrinçar entre si a religião e aquela cavalaria a galope, e o seu avô morto em cima de um cavalo a galope, mesmo quando estava no púlpito.»
(William Faulkner)
[a trote]
Nem sempre a lápis (364)
até Jajouka
(2006)
24. «O Herberto foi um tiro no escuro», tive oportunidade de o afirmar publicamente numa entrevista ao semanário Expresso, apesar das tentativas de censura e manipulação de alguns censores. Censores que nem pertenciam à secção Livros, mas consideraram, junto do influenciável e desautorizado editor dessa secção e a passividade do entrevistador, que eu não merecia a risível importância que, segundo pretendiam, esse espaço me concedia. Nessa altura, o formato do suplemento dispensava duas páginas para a entrevista, acompanhada da respectiva foto do autor e um texto de recensão crítica ao livro que a motivara. Como se sabe, a importância, o destaque das recensões de livros ou entrevistas aos autores medem-se, cada vez mais, pela dimensão da foto, uma saída expedita para condicionar a dimensão e o conteúdo ou a falta de conteúdo do texto. Considerando que o meu era francamente grande, reduziram a fotografia a uma dimensão tipo passe – aproveito a oportunidade para agradecer. Independentemente da legitimidade desses censores, é para isso que eles existem e poderem decidir a quem dar importância ou não, ninguém me tira da cabeça que o incómodo da famigerada entrevista que insistiram em fazer-me – e a que acedi para não ser acusado de pretensioso, tendo o cuidado de repetir, quando a entreguei definitivamente revista ao entrevistador, para não se sentir obrigado a publicá-la –; admito que o incómodo era ainda por cima agravado pelo facto de recordar que Herberto Helder recusou o Prémio Pessoa, como se sabe instituído pelo Expresso, sendo o júri integrado por um dos mais intransigentes censores à publicação da minha linear entrevista. [Cf. A cicatriz do ar]
Desconheço, e francamente não me interessa, qual possa ser a situação económica do Herberto, mas não tenho a menor dúvida de que será significativamente inferior ao desafogo de alguns anteriores e posteriores premiados que, além de não cometerem a deselegância (como então se rosnou, entre dentes) do Herberto ao recusar o prémio em si, tiveram a elegância de amealhar o pecúlio em vez de doá-lo a uma qualquer instituição, perdendo a oportunidade de colherem mais lucros com a altruísta atitude. O repugnante excesso de elegância parola que nos tem caracterizado ao longo dos tempos, agravada desde que nos convertemos numa ridícula e regateira excrescência da Europa comunitária, só poderia merecer a recusa e, possivelmente, a repugnância do Herberto pela atribuição de um prémio destinado a reconhecer-lhe a unanimidade de uma importância há muito reconhecida pela sua exemplar integridade, que ultrapassa a associativa capacidade de avaliação e consequente policiamento de qualquer júri.
Mas o importante, quando me lembrei da frase que me levou a escrever sobre o Herberto, era o Herberto Helder em si e a influência que a sua escrita exerceu sobre mim, sem que alguma vez tivesse sentido necessidade de o matar – ouvi alguns órfãos afirmá-lo, estupefacto. Posso ser, habituei-me a ser acusado de tudo e mais alguma coisa, mas nunca por não ter sabido escolher a dedo os autores que, necessariamente, influenciam um jovem autor. E se no meu caso a lista não prima pela extensão, orgulho-me de ter sido liderada pelo Herberto durante os anos que considero primordiais e determinantes. Ainda em Mortágua consegui adquirir (não sei como) os dois volumes da edição prateada da Poesia Toda. Precisava de ler um texto, um poema ao acaso, para escrever como o Herberto me ensinava que, a ter de ser, então que o fizesse assim. Mas, se fui rapidamente contaminado por aquela ressonância vulcânica, quando tive oportunidade de conhecê-lo pessoalmente, de ouvi-lo entre fascinado e inibido pela proximidade de me sentar à mesa dele no esgotado café Monte Carlo, em vez de qualquer veneração clubista ou pulsão parricida, creio ter sabido ler-lhe muito mais rapidamente a atitude em relação à vida e, sobretudo, em relação à literatura ou à coisa escrita. Decorreram uns bons anos, entre o fascínio e a inibição do Monte Carlo e a naturalidade com que, cada vez mais raramente, nos encontramos no seu refúgio ao cimo das Escadinhas do Duque, como se nos tivéssemos beijado e bebido uma água no dia anterior.
Curiosamente, a aprendizagem com o Herberto desenvolveu-se em simultâneo com a ministrada pelo Álvaro Lapa, que conheci praticamente quando se metamorfoseava para encarnar o místico Abdul Varetti que, pouco tempo depois, acabaria por esturricar de tal maneira ao sol nas falésias de Porto de Mós, no Algarve, que só viria a recuperar-se alguns anos mais tarde, no Porto, onde morreu.
Fui mais íntimo, passe a expressão, do Lapa do que do Herberto: conversámos mais e fumámos outro tanto, frente a um gravador capaz de captar o espectro de uma paleta que não fazia cedências a qualquer hipotética harmonia das cores e das formas, e a pobreza (não confundir com arte povera) ou a frugalidade dos suportes, onde exercia a estética de uma pintura cerebral e autodidacta (como a minha), repercutiu-se necessária e fundamentalmente na que pratico quando me encontro suficientemente lúcido e com os olhos bem fechados. Além do vazio da sua ausência, apesar de já não nos vermos há alguns anos, uns perdi e outros conservo como exercícios essenciais que continuam a ensinar-me como nunca se deve pintar. Conhecendo-lhe suficientemente as técnicas, e só as técnicas, a única vez que procurei imitá-lo foi para me recompor da frieza tecnológica de uma sms a comunicar que o Vareta tinha morrido.
A revolução a que já fiz referência – a que tive a sorte e a felicidade de assistir, e o azar e a infelicidade de ver como tem vindo a ser sufocada, como se as pessoas tivessem vergonha, se sentissem culpadas – proporcionou-me um contacto muito próximo (pelo facto de ser jornalista, estreando-me, precisamente, no Expresso) com uma considerável movimentação de artistas das chamadas vanguardas. Por artes mágicas e devido a um notável faro, a um notável sentido de oportunidade do tipo, agora ou nunca!, do Ernesto de Sousa – justiça lhe seja feita –, no final dos anos setenta passaram por Lisboa Wolf Vostell, Gina Pane, Ulrich Rosenbach, entre outros, que despertaram artistas locais revelados com essa verdadeira pedrada no charco que foi a Alternativa Zero; o título é (foi) suficientemente esclarecedor para recusar qualquer tentativa de continuidade abastardada.
Entretanto, há muito que me afastei desse mundo (liliputiano) com que convivi excessivamente de perto, tanto como jornalista, como quando desempenhei não sei bem que funções na extinta Direcção-Geral da Acção Cultural da Secretaria de Estado da Cultura, serviço cujo nome oficial ocupa quase uma linha e não disponho de espaço, nem disposição para descrever. A última exposição que vi, deslocando-me de autocarro a Lisboa, como que impelido por um indescritível presságio, foi precisamente o balanço que o Lapa julgo ter feito da sua obra. Logo à entrada da galeria, destacava-se um quadro de um museu imaginário, se não estou em erro, onde reproduzia o quadro com que tomei conhecimento da sua pintura, publicado a preto e branco no «Suplemento Literário» do Diário de Lisboa, que me fez ir muitas vezes observá-lo, bebê-lo, na montra da Livraria Buchholz. Voltei a vê-lo numa pequena exposição denominada artistas de Lagos ou que passaram por Lagos. O título não é importante, nem a minha falha de memória desprestigia a (para mim, comovente) iniciativa.
Sem pretender a impossível veleidade que muitos pretendem de já ter visto tudo e de tudo, até porque tudo quanto vejo é falso, recordo a história vendida por um dos pantomineiros de serviço no Monte Carlo, a propósito de um pintor que se queixava de ter levado forte e feio da crítica e terá desabafado: «Eu bem sei que não sou nenhum Leonardo Da Vinci, mas esta merda também não é a Itália do Renascimento.»
Papiro do dia (406)
«Descendo logo do comboio num estado de excitação, falando, contando aos homens e às mulheres de idade que eram os pilares da igreja, como a sua mente desde o primeiro momento já estava orientada para Jefferson, desde que decidira tornar-se um pastor, contando-lhes, com uma espécie de contentamento, acerca das cartas que tinha escrito, das preocupações que causara, e das influências que usara para ser chamado para aqui. Para as pessoas da cidade aquilo soava como a alegria de um negociante de cavalos a propósito de um negócio rentável. Talvez fosse assim que aquilo soasse para os mais velhos. Porque eles o escutavam com alguma frieza, espanto e dúvida, visto que ele dava a entender que era a cidade que ele queria servir. Como se ele não se importasse com as pessoas, as pessoas vivas, com saber se elas o queriam ou não. E como ele também era jovem, os homens e as mulheres de idade tentaram rebater a sua jovial excitação com assuntos sérios da igreja, da responsabilidade desta e dele próprio. E eles contaram a Byron como o jovem pastor ainda andava excitado, mesmo após seis meses, falando ainda da Guerra Civil e do seu avô, um homem de cavalaria que fora morto, e dos armazéns do General Grant ardendo em Jefferson, até tudo se tornar absurdo. Eles contaram a Byron como ele parecia falar do mesmo modo também quando estava no púlpito, selvagem também no púlpito, usando a religião como se ela fosse um sonho. Não um pesadelo, mas qualquer coisa que andava mais rápido do que as palavras do Livro; uma espécie de ciclone que nem sequer necessitava de tocar na verdadeira terra. E os homens e as mulheres de idade também não gostaram daquilo.»
[William Faulkner, Luz em Agosto; trad. Jorge Telles de Menezes, Bibliotex, 2003]
1 de maio de 2013
Breves notas sobre o bolo de tacho
É muita ode, minha louca!
Arrefece praí que tou mesmo à rasca
Olha-me estas encomendas...
e o gajo do polvo ali ao fundo, bonito
Sendo assim, venham mais duas
... mas de porco, destas são capazes de ser um bocado pesadas
30 de abril de 2013
Às vezes, lá calha...
«El Tánger que Bowles y sus compatriotas evocaban era el del paraíso perdido, el del mito creado por ellos y para ellos, no para quienes, como Chukri, habían crecido y vivido en la miseria magistralmente descrita en El pan a secas (la traducción española de El pan desnudo no significa cosa en nuestra lengua).»
Nem sempre a lápis (363)
até Jajouka
(2006)
23. Subitamente, à medida que me vou recompondo da viagem a Mortágua, vejo-me obrigado a reconhecer que já não devoro quilómetros com o mesmo apetite com que fazia Lisboa / Madrid e Lisboa / Barcelona parando apenas o estritamente necessário (...)Subitamente, apercebi-me de que nunca escrevi nada que sentisse tão exterior como o que tenho vindo a escrever. Exterior a mim mesmo, como um texto que tenho vindo a traduzir e terei, necessariamente, de reler e rever, e cuja única diferença que o separa do texto traduzido consiste em não ter de cumprir uma data e poder entregar-me a ele sempre que me apeteça; poder esquecê-lo. (...) E tendo começado por afirmar que nunca escrevi nada que sentisse tão exterior como o que tenho vindo a escrever, suponho que essa exterioridade se deve a uma desencantada e possível necessidade de quebrar um certo silêncio comigo mesmo, animado pelo inconsequente anonimato de poder fazê-lo como se eu fosse o meu último leitor. Não o que escreve para me ler, mas o que me lê para que deixe de escrever.Papiro do dia (405)
«As minhas mãos estavam tão geladas que eu mal conseguia virar as páginas do livro que andava a ler, Luz em Agosto, como já disse. Comprara-o na pequena livraria inglesa da rue du Seine, em Paris, certa de que ia gostar dele, porque tinha adorado O Som e a Fúria, mas afinal não era de todo o meu tipo de livro. Mesmo assim, guardei-o estes anos todos, emalei-o e desemalei-o nem sei quantas vezes. E, curioso, isso nunca pareceu aborrecer-me até agora. Não é só Luz em Agosto que me parece aborrecido agora, são todos os meus livros. Ou talvez não sejam os livros que são aborrecidos, mas sim as recordações: emalar, desemalar.»
[Sam Savage, As recordações de Edna; trad. Sofia Gomes, Planeta, Janeiro 2013]
27 de abril de 2013
Às vezes, lá calha...
«Tirou do bolso um pedaço de papel sujo e um coto de lápis roído e, inclinado sobre a berma da varanda, onde ele escreve, penosa e apressadamente, enquanto a negra o observa.»
(William Faulkner)
Nem sempre a lápis (362)
até Jajouka
(2006)
Papiro do dia (404)
25 de abril de 2013
23 de abril de 2013
22 de abril de 2013
21 de abril de 2013
Às vezes, lá calha...
«Não que haja muitas ideias, naturalmente, porque você não se atreve a pensar. Faz seja lá o que for para não pensar.»
(Aldous Huxley)
Nem sempre a lápis (361)
até Jajouka
(2006)
21. A ansiedade que antecede a partida só é comparável à do regresso. À medida que preparo as coisas e anseio por ir até Jajouka, não estarei apenas ansioso por regressar ao Monte Alto? (...) Entre as melhores maneiras de regressar, não duvido de que uma delas é, com toda a certeza, a partir de um livro que se descobriu ou relê com emoção; entregarmo-nos à escrita sem que ela pressuponha necessariamente um livro. Ou, precisamente porque o não pressupõe, muito menos ainda a necessidade de outro destinatário.
«A tarde está calma
porque sob esse ângulo – o de enriquecer o esquecimento –, os nomes são iguais.»
Papiro do dia (403)
«Queres decifrar o teu pensamento antigo, mas, para isso, à tua disposição só tens os teus próprios pensamentos. E agora eles estão mais velhos, como que perderam dimensão física: altura, largura, comprimento; perderam ainda elasticidade, agilidade de salto, capacidade para, rastejando, ver o que está em cima e para, saltando, ver o que encontrou já o seu melhor lugar em baixo. De pernas trôpegas, o pensamento tenta perceber porque começou a correr, de onde veio o primeiro impulso, o impulso original, e para onde se dirigia esse movimento. Sem obterem resposta, os teus pensamentos esquecem o julgamento da sua própria biografia e, como prostitutas que há muito perderam vigor e capacidade de atracção, abandonam-se em cadeiras, desleixados. E em vez de escolherem o objecto da sua acção, aceitam ser escolhidos; e hoje, agora, como prostitutas num bordel decadente, os teus pensamentos já se contentam (e como!) quando um velho os escolhe.»20 de abril de 2013
19 de abril de 2013
18 de abril de 2013
Às vezes, lá calha...
«Já tivera momentos altos na vida. Uma vez, de noite, andando pelo parque à chuva no Outono. Uma outra, no deserto, sob as estrelas, quando rodei com a Terra em torno do seu eixo.»
(Ursula K. Le Guin)
Nem sempre a lápis (360)
até Jajouka
(2006)
16 de abril de 2013
14 de abril de 2013
13 de abril de 2013
12 de abril de 2013
Nem sempre a lápis (359)
até Jajouka
(2006)
19. Julgo ter cometido um erro de palmatória, quando pedi para imprimirem estas cinquenta e tal folhas, irreconhecíveis e desmotivadoras, que me observam aqui ao lado. (...) Admito que possa parecer paradoxal, contraditório que, depois de anos a fio a recusar-me a ler ou rever directamente no monitor, exigindo uma rápida e urgente impressão do que tivesse escrito, agora considere um erro de palmatória, insisto, ter imprimido o que tenho vindo a repetir, a citar-me, e pretendo, na medida do possível, que continue privado dada a impossibilidade de permanecer anónimo. (...) E à medida que as pinhas pegam e o carvão começa a crepitar, na estrada, atrás do eucaliptal ao lado ouvem-se passar camiões fúnebres carregados com os derradeiros troncos de pinheiro, a verdadeira mancha verde que caracterizava e era a principal indústria de Mortágua. Desse passado, resta uma estrada – que julgo única e entregue ao livre trânsito das ervas daninhas – com a faixa descendente de paralelepípedos, para que as pesadas rodas dos carros de bois não cortassem o alcatrão quando a desciam para trazer os troncos para as serrações, hoje entregues ao esquecimento e vandalizadas pelo tempo, que optou pelo lucro fácil e duvidoso do eucalipto, fertilizado por um número crescente de incêndios.
(2006)
Olho para o meu sobrinho neto e – por mais que tente, por mais que me esforce por não lhe estorvar a liberdade de quem está a ser – não consigo deixar de pensar: como será uma geração que perdeu, que não chegou a conhecer a alegria ancestral de talhar barcos à navalha em carcódoas de pinheiro?
Papiro do dia (401)
«Noël veio fazer uma inspecção. Havia só dois prisioneiros na enfermaria: Michaels e o homem em coma. Falámos sobre Michaels, em voz baixa, apesar de ele estar a dormir.
– Ainda o podia salvar se usasse um tubo – disse eu a Noël –, mas não quero forçar ninguém que não tenha desejo de viver. Os regulamentos são bastante claros: proibida a alimentação forçada; proibido o prolongamento forçado da vida; proibida a publicidade à greve de fome.
– Quanto tempo lhe resta de vida? – perguntou Noël.
– Talvez duas ou três semanas – respondi.
– Pelo menos, é um fim tranquilo – observou ele.
– Não – disse eu –, é um fim doloroso e bem desgraçado.
– Não há qualquer injecção que lhe possa ministrar?
– Para acabar com ele?
– Não, não quero dizer isso. Apenas para lhe facilitar o fim.
Eu recusei-me a tal. Não quero assumir essa responsabilidade enquanto houver possibilidade de Michaels mudar de ideias. E a conversa ficou por aí.»
[J. M. Coetzee, A vida e o tempo de Michael K; trad. Ricardo Fernandes, Bibliotex Editor 2003;
mais ou menos assim]
mais ou menos assim]
9 de abril de 2013
8 de abril de 2013
7 de abril de 2013
5 de abril de 2013
Às vezes, lá calha...
«Não há mais nada para a gente se entreter. Ora, se estamos presos deixemo-nos ficar. Não vale a pena disfarçar.»
(J. M. Coetzee)
Nem sempre a lápis (358)
até Jajouka
(2006)
Papiro do dia (400)
«K nunca chegou a descobrir quem esfaqueou o guarda ou se este chegou a recuperar, pois esta foi a sua última noite no acampamento. Meteu os seus haveres no casaco preto, esgueirou-se silenciosamente para o exterior do acampamento e ocultou-se atrás da cisterna, aguardando que fossem todos para a cama e as últimas cinzas se apagassem, até que tudo mergulhou em silêncio, à excepção do vento que soprava sobre a planície. Esperou mais uma hora, tremendo de frio, por não fazer qualquer movimento. Depois, descalçou os sapatos, pendurou-os ao pescoço, deslizou na ponta dos pés até à cerca de arame junto das latrinas, atirou a trouxa para o outro lado, e trepou. Houve um momento em que, ao transpor a barreira, as calças se lhe prenderam no arame farpado, e ele foi um alvo fácil no azul prateado, mas desembaraçou-se e seguiu em bicos de pés num chão surpreendentemente igual ao do acampamento.»
[J. M. Coetzee, A vida e o tempo de Michael K; trad. Ricardo Fernandes, Bibliotex Editor 2003;
4 de abril de 2013
3 de abril de 2013
1 de abril de 2013
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