[lá para Setembro, se correr bem]
10 de maio de 2013
8 de maio de 2013
Às vezes, lá calha...
«O olhar dele tornou-se quase humano e começou a olhar em volta do quarto, como se nunca tivesse contemplado antes um quarto de mulher: um quarto fechado, quente, desarrumado, com um suave odor feminino.»
(William Faulkner)
[cusco]
Nem sempre a lápis (365)
até Jajouka
(2006)
25. E de repente, bloqueio. Abro o e-mail, onde um link me direcciona para o blogue da frenesi [entretanto desactivado] e bloqueio, literalmente soterrado por uma imagem vagamente esquecida; tenho uma cópia mas não faço a menor ideia por onde possa andar. A foto fala por si, e pode ler-se nas expressões dos artistas, como nos chamou o artista que fez questão de posar connosco para a posteridade, o que ela nos reservou.
«Inverno de 1975 – De pé: o desenhador Nuno Tabaquinho, um desconhecido ocasional à hora do “metro operário”, Jorge Fallorca o portador do estandarte lendário. Na primeira linha: João Ruas, António Coelho, ou Tó Coelho (falecido recentemente), Paulo da Costa Domingos.»(2006)
25. E de repente, bloqueio. Abro o e-mail, onde um link me direcciona para o blogue da frenesi [entretanto desactivado] e bloqueio, literalmente soterrado por uma imagem vagamente esquecida; tenho uma cópia mas não faço a menor ideia por onde possa andar. A foto fala por si, e pode ler-se nas expressões dos artistas, como nos chamou o artista que fez questão de posar connosco para a posteridade, o que ela nos reservou.
Segundo o horário estabelecido na legenda, a foto documenta uma habitual directa de charros e muita criatividade, do lado oposto de uma estação de metro que já não existe ou sufocaram-lhe o grito. Suponho ter sido tirada pela Margarida Lagarto, a musa inspiradora do Tabaquinho. Conduzia-o à trela e ele aproveitava a ausência dessa fada mazinha da casa onde vivíamos – onde sobrevivíamos – na rua Gomes da Silva, ao bairro do Arco do Cego, para se vingar da imagem que cultivavam, como um puto mimado e mal-educado. Até fazia dó. Corneava-a como um obsessivo, com toda e qualquer vassoura de saias, na alcova artística donde pretendiam transmitir a imagem de uma relação obviamente diferente dos flutuantes residentes e frequentadores desse sótão. Muitas vezes, quando entrávamos éramos obrigados a fazer uma autêntica gincana entre sacos-cama que ressonavam ao cimo da escada e no corredor; a fazer ouvidos de mercador aos gemidos dos casais que apareciam por lá especificamente para dar uma foda que, por vezes, partilhavam reconhecidos com a famosa hospitalidade da malta da Gomes da Silva. Mas na Gomes da Silva não se swingava, tínhamos apenas aquele swing natural de estarmos permanentemente pedrados.
Olhando a foto, confronto-me com uma torrente de imagens que me interrompem o curso do texto. Não sei se comece pela casa, o sótão – que durante algum tempo explorou a fama de ter dado guarida ao Vaneigem ou outro dos situacionistas que vieram fazer turismo político até ao 25 de Abril – numa altura (o famoso Verão quente) em que tudo o que eu pretendia era voltar as costas a uma encruzilhada. (...) Francamente, não sei por onde começar, ou até mesmo se deva começar, porque «ainda hoje há algo de ilusionista e ilusório na relação com o tempo e o espaço quando viajamos e é por isso que, cada vez que regressamos, não temos bem a certeza de termos realmente estado fora», recorda-me Austerlitz. É certo que quando regresso sinto-me ainda mais estupefacto por encontrar tudo absolutamente na mesma, como se permanecesse estagnado e alheio ao tempo em que me excluí.
Na Gomes da Silva, como era familiarmente denominado esse sótão no bairro do Arco do Cego, quando me mudei para lá ainda era palpável o conflito entre a memória de comunidade deixada pelo clã que a particularizara e os costumes impostos pelos novos bárbaros. Uma das coisas que me surpreendeu, e surpreendia quem lá ia, era que as portas de cada quarto, de cada cela, estivessem fechadas a cadeado, em flagrante desrespeito pela privacidade de uma porta fechada; à chave ou não. Enquanto o Tó Coelho, por exemplo, assegurava a continuidade dessa memória sem cadeados, o João Ruas, que nunca cheguei a perceber quem era na realidade, rapidamente viria a desempenhar o papel de guru, trazido pela mão do Tabaquinho e especialmente receptivo a guias culturais e novidades. Sobretudo as importadas e ainda a cheirar a carimbo no passaporte, na medida do possível vindas de Paris e observadoras in loco do Maio de 68.
Mas talvez seja melhor pegar em cada um dos artistas e tentar descrevê-los tal como os via ou nos vemos, naturalmente disfarçados, tanto mais que sou o autor do texto.
O estudante de Belas-Artes Nuno Tabaquinho, ilustrou o hors-texte do meu primeiro livro (Imitação da Morte dos Outros) com capa do Carlos Ferreiro editado pela & etc., praticamente na véspera de abandonar a Gomes da Silva de braço dado com a Olga e o nosso filho na barriga, decidido a meio dos Concertos para 2 Cravos, J. S. Bach. Contam-se pelos dedos de uma mão, e sobrarão, as vezes que voltei a vê-lo. Retenho apenas duas situações: um encontro num restaurante de Entre Campos, onde a neblina do álcool me impedia de ver como ele se debatia com uma manada de garranos nas veias; e um pouco mais tarde, quando já libertado das miragens etílicas, o vi tentar abrir-me a porta do carro para me cravar uma nota, que eu também não tinha, num semáforo da mesma zona da cidade. Muitos anos depois, parámos acidentalmente em Estremoz para beber uma bica numa pastelaria. Dando-nos a entender que nutria por ele uma condescendente ternura, a empregada não nos soube dizer se concretizara ou não o projecto de ir dar aulas para São Tomé – decisão a que (também) não era alheia a tentativa de continuar ou finalmente comer uma ex-colega da Olga, visita lá de casa –, acrescentando, com aquela naturalidade alentejana a quem não perguntou mais nada, «que ele estava muito melhor, embora tivesse dias que era uma pena. Mas sempre muito brincalhão», fez questão de frisar.
A segunda figura, o verdadeiro artista, não faço, nem nenhum de nós fazia a menor ideia de quem fosse. Recordo-me apenas que o metro estava ainda consideravelmente vazio àquela «hora operária», o que talvez nos tenha permitido entrar na estação devidamente caracterizados, e ele terá visto a possibilidade de chegar ao emprego, impecavelmente penteado e com o jornalinho dobrado, com uma belíssima história para contar aos colegas: que tinha entrado num anúncio?, num filme?, num beco sem saída? Não faço ideia e lamento que não tivesse podido levar uma cópia da foto para provar aos colegas que era verdade o que dizia, mas não teria evitado que lhe fizessem a cabeça em água durante algum tempo, até ele mesmo, admito, começar a duvidar se pousou ou não na foto onde o vemos.
É o único que não está disfarçado, o único que não faz de conta, ao contrário de mim, por exemplo, que me encontro devidamente disfarçado de funcionário público e identificado com o cartão da Emissora Nacional – ou seria já RDP, onde continuei mais de uma dezena de anos a fazer de conta? – na lapela de um casaquinho de ganga oferecido pelo Ferreiro em Paris, fazendo questão de não abrir o bico; tudo o que tinha a dizer resumia-se a um premonitor balão em branco.
Eles que escrevam, eles que digam.
Na primeira linha de baixo, com a sua proletária samarra e uma oportuna pala de pirata num olho, que não me lembro se já trazia com ele ou não, o João Ruas, acocorado com umas blue-jeans e botas caneleiras que não vemos, num antecipação filosófica de Bruce Springsteen dos anos setenta. Poucas semanas depois fomos a Paris, fornecendo eu o carro e uma quota-parte para o Ruas comprar erva, que se encarregou de vender e fumar aos e com os amigos, e eu estafei a minha percentagem com uma artista de St. Denis e uma série de livros, discos e tabaco de cachimbo que me tinha ficado no goto quando lá estive em Setembro de 74, em casa do Ferreiro.
Nunca fui grande espingarda para os negócios, é um facto. Cedi o carro, prensámos mais de um quilo de erva numa espécie de bolacha, de pizza a tresandar a resina na oficina do meu pai, quando passámos por Mortágua a caminho de Vilar Formoso. Na fronteira, havia fronteiras, o Nuno foi interrogado pela polícia por causa do irmão – Armando Tabaquinho; deu-lhe para aderir às BR’s e auto-proclamava-se desertor na Gomes da Silva, só saía à noite para ir beber copos no Pote e na Munique – correndo o risco de irmos todos de cana. O Nuno, sempre brincalhão, resolveu responder à bófia, com os olhos fosforescentes e os bolsos cheios de erva para a viagem, que mesmo que soubesse onde estava o irmão não lhes dizia.
Creio ser todo o seu curriculum revolucionário.
Quando finalmente passámos a fronteira a proeza foi elogiadíssima pelo Ruas, que enrolava charros com uma mão e conduzia com a outra, enquanto eu, encolhido no banco de trás do meu velho VW (parecia retirado de uma página do Crumb) e a cabeça apoiada na almofada de erva o ouvia dissertar sobre Vaneigem, Cohen-Bendit, dizendo que Assim falava Zaratustra, e eu acreditei, quem era eu para pô-lo em dúvida?, enquanto o Nuno cofiava o bigode – não o da foto, o real – e o seguia deslumbrado e eu francamente cansado. Foi tal a canseira que nunca mais nos vimos. Foi como veio, retendo dele apenas o zumbido contínuo da palestra ou seminário em que converteu a viagem, quando não dormia e eu conduzia silenciosamente a saborear a pedra; a viagem.
O melhor disfarce do Tó Coelho era a ironia. No Inverno usava um sobretudo apertado até ao pescoço, que lhe dava um inconfundível ar de almotolia, e é dele a autoria da frase que transcrevi lá para trás, quando a erudição começava a rançar e a estragar o bom da pedra: «Eu já disse isto tantas vezes, que também já me posso citar a mim mesmo.» Nunca fomos especialmente próximos, e nunca mais o vi desde que desertei da comunidade, embora o Paulo me fosse dando notícias quando me lembrava de perguntar por ele, obrigando-me a ligar-lhe para explicar a razão do parêntesis na legenda. Morte macaca, contrariando todos os prognósticos que lhe podiam pôr a saúde em dúvida, mas não o fim que não merecia a justiça de lhe utilizar a citação.
Finalmente o Paulo, com uma camisola que comprei ao Tabaquinho e ele adorava vestir quando íamos dar uma volta muito pedrados e punha a cabeça de fora do VW para arejar a juba, enquanto me concentrava ao volante para tentar não amarrotar aquela autêntica página de banda desenhada por entre o trânsito. Conheci-o ainda na Mãe d’Água, onde nasceu e crescia a revista & etc., numa das minhas viagens de contacto – na altura tinha acabado a tropa e fazia de conta em Estremoz – com a grande cidade e os escritores. Estava ansioso por conhecer escritores, pintores, artistas, críticos, chupa-tintas, jornalistas, pantomineiros, etc. Queria ser como eles. Felizmente, como o acesso (aparentemente) era mais fácil pelo & etc., entrei depressa nos eixos. A segunda vez, encontrámo-nos, acidentalmente, na esplanada do Pão de Açúcar, na Alameda, com uma djellaba a cheirar a Tânger e o hálito de um charro afegão que me dispensava as palavras. Depois de tudo o que passámos e fizemos juntos, ele era das poucas pessoas com quem podia estar mais de um ano sem nos vermos ou falarmos, e quando nos encontrávamos, satisfeita a natural verborreia inicial, era possível deixar pousar um silêncio sem que ele tivesse necessidade de tirar a venda kamikaze, nem eu precisasse de sujar o balão em branco.
Papiro do dia (407)
«A memória acredita antes de o conhecimento poder recordar. Acredita durante mais tempo do que ela se lembra, durante tanto tempo que até espanta o conhecimento. Ela conhece, lembra-se, acredita num corredor povoado de ecos gélidos, de um enorme e longo edifício com empenas, feito de tijolos vermelhos escuros, batido pela fuligem de muitas chaminés para além da sua própria, situada por trás de uma cerca num terreno sem relva cheio de resíduos de escória, cercado pelos confins de fábricas fumarentas e vedado por uma barreira de arame e aço, como uma penitenciária ou um jardim zoológico, e onde surgem, num acaso errático, órfãos vestidos com fardas idênticas de sarja azul, soltando os seus agudos palrares infantis, entrando e saindo das recordações, mas constantes no conhecimento, tal como os muros ermos e as janelas solitárias onde a chuva parece tracejar lágrimas negras com a fuligem das chaminés vizinhas.
No corredor vazio e tranquilo, durante a hora da sesta, ele era como uma sombra, pequeno até para os seus cinco anos, sóbrio e calmo como uma sombra. Ninguém poderia dizer por onde é que ele se tinha sumido, por trás de que porta, para dentro de que quarto. Mas a esta hora não havia mais ninguém no corredor, e ele sabia disso. Já fazia isto há quase um ano, desde o dia em que descobrira acidentalmente a pasta dentífrica que a dietista usava.»
[William Faulkner, Luz em Agosto; trad. Jorge Telles de Menezes, Bibliotex, 2003;
pasta medicinal escroto]
pasta medicinal escroto]
7 de maio de 2013
5 de maio de 2013
4 de maio de 2013
Às vezes, lá calha...
«Era como se ele não pudesse destrinçar entre si a religião e aquela cavalaria a galope, e o seu avô morto em cima de um cavalo a galope, mesmo quando estava no púlpito.»
(William Faulkner)
[a trote]
Nem sempre a lápis (364)
até Jajouka
(2006)
24. «O Herberto foi um tiro no escuro», tive oportunidade de o afirmar publicamente numa entrevista ao semanário Expresso, apesar das tentativas de censura e manipulação de alguns censores. Censores que nem pertenciam à secção Livros, mas consideraram, junto do influenciável e desautorizado editor dessa secção e a passividade do entrevistador, que eu não merecia a risível importância que, segundo pretendiam, esse espaço me concedia. Nessa altura, o formato do suplemento dispensava duas páginas para a entrevista, acompanhada da respectiva foto do autor e um texto de recensão crítica ao livro que a motivara. Como se sabe, a importância, o destaque das recensões de livros ou entrevistas aos autores medem-se, cada vez mais, pela dimensão da foto, uma saída expedita para condicionar a dimensão e o conteúdo ou a falta de conteúdo do texto. Considerando que o meu era francamente grande, reduziram a fotografia a uma dimensão tipo passe – aproveito a oportunidade para agradecer. Independentemente da legitimidade desses censores, é para isso que eles existem e poderem decidir a quem dar importância ou não, ninguém me tira da cabeça que o incómodo da famigerada entrevista que insistiram em fazer-me – e a que acedi para não ser acusado de pretensioso, tendo o cuidado de repetir, quando a entreguei definitivamente revista ao entrevistador, para não se sentir obrigado a publicá-la –; admito que o incómodo era ainda por cima agravado pelo facto de recordar que Herberto Helder recusou o Prémio Pessoa, como se sabe instituído pelo Expresso, sendo o júri integrado por um dos mais intransigentes censores à publicação da minha linear entrevista. [Cf. A cicatriz do ar]
Desconheço, e francamente não me interessa, qual possa ser a situação económica do Herberto, mas não tenho a menor dúvida de que será significativamente inferior ao desafogo de alguns anteriores e posteriores premiados que, além de não cometerem a deselegância (como então se rosnou, entre dentes) do Herberto ao recusar o prémio em si, tiveram a elegância de amealhar o pecúlio em vez de doá-lo a uma qualquer instituição, perdendo a oportunidade de colherem mais lucros com a altruísta atitude. O repugnante excesso de elegância parola que nos tem caracterizado ao longo dos tempos, agravada desde que nos convertemos numa ridícula e regateira excrescência da Europa comunitária, só poderia merecer a recusa e, possivelmente, a repugnância do Herberto pela atribuição de um prémio destinado a reconhecer-lhe a unanimidade de uma importância há muito reconhecida pela sua exemplar integridade, que ultrapassa a associativa capacidade de avaliação e consequente policiamento de qualquer júri.
Mas o importante, quando me lembrei da frase que me levou a escrever sobre o Herberto, era o Herberto Helder em si e a influência que a sua escrita exerceu sobre mim, sem que alguma vez tivesse sentido necessidade de o matar – ouvi alguns órfãos afirmá-lo, estupefacto. Posso ser, habituei-me a ser acusado de tudo e mais alguma coisa, mas nunca por não ter sabido escolher a dedo os autores que, necessariamente, influenciam um jovem autor. E se no meu caso a lista não prima pela extensão, orgulho-me de ter sido liderada pelo Herberto durante os anos que considero primordiais e determinantes. Ainda em Mortágua consegui adquirir (não sei como) os dois volumes da edição prateada da Poesia Toda. Precisava de ler um texto, um poema ao acaso, para escrever como o Herberto me ensinava que, a ter de ser, então que o fizesse assim. Mas, se fui rapidamente contaminado por aquela ressonância vulcânica, quando tive oportunidade de conhecê-lo pessoalmente, de ouvi-lo entre fascinado e inibido pela proximidade de me sentar à mesa dele no esgotado café Monte Carlo, em vez de qualquer veneração clubista ou pulsão parricida, creio ter sabido ler-lhe muito mais rapidamente a atitude em relação à vida e, sobretudo, em relação à literatura ou à coisa escrita. Decorreram uns bons anos, entre o fascínio e a inibição do Monte Carlo e a naturalidade com que, cada vez mais raramente, nos encontramos no seu refúgio ao cimo das Escadinhas do Duque, como se nos tivéssemos beijado e bebido uma água no dia anterior.
Curiosamente, a aprendizagem com o Herberto desenvolveu-se em simultâneo com a ministrada pelo Álvaro Lapa, que conheci praticamente quando se metamorfoseava para encarnar o místico Abdul Varetti que, pouco tempo depois, acabaria por esturricar de tal maneira ao sol nas falésias de Porto de Mós, no Algarve, que só viria a recuperar-se alguns anos mais tarde, no Porto, onde morreu.
Fui mais íntimo, passe a expressão, do Lapa do que do Herberto: conversámos mais e fumámos outro tanto, frente a um gravador capaz de captar o espectro de uma paleta que não fazia cedências a qualquer hipotética harmonia das cores e das formas, e a pobreza (não confundir com arte povera) ou a frugalidade dos suportes, onde exercia a estética de uma pintura cerebral e autodidacta (como a minha), repercutiu-se necessária e fundamentalmente na que pratico quando me encontro suficientemente lúcido e com os olhos bem fechados. Além do vazio da sua ausência, apesar de já não nos vermos há alguns anos, uns perdi e outros conservo como exercícios essenciais que continuam a ensinar-me como nunca se deve pintar. Conhecendo-lhe suficientemente as técnicas, e só as técnicas, a única vez que procurei imitá-lo foi para me recompor da frieza tecnológica de uma sms a comunicar que o Vareta tinha morrido.
A revolução a que já fiz referência – a que tive a sorte e a felicidade de assistir, e o azar e a infelicidade de ver como tem vindo a ser sufocada, como se as pessoas tivessem vergonha, se sentissem culpadas – proporcionou-me um contacto muito próximo (pelo facto de ser jornalista, estreando-me, precisamente, no Expresso) com uma considerável movimentação de artistas das chamadas vanguardas. Por artes mágicas e devido a um notável faro, a um notável sentido de oportunidade do tipo, agora ou nunca!, do Ernesto de Sousa – justiça lhe seja feita –, no final dos anos setenta passaram por Lisboa Wolf Vostell, Gina Pane, Ulrich Rosenbach, entre outros, que despertaram artistas locais revelados com essa verdadeira pedrada no charco que foi a Alternativa Zero; o título é (foi) suficientemente esclarecedor para recusar qualquer tentativa de continuidade abastardada.
Entretanto, há muito que me afastei desse mundo (liliputiano) com que convivi excessivamente de perto, tanto como jornalista, como quando desempenhei não sei bem que funções na extinta Direcção-Geral da Acção Cultural da Secretaria de Estado da Cultura, serviço cujo nome oficial ocupa quase uma linha e não disponho de espaço, nem disposição para descrever. A última exposição que vi, deslocando-me de autocarro a Lisboa, como que impelido por um indescritível presságio, foi precisamente o balanço que o Lapa julgo ter feito da sua obra. Logo à entrada da galeria, destacava-se um quadro de um museu imaginário, se não estou em erro, onde reproduzia o quadro com que tomei conhecimento da sua pintura, publicado a preto e branco no «Suplemento Literário» do Diário de Lisboa, que me fez ir muitas vezes observá-lo, bebê-lo, na montra da Livraria Buchholz. Voltei a vê-lo numa pequena exposição denominada artistas de Lagos ou que passaram por Lagos. O título não é importante, nem a minha falha de memória desprestigia a (para mim, comovente) iniciativa.
Sem pretender a impossível veleidade que muitos pretendem de já ter visto tudo e de tudo, até porque tudo quanto vejo é falso, recordo a história vendida por um dos pantomineiros de serviço no Monte Carlo, a propósito de um pintor que se queixava de ter levado forte e feio da crítica e terá desabafado: «Eu bem sei que não sou nenhum Leonardo Da Vinci, mas esta merda também não é a Itália do Renascimento.»
Papiro do dia (406)
«Descendo logo do comboio num estado de excitação, falando, contando aos homens e às mulheres de idade que eram os pilares da igreja, como a sua mente desde o primeiro momento já estava orientada para Jefferson, desde que decidira tornar-se um pastor, contando-lhes, com uma espécie de contentamento, acerca das cartas que tinha escrito, das preocupações que causara, e das influências que usara para ser chamado para aqui. Para as pessoas da cidade aquilo soava como a alegria de um negociante de cavalos a propósito de um negócio rentável. Talvez fosse assim que aquilo soasse para os mais velhos. Porque eles o escutavam com alguma frieza, espanto e dúvida, visto que ele dava a entender que era a cidade que ele queria servir. Como se ele não se importasse com as pessoas, as pessoas vivas, com saber se elas o queriam ou não. E como ele também era jovem, os homens e as mulheres de idade tentaram rebater a sua jovial excitação com assuntos sérios da igreja, da responsabilidade desta e dele próprio. E eles contaram a Byron como o jovem pastor ainda andava excitado, mesmo após seis meses, falando ainda da Guerra Civil e do seu avô, um homem de cavalaria que fora morto, e dos armazéns do General Grant ardendo em Jefferson, até tudo se tornar absurdo. Eles contaram a Byron como ele parecia falar do mesmo modo também quando estava no púlpito, selvagem também no púlpito, usando a religião como se ela fosse um sonho. Não um pesadelo, mas qualquer coisa que andava mais rápido do que as palavras do Livro; uma espécie de ciclone que nem sequer necessitava de tocar na verdadeira terra. E os homens e as mulheres de idade também não gostaram daquilo.»
[William Faulkner, Luz em Agosto; trad. Jorge Telles de Menezes, Bibliotex, 2003]
1 de maio de 2013
Breves notas sobre o bolo de tacho
É muita ode, minha louca!
Arrefece praí que tou mesmo à rasca
Olha-me estas encomendas...
e o gajo do polvo ali ao fundo, bonito
Sendo assim, venham mais duas
... mas de porco, destas são capazes de ser um bocado pesadas
30 de abril de 2013
Às vezes, lá calha...
«El Tánger que Bowles y sus compatriotas evocaban era el del paraíso perdido, el del mito creado por ellos y para ellos, no para quienes, como Chukri, habían crecido y vivido en la miseria magistralmente descrita en El pan a secas (la traducción española de El pan desnudo no significa cosa en nuestra lengua).»
Nem sempre a lápis (363)
até Jajouka
(2006)
23. Subitamente, à medida que me vou recompondo da viagem a Mortágua, vejo-me obrigado a reconhecer que já não devoro quilómetros com o mesmo apetite com que fazia Lisboa / Madrid e Lisboa / Barcelona parando apenas o estritamente necessário (...)Subitamente, apercebi-me de que nunca escrevi nada que sentisse tão exterior como o que tenho vindo a escrever. Exterior a mim mesmo, como um texto que tenho vindo a traduzir e terei, necessariamente, de reler e rever, e cuja única diferença que o separa do texto traduzido consiste em não ter de cumprir uma data e poder entregar-me a ele sempre que me apeteça; poder esquecê-lo. (...) E tendo começado por afirmar que nunca escrevi nada que sentisse tão exterior como o que tenho vindo a escrever, suponho que essa exterioridade se deve a uma desencantada e possível necessidade de quebrar um certo silêncio comigo mesmo, animado pelo inconsequente anonimato de poder fazê-lo como se eu fosse o meu último leitor. Não o que escreve para me ler, mas o que me lê para que deixe de escrever.Papiro do dia (405)
«As minhas mãos estavam tão geladas que eu mal conseguia virar as páginas do livro que andava a ler, Luz em Agosto, como já disse. Comprara-o na pequena livraria inglesa da rue du Seine, em Paris, certa de que ia gostar dele, porque tinha adorado O Som e a Fúria, mas afinal não era de todo o meu tipo de livro. Mesmo assim, guardei-o estes anos todos, emalei-o e desemalei-o nem sei quantas vezes. E, curioso, isso nunca pareceu aborrecer-me até agora. Não é só Luz em Agosto que me parece aborrecido agora, são todos os meus livros. Ou talvez não sejam os livros que são aborrecidos, mas sim as recordações: emalar, desemalar.»
[Sam Savage, As recordações de Edna; trad. Sofia Gomes, Planeta, Janeiro 2013]
27 de abril de 2013
Às vezes, lá calha...
«Tirou do bolso um pedaço de papel sujo e um coto de lápis roído e, inclinado sobre a berma da varanda, onde ele escreve, penosa e apressadamente, enquanto a negra o observa.»
(William Faulkner)
Nem sempre a lápis (362)
até Jajouka
(2006)
Papiro do dia (404)
25 de abril de 2013
23 de abril de 2013
22 de abril de 2013
21 de abril de 2013
Às vezes, lá calha...
«Não que haja muitas ideias, naturalmente, porque você não se atreve a pensar. Faz seja lá o que for para não pensar.»
(Aldous Huxley)
Nem sempre a lápis (361)
até Jajouka
(2006)
21. A ansiedade que antecede a partida só é comparável à do regresso. À medida que preparo as coisas e anseio por ir até Jajouka, não estarei apenas ansioso por regressar ao Monte Alto? (...) Entre as melhores maneiras de regressar, não duvido de que uma delas é, com toda a certeza, a partir de um livro que se descobriu ou relê com emoção; entregarmo-nos à escrita sem que ela pressuponha necessariamente um livro. Ou, precisamente porque o não pressupõe, muito menos ainda a necessidade de outro destinatário.
«A tarde está calma
porque sob esse ângulo – o de enriquecer o esquecimento –, os nomes são iguais.»
Papiro do dia (403)
«Queres decifrar o teu pensamento antigo, mas, para isso, à tua disposição só tens os teus próprios pensamentos. E agora eles estão mais velhos, como que perderam dimensão física: altura, largura, comprimento; perderam ainda elasticidade, agilidade de salto, capacidade para, rastejando, ver o que está em cima e para, saltando, ver o que encontrou já o seu melhor lugar em baixo. De pernas trôpegas, o pensamento tenta perceber porque começou a correr, de onde veio o primeiro impulso, o impulso original, e para onde se dirigia esse movimento. Sem obterem resposta, os teus pensamentos esquecem o julgamento da sua própria biografia e, como prostitutas que há muito perderam vigor e capacidade de atracção, abandonam-se em cadeiras, desleixados. E em vez de escolherem o objecto da sua acção, aceitam ser escolhidos; e hoje, agora, como prostitutas num bordel decadente, os teus pensamentos já se contentam (e como!) quando um velho os escolhe.»20 de abril de 2013
19 de abril de 2013
18 de abril de 2013
Às vezes, lá calha...
«Já tivera momentos altos na vida. Uma vez, de noite, andando pelo parque à chuva no Outono. Uma outra, no deserto, sob as estrelas, quando rodei com a Terra em torno do seu eixo.»
(Ursula K. Le Guin)
Nem sempre a lápis (360)
até Jajouka
(2006)
16 de abril de 2013
14 de abril de 2013
13 de abril de 2013
12 de abril de 2013
Nem sempre a lápis (359)
até Jajouka
(2006)
19. Julgo ter cometido um erro de palmatória, quando pedi para imprimirem estas cinquenta e tal folhas, irreconhecíveis e desmotivadoras, que me observam aqui ao lado. (...) Admito que possa parecer paradoxal, contraditório que, depois de anos a fio a recusar-me a ler ou rever directamente no monitor, exigindo uma rápida e urgente impressão do que tivesse escrito, agora considere um erro de palmatória, insisto, ter imprimido o que tenho vindo a repetir, a citar-me, e pretendo, na medida do possível, que continue privado dada a impossibilidade de permanecer anónimo. (...) E à medida que as pinhas pegam e o carvão começa a crepitar, na estrada, atrás do eucaliptal ao lado ouvem-se passar camiões fúnebres carregados com os derradeiros troncos de pinheiro, a verdadeira mancha verde que caracterizava e era a principal indústria de Mortágua. Desse passado, resta uma estrada – que julgo única e entregue ao livre trânsito das ervas daninhas – com a faixa descendente de paralelepípedos, para que as pesadas rodas dos carros de bois não cortassem o alcatrão quando a desciam para trazer os troncos para as serrações, hoje entregues ao esquecimento e vandalizadas pelo tempo, que optou pelo lucro fácil e duvidoso do eucalipto, fertilizado por um número crescente de incêndios.
(2006)
Olho para o meu sobrinho neto e – por mais que tente, por mais que me esforce por não lhe estorvar a liberdade de quem está a ser – não consigo deixar de pensar: como será uma geração que perdeu, que não chegou a conhecer a alegria ancestral de talhar barcos à navalha em carcódoas de pinheiro?
Papiro do dia (401)
«Noël veio fazer uma inspecção. Havia só dois prisioneiros na enfermaria: Michaels e o homem em coma. Falámos sobre Michaels, em voz baixa, apesar de ele estar a dormir.
– Ainda o podia salvar se usasse um tubo – disse eu a Noël –, mas não quero forçar ninguém que não tenha desejo de viver. Os regulamentos são bastante claros: proibida a alimentação forçada; proibido o prolongamento forçado da vida; proibida a publicidade à greve de fome.
– Quanto tempo lhe resta de vida? – perguntou Noël.
– Talvez duas ou três semanas – respondi.
– Pelo menos, é um fim tranquilo – observou ele.
– Não – disse eu –, é um fim doloroso e bem desgraçado.
– Não há qualquer injecção que lhe possa ministrar?
– Para acabar com ele?
– Não, não quero dizer isso. Apenas para lhe facilitar o fim.
Eu recusei-me a tal. Não quero assumir essa responsabilidade enquanto houver possibilidade de Michaels mudar de ideias. E a conversa ficou por aí.»
[J. M. Coetzee, A vida e o tempo de Michael K; trad. Ricardo Fernandes, Bibliotex Editor 2003;
mais ou menos assim]
mais ou menos assim]
9 de abril de 2013
8 de abril de 2013
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