31 de maio de 2013
Porque a Net fornece um novo dia
«... de facto vi, muitos livros, tantos livros, mas tantos livros, novinhos em folha, que não consegui distinguir um dos outros, porque eram, na sua grande maioria, todos iguais, cópias exactas, nas “ideias”, na estética de pensamento único e que me fez pensar: como é possível haver tantos livros que a única coisa que têm de Autor é o título? Alguns nem isso.»
Às vezes, lá calha...
«As pessoas perdem o nome, as coisas limpam-se, cessam a fuga do espaço e o movimento dispersivo do tempo. Fica um núcleo cerrado. Fico eu.»
(Herberto Helder)
Papiro do dia (414)
«Cumprira-se aquilo que eu sempre desejara – uma vida subtil, unida e invisível que o fogo celular das imagens devorava. Era uma vida que absorvera o mundo e o abandonara depois, abandonara a sua realidade fragmentária. Era compacta e limpa. Gramatical.»
30 de maio de 2013
29 de maio de 2013
Porque a Net fornece um novo dia
"MEU CORPO VEGETAL"
«A natureza recriada à nossa imagem e semelhança: nós dentro dela e ela polarizadora dos nossos sentimentos estéticos.
Uma nuvem, uma árvore, uma flor, um punhado de terra situam-se no mesmo plano estético em que nos movemos, são parte integrante do nosso mundo, são um manancial de sensações vindas de todos os tempos, através duma memória que tem a idade do homem.»
Teatro da Politécnica (29 Maio / 27 Julho)
3ª a 6ª das 17h00 / Sáb. das 15h00, sempre até ao final do espectáculo
Às vezes, lá calha...
«Quantas partes tem uma cabeça? Quantas podem faltar debaixo do mesmo nome? Em que momento da queda da guilhotina passa o condenado a cadáver? Em que momento da loucura se ganha o direito a ser chamado louco?»
(Nuno Carmaneiro)
[ora vejamos]
Nem sempre a lápis (371)
(edição policopiada, Coimbra 1972)
praias. cigarros. armas. uma tarde de maio. um filme talvez ainda não visto.
qualquer coisa muito breve – música – com armas nas praias
– ouves? tem sido sempre isto. toda a tarde.
quando deslizámos pelo cheiro forte do pequeno almoço.
quando partimos, uma noite qualquer, de qualquer noite.
pedras cigarros, praias armas, tarde de maio inventada.
entretanto, nós ainda não estamos mortos.
– ouves? são os mortos amados. o delírio que se segue à fraqueza.
fumo por vocês estes dias. a tua cidade.
porque há uma cidade no meio das palavras – tu me disseste um dia.
essa música, árvore de todas as bocas.
deixem-me passar. tenho frio. veja, estou doente.
com as cores correndo atrás dos dias trespassados por um grito, como um jardim de flores violentas.
um campo abandonado, qualquer coisa decisiva, a espuma, talvez. a ardósia da boca.
aves sonâmbulas que se agitam nas minhas veias. pedras armas. sonho tão breve.
sei para onde tu foste. é bom.
mão aberta para a boca em chamas. corpos delirantes, omnívoros. desengano, insónia, tédio, o peso trágico da tua voz, depois disso:
viviam num oceano com o silêncio dos textos, as gramáticas loucas.
viviam de tédios fáceis criados entre as árvores e as mãos podres.
– nunca antes me apercebera dessa veloz ansiedade. um peso, digamos: a tarde toda à tarde.
estátuas quentes – os gestos – como se de um campo de nomes se tratasse. de uma violenta e terna fome de ti, árvore desta tarde.
não soube nunca voltar-me para a cidade, perceber-lhe as intenções. a música salgada, quando os mortos nos ocupam a memória como estrangeiros inevitáveis.
nunca vi no vento a palavra liberdade.
a cidade levou a voz de cada um.
mar. exílio. a tua voz no sobressalto de outro corpo.
choveu muito durante a minha infância. tardes de maio distante.
– nunca saberei dizer-vos adeus.
uma viola canta nos corredores lentos:
o jardim. o pátio. armas do vento, quando esta música desprevenida nos toca.
é então que se torna violenta a vossa ausência.
é então que é preciso criar palavras, portas, imagens quentes.
– e maio torna-se um mês de uma angústia violenta.
esta ideia cresceu pelo lado de fora dos prédios. habitou as mais longínquas liberdades. deu flor nos sons verdes da minha infância.
– ouves o grito da tarde?
sons de uma voracidade atroz. terraços. pedras. memória despertada pelas tábuas proibidas.
mãos atentas em volta de um círculo de camélias geladas.
tudo agonia, vómito sustido a custo.
árvore dentro de outra árvore que não suportou o vento.
– ouço a tua tarde no vento da minha tarde. ouço a tua tarde.
os mortos gritam, enchem a memória com a sua verdade alta, com gestos recortados, manchas apodrecidas por outras manchas.
olhamos com terror os lugares vazios, os rostos perdidos:
olhamos o terror dentro da própria tarde.
dentro da cidade devoram-se pequenos peixes de alma exterior.
o que antes tinha vida está agora morto.
– lugares de pesadelo e sonho. lugares sôfregos.
vivemos entre os mortos.
gente morta. que já morreu ou morrerá subitamente durante a nossa lenta morte.
estamos cercados de mortos. pela própria morte. pouco a pouco morremos dentro de nós, embriagados por esse pequeno suicídio íntimo.
porque há uma cidade no meio das palavras – tu me disseste um dia.
quando falavas atravessavas a noite.
se te calavas, outro engenho maior. diferença de pássaro. flor transmudada.
a tua voz rói a minha dentro da tua voz.
a tua voz rói as palavras no caos. elegia precipitada.
o que em ti dá fruto, o que se sabe, é uma palavra cega.
uma tarde de maio, na doca das minhas mãos queimadas.
ardemos para cima. andares de morte, descoberta, fastio.
depois, isso: mudos, quietos, os olhos estoirados de espanto. abismo de reticências.
– ouves? toda a tarde. toda a tarde.
primavera da distância, quando o que freme, o que realmente nos incendeia, são as vozes mortas:
praias. armas, cigarros. tardes de maio –
essa borboleta exangue.
bancos das gares por onde passaram.
onde dormiram. os corpos
contagiados pela mesma fome. o mesmo sonho.
vi-os em magotes. os rostos lívidos. drogados.
ou simplesmente nus. o sexo e a mente em chamas.
a morte arde em maio, como uma rapariguinha descobre as mãos:
um frémito de surpresa.
o terror entrou na nossa idade como um exército opressor.
mãos agachadas de sangue, ainda sustiveram alguns dias.
depois foi o pesadelo em marcha:
praias. abundância. monstros vivos.
agora tenho medo. – ouves?
o nosso tempo foi uma joint chupada a intervalos numas águas furtadas.
mais nada. nem saudade nem esquecimento.
nem remorso nem liberdade.
porque há uma cidade no meio das palavras – tu me disseste um dia.
porque há uma cidade, porque há palavras no meio de uma cidade, porque tu me disseste um dia, e havia palavras numa cidade e o meio das palavras, porque tu me disseste um dia
[Fruta da época, frenesi 2004]
Papiro do dia (413)
«Uma história são pessoas num lugar por algum tempo. As margens da página, como o silêncio, estabelecem limites certos para que um conto não se confunda com o que não lhe pertence. Pode contar-se uma história enchendo uma caixa vazia ou desenhando paredes à volta de gente.
Esta é uma história de portas adentro.
Tudo se passa numa povoação encostada ao mar a alguns quilómetros de uma cidade média. De Inverno vivem ali pouco mais de dois mil habitantes, entre pescadores, gente pobre, famílias fugidas da urbe e alguns homens estranhos, apaixonados pelo mar ou desiludidos do resto.
Um prédio chegado à praia e um Inverno pesado e frio, de cobertores húmidos e doenças nos pulmões que silvam ao respirar. O mar ouve-se de bravo e, quando não é o mar, é o vento a imitar-lhe a raiva. Dentro do prédio procura-se calor no que há: caldeiras, fogo, corpos e alimento.
A história é contada em oito dias, os últimos sete de um ano e o primeiro de outro. Nada saberemos do futuro e pouco do passado. Nesta história o tempo é medido em medos, um a cada dia, o tempo certo para que homens tremam e mudem.
O medo nasce em qualquer lugar, como erva daninha por dentro. O medo suporta tudo e cresce no escuro até ser adulto, até ser do tamanho de um homem, e lhe tomar o corpo e pensar por ele.
Neste Inverno as gaivotas são gritos com asas. Por estes dias o fogo é frio e anda nas ondas e anda por todo o lado.
No prédio, pessoas em cima umas das outras, divididas por tijolos e cimento, apartadas em apartamentos, para que não caiam e se baralhem as vidas de cima com as de baixo. Pessoas arrumadas como histórias em estantes; só que não é assim, quase nunca é assim.»
[Nuno Carmaneiro, Debaixo de algum céu; Colecção Prémio Leya (2012), 2013]
28 de maio de 2013
27 de maio de 2013
26 de maio de 2013
25 de maio de 2013
... mas que selente par de nalgas!
[não desfazendo, claro, mas é de se ficar petrificado...]
24 de maio de 2013
Às vezes, lá calha...
«Pertencia a um pequeno grupo de escritores de terceira e só tinha as suas opiniões a que se agarrar e, como nunca sabia ao certo quem devia admirar, admirava o que as outras pessoas admiravam, o que era, claro, fatal.»
(Sam Savage)
Nem sempre a lápis (370)
Concluída a (inesperada e animadora) prospecção de mercado, toca a limpar os capítulos de até Jajouka, aqui publicados quase na íntegra nos últimos meses, e entregar o material à paciente Inês Mateus. Se o fole aguentar até lá e não ficar muito caro, admito que o texto tenha páginas para andar em edição de autor, numa tiragem nunca superior a uma centena de exemplares numerados e assinados por ele; por mim.
Como os manos anteriores - A cicatriz do ar (ainda há alguns), A mulher descalça (esg., mas com texto "continuado" a aboborar), O livro do fim (contam-se pelos dedos) e o próximo Nem sempre a lápis (edição revista e aumentada) - só disponíveis através da livraria on(a)linhas do blogue.
Papiro do dia (412)
Esta manhã encontrei no frigorífico as uvas que comprei há uns dias, como penso que referi e das quais nunca mais me lembrei, enrugadas mas, de resto, intactas, e comi o saco todo enquanto fazia as palavras cruzadas que trouxe do Starbucks. Não consegui descobrir todas as palavras. Houve tempos em que era frequente conseguir descobrir todas as palavras, mas isso é impossível agora que a maioria se refere a programas de televisão e celebridades que só as pessoas que vêem televisão conhecem – as pessoas que vêem muita televisão, dá-me ideia. Até as palavras cruzadas do New York Times ficaram assim, indecifráveis para pessoas como eu, pessoas com formação literária que não têm televisão. Agora que penso no assunto, suponho que seja esse o motivo. Não me dei ao trabalho de escrever a habitual nota no jornal no outro dia, a avisar que o problema de palavras cruzadas tinha sido arrancado: não sinto qualquer afinidade com o tipo de pessoas que conseguem resolver problemas de palavras cruzadas hoje em dia. Olho para os problemas e para as pessoas, no café, especadas a olhar para os computadores que estão em cima das mesas à sua frente, e pergunto-me, quem são estas pessoas?»
[Sam Savage, As recordações de Edna; trad. Sofia Gomes, Planeta, Janeiro 2013]
Subscrever:
Mensagens (Atom)










