12 de junho de 2013

Porque a Net fornece um novo dia

«O futuro da literatura - já tivemos, num passado recente, uma esquizofrénica a chamar à atenção para o escritor como fundo. Agora é a invasão do anti-livro a esse fundo, que se destrói a si próprio. Por mim, é o futuro da boa literatura. Não concordo com nada do que diz, porque mais do mesmo, o Rui Bebiano.»

Às vezes, lá calha...

«Não me parece que uma “poesia de grandes parangonas” despertasse em mais leitores um interesse mais profundo que as parangonas dos jornais.»
(Sylvia Plath)
[ISBN]

Nem sempre a lápis (375)

Artesanato
(1966/70)
 
Nesse tempo os homens vinham com pistolas acesas nas mãos aos pontapés aos cegos que comiam peixe na tasca.
Ouvia-se o ponto muito repenicado dos que trabalhavam o primeiro dia na fábrica.
As borboletas e os periquitos preferiam a codorniz e a molécula.
Falava-se de peixe a cada esquina de peixe.
Os homens tinham violinos escondidos nas dobras das calças e outros andavam de bicicleta na avenida.
Os mosqueteiros cantavam a Marselhesa aqui e ali sem mais nada.
Os gatos surgiam de noite à janela a limpar bibelots.
Os meninos masturbados tinham as mãos cheias de calos e os olhos esbugalhados de surpresa.
Uma ou outra vez acontecia passar uma mulher bonita ou interessante e os homens assobiavam-lhe do café.
Os que tinham automóveis de corda lentamente os encordavam e ouviam o último LP dos Beatles.
O sr. Damião – estrábico – assomava à janela a sorrir à Toninha a olhar para a menina Elisa.
O ranho do bebé cristalizava no lábio e até fazia um vermelho bonito.
A menstruação era um mistério que causava asco.
Ah, nesse tempo tinha a mania que era bom e ia à missa de bicicleta com soquetes, ver as meninas.
 
[in, Alcateia; Hugin, Setembro 1999]

Papiro do dia (417)

«A grande utilidade da poesia é sem dúvida o prazer que proporciona – e não a sua influência enquanto propaganda religiosa ou política. Certos poemas e versos são para mim tão densos e milagrosos como o devem ser os altares de igrejas e as cerimónias de coroação das rainhas para os devotos de outras imagens bem diferentes. Não me aflige que os poemas só alcancem um número bastante pequeno de pessoas. Mesmo assim, já vão surpreendentemente longe – viajam por entre estranhos, chegam por vezes a dar a volta ao mundo. Vão mais longe que as palavras de um professor na sala de aula ou as receitas de um médico; mais longe até, com um pouco de sorte, que o tempo de uma vida.»
[Sylvia Plath, Zé Susto e a Bíblia dos Sonhos; trad. Ana Luísa Faria, Relógio d’Água 2013;

11 de junho de 2013

7 de junho de 2013

Breve interlúdio musical




Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

«Ainda eu mal aprendera a gatinhar quando a minha mãe me sentou na praia para ver o que eu acharia do espectáculo.»
(Sylvia Plath)

Nem sempre a lápis (374)

Artesanato
(1966/70)
 
Quando o aquário se abre, sinto as mãos apodrecidas nos bolsos. Pedras quentes com que enterneço os amigos e a breve magia do fogo.
As aves voavam baixo, incendiadas. Aves que tinham asas para saudar as pessoas convidadas.
Atravessavam as pontes,
poisavam levemente na cúpula das torres,
mordiam os dentes com a obsessão desconforme da tristeza.
Os peixes morreram.
Os caixotes estavam pejados de escamas para entreter vagabundos.
No parque, passeavam crianças louras com os bibes rasgados, os olhos estoirados de infância.
Eram crianças habitadas, crianças que destruíam cérebros com máquinas descuidadas e ficavam sorridentes com as imagens.
Loucas crianças adormecidas que passeiam pelas cidades medonhas.
Crianças absolutas,
podres.

Uma noite – digamos, uma noite – os milagres vinham cambalear para a rua.
Escondiam-se atrás dos prédios receados. Empestavam o ar de odor a morticínio – quimera solta – e percorriam as ruas caladas com os véus esvoaçando.
Tocavam os bancos vazios, ensarilhavam as colinas recortadas, escreviam libertações nas paredes dos bordéis, fechavam as portas das prisões, incendiavam as árvores calcinadas, afogavam as fontes bombardeadas, cantavam canções emudecidas, abriam os portões do Inferno, cuspiam nas labaredas do Paraíso, roubavam flores dos jardins, etc., etc.
angústia, ansiedade, pavor.

Quando se abre o aquário,
quando se fecha o céu,
as pessoas constróem os dias na cozinha, adicionam-lhe a pureza da sua invenção.
Sorriem para os amigos, convidam-nos para a mesa e dizem belas palavras onde começa o Pânico.
Depois matam-nos com a velocidade dos gestos.
 
[in, Alcateia; Hugin, 1999]

Papiro do dia (416)

«A paisagem da minha infância não ficava em terra, mas no fim da terra – nas frias, salgadas e movediças colinas do Atlântico. Às vezes penso que a minha visão do mar é a mais límpida de todas as coisas que possuo. Recolho-a, exilada que sou, como as roxas “pedras da sorte”, com uma orla branca a toda a volta, que apanhava dantes, ou como a concha de um mexilhão azul, com o seu interior irisado de unha de anjo; e, na rebentação da memória, as cores escurecem e cintilam, todo um mundo primevo respira.
Respirar, andes de mais nada. Alguma coisa respira. O meu próprio sopro? O sopro da minha mãe? Não, alguma outra coisa, algo mais vasto, mais distante, mais sério, mais cansado.»

[Sylvia Plath, Zé Susto e a Bíblia dos Sonhos; trad. Ana Luísa Faria, Relógio d’Água 2013;
mundo primevo]

5 de junho de 2013

Este gajo é Lynchado




Separados à nascença

3 de junho de 2013

Breve interlúdio musical




Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

 
 
 
«Estás vivo e, no essencial, há uma falha – não se ter ainda morrido não pode ser, afinal, nunca, a última das satisfações.»
(Gonçalo M. Tavares)

Nem sempre a lápis (373)

Artesanato
(1966/70)
 
Vinha em junho – mês que minha mãe fora fonte do meu surgir – falar-te dos campos com a árvore atravessada na garganta.
Falava-te deles e tu chamava-los docemente laranjeira.

Junho no rio nos mirava, e era diferente de junho por ter o lodo na espinha.
O sobressalto estava nos trinta dias amarelos que percorríamos.
Na metade houvera meu surgir. Minha mãe fora fonte.

Trazido de longe chegava-nos às narinas o vermelho do sol que nascia, e a manhã apodrecia lentamente de esperança e cortiça.
Os refrescos não eram a paz de ninguém.
As línguas em junho eram o escorrer dos nossos lábios pelas esquinas.
A bandeira preta no mastro quebrado.

Junho vinha de longe, vinha cansado. Vinha perdido, junho.
Sentava-se no passe-partout com as fábricas lagosta e o lodo dos rios – o lodo.
Na chaminé havia a desgraça de um dia.
Os homens andavam de óculos escuros.
Os degraus das portas eram a morfina do nosso olhar, embora ainda me não soubesse míope.

Junhoráculo, oráculo de junho, filtro, calendário na preguiceira.
Os cordões umbilicais eram esta esperança para lavar em junho.
Aconteciam-nos outra vez os crimes –
em junho.
 
[in, Alcateia; Hugin, Setembro 1999]

Papiro do dia (415)




«– Spider man! Ao seu serviço.
Assim mesmo. Sem mais. Spider man! Ao seu serviço. Escanifrado, um exagero de pernas. Ginga à minha frente pela rua de costas ligeiramente encurvadas, um boné descolorido dos Yankees enterrado na cabeça. Quando retomamos a fala, entrados na oficina, uma caverna platónica a que os olhos demoram a acostumar-se, dispara sem mais preâmbulos: "You talkin’ to me? You talkin’ to me?" Depois ri e conclui: "Sister, pergunte lá o que quer saber"».

[e está lido que lhe respondeu, aguarde-se em letra de imprensa]

1 de junho de 2013

É só facharia...

«Encontrei na estante A tentação de Existir, um livro de Cioran, publicado pela Relógio de Água, que tentei ler pela segunda vez e desisti. Não percebo como aquela verborreia oca pode seduzir alguém. Não parava de alardear uma falsa melancolia, de falar de suicídio e viveu até aos 84 anos, a maioria deles numa situação confortável graças aos direitos de autor que a Gallimard e outros dos seus editores lhe pagavam. Dizia que a Europa estava podre, deslocando o futuro para a América Latina mas vivia num belo apartamento no centro de Paris. Proclamava que a História não interessava nada, mas tratou de maquilhar a sua. Mais: fez-lhe um lifting. Depurou e ocultou os seus livros romenos onde manifestava simpatia por Hitler. A aldrabice instituída pautou a vida deste escritor (1911-1995) consagrado.»