19 de junho de 2013

Nem sempre a lápis (376)

Artesanato
(1966 / 70)
 
Quando na viola surgia uma nota de cinquenta paus ou os cegos se abraçavam no ponto-e-vírgula, Deus descia as escadarias do Tempo e topava a moto em escape livre.
Senhor de metamorfoses, envolvia-se de cabedal e blue-jeans partindo para Aveiro depois da seca.
A noite era-lhe indiferentemente um sono perdido, uma estrada a desbravar.
Ficava-se na meditação dos lábios calcinados, na profecia laranja das portas.
O mapa era a mão de gesso comprada nos antiquários, como um trajecto demasiado velho para ser verdade.
Deus ia na mesma.
Os cabelos envoltos em algas ou sorrisos que adivinhavam amor.
Os lábios eram campainhas mal tocadas que apenas assustavam os fiéis.
Aparecia o Fernando na berma da estrada à laia de abraço de gente mística impressa nos posters venenosos.
A Mª. Porto emprestava-lhe os óculos grandes, as pestanas de mosca, as frases mentalizadas...

Deus ia e vinha de moto, em escape livre, no sorriso da manhã por escalar, e era uma bênção.

[in, Alcateia; Hugin, Setembro 1999]

Papiro do dia (418)

«O pôr-do-sol hasteava a sua bandeira rosada sobre o aeroporto, e o som das vagas perdia-se no perpétuo zunido dos aviões. Extasiava-me com os sinais luminosos que se moviam ao longo da pista e observava, até a escuridão ser completa, as luzes intermitentes, vermelhas e verdes, que subiam e vogavam no céu como estrelas cadentes. O aeroporto era a minha Meca, a minha Jerusalém. Toda a noite sonhava voar.
Foram os tempos dos meus sonhos em technicolor. A minha mãe metera na cabeça que eu precisava de dormir horas e horas a fio, de maneira que nunca estava realmente cansada quando ia para a cama. Era a melhor altura do dia, essa em que ficava deitada à vaga luz do crepúsculo, mergulhando a pouco e pouco no sono, compondo mentalmente os sonhos que viriam a seguir. Os meus sonhos de voo eram tão convincentes como as paisagens dos quadros de Dalí, tão reais que eu acordava em sobressalto, com uma sensação aflitiva de Ícaro caído do céu aos trambolhões, mas um Ícaro que tivesse conseguido, no último instante, agarrar-se à cama fofa.»
[Sylvia Plath, Zé Susto e a Bíblia dos Sonhos; trad. Ana Luísa Faria, Relógio d’Água 2013]

18 de junho de 2013

Nico, vamos ao cinema?




17 de junho de 2013

Desliguei o tlm e fiz saber que ia a Huelva

a apreciar calçado na feira de Algoz e trouxemos uma dama-da-noite,
a arremedar ruas de Tânger, de onde veio o prato abaixo
«Zé Manel, o cão já encontrou a língua?»,
perguntei mas não obtive resposta
até ao S. João, ou nós ou os charnecos (lindos) damos conta dos figos
e amanhã vou fazer praia para esquecer os caracóis em Portimão
[não gramo frescuras de facebook, que nem tenho, mas chegam-me aos ouvidos]
 

15 de junho de 2013

12 de junho de 2013

Breve interlúdio musical




Porque a Net fornece um novo dia

«O futuro da literatura - já tivemos, num passado recente, uma esquizofrénica a chamar à atenção para o escritor como fundo. Agora é a invasão do anti-livro a esse fundo, que se destrói a si próprio. Por mim, é o futuro da boa literatura. Não concordo com nada do que diz, porque mais do mesmo, o Rui Bebiano.»

Às vezes, lá calha...

«Não me parece que uma “poesia de grandes parangonas” despertasse em mais leitores um interesse mais profundo que as parangonas dos jornais.»
(Sylvia Plath)
[ISBN]

Nem sempre a lápis (375)

Artesanato
(1966/70)
 
Nesse tempo os homens vinham com pistolas acesas nas mãos aos pontapés aos cegos que comiam peixe na tasca.
Ouvia-se o ponto muito repenicado dos que trabalhavam o primeiro dia na fábrica.
As borboletas e os periquitos preferiam a codorniz e a molécula.
Falava-se de peixe a cada esquina de peixe.
Os homens tinham violinos escondidos nas dobras das calças e outros andavam de bicicleta na avenida.
Os mosqueteiros cantavam a Marselhesa aqui e ali sem mais nada.
Os gatos surgiam de noite à janela a limpar bibelots.
Os meninos masturbados tinham as mãos cheias de calos e os olhos esbugalhados de surpresa.
Uma ou outra vez acontecia passar uma mulher bonita ou interessante e os homens assobiavam-lhe do café.
Os que tinham automóveis de corda lentamente os encordavam e ouviam o último LP dos Beatles.
O sr. Damião – estrábico – assomava à janela a sorrir à Toninha a olhar para a menina Elisa.
O ranho do bebé cristalizava no lábio e até fazia um vermelho bonito.
A menstruação era um mistério que causava asco.
Ah, nesse tempo tinha a mania que era bom e ia à missa de bicicleta com soquetes, ver as meninas.
 
[in, Alcateia; Hugin, Setembro 1999]

Papiro do dia (417)

«A grande utilidade da poesia é sem dúvida o prazer que proporciona – e não a sua influência enquanto propaganda religiosa ou política. Certos poemas e versos são para mim tão densos e milagrosos como o devem ser os altares de igrejas e as cerimónias de coroação das rainhas para os devotos de outras imagens bem diferentes. Não me aflige que os poemas só alcancem um número bastante pequeno de pessoas. Mesmo assim, já vão surpreendentemente longe – viajam por entre estranhos, chegam por vezes a dar a volta ao mundo. Vão mais longe que as palavras de um professor na sala de aula ou as receitas de um médico; mais longe até, com um pouco de sorte, que o tempo de uma vida.»
[Sylvia Plath, Zé Susto e a Bíblia dos Sonhos; trad. Ana Luísa Faria, Relógio d’Água 2013;

11 de junho de 2013

7 de junho de 2013

Breve interlúdio musical




Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

«Ainda eu mal aprendera a gatinhar quando a minha mãe me sentou na praia para ver o que eu acharia do espectáculo.»
(Sylvia Plath)

Nem sempre a lápis (374)

Artesanato
(1966/70)
 
Quando o aquário se abre, sinto as mãos apodrecidas nos bolsos. Pedras quentes com que enterneço os amigos e a breve magia do fogo.
As aves voavam baixo, incendiadas. Aves que tinham asas para saudar as pessoas convidadas.
Atravessavam as pontes,
poisavam levemente na cúpula das torres,
mordiam os dentes com a obsessão desconforme da tristeza.
Os peixes morreram.
Os caixotes estavam pejados de escamas para entreter vagabundos.
No parque, passeavam crianças louras com os bibes rasgados, os olhos estoirados de infância.
Eram crianças habitadas, crianças que destruíam cérebros com máquinas descuidadas e ficavam sorridentes com as imagens.
Loucas crianças adormecidas que passeiam pelas cidades medonhas.
Crianças absolutas,
podres.

Uma noite – digamos, uma noite – os milagres vinham cambalear para a rua.
Escondiam-se atrás dos prédios receados. Empestavam o ar de odor a morticínio – quimera solta – e percorriam as ruas caladas com os véus esvoaçando.
Tocavam os bancos vazios, ensarilhavam as colinas recortadas, escreviam libertações nas paredes dos bordéis, fechavam as portas das prisões, incendiavam as árvores calcinadas, afogavam as fontes bombardeadas, cantavam canções emudecidas, abriam os portões do Inferno, cuspiam nas labaredas do Paraíso, roubavam flores dos jardins, etc., etc.
angústia, ansiedade, pavor.

Quando se abre o aquário,
quando se fecha o céu,
as pessoas constróem os dias na cozinha, adicionam-lhe a pureza da sua invenção.
Sorriem para os amigos, convidam-nos para a mesa e dizem belas palavras onde começa o Pânico.
Depois matam-nos com a velocidade dos gestos.
 
[in, Alcateia; Hugin, 1999]

Papiro do dia (416)

«A paisagem da minha infância não ficava em terra, mas no fim da terra – nas frias, salgadas e movediças colinas do Atlântico. Às vezes penso que a minha visão do mar é a mais límpida de todas as coisas que possuo. Recolho-a, exilada que sou, como as roxas “pedras da sorte”, com uma orla branca a toda a volta, que apanhava dantes, ou como a concha de um mexilhão azul, com o seu interior irisado de unha de anjo; e, na rebentação da memória, as cores escurecem e cintilam, todo um mundo primevo respira.
Respirar, andes de mais nada. Alguma coisa respira. O meu próprio sopro? O sopro da minha mãe? Não, alguma outra coisa, algo mais vasto, mais distante, mais sério, mais cansado.»

[Sylvia Plath, Zé Susto e a Bíblia dos Sonhos; trad. Ana Luísa Faria, Relógio d’Água 2013;
mundo primevo]