26 de junho de 2013

Cadernos do Monte Alto

 
 
«Face a um doente acamado, torna-se perversa a colocação de uma janela larga que ocupe, por completo, o espaço de uma parede.
Mas como explicar isto a quem não confunde arquitectura com metafísica?»
(Gonçalo M. Tavares)

 
(Motivos de força maior – como se diz neste tipo de circunstâncias – obrigam-me a interromper a periodicidade aleatória do blogue e o acesso à caixa de comentários. Assim, tomei a liberdade de agendar um é-buque – ao alcance da impressão dos interessados – até, supostamente, ter alta. Depois, logo se vê; depois, se saberá.)
[clicar para ver condições]

24 de junho de 2013

Breve interlúdio musical




Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...



«… julgou ter vivido no inferno, mas que afinal aquilo era apenas o purgatório (o inferno fica no tinteiro, ficou nos poemas).»
(Pedro Mexia)
 
[posfácio de As minhas lembranças observam-me, Tomas Tranströmer]

Nem sempre a lápis (378)

Artesanato
(1966 / 70)
 
Atravesso Coimbra parado na Ponte a atirar pedacinhos de tabaco água.
Há em todo o rio um mistério imenso a terminar no mar.
Penso então em todos os peixes, em todas situações construtivas que emergem dos meus dedos.
Penso que será breve a minha esperança coimbrã, minha correria pelas ruas desertas com o cachimbo apagado.
Penso na solidão da palavra convívio, nesses tipos fixes que escarram vida pelas sanitas abaixo.
Entro no Haeminium com a cerveja a latejar nas fontes da cabeça, e há um grande reencontro com os vidros das montras
espreguiçando-me neles.
Entro no eléctrico com os pés a abanar, dobrando o bilhete entre os lábios, espreitando levemente a cidade, como um sonho filtrado por uma rede metálica:
quadradinhos, quadradinhos.
Sentado no Parque, vejo pássaros com os dentes vibrantes de pasta dentífrica, devorando costeletas panadas, palavras curtas,
abraçando simplesmente as árvores.
Rebentam maçãs por toda a parte: uma guerra a sustentar pelos comedores de flores.
Na Ferreira Borges cresce uma palmeira com folhas de estearina:
julgo que vou outra vez à caça.
Empreiteiros levantam nas pás os monumentos da cidade, a tragédia das auto-estradas.
Descobrem os túmulos soterrados pelos meus passeios clandestinos de motocicleta.
Fico parado no passeio serenamente envolvido pela espuma dos pistons.
É então que, envolto numa imagem psicadélica, me surges tu, José de Matos-Cruz, e apresentas a cidade citando Cafre, de quando em quando.
Paramos na Rua de Saragoça, junto à lavandaria do mesmo nome.
Em frente, um prédio de que apenas me recordo em construção.
Falas-me de coisas várias, de matemática poética, e os carros passam com o destino fugindo-lhes pelo escape.
Despeço-me de ti na certeza de voltar muito tarde pá, quando no Gil Vicente acabar a soirée e, tiritando de frio, esperar por ti à entrada entre a multidão que me olha lacónica, apenas para te dizer que estou de passagem; perguntar se posso ficar essa noite em tua casa.

[in, Alcateia; Hugin, Setembro 1999]

Papiro do dia (419)

«Não utilizava os dedos para ninharias. (Muitas vezes repetia a frase: não utilizar os dedos para ninharias.) Concentrava-se; sabia que tinha poucos anos de vida; a doença veio: ficamos juntas uns anos, depois ela permanece e eu parto. Pois bem, havia que concentrar a energia que existe nos dias ou que existe num corpo e se dirige aos dias, concentrá-la – à energia – como um rolo de carne, estar pronta para agir. Dispensando ninharias. Os dedos devem tocar só no que é espesso, no que é fundamental; o urgente tem de coincidir com o essencial, com o que altera de alto a baixo. Como uma pancada forte no momento em que a recebemos: todas as coisas do dia mais insignificante se devem aproximar desse momento em que se recebe uma pancada forte. Mylia olhava-se ao espelho: estou viva e já dei um passo mau. Estar doente é ter dado um passo mau, um passo diabólico, murmurou Mylia. Uma doença que altera de alto a baixo.»
[Gonçalo M. Tavares, Jerusalém; Caminho, 12.ª ed. Março 2012;

23 de junho de 2013

É bom encaminhar o fim da vida

... com a alegria possível do início
[edição gratuita limitada aos portes por correio (2€)]

22 de junho de 2013

À sombra da figueira, não te sentes nem adormeças

... claro, claro

21 de junho de 2013

Breve interlúdio musical




Porque a Net fornece um novo dia

O último nevão do meu avô
 
«Há quem receba dinheiro. Ou palavras. Ou diários íntimos. Há quem não receba nada. Eu recebi como testamento do meu avô esta poesia muda das últimas fotografias que tirou, recolhidas durante mais de uma década no interior da sua antiquíssima Rolleiflex. Quase em jeito de epitáfio, como se pretendesse transmitir por imagens ao neto que nunca mais veria: não procures mais, o essencial da vida é isto.»
 
[assim cheguei aqui]

Às vezes, lá calha...

«“Estes indivíduos não trazem vestida uma única peça de roupa”, indica a legenda. “Pertencem a uma sociedade cujos membros são obrigatoriamente tatuados”.»
(Sylvia Plath)

Nem sempre a lápis (377)

Alcateia
(1966 / 70)
 
Há cidades inexistentes com a população escondida nas harpas das casas.
Têm geralmente um rio onde afogam a dor e o pecado dos dias que não consomem.
Por vezes os exércitos descem à rua para que as pessoas não esqueçam o Terror e se concentrem nos passeios, rendendo-lhes homenagem.
São cidades para destruir e construir, satisfazendo as necessidades da procriação.

Cidades, ternas cidades que invento e desvendo com o peso da opressão.

[in, Alcateia; Hugin, Setembro 1999]

Papiro do dia (418)

«– As pessoas devem poder ter aquilo que querem, dê lá por onde der. Ainda no outro dia tive aqui uma senhorinha – Carmey imobiliza a palma da mão em pleno ar, a menos de metro e meio do chão. – Desta altura. Quis o Calvário nas costas, a cena completa, e eu fiz-lhe o serviço. Levei dezoito horas.
Miro com ar desconfiado os ladrões e os anjos do cartaz do monte Calvário.
– Não teve de encolher um bocadinho o desenho?
– Não senhor.
– Nem um anjo ficou de fora? – espanta-se Ned. – Nem aquela parte ali do primeiro plano?
– Não tirei nada de nada. Um trabalho de trinta e cinco dólares, a cores, com ladrões, anjos, letras góticas, o serviço completo. Ela saiu aqui da loja inchada como um pavão. Não há por aí muita senhora que se possa gabar de ter nas costas o Calvário inteirinho, a cores e tudo.»
[Sylvia Plath, Zé Susto e a Bíblia dos Sonhos; trad. Ana Luísa Faria, Relógio d’Água 2013
peixotices]

19 de junho de 2013

Breve interlúdio musical




Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

«Foi no ano em que começou a guerra,
e com ela o mundo real e a diferença.»
(Sylvia Plath)

Nem sempre a lápis (376)

Artesanato
(1966 / 70)
 
Quando na viola surgia uma nota de cinquenta paus ou os cegos se abraçavam no ponto-e-vírgula, Deus descia as escadarias do Tempo e topava a moto em escape livre.
Senhor de metamorfoses, envolvia-se de cabedal e blue-jeans partindo para Aveiro depois da seca.
A noite era-lhe indiferentemente um sono perdido, uma estrada a desbravar.
Ficava-se na meditação dos lábios calcinados, na profecia laranja das portas.
O mapa era a mão de gesso comprada nos antiquários, como um trajecto demasiado velho para ser verdade.
Deus ia na mesma.
Os cabelos envoltos em algas ou sorrisos que adivinhavam amor.
Os lábios eram campainhas mal tocadas que apenas assustavam os fiéis.
Aparecia o Fernando na berma da estrada à laia de abraço de gente mística impressa nos posters venenosos.
A Mª. Porto emprestava-lhe os óculos grandes, as pestanas de mosca, as frases mentalizadas...

Deus ia e vinha de moto, em escape livre, no sorriso da manhã por escalar, e era uma bênção.

[in, Alcateia; Hugin, Setembro 1999]

Papiro do dia (418)

«O pôr-do-sol hasteava a sua bandeira rosada sobre o aeroporto, e o som das vagas perdia-se no perpétuo zunido dos aviões. Extasiava-me com os sinais luminosos que se moviam ao longo da pista e observava, até a escuridão ser completa, as luzes intermitentes, vermelhas e verdes, que subiam e vogavam no céu como estrelas cadentes. O aeroporto era a minha Meca, a minha Jerusalém. Toda a noite sonhava voar.
Foram os tempos dos meus sonhos em technicolor. A minha mãe metera na cabeça que eu precisava de dormir horas e horas a fio, de maneira que nunca estava realmente cansada quando ia para a cama. Era a melhor altura do dia, essa em que ficava deitada à vaga luz do crepúsculo, mergulhando a pouco e pouco no sono, compondo mentalmente os sonhos que viriam a seguir. Os meus sonhos de voo eram tão convincentes como as paisagens dos quadros de Dalí, tão reais que eu acordava em sobressalto, com uma sensação aflitiva de Ícaro caído do céu aos trambolhões, mas um Ícaro que tivesse conseguido, no último instante, agarrar-se à cama fofa.»
[Sylvia Plath, Zé Susto e a Bíblia dos Sonhos; trad. Ana Luísa Faria, Relógio d’Água 2013]

18 de junho de 2013

Nico, vamos ao cinema?