[edição gratuita limitada aos portes por correio (2€)]
23 de junho de 2013
22 de junho de 2013
21 de junho de 2013
Porque a Net fornece um novo dia
O último nevão do meu avô
«Há quem receba dinheiro. Ou palavras. Ou diários íntimos. Há quem não receba nada. Eu recebi como testamento do meu avô esta poesia muda das últimas fotografias que tirou, recolhidas durante mais de uma década no interior da sua antiquíssima Rolleiflex. Quase em jeito de epitáfio, como se pretendesse transmitir por imagens ao neto que nunca mais veria: não procures mais, o essencial da vida é isto.»
Às vezes, lá calha...
«“Estes indivíduos não trazem vestida uma única peça de roupa”, indica a legenda. “Pertencem a uma sociedade cujos membros são obrigatoriamente tatuados”.»
(Sylvia Plath)
Nem sempre a lápis (377)
Alcateia
(1966 / 70)
Há cidades inexistentes com a população escondida nas harpas das casas.
Têm geralmente um rio onde afogam a dor e o pecado dos dias que não consomem.
Por vezes os exércitos descem à rua para que as pessoas não esqueçam o Terror e se concentrem nos passeios, rendendo-lhes homenagem.
São cidades para destruir e construir, satisfazendo as necessidades da procriação.
Cidades, ternas cidades que invento e desvendo com o peso da opressão.
[in, Alcateia; Hugin, Setembro 1999]
[in, Alcateia; Hugin, Setembro 1999]
Papiro do dia (418)
«– As pessoas devem poder ter aquilo que querem, dê lá por onde der. Ainda no outro dia tive aqui uma senhorinha – Carmey imobiliza a palma da mão em pleno ar, a menos de metro e meio do chão. – Desta altura. Quis o Calvário nas costas, a cena completa, e eu fiz-lhe o serviço. Levei dezoito horas.
Miro com ar desconfiado os ladrões e os anjos do cartaz do monte Calvário.
– Não teve de encolher um bocadinho o desenho?
– Não senhor.
– Nem um anjo ficou de fora? – espanta-se Ned. – Nem aquela parte ali do primeiro plano?
– Não tirei nada de nada. Um trabalho de trinta e cinco dólares, a cores, com ladrões, anjos, letras góticas, o serviço completo. Ela saiu aqui da loja inchada como um pavão. Não há por aí muita senhora que se possa gabar de ter nas costas o Calvário inteirinho, a cores e tudo.»
[Sylvia Plath, Zé Susto e a Bíblia dos Sonhos; trad. Ana Luísa Faria, Relógio d’Água 2013
peixotices]
peixotices]
20 de junho de 2013
19 de junho de 2013
Nem sempre a lápis (376)
Artesanato
(1966 / 70)
Quando na viola surgia uma nota de cinquenta paus ou os cegos se abraçavam no ponto-e-vírgula, Deus descia as escadarias do Tempo e topava a moto em escape livre.
Senhor de metamorfoses, envolvia-se de cabedal e blue-jeans partindo para Aveiro depois da seca.
A noite era-lhe indiferentemente um sono perdido, uma estrada a desbravar.
Ficava-se na meditação dos lábios calcinados, na profecia laranja das portas.
O mapa era a mão de gesso comprada nos antiquários, como um trajecto demasiado velho para ser verdade.
Deus ia na mesma.
Os cabelos envoltos em algas ou sorrisos que adivinhavam amor.
Os lábios eram campainhas mal tocadas que apenas assustavam os fiéis.
Aparecia o Fernando na berma da estrada à laia de abraço de gente mística impressa nos posters venenosos.
A Mª. Porto emprestava-lhe os óculos grandes, as pestanas de mosca, as frases mentalizadas...
Deus ia e vinha de moto, em escape livre, no sorriso da manhã por escalar, e era uma bênção.
[in, Alcateia; Hugin, Setembro 1999]
Papiro do dia (418)
«O pôr-do-sol hasteava a sua bandeira rosada sobre o aeroporto, e o som das vagas perdia-se no perpétuo zunido dos aviões. Extasiava-me com os sinais luminosos que se moviam ao longo da pista e observava, até a escuridão ser completa, as luzes intermitentes, vermelhas e verdes, que subiam e vogavam no céu como estrelas cadentes. O aeroporto era a minha Meca, a minha Jerusalém. Toda a noite sonhava voar.
Foram os tempos dos meus sonhos em technicolor. A minha mãe metera na cabeça que eu precisava de dormir horas e horas a fio, de maneira que nunca estava realmente cansada quando ia para a cama. Era a melhor altura do dia, essa em que ficava deitada à vaga luz do crepúsculo, mergulhando a pouco e pouco no sono, compondo mentalmente os sonhos que viriam a seguir. Os meus sonhos de voo eram tão convincentes como as paisagens dos quadros de Dalí, tão reais que eu acordava em sobressalto, com uma sensação aflitiva de Ícaro caído do céu aos trambolhões, mas um Ícaro que tivesse conseguido, no último instante, agarrar-se à cama fofa.»
[Sylvia Plath, Zé Susto e a Bíblia dos Sonhos; trad. Ana Luísa Faria, Relógio d’Água 2013]
18 de junho de 2013
17 de junho de 2013
Desliguei o tlm e fiz saber que ia a Huelva
a apreciar calçado na feira de Algoz e trouxemos uma dama-da-noite,
a arremedar ruas de Tânger, de onde veio o prato abaixo
«Zé Manel, o cão já encontrou a língua?»,
perguntei mas não obtive resposta
e amanhã vou fazer praia para esquecer os caracóis em Portimão
[não gramo frescuras de facebook, que nem tenho, mas chegam-me aos ouvidos]
15 de junho de 2013
13 de junho de 2013
12 de junho de 2013
Porque a Net fornece um novo dia
«O futuro da literatura - já tivemos, num passado recente, uma esquizofrénica a chamar à atenção para o escritor como fundo. Agora é a invasão do anti-livro a esse fundo, que se destrói a si próprio. Por mim, é o futuro da boa literatura. Não concordo com nada do que diz, porque mais do mesmo, o Rui Bebiano.»
Às vezes, lá calha...
«Não me parece que uma “poesia de grandes parangonas” despertasse em mais leitores um interesse mais profundo que as parangonas dos jornais.»
(Sylvia Plath)
Nem sempre a lápis (375)
Artesanato
(1966/70)
Nesse tempo os homens vinham com pistolas acesas nas mãos aos pontapés aos cegos que comiam peixe na tasca.
Ouvia-se o ponto muito repenicado dos que trabalhavam o primeiro dia na fábrica.
As borboletas e os periquitos preferiam a codorniz e a molécula.
Falava-se de peixe a cada esquina de peixe.
Os homens tinham violinos escondidos nas dobras das calças e outros andavam de bicicleta na avenida.
Os mosqueteiros cantavam a Marselhesa aqui e ali sem mais nada.
Os gatos surgiam de noite à janela a limpar bibelots.
Os meninos masturbados tinham as mãos cheias de calos e os olhos esbugalhados de surpresa.
Uma ou outra vez acontecia passar uma mulher bonita ou interessante e os homens assobiavam-lhe do café.
Os que tinham automóveis de corda lentamente os encordavam e ouviam o último LP dos Beatles.
O sr. Damião – estrábico – assomava à janela a sorrir à Toninha a olhar para a menina Elisa.
O ranho do bebé cristalizava no lábio e até fazia um vermelho bonito.
A menstruação era um mistério que causava asco.
Ah, nesse tempo tinha a mania que era bom e ia à missa de bicicleta com soquetes, ver as meninas.
[in, Alcateia; Hugin, Setembro 1999]
Papiro do dia (417)
«A grande utilidade da poesia é sem dúvida o prazer que proporciona – e não a sua influência enquanto propaganda religiosa ou política. Certos poemas e versos são para mim tão densos e milagrosos como o devem ser os altares de igrejas e as cerimónias de coroação das rainhas para os devotos de outras imagens bem diferentes. Não me aflige que os poemas só alcancem um número bastante pequeno de pessoas. Mesmo assim, já vão surpreendentemente longe – viajam por entre estranhos, chegam por vezes a dar a volta ao mundo. Vão mais longe que as palavras de um professor na sala de aula ou as receitas de um médico; mais longe até, com um pouco de sorte, que o tempo de uma vida.»
[Sylvia Plath, Zé Susto e a Bíblia dos Sonhos; trad. Ana Luísa Faria, Relógio d’Água 2013;
10 de junho de 2013
7 de junho de 2013
Às vezes, lá calha...
«Ainda eu mal aprendera a gatinhar quando a minha mãe me sentou na praia para ver o que eu acharia do espectáculo.»
(Sylvia Plath)
Nem sempre a lápis (374)
Artesanato
(1966/70)
Quando o aquário se abre, sinto as mãos apodrecidas nos bolsos. Pedras quentes com que enterneço os amigos e a breve magia do fogo.
As aves voavam baixo, incendiadas. Aves que tinham asas para saudar as pessoas convidadas.
Atravessavam as pontes,
poisavam levemente na cúpula das torres,
mordiam os dentes com a obsessão desconforme da tristeza.
Os peixes morreram.
Os caixotes estavam pejados de escamas para entreter vagabundos.
No parque, passeavam crianças louras com os bibes rasgados, os olhos estoirados de infância.
Eram crianças habitadas, crianças que destruíam cérebros com máquinas descuidadas e ficavam sorridentes com as imagens.
Loucas crianças adormecidas que passeiam pelas cidades medonhas.
Crianças absolutas,
podres.
Uma noite – digamos, uma noite – os milagres vinham cambalear para a rua.
Escondiam-se atrás dos prédios receados. Empestavam o ar de odor a morticínio – quimera solta – e percorriam as ruas caladas com os véus esvoaçando.
Tocavam os bancos vazios, ensarilhavam as colinas recortadas, escreviam libertações nas paredes dos bordéis, fechavam as portas das prisões, incendiavam as árvores calcinadas, afogavam as fontes bombardeadas, cantavam canções emudecidas, abriam os portões do Inferno, cuspiam nas labaredas do Paraíso, roubavam flores dos jardins, etc., etc.
angústia, ansiedade, pavor.
Quando se abre o aquário,
quando se fecha o céu,
as pessoas constróem os dias na cozinha, adicionam-lhe a pureza da sua invenção.
Sorriem para os amigos, convidam-nos para a mesa e dizem belas palavras onde começa o Pânico.
Depois matam-nos com a velocidade dos gestos.
[in, Alcateia; Hugin, 1999]
Papiro do dia (416)
«A paisagem da minha infância não ficava em terra, mas no fim da terra – nas frias, salgadas e movediças colinas do Atlântico. Às vezes penso que a minha visão do mar é a mais límpida de todas as coisas que possuo. Recolho-a, exilada que sou, como as roxas “pedras da sorte”, com uma orla branca a toda a volta, que apanhava dantes, ou como a concha de um mexilhão azul, com o seu interior irisado de unha de anjo; e, na rebentação da memória, as cores escurecem e cintilam, todo um mundo primevo respira.
Respirar, andes de mais nada. Alguma coisa respira. O meu próprio sopro? O sopro da minha mãe? Não, alguma outra coisa, algo mais vasto, mais distante, mais sério, mais cansado.»
[Sylvia Plath, Zé Susto e a Bíblia dos Sonhos; trad. Ana Luísa Faria, Relógio d’Água 2013;
mundo primevo]
6 de junho de 2013
5 de junho de 2013
3 de junho de 2013
Às vezes, lá calha...
«Estás vivo e, no essencial, há uma falha – não se ter ainda morrido não pode ser, afinal, nunca, a última das satisfações.»
(Gonçalo M. Tavares)
Nem sempre a lápis (373)
Artesanato
(1966/70)
Vinha em junho – mês que minha mãe fora fonte do meu surgir – falar-te dos campos com a árvore atravessada na garganta.
Falava-te deles e tu chamava-los docemente laranjeira.
Junho no rio nos mirava, e era diferente de junho por ter o lodo na espinha.
O sobressalto estava nos trinta dias amarelos que percorríamos.
Na metade houvera meu surgir. Minha mãe fora fonte.
Trazido de longe chegava-nos às narinas o vermelho do sol que nascia, e a manhã apodrecia lentamente de esperança e cortiça.
Os refrescos não eram a paz de ninguém.
As línguas em junho eram o escorrer dos nossos lábios pelas esquinas.
A bandeira preta no mastro quebrado.
Junho vinha de longe, vinha cansado. Vinha perdido, junho.
Sentava-se no passe-partout com as fábricas lagosta e o lodo dos rios – o lodo.
Na chaminé havia a desgraça de um dia.
Os homens andavam de óculos escuros.
Os degraus das portas eram a morfina do nosso olhar, embora ainda me não soubesse míope.
Junhoráculo, oráculo de junho, filtro, calendário na preguiceira.
Os cordões umbilicais eram esta esperança para lavar em junho.
Aconteciam-nos outra vez os crimes –
em junho.
[in, Alcateia; Hugin, Setembro 1999]
Papiro do dia (415)
«– Spider man! Ao seu serviço.
Assim mesmo. Sem mais. Spider man! Ao seu serviço. Escanifrado, um exagero de pernas. Ginga à minha frente pela rua de costas ligeiramente encurvadas, um boné descolorido dos Yankees enterrado na cabeça. Quando retomamos a fala, entrados na oficina, uma caverna platónica a que os olhos demoram a acostumar-se, dispara sem mais preâmbulos: "You talkin’ to me? You talkin’ to me?" Depois ri e conclui: "Sister, pergunte lá o que quer saber"».
[e está lido que lhe respondeu, aguarde-se em letra de imprensa]
[e está lido que lhe respondeu, aguarde-se em letra de imprensa]
1 de junho de 2013
É só facharia...
«Encontrei na estante A tentação de Existir, um livro de Cioran, publicado pela Relógio de Água, que tentei ler pela segunda vez e desisti. Não percebo como aquela verborreia oca pode seduzir alguém. Não parava de alardear uma falsa melancolia, de falar de suicídio e viveu até aos 84 anos, a maioria deles numa situação confortável graças aos direitos de autor que a Gallimard e outros dos seus editores lhe pagavam. Dizia que a Europa estava podre, deslocando o futuro para a América Latina mas vivia num belo apartamento no centro de Paris. Proclamava que a História não interessava nada, mas tratou de maquilhar a sua. Mais: fez-lhe um lifting. Depurou e ocultou os seus livros romenos onde manifestava simpatia por Hitler. A aldrabice instituída pautou a vida deste escritor (1911-1995) consagrado.»
31 de maio de 2013
Porque a Net fornece um novo dia
«... de facto vi, muitos livros, tantos livros, mas tantos livros, novinhos em folha, que não consegui distinguir um dos outros, porque eram, na sua grande maioria, todos iguais, cópias exactas, nas “ideias”, na estética de pensamento único e que me fez pensar: como é possível haver tantos livros que a única coisa que têm de Autor é o título? Alguns nem isso.»
Às vezes, lá calha...
«As pessoas perdem o nome, as coisas limpam-se, cessam a fuga do espaço e o movimento dispersivo do tempo. Fica um núcleo cerrado. Fico eu.»
(Herberto Helder)
Papiro do dia (414)
«Cumprira-se aquilo que eu sempre desejara – uma vida subtil, unida e invisível que o fogo celular das imagens devorava. Era uma vida que absorvera o mundo e o abandonara depois, abandonara a sua realidade fragmentária. Era compacta e limpa. Gramatical.»
30 de maio de 2013
29 de maio de 2013
Porque a Net fornece um novo dia
"MEU CORPO VEGETAL"
«A natureza recriada à nossa imagem e semelhança: nós dentro dela e ela polarizadora dos nossos sentimentos estéticos.
Uma nuvem, uma árvore, uma flor, um punhado de terra situam-se no mesmo plano estético em que nos movemos, são parte integrante do nosso mundo, são um manancial de sensações vindas de todos os tempos, através duma memória que tem a idade do homem.»
Teatro da Politécnica (29 Maio / 27 Julho)
3ª a 6ª das 17h00 / Sáb. das 15h00, sempre até ao final do espectáculo
Às vezes, lá calha...
«Quantas partes tem uma cabeça? Quantas podem faltar debaixo do mesmo nome? Em que momento da queda da guilhotina passa o condenado a cadáver? Em que momento da loucura se ganha o direito a ser chamado louco?»
(Nuno Carmaneiro)
[ora vejamos]
Nem sempre a lápis (371)
(edição policopiada, Coimbra 1972)
praias. cigarros. armas. uma tarde de maio. um filme talvez ainda não visto.
qualquer coisa muito breve – música – com armas nas praias
– ouves? tem sido sempre isto. toda a tarde.
quando deslizámos pelo cheiro forte do pequeno almoço.
quando partimos, uma noite qualquer, de qualquer noite.
pedras cigarros, praias armas, tarde de maio inventada.
entretanto, nós ainda não estamos mortos.
– ouves? são os mortos amados. o delírio que se segue à fraqueza.
fumo por vocês estes dias. a tua cidade.
porque há uma cidade no meio das palavras – tu me disseste um dia.
essa música, árvore de todas as bocas.
deixem-me passar. tenho frio. veja, estou doente.
com as cores correndo atrás dos dias trespassados por um grito, como um jardim de flores violentas.
um campo abandonado, qualquer coisa decisiva, a espuma, talvez. a ardósia da boca.
aves sonâmbulas que se agitam nas minhas veias. pedras armas. sonho tão breve.
sei para onde tu foste. é bom.
mão aberta para a boca em chamas. corpos delirantes, omnívoros. desengano, insónia, tédio, o peso trágico da tua voz, depois disso:
viviam num oceano com o silêncio dos textos, as gramáticas loucas.
viviam de tédios fáceis criados entre as árvores e as mãos podres.
– nunca antes me apercebera dessa veloz ansiedade. um peso, digamos: a tarde toda à tarde.
estátuas quentes – os gestos – como se de um campo de nomes se tratasse. de uma violenta e terna fome de ti, árvore desta tarde.
não soube nunca voltar-me para a cidade, perceber-lhe as intenções. a música salgada, quando os mortos nos ocupam a memória como estrangeiros inevitáveis.
nunca vi no vento a palavra liberdade.
a cidade levou a voz de cada um.
mar. exílio. a tua voz no sobressalto de outro corpo.
choveu muito durante a minha infância. tardes de maio distante.
– nunca saberei dizer-vos adeus.
uma viola canta nos corredores lentos:
o jardim. o pátio. armas do vento, quando esta música desprevenida nos toca.
é então que se torna violenta a vossa ausência.
é então que é preciso criar palavras, portas, imagens quentes.
– e maio torna-se um mês de uma angústia violenta.
esta ideia cresceu pelo lado de fora dos prédios. habitou as mais longínquas liberdades. deu flor nos sons verdes da minha infância.
– ouves o grito da tarde?
sons de uma voracidade atroz. terraços. pedras. memória despertada pelas tábuas proibidas.
mãos atentas em volta de um círculo de camélias geladas.
tudo agonia, vómito sustido a custo.
árvore dentro de outra árvore que não suportou o vento.
– ouço a tua tarde no vento da minha tarde. ouço a tua tarde.
os mortos gritam, enchem a memória com a sua verdade alta, com gestos recortados, manchas apodrecidas por outras manchas.
olhamos com terror os lugares vazios, os rostos perdidos:
olhamos o terror dentro da própria tarde.
dentro da cidade devoram-se pequenos peixes de alma exterior.
o que antes tinha vida está agora morto.
– lugares de pesadelo e sonho. lugares sôfregos.
vivemos entre os mortos.
gente morta. que já morreu ou morrerá subitamente durante a nossa lenta morte.
estamos cercados de mortos. pela própria morte. pouco a pouco morremos dentro de nós, embriagados por esse pequeno suicídio íntimo.
porque há uma cidade no meio das palavras – tu me disseste um dia.
quando falavas atravessavas a noite.
se te calavas, outro engenho maior. diferença de pássaro. flor transmudada.
a tua voz rói a minha dentro da tua voz.
a tua voz rói as palavras no caos. elegia precipitada.
o que em ti dá fruto, o que se sabe, é uma palavra cega.
uma tarde de maio, na doca das minhas mãos queimadas.
ardemos para cima. andares de morte, descoberta, fastio.
depois, isso: mudos, quietos, os olhos estoirados de espanto. abismo de reticências.
– ouves? toda a tarde. toda a tarde.
primavera da distância, quando o que freme, o que realmente nos incendeia, são as vozes mortas:
praias. armas, cigarros. tardes de maio –
essa borboleta exangue.
bancos das gares por onde passaram.
onde dormiram. os corpos
contagiados pela mesma fome. o mesmo sonho.
vi-os em magotes. os rostos lívidos. drogados.
ou simplesmente nus. o sexo e a mente em chamas.
a morte arde em maio, como uma rapariguinha descobre as mãos:
um frémito de surpresa.
o terror entrou na nossa idade como um exército opressor.
mãos agachadas de sangue, ainda sustiveram alguns dias.
depois foi o pesadelo em marcha:
praias. abundância. monstros vivos.
agora tenho medo. – ouves?
o nosso tempo foi uma joint chupada a intervalos numas águas furtadas.
mais nada. nem saudade nem esquecimento.
nem remorso nem liberdade.
porque há uma cidade no meio das palavras – tu me disseste um dia.
porque há uma cidade, porque há palavras no meio de uma cidade, porque tu me disseste um dia, e havia palavras numa cidade e o meio das palavras, porque tu me disseste um dia
[Fruta da época, frenesi 2004]
Papiro do dia (413)
«Uma história são pessoas num lugar por algum tempo. As margens da página, como o silêncio, estabelecem limites certos para que um conto não se confunda com o que não lhe pertence. Pode contar-se uma história enchendo uma caixa vazia ou desenhando paredes à volta de gente.
Esta é uma história de portas adentro.
Tudo se passa numa povoação encostada ao mar a alguns quilómetros de uma cidade média. De Inverno vivem ali pouco mais de dois mil habitantes, entre pescadores, gente pobre, famílias fugidas da urbe e alguns homens estranhos, apaixonados pelo mar ou desiludidos do resto.
Um prédio chegado à praia e um Inverno pesado e frio, de cobertores húmidos e doenças nos pulmões que silvam ao respirar. O mar ouve-se de bravo e, quando não é o mar, é o vento a imitar-lhe a raiva. Dentro do prédio procura-se calor no que há: caldeiras, fogo, corpos e alimento.
A história é contada em oito dias, os últimos sete de um ano e o primeiro de outro. Nada saberemos do futuro e pouco do passado. Nesta história o tempo é medido em medos, um a cada dia, o tempo certo para que homens tremam e mudem.
O medo nasce em qualquer lugar, como erva daninha por dentro. O medo suporta tudo e cresce no escuro até ser adulto, até ser do tamanho de um homem, e lhe tomar o corpo e pensar por ele.
Neste Inverno as gaivotas são gritos com asas. Por estes dias o fogo é frio e anda nas ondas e anda por todo o lado.
No prédio, pessoas em cima umas das outras, divididas por tijolos e cimento, apartadas em apartamentos, para que não caiam e se baralhem as vidas de cima com as de baixo. Pessoas arrumadas como histórias em estantes; só que não é assim, quase nunca é assim.»
[Nuno Carmaneiro, Debaixo de algum céu; Colecção Prémio Leya (2012), 2013]
28 de maio de 2013
27 de maio de 2013
26 de maio de 2013
25 de maio de 2013
... mas que selente par de nalgas!
[não desfazendo, claro, mas é de se ficar petrificado...]
24 de maio de 2013
Às vezes, lá calha...
«Pertencia a um pequeno grupo de escritores de terceira e só tinha as suas opiniões a que se agarrar e, como nunca sabia ao certo quem devia admirar, admirava o que as outras pessoas admiravam, o que era, claro, fatal.»
(Sam Savage)
Nem sempre a lápis (370)
Concluída a (inesperada e animadora) prospecção de mercado, toca a limpar os capítulos de até Jajouka, aqui publicados quase na íntegra nos últimos meses, e entregar o material à paciente Inês Mateus. Se o fole aguentar até lá e não ficar muito caro, admito que o texto tenha páginas para andar em edição de autor, numa tiragem nunca superior a uma centena de exemplares numerados e assinados por ele; por mim.
Como os manos anteriores - A cicatriz do ar (ainda há alguns), A mulher descalça (esg., mas com texto "continuado" a aboborar), O livro do fim (contam-se pelos dedos) e o próximo Nem sempre a lápis (edição revista e aumentada) - só disponíveis através da livraria on(a)linhas do blogue.
Papiro do dia (412)
Esta manhã encontrei no frigorífico as uvas que comprei há uns dias, como penso que referi e das quais nunca mais me lembrei, enrugadas mas, de resto, intactas, e comi o saco todo enquanto fazia as palavras cruzadas que trouxe do Starbucks. Não consegui descobrir todas as palavras. Houve tempos em que era frequente conseguir descobrir todas as palavras, mas isso é impossível agora que a maioria se refere a programas de televisão e celebridades que só as pessoas que vêem televisão conhecem – as pessoas que vêem muita televisão, dá-me ideia. Até as palavras cruzadas do New York Times ficaram assim, indecifráveis para pessoas como eu, pessoas com formação literária que não têm televisão. Agora que penso no assunto, suponho que seja esse o motivo. Não me dei ao trabalho de escrever a habitual nota no jornal no outro dia, a avisar que o problema de palavras cruzadas tinha sido arrancado: não sinto qualquer afinidade com o tipo de pessoas que conseguem resolver problemas de palavras cruzadas hoje em dia. Olho para os problemas e para as pessoas, no café, especadas a olhar para os computadores que estão em cima das mesas à sua frente, e pergunto-me, quem são estas pessoas?»
[Sam Savage, As recordações de Edna; trad. Sofia Gomes, Planeta, Janeiro 2013]
22 de maio de 2013
21 de maio de 2013
20 de maio de 2013
Às vezes, lá calha...
«Estou a escrever isto e estou a imaginar-me vista de fora, o aspecto que devo ter para alguém que espreite da rua em baixo: uma senhora de idade de pé à janela, a olhar para o exterior, os braços levantados à altura da cabeça, as mãos encostadas ao vidro.»
(Sam Savage)
Nem sempre a lápis (369)
até Jajouka
(2006)
Gostava que este livro, se tiver de ser um livro, ao folheá-lo sentisse o toque da tua pele e ouvisse a tua respiração enquanto dormes; permanecesse secreto e inacabado, escrito e reescrito como o livro que me recuso a escrever, onde não houvesse lugar para lugares-comuns e, à falta de melhor, o silêncio se impusesse à previsível conclusão de cada período; fosse um palimpsesto onde latejam outras páginas, em branco e decifráveis, sobrepostas como sucessivas camadas de cal dos montes do Sul e as escamas de ardósia dos derradeiros telhados da Beira, comunicativas e arejadas como açoteias de Tânger e de Asilah; memória amnésica, fronteira de fronteiras derrubadas.
30. (de Setembro)
Já arrumei a mochila e atestei o Land-Rover. Esta madrugada arranco até Jajouka.
[até Jajouka, Monte Alto / Mortágua | Maio / Setembro de 2006]
Papiro do dia (411)
«Quero dizer antes de mais que Clarence era uma pessoa sinceramente afável, embaraçosamente afável, achava eu, quando íamos a festas e ele fazia figuras tristes. Na presença de certo tipo de pessoas – com uma inteligência ou um talento acima da média, ou com muito dinheiro, o género de pessoas que não conseguia deixar de achar bem-sucedidas – sentia-se intimidado, por causa das suas origens e porque ele próprio foi, mesmo no seu age, apenas em parte bem-sucedido, e depois tornava-se odioso ao fim de uns copos, apesar de começar por ser incrivelmente afável, e com “incrivelmente” quero dizer “efusivamente”. Fazia isso porque, ao mesmo tempo que tentava mostrar esse tipo de afabilidade, estava também a tentar defender-se e era frequente acabar a falar daquele modo espalhafatoso, incoerente, que as pessoas acham tão irritante. Curioso era que quanto mais ele se tornava um escritor de festivais mais britânico ficava, embora nunca tivesse vivido na Grã-Bretanha, excepto, como acho que já disse, durante algumas semanas num Verão – britânico na maneira de vestir, na pronúncia, até no vocabulário – e quanto mais bebia mais imperialmente inglês se tornava, até estar bêbedo que nem um cacho e de repente voltar a ser um típico filho da Carolina do Norte. Clarence, quando começava a ficar alegre e a falar sem parar, reparava no meu silêncio de desaprovação e dizia qualquer coisa como: “Pareces muito chateada, miúda.” Eu odiava que ele me tratasse por miúda. Claro que depois arrependia-se. Às vezes, após uma noite a dar espectáculo, quando voltava a ficar sóbrio e eu lhe explicava o que tinha acontecido, encurvava-se a tremer, cheio de remorsos – no chão, por vezes na terra húmida, as folhas e as ervas deixando nódoas no seu casaco – e choramingava de mortificação e vergonha. As ressacas físicas deviam ser também horríveis.»
[Sam Savage, As recordações de Edna; trad. Sofia Gomes, Planeta, Janeiro 2013;
18 de maio de 2013
Às vezes, lá calha...
os músculos preparam, meticulosamente, a própria derrota.»
(Gonçalo M. Tavares)
Nem sempre a lápis (368)
até Jajouka
(2006)
28. Esta manhã, creio ter feito as coisas como devem ser feitas: deixei a Olga em Portimão, vim pelo Parchal – bebi outra bica, enquanto enrolava quatro cigarros – e levantei cem euros no Multibanco; passei no cruzamento de Porches para o Monte Alto caladinho que nem um rato e entrei naturalmente na Via do Infante, em Alcantarilha, sem ser assediado pelas habituais ruminações se tivesse entrado em Lagoa e, com o mar azul a brilhar à minha direita, percorri bonacheironamente os cento e cinquenta quilómetros até Huelva, apenas atento ao manómetro do gasóleo e da temperatura deste jipe a que ainda não me habituei – e tive de largar dois mil e quinhentos euros para substituir a Azulinha, a Volvo 245; só lhe faltava falar, caraças – e não faço a menor ideia de quanto tempo precisarei, nem de quanto dinheiro que não tenho para gastar com a educação deste Cherokee teenager, nome e cor de xarroco. Verifiquei, surpreendido e simultaneamente incrédulo, que o arco à entrada da ponte sobre o Guadiana foi finalmente substituído por um fundo marítimo, mais cúmplice com o que encontrou quem sai do Algarve, do que o prepotente relvado que ali permaneceu dois anos, se não estou em erro, substituindo a discutível e crescente realidade dos campos de golfe por um interminável estádio de futebol a que parecem querer condicionar-nos; em cada casa e em cada carro, bandeiras ao vento. Mantendo a velocidade que me permite divagar sem perigo, cheguei a Huelva sem sobressaltos – além da habitual rajada de mensagens no telemóvel, onde o big brother, a pretexto de me fornecer não sei que espécie de informações não solicitadas, está pura e revoltantemente a controlar-me e a dizer «Com que então, em Espanha, seu maroto…» –, confirmando o preço mais baixo do gasóleo, e estacionei, como habitualmente, no parque Damas – embora duvide que se possa estabelecer qualquer analogia entre o nome da empresa de autocarros e o livro do Mário Zambujal, Primeiro as Damas –, depois de ter subido o silo até ao sexto piso, onde arrumei logo à primeira, sem me debater com a natural preguiça para fazer manobras. Enganei-me no elevador e saí para a rua do lado oposto à que me convinha e conduz directamente à Librería Saltés, parando primeiro numa loja de artigos fotográficos, onde também não tinham um rolo para a instamatic (quando precisei dela, verifiquei que a tinha deixado no jipe) e entrei na tabacaria ao lado onde, feitas as contas, poupei em dez onças de tabaco o suficiente para o parque de estacionamento e o almoço, a encaminhar-me determinado e transpirado para a livraria, a fumar o quarto e último cigarro enrolado no Parchal (bem me parecia que bastam quatro para fazer o percurso), onde entrei com o dedinho espetado que (sem dificuldade de monta) retirou do expositor o ambicionado Entre paréntesis de Bolaño, e aproveitei para encomendar La ciudad ausente de Piglia – evitando, assim, o confronto do Land-Rover com o trânsito sevilhano quando por lá passar a caminho de Jajouka –, garantindo à morenaça que me atendeu que não tinha pressa e pode comunicar a chegada durante o mês de Setembro, como prometeu. Livros para traduzir não me faltam, até Dezembro e, no intervalo, leitura de sobra por conta de Bolaño, como não tardaria a verificar. Saí para a rua ocupada por viveiros de pernocas douradas (claro que olhei) que mais pareciam apeadas de cartazes a anunciar as virtudes do ozono da Isla Canela, e sebes de pernões de moças da minha geração empoleiradas em cima de chinelas periclitantes e com aquele ar meio atarantado da menopausa, creio, e atalhando pela rua pedonal para não cair na tentação de me sentar numa esplanada a folhear o Bolaño, dirigi-me ao mercado por vielas coloridas, com os olhos a cobiçarem dois ocres revelados por uma demolição e a luz do meio-dia (hora de Portugal), e entrei no mercado pelo lado oposto ao habitual, dando rédea solta ao olfacto atordoado pela bordoada das frutas e dos legumes, os sacos de cominhos e açafrão, evitando as bancas de peixe vivo que não podia trazer, mas comprei lombos altos de bacalhau de fazer crescer água na boca, e estava com uma sede que nem vos conto, figos, pimentos e cebolinho a um euro o quilo, o tomate a sessenta cêntimos, saindo pela porta habitual para me sentar no Alba e poisar os sacos que me cortavam as mãos, enquanto pedia uma tapa de pescada frita fresquíssima, com um quarto de limão e meio litro de água, entretendo-me finalmente a abrir Entre paréntesis, lida a contracapa e escolhido o texto que dá o título ao livro, «El narrador en la intimidad», onde li «A minha forja [cocina, no original] literária é, frequentemente, uma divisão vazia, onde nem sequer há janelas. (…) Confrontado com estes dilemas, geralmente faço o que faz toda a gente: perco o equilíbrio e penso que sou imortal. Não quero dizer imortal literariamente falando, porque isto só pode sê-lo um imbecil e não sou homem para tanto, mas literalmente imortal, como os cães e as crianças e os bons cidadãos que ainda não adoeceram.» Saboreada a pescadinha, e porque o Alba faz questão de só servir café durante as horas que lhe justificam o nome, fui tomá-lo, servido num eterno copo de vidro, sentado à janela de um café decorado com cabeças de dois supostos Miuras e uma exposição antológica de cartazes de touradas, de Huelva e das redondezas, uns mais recentes e outros a tresandarem à Espanha do pós-guerra, onde fui abordado por dois ciganos muito interessados na minha caixa de enrolar cigarros, dizendo-me que era uma maravilha para enrolar porros, joé! (charros, não vá o leitor não saber), como quem diz, «E que tal uma troca?», mas o que eles sabem já eu me esqueci, e informei-os que as vendiam na tabacaria onde antes comprei o tabaco (saindo-me o parque de estacionamento e o almocinho de borla, mas creio já ter dito isto, desculpem), insistindo o mais teimoso – com o cabelo encaracolado à trolha (sem ofensa) a brilhar como se o tivesse penteado com azeite (de Jaén?) – em vender-me um espampanante cachucho dourado, ao que respondi esticando a singela anilha de prata que me caracteriza o dedo mindinho e, finalmente enrolados quatro cigarros (está mais que visto que são os necessários) e bebido o café, bebido o portuguesíssimo vício da bica, dirigi-me ao parque recusando-me terminantemente a ver a tal parede que só me apeteceu assinar, eu que raramente assino o que pinto, desci e abasteci o Xarroco na estação de serviço à saída de Huelva, decidido a chegar a casa e escrever este texto que transcrevo praticamente de cor.
Papiro do dia (410)
«Da mão direita à outra do mesmo homem vai por vezes uma distância obscura. Não se trata de uma parte esconder intenções ou até acções. É outra coisa.
Quando, para receberes alguém, abres os braços, a referida distância aumenta e a mão, em cada ponta, assinala um certo modo com que o teu corpo se dispersa. Quando o abraço se concretiza e nas costas do outro as mãos finalmente se reencontram, formalizam um símbolo ao mesmo tempo desolador e esperançoso: é que só nas costas do outro as tuas duas partes se unem com uma energia digna de admiração. Experimenta, sem outro corpo no meio, unir com força, com violência até, as tuas mãos, e verás o ridículo, perceberás a diferença de intensidade.
Mas por vezes – como bem sabes – não há outro corpo.»
[Gonçalo M. Tavares, Breves notas sobre o medo; Relógio d’Água, Maio 2007]
17 de maio de 2013
«Na próxima sexta-feira, dia 17, Dia Internacional de Luta contra a Homofobia e Transfobia, o Parlamento vai discutir diplomas do BE e do PS. (...) Em Fevereiro do ano passado, idêntico projecto-lei do Bloco foi chumbado, embora 58 deputados tivessem votado a favor: 38 do PS, 9 do PSD, 8 do BE, 2 dos Verdes e 1 do CDS-PP (mas nenhum do PCP).»16 de maio de 2013
Apanha malhas
«... pediu ao balcão o livro do último prémio Leya. Andaram por ali, largando comentários sobre a essencialidade da literatura nas suas vidas e mostrando a sua relação íntima com os livros. Até que a mais gorda, arrebitando a crista, abanando o pelancame vermelho da barbela, olhou em redor e cacarejou assim ”Eu, se pudesse, levava a livraria toda!”. Saí, claro está. Fui enfiar-me numa loja chinesa a comprar collants. São mais baratos, a qualidade do fio é a mesma e as cores têm nomes bonitos: muskade, duna, tropical.»
«... pediu ao balcão o livro do último prémio Leya. Andaram por ali, largando comentários sobre a essencialidade da literatura nas suas vidas e mostrando a sua relação íntima com os livros. Até que a mais gorda, arrebitando a crista, abanando o pelancame vermelho da barbela, olhou em redor e cacarejou assim ”Eu, se pudesse, levava a livraria toda!”. Saí, claro está. Fui enfiar-me numa loja chinesa a comprar collants. São mais baratos, a qualidade do fio é a mesma e as cores têm nomes bonitos: muskade, duna, tropical.»14 de maio de 2013
Subscrever:
Mensagens (Atom)































