30 de julho de 2013
Porque a Net fornece um novo dia
«Enquanto escrevo deslumbro-me com a habilidade e a velocidade da minha mão.»
Às vezes, lá calha...
«O instinto científico de que se orgulhava era resumido numa frase: um homem que não procure Deus é louco. E um louco deve ser tratado.»
(Gonçalo M. Tavares)
Nem sempre a lápis (380)
Sueste
2. Enquanto o sol se empina no ar, como um cavalo com cio, os pardais ocultam-se no fundo da luz –
estandarte verde esmeralda onde nenhum corpo recupera da insónia e tudo é peso resgatado ao ar.
Nada lhes denuncia o abrigo;
as crias aguardam que a canícula aloure a seara para alimentarem a cobiça dos costelos;
os lagartos esticam a língua sobre os muros velhos,
mas as cobras passam ao largo, evitando os cardos que as mulheres secam no telheiro para talhar o leite.
A brisa turva a poalha do largo abandonado,
onde os cães reinam como larvas numa página esquecida.
Papiro do dia (421)
«À medida que o tempo passava o pudor das crianças diminuía drasticamente, o que significava também que o receavam menos – a ele – Hinnerk. Algumas vezes – quando se aproximavam em sentido contrário – Hinnerk ouvia, distintamente, uma ou outra criança a murmurar: vem aí o homem.
Esta frase tornara-se uma espécie de apresentação ao mesmo tempo secreta e obscena: vem aí o homem.
Hinnerk, em certas ocasiões, depois de se cruzar com as crianças, sorria, ouvindo naquela frase uma espécie de apresentação infantil da humanidade: vem aí o homem, eis o homem, prestem bem atenção a ele: o Homem. Um pouco como se aquela frase surgisse na sequência de um espectáculo teatral em que se apresentava ao público elementos dos diferentes reinos: eis uma planta, e eis que vem aí um animal, um cão, e agora, cuidado, vem aí um homem, o homem; e então entrava Hinnerk para o palco, agradecendo os aplausos das crianças em júbilo. Eis o homem, já chegou, sou eu.
Mas era evidente que Hinnerk sentia a hostilidade das crianças. A frase vem aí o homem dizia ao mesmo tempo: tu não és um homem, e dizia também: não quero ser como aquele homem.»
28 de julho de 2013
26 de julho de 2013
25 de julho de 2013
Às vezes, lá calha...
«A cor introduzida quase microscopicamente na beleza não visava porém o estado de beleza inerte; a cor não queria homenagens, mas sim entusiasmos.»
(Gonçalo M. Tavares)
[Alberto Carneiro, até dia 27 no Teatro da Politécnica]
Nem sempre a lápis (379)
Sueste
1. Enquanto a manhã se consome a devorar resíduos de Lua, os cães farejam o ar sujo e denunciam as mulheres derreadas a caminho do mercado.
Cheira a pão fresco e roupa a corar – cheira a sabão,
as laranjas crepitam sobre a mesa,
os cavalos pastam junto à estrada requentada – alheios ao bulício na pedreira.
As crianças espezinham as flores que incendeiam a sarjeta – disparam armas imaginárias, apuram a vocação predadora –
abandonados na valeta os jornais escancaram imagens subitamente envelhecidas
e a brutalidade do sol debota-lhes a actualidade.
O lixo desaloja a água da fonte no meio da praça
os gatos disputam a ilusão de frescura do tanque, onde já ninguém se debruça para refrescar a cara e ajeitar a expressão magoada.
Papiro do dia (420)
«Queria que do meu estudo resultasse um gráfico – um único gráfico que resumisse, que permitisse estabelecer uma relação entre o horror e o tempo. Perceber se o horror está a diminuir ao longo dos séculos ou a aumentar. Se é estável. Repara que se descobrir que o horror tem uma certa estabilidade histórica, que mantém certos valores, digamos, de cinco em cinco séculos, se conseguir encontrar uma regularidade, estarei perante uma descoberta fundamental. Quero chegar a um gráfico do que se passou até aqui – desde que temos relatórios históricos mais ou menos fidedignos – nos vários campos de concentração ou de extermínio – não nas batalhas, isso afasta-se do que pretendo – nada sobre conflitos entre exércitos que, podendo ser mais fortes ou mais fracos, são forças a ter em conta, isto é: forças que podem infligir baixas significativas no outro lado. O que quero estudar não é isso, aí estamos a falar de luta e não de horror. Quero apenas estudar as situações em que uma parte não tinha qualquer possibilidade – ou mesmo vontade – de infligir baixas na outra parte, e em que a parte forte, sem qualquer justificação – ou pelo menos sem a grande justificação que é o medo – dizimou a parte fraca.»
[Gonçalo M. Tavares, Jerusalém; Caminho, 12.ª ed. Março 2012]
21 de julho de 2013
20 de julho de 2013
3 de julho de 2013
Este é-buque que vos deixo (5)
O Ocidente é uma pescada de rabo na boca; letreiro (o que se sabe é o nome de uma cidade) parece destinar-se aos inocentes e deslizantes Verões de Cascais – as ruas começavam a pensar até setembro –
«Está na moda arrependermo-nos dos excessos, uma resposta universal à crise de sentido que afecta o homem moderno» – apagar o nome : ingressar no anonimato : apesar das letras pequenas junto de uma boca de metro – in finitogames wak’up – consolo da peregrinação – «praticam agora terrorismo eleitoral junto de um povo cujas feridas ainda não sararam» – uma bela demonstração da dignidade humana – A escrita deve terminar o mais rápido possível – «Escolheu Tânger para se perder» – mas os propósitos de ambos indicam as dificuldades dos telemóveis na era do entretenimento : «a política de Marx, a psicanálise de Freud e a antropologia de Lévi-Strauss – rouba-se sempre qualquer coisa de muito nobre à morte –, sem esquecer o ocultismo e os cultos orientais, todos eles tentativas falhadas de dar dois filhos. – Julgas que se preocupou? – O pirilampo é o campeão da lata… É tudo o que posso dizer-lhe. E a palavra de um deputado vale alguma coisa» – conversa que não se cansa de riscar os nomes das coisas – palavra tremenda que atravessa os séculos – espião da maliciosa oferenda traficada dos números e das medidas – onde se vive da morte e se joga o sítio a habitar por Ninguém – Toma o pulso ao olhar e volta-se – the air wich is now thoroughly small and dry – Volta-se com o pesadíssimo chumbo de um corte
«uma homenagem a todos os arquitectos, engenheiros e pedreiros que constroem a cidade», com uma metralhadora nos olhos e a farda escondida na alma – «porque não há mais metafísica do que castanhas assadas» – um bom produto não precisa de garantia – «A administração pública é inútil e prejudicial» – simplesmente gostei da forma como soava… o moço que regula o mundo – Morreu aos 80 anos, num hospital de Moscovo – A literatura também devia existir para estas coisas e ter os seus usos práticos – ONU debate a nova guerra – mandar bugiar os medíocres – recolhida num quarto, em Coimbra – consciente de que prometer o céu hoje pode ser dar o inferno amanhã, através do contacto com o operário que agora possui o instrumento – à maneira que fui crescendo. Ele foi mudando – «O isolamento serve para matar as nossas ideias» – isolar-se quando lhe apetecia e a recusar os fretes impostos pela sociedade – UMA CENA DE VIOLÊNCIA – seleccionarem rapariguinhas sensatas e inteligentes que fossem capazes de falar em público, de chorar, de se mostrarem tímidas.
Déjenme soportar mi duelo en paz – Foram dados cinco recados da América: «A sedução vive a presença do outro como uma ameaça, não como uma complementaridade» – Como sou professora universitária, estou todo o dia com rapazes novos que embarcaram nas caravelas para sair da terra, apesar de ser incapaz de trair o meu marido – Déjenme soportar mi duelo en paz
«Aguarda o dia em que do céu descerá uma fumaça densa. 44.9» – este letreiro doloroso – era “trip” atrás de “trip” à espera de ver Deus, mas geralmente acabava com uma grande ressaca – «Dormi com o namorado da minha filha – em todas as circunstâncias. – Já não há horas de ponta, são todas!» – Nem sempre as mensagens são intermutáveis: «ficam na fronteira entre a consciência e a realidade, mas não são bem a consciência nem bem a realidade» – Quando ouço falar de cultura também me apetece puxar da esperança no género humano, na salvação pela arte, na beleza e no trabalho – Vejamos como funciona a “cortadora de malmequeres” – mandei construir um terraço coberto – ¿no eran acaso catedrales? – onde podemos conversar enquanto vemos cair a chuva – Como quer você que eu dê dinheiro àqueles que cantam? – Parece mentira mas é verdade: «Gostamos de sentir a energia do Bokassa» –
Passa de madrugada e fala da América enquanto porta-aviões – Isso é uma história que terá de se fazer mais tarde porque foi uma “boca” que foi lançada para o ar sem provas – o nosso objectivo não é os Americanos na linha da frente – «nós não treinamos quando está a chover» – o ácido dava-me cabo do sistema, e embora continuasse a tomá-lo não nos acha grande coisa. E deve ser, pela forma como leva a peito o problema da nossa história – «Por acaso não viu a minha tribo?» – Começou cedo a não assumir compromissos para Dezembro – E acrescenta, delicado: «Se no fim do ano, QUANDO TIVER DE SAIR, se não tiver outro espaço, equaciono o atractivo da escrita» –
Os pés perdoam-me a pistola. De água. PINTURA À PISTOLA – Acredito que chegará o dia em que todos teremos a informação que queremos nos canais de televisão que temos – Mais quentes, no sul dos Algarves – «Tânger é simultaneamente a antessala do futuro e o covil do passado» – a imigração não leva ao terrorismo – A procissão de cegos só muda o rumo ao bater nos obstáculos – e nesses sucessivos Verões – «experimentei maconha e ficava pedindo – SAÚDE PÚBLICA – porque os leitores têm o direito de conhecer os factos, de ultrapassar a manipulação» – um GRAVE PROBLEMA de público – «Foi assim que criámos monstros como o Mobutu, o Idi Amin ou o pecado» – E se ainda disser que a fluidez da escrita cativa ainda mais a ponderação da reflexão, estou a recomendar vivamente a sua leitura – à la carte – É preciso o massacre que faz o atleta –
E agora que o medo deserta – bajo el que un gnomo con babuchas y gorro puntiagudo se ampara como puede del despotismo solar – vindo à tona da ferrugem do Grande Início – ave de grande porte a afastar-se para o outro lado do luto das imagens : escrever é retirar a linguagem do mundo – caixas mortuárias onde jaz um corpo legendado a sal –
Escrever é a interminável, a incessante e contraditória renúncia a dizer ‘Eu’ – … falam em voz alta no meio das trevas e mudam toda a história da escrita… – A sabedoria das nações cauciona, como prova de maturidade, o cada um deixar-se levar pela corrente do seu tempo – El acto de escribir no es más que el acto de aproximarse a la experiencia sobre la que se escribe; del mismo modo, se espera que el acto de leer el texto escrito sea outro acto de aproximación parecido – é a frágil ponte que separa o riso da loucura.
A poesia isola os poetas, reserva-lhes um destino de separação e negação, e é esse o preço a pagar para manter o contacto interdito aos cérebros mortos – prestigio irrisorio de un sistema caduco que parpadea a años luz de distancia, como el brillo de un planeta abolido – A poesia e só a poesia revela ao homem o segredo primordial : o que ele é não esgota o que pode ser – atros merienda de blancos –
«As notícias são susceptíveis de ser estudadas pela fenomenologia, isto é, que me mordessem porque achava que era uma maçã» – para mostrar do que eram capazes – because one has only learn to get the better of words for the things one no longer has to say – Constitucionalistas são unânimes: «Os mortos não têm recordações, os mortos são uma invenção, uma armadilha da memória» – um cão cheio de pulgas a correr atrás da cauda
2 de julho de 2013
Este é-buque que vos deixo (4)
sinto que ligas sentimentos que se desligam :
deslindam os paralelos soterrados pelo asfalto : o aquedutapodrece na searausente : entre o sonho e a ferrugem da sombra : muralha das cores : tacto precário da água : filme feito dárvores e decasas também :
a fruta fustiga o olhar dormente : hemorragia de grés : mapanatómico quemecusta soletrar : pomar mediterrânico no gume da fartura e da extinção :
transportaram a cobiça da fruta : tábua
de nódoas bramindo contra o vento trespassado
por um sopro : sacode o ar com a cauda e o olhar perscruta a
fome : o frio das
facas : sobrevivência e
artesanato : pegadas na areia molhada : asbibliotecas : oar-
risca a luz comum burilantigo :
as fotografias ficarão vazias : asdedicatóriasem
branco : desafiam o mar como uma lenda à deriva :
espécie de fronteira
móvel : sacodem
a paisagem com a cauda : a babugem refresca-lhes o focinho : riscam o horizonte com asasas insufladas pelaluz : cal volátil e doce à deriva no ar :
ferro quente
na terra : silêncio
secura : lâmina da
sede : adormecer num leito de folhas podres :
o pó é uma ressonância :
poucos são os ousados que se atrevem a ler de olhos fechados : é frágil a ponte que se-
para o riso da loucura : sem o dom da palavra nem da imagem : topografiadevorada pela secreta
magia do musgo
das mãos : mancha
verdassustada : escrevemos casa :
sinto que ligas sentimentos que se deslindam
1 de julho de 2013
Este é-buque que vos deixo (3)
filme feito dárvores e decasas também :
luzestampadanoar : encostada pelachuva na lâminadoar : talhada numa gota : contra luzem contraluz : os mortos não têm recordações : correm atarantados na geografia do desejo : lua sobamão domes
ticada : manipula
são : rainbow : salta : repula : saltinta : respiga : in finitogames wak’up : arquitecturalheia a qualquer preocupação de utilidade : lugaralto queasestrelas consomem nas constelações dágua : atravessa corredores de bocas
vivas : sobracamardumrosto de maçãs
novas : apresentam no
corpo : vestígios de
calorintenso : doçurinesperada :
casaocontrário : habitada por árvores : sentam-semcírculo e parem : instrumentos de música : suicídio : abrem-sas portas com estrondo : the air wich is now thorougly small and dry : moviam-sos braços : moviam-se
exaltantes movimentos
lentosdentrodas : frases assombrosas : vinham notícias : crescem na sala : aterradoras durantas refeições : escreviam nas paredes nomesinexistentes : acontecimentos históricos : casazul :
as portas : as janelas fechando-se
com estrondo : lugar
com trigo : prédio
com voz torturada : boca
desordenada pelasaves : ruas voltadas para uma estátua equestre : apodrecemosnoslugares
domésticos : atravessamosdesencantados
a linguagem : as portas
sãoplanas : os lugares
nãoexistem : vejo as tábuasatónitas encostadasàqueda : voltamo-nos para o centro : os barcos alimentam
a paisagem : a paisagem mastiga
osbarcos como a estátua
devorahomenagem : os telhados dão fruto : tábua esplêndida : as paredes : tudo mexe emvolta
das tábias : dalma
distraída dumave : batemosasmãos
arrancadas das paredes : as árvores mancham as civilizações : pouco se sabe da nossa vocação : a
terra muda de
posição : apodrecemos lentamente por baixo :
palavra tremenda que atravessa os séculos : nome
nomenrolado numa pedra : o nome é o ovo das coisas?
a vertigem decepa as tábuas : as tábuas atravessavam velocíssimas o oceano :
as ruas começavam
a pensar até setembro
as ruas assaltam
os prédios : a comer-nos o chão : o oceanarde dencontràs ruas
transtornadas : às raizestonteadas
dos mortos : aprendizagemlenta daságuas : rosto
queas letrasarran cavam dos textos : a mão traga
alinguagem
belezatónita : em volta das
fotografias lentas : prédio
nabocadum cavalo :
a floresta toca o fundo das raízes : suicídio lento : a madeira dá fruto sob as algas :
quanto tempo demora a chuva : comenvelhece um gesto renovado pelo silêncio : as palavras dão-
te fruto
nabocaparecem-
te manchas : os subterrâneos sustentam as trevas : caudanimal adormecida : exacto : inteiro às portas
doar : tão azul : água tão
levaté onde sangra : voz precipitando a boca venenosa : traduzida
para as frases mortas das paredes : fotografada
pelolhar horrorizado duma criança :
um moribundo tem sempre dois dedos : cospe-lhe o rosto na parede : árvore que batosramos pousadanoar : só os ritos do ramo lunar são observados : deixar de parecer realidade e apenas decalque de si própria : fogo extinto nas ruínas : lombadas empenam o horizonte : recortadas pelo analfabetismo : trucidado peloar daerva :
feita do que é necessário saber «ler» :
que belicaloroso tempo tivemos lá dentro mas quão lisas por cá são as brisas : sabem ondelabita mas não devemos contar a nessuno à luz de fogo fátuo : é uma velavelada cabana de um mês com ventosas ventanas e uma : lá stá a avepiupiu a debicar um corre-pouco, faz-pouco, roga-pouco, verte-pouco, torce-pouco, recua-pouco, separa-pouco, come-pouco, chora-pouco, sabe-pouco, pinga-pouco, pilha-pouco avepiupiu : Où est ta mère mon enfant? : nenhum riso antes do meio-dia nenhum :
masera nas paredes do quarto, de um e outro lado da cama, que a noite sinstalava, como uma nova forma de vida, saudando a luz artificial com a panóplia das formas chinesas quemanava :
cheiro a comida de pobre :
cheiro a pensão espanhola :
estranha necessidade de acreditar não só nos duendes malignos, mas também no anjo da guarda : olhar tornado baço e distante pelaslentes dosóculos : como quem viaja demasiado para Sul
navegando imperceptivelmente desde o azul claro do sonho ao preto mais negro da ausência :
marca indelével do inimigo :
rapina e repugnância :
quando sonhamos, o excesso dos nossos sonhos pode despertar-nos : pegava em quatro paredes caiadas : construía o cenário para que uma cadeira de palha ou uma ânfora evidenciassem a gritante presença da sua aura : os artigos marcassem o compasso :
os verbos desferissem golpes de baioneta :
páginas escritas por um sectário que se vangloriava de se encontrar entre os que pararam o Sol : naquela tarde : aldeia com nome de cão tricéfalo : onde se falava de fugas para países inexistentes em barcos fretados por ricos dalém túmulo : à medida que o barco safastava lentamente do porto
a cidade dissolvia-se no cinzento claro das transições entre a folhagem dasárvores : o cimento
dosedifícios : os rochedos
dasmontanhas vizinhas : cheiro a comida espanhola : cheiro a pensão de pobre :
mundo de indiscrição que se move por afectos : coelho todaninhado natopo grafiadevorada pela : penugem de barriga inteira : secreta
magia das palavras : mancha
verdassustada no musgo das mãos : levantavam
cabeças dos avós nos papagaios : nomeiodasala : rescrevemos sobra
mão escrevemos:
filmefeito dárvoresedecasas refeito
30 de junho de 2013
Este é-buque que vos deixo (2)
não há silêncio numa folha em branco :
refém de um trrrim : écran verdelíbido quespicha a manhã emurcha a madrugada : seca a solidão da noite : cabouca salpicada de pin’s : interrupções : hemorrágica falha de linha : gangrenado :
julgou reconhecê-la no signo egípcio representado pela pena
«o que tudo traça» : no seu próprio «pequeno pedaço de parede amarela» : sequência de visões dignas de certidão de óbito :
também os pacientes de melancolia se incluem entre os degenerados que alcançaram esse estado especial, caracterizado pela ciência e a filosofia alemã como dasen ohbe leben :
derradeira oportunidade dos objectos manifestarem a sua aura : antes dos Nomes : olho plúmbeo e gelado que os mantém amarrados ao chão : afugentando os Nomes : escorraçando-lhes as cores :
«o irreparável já
aqui está…» : o pôr-do-sol não era muito mais atraente do que o seu longo e monótono périplo sobre as nossas cabeças?
quadro feito não de cores mas com o Nome das cores : Nomes iluminados : e a cor ressoou no quarto com a brutalidade da luz mencionada :
água :
manancial oculto no próprio Nome de onde brotava : Muro sou, e os meus seios são como torres. Assim me tornei aos seus olhos como quem encontrou a paz : asno sarnento a ruminar um livro : ovo projectado no ar pelo silvo das serpentes : picado pelos espinhos ígneos dos ouriços : ostra aberta ao sol :
secante tumular :
ovo surgido da essência dos cinco elementos primordiais : alado
ovalado : pégaso :
hylé :
chama vertical valoroso e frágil : constrói a sua casa como a aranha :
a morada da aranha é a mais frágil das moradas :
paletartudida no recato da solidão : OBuses cor de placenta : centos de crónicas dágua feminina : um ovo? : Nome gorado pela pena que traça : empurra o horizonte : late com um latido à dimensão do chat oculto no log : propriedade do lodge : solidão jurássica : mente
ausente no manancial do olho : três
olho dado : trespassado pelo asno que lê : rumina : um livro sarnento na secura sardenta do crepúsculo : périplo monótono a noto :
não há silêncio numa folha em branco : pregão do esparto e da incredulidade : servem de repasto às aves : à sofreguidão urbana : aquecem a luz ausente :
as palavras têm a intensidade ambígua do poente : rio dentro de uma vaga : a escritravessos limites do frio : a vocação da fome :
servem de repasto à arrogância : ao medo : o relógio da igreja anuncia um tempo ignorado : último anel aberto pela pedra que se esconde no esquecimento : p’raca
respiração da chuva apodreça o ar : dobre os telhados : afine o voo pelas rotas do Sol e da abundância : pira de fumolento vigiada pelaridez alquímica dos carvoeiros :
na escrita do vento e da distância : voz da ausência : concerto de moscas enlouquecidas pela resina : ferramentas da ausência e do tédio : enxofre soletrado pela febre e a caça :
gado enrolado na cauda : ninguém se debruça no vazio para escutar uma lenda : ninguém chega do rio : ramo de peixes a gotejar
no soalho : rodapé africano com que justificamos a história :
a solidão : só a cortiça
pactua com a memória : solidão bordada a folhelho e sobras de sol :
os carris fervem nos canteiros : apeadeiro da adolescência : mandala de cinzas sobre a mesa :
mesa posta para o repasto da cultura :
mãos que recolhem cinzas como quem esbanja arco-íris ancestrais : areia devorada pela arrogância europeia da solidão : como se esfolasse a carepa da memória :
quanto tempo demora a chuva : comenvelhece um gesto renovado pelo silêncio : as palavras dão-te fruto
na bocaparecem-te manchas : os subterrâneos sustentam as trevas : em breve serão um animal com a cauda adormecida : exacto e inteiro às portas do ar : tão azul : a água tão
levaté onde sangra : voz precipitando a boca venenosa : traduzida
para as frases mortas das paredes :
fotografada pelolhar horrorizado de uma criança :
o vento nunca nos devolve a voz porque
o eco devora as palavras : silêncio à tona
do sono : à boca
das cisternas habitadas pelo som que não sacia : repetem a demanda juntao sono :
lugaresatravancadospelasecura : ilhas da memória : procissão rural das bestas sobrevoada pelas aves recortadas
na distância : os barcos içam a Lua no pavilhão :
para lá da enseada é tudo novo e desconhecido : cardumestilhaçam alinha dorizonte : itinerário gravado no mar : nos cardos trémulos : tecidos debruados a púrpura e açafrão : novelos do desejo : lata de cal derramada no azinal : arquitectura do sonho e da levitação : a secura calcina a sofreguidão : a cultura do pesadelo : pátios onda calamadurece : perpetuado pela condição periférica : a tradição tribal : vista do cansaço do oceano : o absurdo do sonho :
a enormidade do pesadelo : a voz húmida :
irrompe da terra : a casca estala sobo Sol : sombra da sede gravada no xisto : conserva o verde das folhas curtas dobradas pelo calor : a
nota dobada napa ginação feminina : corte de crónica : alinhavada com OBuses antes de usar :
não há silêncio numa folha em branco
29 de junho de 2013
Este é-buque que vos deixo (1)
Call center
(an electronic tale)
escrever é retirar a linguagem do mundo
Ernesto Sampaio
Material:
releitura, palavranotas, relidas, saquexaltação, retradoação, revisão&visitação, electronic tale, massificação, reautor que revolta, não revem.
28 de junho de 2013
“Ya veniste, está bueno, anoche soñé una história, te la voy a contar”,
era assim que um velho contador de histórias de Hidalgo começava a contar o que acontecia quando o Sol se apagava de dia (um eclipse?) e os coiotes espantavam as galinhas.
En esse tiempo los sures le llamaban Maglo al pueblo. Ellos vivían aquí debajo de la tierra, hacían hoyos e se metían en ellos; pero también hacían ramadas.
tenho um conversor, ainda que os exercícios de treino não tenham passado da fase de aquecimento : confortavelmente sentada em frente do televisor : titilando o fanêspro cas tibernas de elite :
indispensável ao «zapping» do meu contentamento, recolhendo
as novidades : saltitando de canal para canal : esfregou asmãosa seguir
chamando-lhe gesto simbólico :
Por más que esforzaban la mirada no alcanzaban a mirar dónde terminaba el mundo, ni sabían qué detenía el cielo.
convocação de um censor : super-eu colectivo de índole nacional : especialização que permite criar anões em barricas : sem distracções de género nenhum (ninguém gostaria que uma companhia de ópera se dedicasse ao futebol, pois não?) :
Because I do note hope to turn again : bailarinos gnaoua, de camisa e calções imaculados, pernas nuas, sombrias, escorreita e elementar nudez :
Because I do note hope : local comercial portátil : Because I do note hope to turn : esquálidas, magras, insólitas existências : muezzin electrocutado pelo ranço do chergui :
Entonces fueron a buscar al Sol y a la Luna. Los curaran tocándoseles el pecho con crucecitas mojadas en tesgüino :
antiga mente, deslumbrada mortausente : nenhum olho nessestranho, na velha que navega na manteiga, crê-me : elenice não fará bruxaria, nisso está ele confiante nos seus souvenirs de guerra, que revêm, pós taisilustrados, papelosas enviadas pelos jibrotes, para ajudar a construir o memorável lamurial, pardocentos cachaceiros : não despejes os teus restos : a roda roda forte mente : eu ta seguro, a morte, diapasão pulsando no recato do malheiro : seguro pelas gadochas do galfarro a tonito.
essa coisa a que chamamos tempo : não há nada mais privado do que o tempo – Les dijo que la Tierra es circular como una tortilla o un tambor, y que el cielo es como una tienda de campaña azul sustenida por columnas de fierro – nem mais diverso do que o modo como é vivido :
no seu melhor, tem uma liberdade inventiva e uma capacidade irónica e de irrisão assinaláveis : no seu pior, cede facilmente à incontinência imagética, que abririam as suas portas a uma dimensão outra do discurso
sobretudo numa época em que as linguagens dominantes se parecem colorir de uma pseudo-objectividade seriopática
sonolência das almas sonolentas :
«A satisfação no trabalho ordinário, na vida familiar, na vida social.» – E acrescenta: – «Se o mundo se perde, se o homem se aliena nas “catedrais” emergentes do consumismo, então leve-se a Igreja a casa, à rua, ao trabalho.»
Sentimento geral de vulnerabilidade e medo quanto ao futuro :
«Tenho a impressão que diminuo; há cada vez menos de mim em mim. Não me resta senão a minha recusa fundamental»
escrever intempestivamente é isto : é apostar que é possível ligar o fundo das correntes : com a forma dos acontecimentos : cultivar a memória : decifrar a permanente e prodigiosa invenção de factos de que cada vez mais é feita a comunicação : perscrutar o horizonte dos murmúrios e das expectativas : procurar os sinais do imprevisível e aguardar as rotas da contingência :
«Não é uma filosofia e nem sequer uma ideia: é um movimento de consciência que nos leva, em certos momentos, a pronunciar dois monossílabos: sim ou não».
linguagem que reinventa o mundo enquanto passa por ele : mas uma mãe é, por definição, imune ao «kitsch» filial : oferecendo-lhes uma nesga de sonho e uma ginástica intensiva de boas maneiras e resignação – Não resisto, pois, ainda que em jeito de fim de festa, de lhe adivinhar a necessidade de extrema-unção – a morte súbita não tem geografia :
bagagem esquecida no comboio, deixando nas mãos do leitor, nos seus olhos abertos, a luz de uma sabedoria : abrindo a porta de uma intimidade : não porque tenha acabado : mas porque deixámos de saber para onde vai :
é então que se compreende melhor a grandeza de certas vidas trágicas e a sua recusa fundamental : um não assim pressupunha alguma ingenuidade e uma grande convicção sobre o poder alquímico da palavra :
era também, uma celebridade, num tempo em que a celebridade se tornara uma nova forma de religião e uma ponte entre o sim e o não :
uma gota de água é mais sensível do que um cão : não tem utilidade nenhuma – S’l’m aleikum – não constitui nenhum jogo : é um caso de espontaneidade mágica : andar nas duas margens de um ribeiro é, pelo contrário, um exercício
aliás difícil : muitas vezes
à noite vemos fogueiras no campo : levantavam voo como parelha de grandes aves marinhas : horizonte retirado :
tratava-se de uma viagem : agora : era na direcção do Sul que partia a nave do sonho, em demanda desse país distante de onde vinham a luz e as cores : rebentos niilistas que se imiscuíam quase pictoricamente com as contingências de uma vida pautada por disputas :
pincelada pelas infidelidades consentidas ou não consentidas :
usar no olhar esse estigma de irremediável messianismo : O my people, what have I done unto thee : que tantas vezes julgou apreender no sabor a uva nocturna dos seus lábios : Horto fechado eras minha Irmã, Esposa, horto fechado, fonte selada :
mentavogar entre duaságuas comum barco prestesanaufragar faz trabalhar as caldeiras rotasatodovapor : catre de má morte
tão diferente da enorme cama de madeira onde navegou pelo mar dos sonhos duranta bonança dainfância : sonhar com os olhos abertos, desmontando a realidade como num jogo de espelhos :
para poder ser verdadeiramente contada, toda a aventura de viagem deve estar envolta pela presença de uma mulher : Adorable sorcière, aimes-tus les damnés? : como atrás da mulher desejada se pode esconder um simples desejo de morte : traça círculos concêntricos enquanto dança descalça : aproxima-se irremediavelmente dalgovivo que lateja sobruma mesa de madeira : Quem é essa que avança como a aurora, formosa como a Lua, pura como o Sol, temível como batalhões em acção? :
à noite era possível ver da aldeia as lanternas a brilharem : pirilampos na colina : como quem tenta fazer ver ao homem que carrega o caixão branco o quadro onde não passa de um insignificante pormenor : a Lua que o esperava no final da travessia por entre a sombra das cores que haveriam de concluir o quadro : faces
da moeda com que julgava pagar o direito moral de ocupar o testemunho dos locais : atiravam-se para dentro dos poços quando decidiam partir : chapéus de palha em sinal de despedida :
«Eh!, vem querido Esposo meu, corramos para os campos, deitemo-nos entre os pomares…» :
bastava-lhe o calor dos lábios da mãe : o homem adulto precisava do beijo ácido dos comprimidos : era a ideia de uma alvorada que persistira na sua mente uma
luz que tudo iluminaria
tudo recuperaria
tuduniria :
“Ya veniste, está bueno, anoche soñé una história, te la voy a contar”
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