17 de agosto de 2013

Nem sempre a lápis (385)

Longe do mundo
5. É um mercado de varas e silêncio. O sol esmaga-lhes o pregão, o dialecto
e a fruta fustiga o olhar dormente. Talha o azeite.

O Sul é uma memória de barro e o pó a sua permanência.


As laranjeiras acendem a folhagem na hemorragia do grés, mapa anatómico que me custa soletrar.
Então encosto a cabeça à parede e o adobo revela-me a tua essência. Decanto o mel.

Nenhuma praia é suficientemente grande para me devolver o mar.

Papiro do dia (426)

«É um erro acreditar que se escreve com palavras. Quem assim pensa está perdido, as palavras são uma cilada.
Suponho que é isso o que me angustia e apavora em alguma poesia, de que logo fujo quando começo a lê-la: a procura obsessiva das palavras que se torna quase um fim em si mesma, a tentativa suicidária da depuração do texto até ao osso.
(…)
Quando alguém morria cobriam-se todos os espelhos da casa. Para resistir à tentação de olhar-se, condenando as vaidades mundanas? Por medo de ver assomar no espelho o espectro do defunto?
No dia do funeral a tia Conceição pendurava no tecto do sótão, suspenso por um fio, o chapéu que o defunto tivesse usado mais vezes. Quando o fio se quebrava e o chapéu caía, era sinal de que a alma tinha entrado no céu.
Mas a tia Otelina, a irmã mais nova que vivia com ela, era um coração de manteiga e não queria sofrimento nem castigo para quem andava a penar. Por isso de vez em quando subia até ao sótão às escondidas e raspava o fio com a lima das unhas, acelerando a queda do chapéu.»
[Teolinda Gersão, As águas livres – Cadernos II; Sextante, Abril 2013;
cilada]
 

15 de agosto de 2013

A cona do Melro


[Nota da Redacção: E se ao ler o título alguma dama estreitar as nalgas e se interrogar sobre o "bico amarelo", eu diria que, não sendo tímida (ou cínica, ou fingida), o simples toque lhe ensopará os mais repenicados chilreios.]

10 de agosto de 2013

Breve interlúdio musical


Porque a Net fornece um novo dia

«Fui o único quem matou o sol, feri, gelei a sua solta gravitação perto do ombro.»

Às vezes, lá calha...

«Escrever é voltar ao local do crime.
Não há como fugir-lhe: volta-se sempre.»
(Teolinda Gersão)
 

Nem sempre a lápis (384)

Longe do mundo

3. A casa extingue-se na tarde. Por momentos tenho a ilusão do silêncio,
e apenas o estalido dos salgueiros me lembra que estou vivo. Que uma sombra me aguarda.

Quando tudo retoma o seu lugar, um trilho escoou-se sob os meus pés.



A voz ecoa na planície e as alfaias são inúteis como palavras numa folha em branco.
Vi as aves dirigirem-se para o Sul com as asas cheias de esperança e mosto.

Setembro é tudo o que conservo e alimento.

Papiro do dia (425)

«Aos vinte anos, e ainda muito tempo depois, aterrava-me a ideia de que podia sem dar conta trocar a vida vivida pela ficcional. Terror de que a escrita alastrasse e preenchesse o meu lugar na vida.
Prudentemente, deixava sempre uma distância, uma dúvida, que não me deixava mergulhar completamente na paixão dos livros. Terror de me embrenhar dentro deles e de ser engolida, de desaparecer noutros mundos. Procurava nos filósofos, que me pareciam mais transparentes do que os escritores porque iam mais directamente ao mundo das ideias, o que neles achava distorcido, inadequado, neurótico, doente, desajustado. Nietzsche, Kierkegaard, Schopenhauer eram um terreno fértil para as minhas divagações.
Mas também escritores como Kleist, Kafka, Georg Trakl e muitos outros. Para mim a grande questão era se a avassaladora hipertrofia da sua vida mental os tinha conduzido ao desespero e confinado ao seu mundo interior sem saída, ou se pelo contrário a escrita foi a tábua de salvação, a forma que encontraram de não sucumbir, no seu mundo mental irrespirável.
A partir de dada altura não tive dúvidas de que esta hipótese era a verdadeira, ou pelo menos muito mais verdadeira do que a outra.»
[Teolinda Gersão, As águas livres – Cadernos II; Sextante, Abril 2013]

9 de agosto de 2013

7 de agosto de 2013

Breve interlúdio musical




Porque a Net fornece um novo dia

Helena Almeida, Bernd e Hilla Becher, Daniel Blaufuks, Christian Boltanski, Marcel Duchamp, Allan McCollum, Chantal Joffe, Tracy Moffatt, José Luís Neto, Gabriel Orozco, Pedro Quintas, Umrao Singh Sher-Gil, Augusto Alves da Silva, Hiroshi Sugimoto, Vivan Sundaram, Jemima Stehli, Wolf Vostell, Robert Wilson, Francesca Woodman. Curadoria de Ruth Rosengarten*

Museu Colecção Berardo
(até 29 de Setembro de 2013)
 

Às vezes, lá calha...

«Digo sempre “a escrita”. Mas talvez devesse falar um pouco dos livros, ou pelo menos das suas circunstâncias. Porque tudo tem um lado terrivelmente concreto.»

Nem sempre a lápis (383)

Longe do mundo
 
2. É na curva da água que melhor reencontro a tua luz. Alfarroba ardente
com o açúcar disputado pela cal e as abelhas do meio-dia.

E basta nomear-te para o mar me arear as palavras, e o sol me devorar a vocação atónita.
 
 

Queria palavras novas, inventar uma outra linguagem para te perceber e celebrar.
Acreditava que o segredo estava nas palavras, e experimentei o corpo e o silêncio. Mas permanecias inacessível, confundindo-me a euforia dos gestos e o bulício da presença.

Um dia percebi que o teu olhar esvaziava as palavras
e dediquei-me ao horizonte. À febre.
 

Papiro do dia (424)

«A capa de um livro como a sua primeira manifestação concreta, a sua entrada no mundo visível. Um primeiro choque entre o livro imaginado e esse outro, que começa a existir nesse instante, através do olhar de outra pessoa. O autor da capa como leitor, como o que “vê” e dá a ver o livro, e dele transmite uma primeira aproximação, resumo ou retrato.
É nesse instante que o livro surge que o seu autor começa a desaparecer. O que se segue, a partir daí, serão sempre outras visões, propostas, leituras, por vezes opostas à do autor, que, no seu conjunto, serão a vida do livro. Enquanto ele não morrer.»




[Teolinda Gersão, As águas livres – Cadernos II; Sextante, Abril 2013,
quem tem capa...]

4 de agosto de 2013

Breve interlúdio musical




Porque a Net (e às vezes, o Metro) fornece um novo dia

 

Às vezes, lá calha...

Nem sempre a lápis (382)

Sueste
 
4. Enquanto a secura lateja nos eirados, percorridos pelo silêncio das noras e alcatruzes esquecidos nos silvados,
a tarde dobra-se como o ferro nas bigornas, malhado pelo canto das poupas no pinhal.

A memória do homem dispõe os utensílios sobre a terra exangue e nenhuma ave se atreve a riscar o ar contaminado de pólen e de luz,
nenhuma árvore estremece na colina, refém da sesta e da ausência.

Só a cisterna interrompe a distância – aproxima as paredes gretadas, onde amealhava a água sob a sede – os cães espreguiçam-se e amarrotam o manto de pó,
esticam as patas calejadas e voltam a fechar os olhos cor de mel e remela seca.

Ninguém nasce ou morre à hora da sesta,
só a memória vigia os trilhos por onde a morte virá como um vagabundo sequioso,
enquanto puxamos o balde cabisbaixos e a corda nos sulca as mãos envelhecidas.
 

Papiro do dia (423)

Outro livro da Autora intitula-se O Silêncio
 
«Há uma frase de Paul Valéry que creio assentar como uma luva à escrita de Teolinda Gersão: “ Ce qu’il y a de plus profond chez l’homme, c’est la peau”. (Traduzo, para quem já esqueceu o francês: “O que há de mais profundo no homem é a pele.”) Escritora discreta, apesar do reconhecimento, “As águas livres – Cadernos II” é a sua obra mais recente. O caderno I ficou lá para trás (1984) e chamou-se “Os guarda-chuvas cintilantes”, facto que a própria se encarrega de nos lembrar agora: “O primeiro, a que na altura não chamei Caderno, foi Os guarda-chuvas cintilantes. Dei-lhe como subtítulo Diário, o que provavelmente desconcertou os leitores. Na verdade, é um diário heterodoxo, que quebra os dois pilares em que era suposto assentar: o eu e o tempo (…).” Confessadamente adversa a ortodoxias (nomeadamente, à dos “formatos”), Teolinda Gersão lança “As águas livres” a seguir ao romance “A Cidade de Ulisses”, surpreendendo-nos com um livro algo inclassificável. Com facilidade encontramos nele, pelo menos, três registos: o explicativo, o reflexivo e o descritivo. A sua organização e conteúdo fragmentários atravessam territórios vastíssimos, geografias diversas (dentro e fora do país) – aventurando-se também com mestria pelo universo dos sonhos –, desrespeitam o tempo-sequência, invocam questões/filiações literárias, não desprezam a política, sendo, no essencial, um exercício delicado de “atenção” ao mundo. A oficina é discreta, o narrador é despretensioso, o texto nunca se põe em bicos de pés. A sabedoria não chega com fanfarras, a palavra dispensa paramentos, o estilo (essa dificuldade de expressão a que se referiu Mário Quintana) é desataviado. «Kierkegaard aparece às vezes de visita.» (estou a citar).
 
[silêncio recém quebrado no "Expresso"]