11 de setembro de 2013

Porque a Net fornece um novo dia

 

Às vezes, lá calha...

«“Quem conhecer bem o céu, nada tem a temer do mar”, costuma dizer o meu pai.»
(J. M. G. Le Clézio)

Nem sempre a lápis (392)

Longe do mundo
 
Esta cidade é um mapa da memória: os rostos sobrepõem-se, as vozes atropelam-se, os gestos entrelaçam-se.
É-nos recusado o anonimato, e dificilmente a tarde encontra um jardim para esperar pela noite.

Só as paredes e as árvores reconhecem as ruas, onde nos repetimos sonâmbulos de cansaço.
 
 
Outrora as estações tinham luz e cheiro. A cal apaziguava o granito
e a fruta antecipava o crepitar das searas nas eiras. O calor do pão e a embriaguez.

As azinheiras empalidecem na paisagem
como uma fotografia lançada ao vento.
 
[Longe do mundo; frenesi 2004]

Papiro do dia (432)

«Não se passa quase nenhuma noite sem que meu pai nos mostre o lugar dos astros no céu, num grande mapa afixado na parede do escritório. Contemplo os mapas entre o cheiro a tabaco que envolve o escritório. Meu pai evoca Cook, Drake, Magalhães, que descobriu os mares do Sul a bordo do Vitória e veio a morrer nas ilhas da Sonda. Menciona Tasman, Biscoe, Wilkes, que atingiu os gelos eternos do Pólo Sul, e outros viajantes extraordinários: Marco Polo na China, de Soto na América, Orellana que explorou o Amazonas, Gmelin que foi até aos confins da Sibéria, Mungo Park, Stanley, Livingstone, Prjevalski. Escuto estas histórias, os nomes de países, a África, o Tibete, as ilhas dos mares do Sul: são nomes mágicos, como os nomes das estrelas, como os desenhos das constelações. À noite, deitado na minha cama de campanha, ouço o som do mar e do vento nos palmeirais. Recordo todos estes nomes, parece-me que o céu nocturno se abre e vou num veleiro navegando a todo o pano, no mar infindo, rumo às Molucas, à baía do Astrolábio, às Fidji, a Moorea. No convés deste navio, antes de adormecer, vejo o céu como ainda o não tinha visto, tão grande, azul-escuro sobre o mar fosforescente. Passo lentamente para o outro lado do horizonte e navego em direcção aos Reis Magos, ao Cruzeiro do Sul.»
[J. M. G. Le Clézio, O Caçador de Tesouros; trad. Ernesto Sampaio, Assírio & Alvim, Abril 1994;
sextante]
 

10 de setembro de 2013

9 de setembro de 2013

8 de setembro de 2013

Breve interlúdio musical




Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...




«Hoje falamos uma língua morta, e cada um de nós a sua.
Acabou a comunicação; só nos falta entregar o cadáver.»
(Henry Miller)



Nem sempre a lápis (391)

Longe do mundo
 
Há uma ilha que me aquece o sono. Basáltica e precária. Com a memória
oceânica assente sob as algas. Covil de faunas e floras maceradas pelo enxofre

à deriva no atlântico:
arquipélago da imaginação e do apetite.



Abro o mapa das minhas mãos sobre a areia. Perdi as linhas e desbaratei as ilhas. Pouco sobra
que sirva de testemunho e aviso à quiromancia estropiada.

As buganvílias bordam-me o esquecimento – a distância.
 
[Longe do mundo; frenesi 2004]

Papiro do dia (431)

«Ninguém desejou mais ardentemente a liberdade e a independência que estes dois espíritos aprisionados. Ambos parecem ter escolhido deliberadamente o caminho mais difícil. Ambos receberam a taça da amargura cheia, transbordante. Em ambos habitava uma ferida insarável. Oito anos antes de morrer, numa carta, Van Gogh revela as consequências que para si tivera o seu segundo grande desapontamento amoroso. “Uma simples palavra fez-me perceber que nada se modificou em mim no que a isto respeita, que é e continuará a ser uma ferida; que a trago comigo, tão funda que nunca sarará; ao fim de vários anos há-de continuar a ser exactamente o que era no primeiro dia”. Também a Rimbaud aconteceu qualquer coisa de parecido. Conquanto quase nada se saiba desse caso infeliz, é difícil não acreditar que o efeito tenha sido igualmente devastador.
Quando se pensa que estes homens, cuja obra tem sido uma inesgotável fonte de inspiração para sucessivas gerações, foram forçados a viver como escravos, que tiveram dificuldades em assegurar uma subsistência pouco melhor que a de qualquer emigrante pobre, que juízo havemos nós de fazer sobre a sociedade que os produziu? Em poucos anos tinham devorado e, o que mais é, digerido, toda a herança de vários milhares de anos. Foram confrontados com a fome no meio duma outra abundância. Era mais que tempo de entregar a alma. A Europa preparava-se já activamente para destruir o molde; o molde que tinha crescido suficientemente para lhe poder já servir de caixão.»
[Henry Miller, O Tempo dos Assassinos; trad. Manuela R. Miranda, Hiena Editora, Outubro 1985;
agência de viagens]

6 de setembro de 2013

S'l'm aleikum




4 de setembro de 2013

Breve interlúdio musical




Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

«As almas tímidas vêem constantemente monstros que se lhes atravessam no caminho e tanto lhes chamam hipogrifos como hitlerianos. O pavor do homem é a expansão da consciência.»
(Henry Miller)

Nem sempre a lápis (390)

Longe do mundo
 
10. Um cavalo continua a habitar-me o sono. Se sonhasse, poderia sentir-lhe o voo
atravessar com ele a febre da memória e repousar, finalmente.
Mas não – ele insiste em percorrer-me o prado onde não estou,

e tudo quanto me resta é a vertigem da água onde se sacia.
 
 
 
Conheci a loucura e a solidão. Tive lapsos. Não levitei, nem atravessei a sombra. Mas vi o Vento
e saboreei o chumbo. Sucedi-me com espanto e emoção.

A coerência nunca foi o meu forte
as minhas fraquezas são a minha única fortuna. Herança repetida.
 

Papiro do dia (430)

«“Nunca se satisfará”, escreveu um biógrafo. “Tocadas pelo seu olhar cansado, as flores murcham, as estrelas empalidecem.” Sim, há uma ponta de verdade nisto. Posso dizê-lo, porque sofro da mesma doença. Mas, se se sonhou um império, o império do homem, e se se tem a coragem de reflectir sobre a velocidade de caracol com que os homens avançam para a realização desse sonho, é bem possível que aquilo a que se chama as actividades do homem empalideçam até à insignificância. Não acredito, nem por um minuto, que as flores murchassem ou que as estrelas se ofuscassem aos olhos de Rimbaud. Pelo contrário, acredito que o íntimo do seu ser sempre manteve com elas uma comunicação directa e fervorosa. Era no mundo dos homens que o seu olhar cansado via coisas murchas e pálidas. Começou por querer “ver tudo, sentir tudo, exaurir tudo, explorar tudo, dizer tudo.” Não tardou muito que sentisse o freio na boca, as esporas nos flancos, o chicote nas costas. Basta que um homem se vista de maneira diferente do seu semelhante para que se torne objecto de troça e de ridículo. A única lei que é vivida com sinceridade e denodo é a lei da conformidade. Não espanta que, ainda rapaz, Rimbaud acabasse por “achar que a desordem do seu espírito era sagrada”. Por esta altura, tinha-se tornado, de facto, num vidente. Verificava, contudo, que era olhado como um palhaço, um charlatão. A escolha que se lhe oferecia era entre lutar até ao fim da vida pelo chão que tinha conquistado ou renunciar completamente à luta. E porque razão não encontrou um compromisso? Porque a palavra compromisso não fazia parte do vocabulário de Rimbaud. Desde a infância que era um fanático, o tipo de pessoa que ou chega ao fim ou morre. É aqui que reside a sua pureza, a sua inocência.»
[Henry Miller, O Tempo dos Assassinos; trad. Manuela R. Miranda, Hiena Editora, Outubro 1985;
com ou sem açúcar?]
 

3 de setembro de 2013

1 de setembro de 2013

Setembro é bom



... sente-se um fresquinho por baixo e não tarda aí a Feira de Castro

Nem sempre a lápis (389)

Setembro


É o mês da mudança.
Lânguido como o horizonte, que se toldava de cores e sons novos, embebedando-me com compotas e vindimas.
Setembro era o mês da roupa nova e das botas compradas em Viseu.
Da caça e das feiras francas, o mês para mudar de namorada.
E um dia, sem dar por isso, comecei a escrever.
Uma das poucas paixões que conservo e alimento.
Em Setembro saboreei a primeira praia e, pouco depois, a tropa raptou-me à adolescência.
Casei-me e divorciei-me.
De tudo, e sempre em Setembro.
Se me fosse dada a hipótese de escolha, acho que Setembro deve ser um bom mês para se morrer.

[Longe do mundo; frenesi 2004]