8 de setembro de 2013

Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...




«Hoje falamos uma língua morta, e cada um de nós a sua.
Acabou a comunicação; só nos falta entregar o cadáver.»
(Henry Miller)



Nem sempre a lápis (391)

Longe do mundo
 
Há uma ilha que me aquece o sono. Basáltica e precária. Com a memória
oceânica assente sob as algas. Covil de faunas e floras maceradas pelo enxofre

à deriva no atlântico:
arquipélago da imaginação e do apetite.



Abro o mapa das minhas mãos sobre a areia. Perdi as linhas e desbaratei as ilhas. Pouco sobra
que sirva de testemunho e aviso à quiromancia estropiada.

As buganvílias bordam-me o esquecimento – a distância.
 
[Longe do mundo; frenesi 2004]

Papiro do dia (431)

«Ninguém desejou mais ardentemente a liberdade e a independência que estes dois espíritos aprisionados. Ambos parecem ter escolhido deliberadamente o caminho mais difícil. Ambos receberam a taça da amargura cheia, transbordante. Em ambos habitava uma ferida insarável. Oito anos antes de morrer, numa carta, Van Gogh revela as consequências que para si tivera o seu segundo grande desapontamento amoroso. “Uma simples palavra fez-me perceber que nada se modificou em mim no que a isto respeita, que é e continuará a ser uma ferida; que a trago comigo, tão funda que nunca sarará; ao fim de vários anos há-de continuar a ser exactamente o que era no primeiro dia”. Também a Rimbaud aconteceu qualquer coisa de parecido. Conquanto quase nada se saiba desse caso infeliz, é difícil não acreditar que o efeito tenha sido igualmente devastador.
Quando se pensa que estes homens, cuja obra tem sido uma inesgotável fonte de inspiração para sucessivas gerações, foram forçados a viver como escravos, que tiveram dificuldades em assegurar uma subsistência pouco melhor que a de qualquer emigrante pobre, que juízo havemos nós de fazer sobre a sociedade que os produziu? Em poucos anos tinham devorado e, o que mais é, digerido, toda a herança de vários milhares de anos. Foram confrontados com a fome no meio duma outra abundância. Era mais que tempo de entregar a alma. A Europa preparava-se já activamente para destruir o molde; o molde que tinha crescido suficientemente para lhe poder já servir de caixão.»
[Henry Miller, O Tempo dos Assassinos; trad. Manuela R. Miranda, Hiena Editora, Outubro 1985;
agência de viagens]

6 de setembro de 2013

S'l'm aleikum




4 de setembro de 2013

Breve interlúdio musical




Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

«As almas tímidas vêem constantemente monstros que se lhes atravessam no caminho e tanto lhes chamam hipogrifos como hitlerianos. O pavor do homem é a expansão da consciência.»
(Henry Miller)

Nem sempre a lápis (390)

Longe do mundo
 
10. Um cavalo continua a habitar-me o sono. Se sonhasse, poderia sentir-lhe o voo
atravessar com ele a febre da memória e repousar, finalmente.
Mas não – ele insiste em percorrer-me o prado onde não estou,

e tudo quanto me resta é a vertigem da água onde se sacia.
 
 
 
Conheci a loucura e a solidão. Tive lapsos. Não levitei, nem atravessei a sombra. Mas vi o Vento
e saboreei o chumbo. Sucedi-me com espanto e emoção.

A coerência nunca foi o meu forte
as minhas fraquezas são a minha única fortuna. Herança repetida.
 

Papiro do dia (430)

«“Nunca se satisfará”, escreveu um biógrafo. “Tocadas pelo seu olhar cansado, as flores murcham, as estrelas empalidecem.” Sim, há uma ponta de verdade nisto. Posso dizê-lo, porque sofro da mesma doença. Mas, se se sonhou um império, o império do homem, e se se tem a coragem de reflectir sobre a velocidade de caracol com que os homens avançam para a realização desse sonho, é bem possível que aquilo a que se chama as actividades do homem empalideçam até à insignificância. Não acredito, nem por um minuto, que as flores murchassem ou que as estrelas se ofuscassem aos olhos de Rimbaud. Pelo contrário, acredito que o íntimo do seu ser sempre manteve com elas uma comunicação directa e fervorosa. Era no mundo dos homens que o seu olhar cansado via coisas murchas e pálidas. Começou por querer “ver tudo, sentir tudo, exaurir tudo, explorar tudo, dizer tudo.” Não tardou muito que sentisse o freio na boca, as esporas nos flancos, o chicote nas costas. Basta que um homem se vista de maneira diferente do seu semelhante para que se torne objecto de troça e de ridículo. A única lei que é vivida com sinceridade e denodo é a lei da conformidade. Não espanta que, ainda rapaz, Rimbaud acabasse por “achar que a desordem do seu espírito era sagrada”. Por esta altura, tinha-se tornado, de facto, num vidente. Verificava, contudo, que era olhado como um palhaço, um charlatão. A escolha que se lhe oferecia era entre lutar até ao fim da vida pelo chão que tinha conquistado ou renunciar completamente à luta. E porque razão não encontrou um compromisso? Porque a palavra compromisso não fazia parte do vocabulário de Rimbaud. Desde a infância que era um fanático, o tipo de pessoa que ou chega ao fim ou morre. É aqui que reside a sua pureza, a sua inocência.»
[Henry Miller, O Tempo dos Assassinos; trad. Manuela R. Miranda, Hiena Editora, Outubro 1985;
com ou sem açúcar?]
 

3 de setembro de 2013

1 de setembro de 2013

Setembro é bom



... sente-se um fresquinho por baixo e não tarda aí a Feira de Castro

Nem sempre a lápis (389)

Setembro


É o mês da mudança.
Lânguido como o horizonte, que se toldava de cores e sons novos, embebedando-me com compotas e vindimas.
Setembro era o mês da roupa nova e das botas compradas em Viseu.
Da caça e das feiras francas, o mês para mudar de namorada.
E um dia, sem dar por isso, comecei a escrever.
Uma das poucas paixões que conservo e alimento.
Em Setembro saboreei a primeira praia e, pouco depois, a tropa raptou-me à adolescência.
Casei-me e divorciei-me.
De tudo, e sempre em Setembro.
Se me fosse dada a hipótese de escolha, acho que Setembro deve ser um bom mês para se morrer.

[Longe do mundo; frenesi 2004]

30 de agosto de 2013

Breve interlúdio musical


Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

«Desde a infância que fui um leitor voraz. A consequência mais importante desta absorção ininterrupta era o atear de uma revolta ainda maior dentro de mim, o estímulo do desejo latente de viagens e aventura, o tornar-me anti-literário.»
(Henry Miller)

Nem sempre a lápis (388)

Longe do mundo

Tacteio o ar para esquecer a aridez do tempo.
Nos corredores ainda se ouvem as correrias e os gritos da infância,
mas tudo não passa de uma ilusão para adiar a noite.

Os telhados vibram como escamas ao sol, e a casa treme sob as pálpebras.



Devorei cidades e casas. Armadilhado pela torpeza das emoções e sentimentos
destrui vidas e recusei o futuro. Alimentei a ansiedade e o ódio.

Apátrida e faminto
troquei as giestas pelos sapais, o suão pela maresia. E seria tudo, outra vez.

[Longe do mundo; frenesi, 2004]

Papiro do dia (429)

«Dos dezoito em diante (a idade com que Rimbaud passou pela sua crise), tornei-me completamente infeliz, desgraçado, destruído, desencorajado. Só uma mudança completa de ambiente parecia capaz de dissipar esse estado permanente. Aos vinte e um fui-me embora, mas não por muito tempo. Mais uma vez como Rimbaud, os primeiros voos foram desastrosos. Voltava sempre para casa, voluntária ou involuntariamente; sempre num estado de desespero. Não parecia haver uma saída, uma forma de levar a cabo a libertação. Aceitei as tarefas mais estúpidas, tudo o que não tinha inclinação para fazer. Como Rimbaud nas pedreiras de Chipre, comecei com pá e picareta, à jorna, como trabalhador migrante, vagabundo. Até no facto de ao sair de casa ter sido com a intenção de viver uma vida ao ar livre, de nunca mais pegar num livros, de viver à custa dos meus dois braços, de ser um homem dos campos abertos e não o cidadão desta aldeia ou daquela cidade, até nisto há uma semelhança com Rimbaud.
Contudo, a minha linguagem e as minhas ideias traíam-me constantemente. Quer eu quisesse quer não, eu era em absoluto um homem literário. Embora fosse capaz de me dar com quase qualquer tipo de pessoa, em especial com o homem vulgar, acabava sempre por parecer suspeito. Era bastante semelhante ao que se passava nas minhas visitas à biblioteca: o meu pedido estava sempre mal. Por maior que fosse a biblioteca, o livro que eu pedisse havia de estar sempre requisitado ou de me ser recusado por qualquer razão.»
[Henry Miller, O Tempo dos Assassinos; trad. Manuela R. Miranda, Hiena Editora, Outubro 1985]

28 de agosto de 2013

23 de agosto de 2013

Breve interlúdio musical


Porque a Net fornece um novo dia

 (33 anos de inestimáveis serviços, 
comprovados pela nota de manutenção no verso)

Às vezes, lá calha...

«O único poeta vivo capaz de me dar qualquer coisa que se aproxime do prazer e do entusiasmo que encontro em Rimbaud é Saint-John Perse (não deixa de ser curioso que Vents tenham sido traduzidos, aqui em Big Sur, por Hugh Chisholm).»
(Henry Miller)

Nem sempre a lápis 387)

Longe do mundo

7. Acerco-me da água como as aves: surpreendido e atento.
Tudo quanto me rodeia é novo e mais pesado que o ar.

Tábua de nódoas bramindo contra o vento
trespassado por um sopro.



As piteiras aquecem-me o caminho. Inscrevo a cada passo um percurso denunciado pelo pó, à medida que o horizonte recua.

Não me volto para trás, sei que as tábuas envelhecem sob a chuva.

[Longe do mundo, frenesi 2004]

Papiro do dia (428)

«Foi precisamente há cem anos, completados em Outubro passado, que nasceu Rimbaud. Em França, o centenário foi comemorado de maneira espectacular. Convidaram-se escritores famosos do mundo inteiro para a peregrinação a Charleville, berço do poeta. As festividades adquiriram foros de acontecimento nacional. Quanto a Rimbaud, provavelmente deu uma volta na sepultura.
Desde a sua morte que têm sido traduzidas parcelas da volumosa obra de Rimbaud, nas mais variadas línguas, do turco ao bengali. Onde quer que subsista o gosto pela poesia e pela aventura, o nome de Rimbaud constitui palavra passe. Nos últimos anos o culto rimbaldiano ganhou proporções espantosas e a quantidade de publicações dedicadas à vida e obra do poeta aumentam vertiginosamente. Não há outro poeta da era moderna de quem se possa dizer que receba a mesma atenção e a mesma consideração.
Para além de Uma Estação no Inferno e das Iluminações, só um pequeno número de poemas acabou por ser traduzido para a nossa língua. Mesmo essas poucas traduções revelam uma ampla e inevitável variedade de interpretações. Contudo, por muito que o seu estilo e o seu pensamento sejam difíceis e inapreensíveis, Rimbaud não é intraduzível. Mas fazer justiça à obra é problema diferente. Está por aparecer, na língua inglesa, o poeta capaz de fazer por Rimbaud o que Baudelaire fez pela poesia de Poe, ou o que Morel e Larbaud fizeram pelo Ulisses.
Só agora se começa a compreender o que Rimbaud fez pela linguagem, e não apenas pela poesia. E, creio bem, mais os leitores que os escritores.»
[Henry Miller, O Tempo dos Assassinos; trad. Manuela R. Miranda, Hiena Editora, Outubro 1985]

20 de agosto de 2013

Breve interlúdio musical

Porque a Net fornece um novo dia


Às vezes, lá calha...

Nem sempre a lápis (386)

Longe do mundo

6. Esta tarde não tem gaivotas, nem se levantam papagaios junto ao rio. Os barcos cabeceiam ao sabor do abandono.
Havia um cata-vento que marcava as artes,
a festa da armação,
quando o zinco do atum oxidava a costa.

As sardinheiras ainda ardem nas ânforas, mas os passos já não ressoam na rua do Tresmalho.

 
As alcofas esbanjam a frescura das hortas. Sobre as bancas os peixes fitam o mercado, atónitos. Pomar mediterrânico
no gume da fartura e da extinção.

O rio dorme sob a ponte;
os barcos já não transportam a cobiça da fruta.
 

Papiro do dia (427)

«O estado de transe é um estado quase normal no ser humano; basta muito pouco para provocá-lo. Uma coisa de nada, um pouco de álcool no sangue, um pouco de droga, excesso de oxigénio, a cólera, o cansaço. Mas este estado é interessante na medida em que é orientável. Trata-se de um balanço, mas esse lança mão das regiões desconhecidas do nosso espírito. De facto, não há fundamentalmente nenhuma diferença, entre um homem intoxicado pelo álcool e um santo que se entregue ao êxtase. E no entanto há apesar de tudo uma diferença: a da interpretação. O momento de loucura é preparado por uma etapa onde o assunto é mergulhado numa espécie de vacilação da consciência, de excitação cerebral violenta. É esse momento que fabrica verdadeiramente o êxtase e lhe dá o sentido. Enquanto o êxtase em si mesmo é cego. É o vazio total, sem ascensão nem queda. A calma plana. Tanto quanto se possa dizer que o santo nunca conhecerá Deus. Aproxima-O, depois regressa. E estas duas etapas são as que são. Entre as duas, é o nada. O vazio, a amnésia completa. No momento X do êxtase, o santo e o intoxicado são semelhantes, estão no mesmo local. Habitam o mesmo paraíso vazio e terrífico.»
[J.-M. G. Le Clézio, A Febre;

17 de agosto de 2013

Breve interlúdio musical


Porque a Net fornece um novo dia

 
Só Anjos e Prostitutas.


«... não tenho interesse nenhum em bibliotecas, colecções, catálogos... ainda me acontece algum azar assim destes, meter o valter ao lado do Orwell (...) depois de Santo Agostinho há para aí uns cinquenta livros que eu gosto, e já é puxar muito a carroça. (...) ... agora o que mais gosto nos livros são as roupas das mulheres, é uma má frase, fica para mim, que toquei aquele vestido curto da A., e agora ia continuar, faria um catálogo, uma lista, iria referir-me ao biquíni da R. chamando-lhe "tapa-conas", o que ficaria mal num texto que se quer melancólico, triste, negro e etc, e que foi numa das nossas visitas à praia que me lembrei de escrever um longo e aborrecido texto que de título levava, Prática e Método, autoria de Professor Piçarra, conólogo. Não começámos bem, logo aí, até porque já tinha na arca outro título, à espera de melhores dias, o Teorias da História: Escola dos Anais. Edição anotada e tudo.»

 

Às vezes, lá calha...

«Apagar as palavras e colocar em seu lugar as coisas. É desse lado que estou.»
(Teolinda Gersão)
 

Nem sempre a lápis (385)

Longe do mundo
5. É um mercado de varas e silêncio. O sol esmaga-lhes o pregão, o dialecto
e a fruta fustiga o olhar dormente. Talha o azeite.

O Sul é uma memória de barro e o pó a sua permanência.


As laranjeiras acendem a folhagem na hemorragia do grés, mapa anatómico que me custa soletrar.
Então encosto a cabeça à parede e o adobo revela-me a tua essência. Decanto o mel.

Nenhuma praia é suficientemente grande para me devolver o mar.

Papiro do dia (426)

«É um erro acreditar que se escreve com palavras. Quem assim pensa está perdido, as palavras são uma cilada.
Suponho que é isso o que me angustia e apavora em alguma poesia, de que logo fujo quando começo a lê-la: a procura obsessiva das palavras que se torna quase um fim em si mesma, a tentativa suicidária da depuração do texto até ao osso.
(…)
Quando alguém morria cobriam-se todos os espelhos da casa. Para resistir à tentação de olhar-se, condenando as vaidades mundanas? Por medo de ver assomar no espelho o espectro do defunto?
No dia do funeral a tia Conceição pendurava no tecto do sótão, suspenso por um fio, o chapéu que o defunto tivesse usado mais vezes. Quando o fio se quebrava e o chapéu caía, era sinal de que a alma tinha entrado no céu.
Mas a tia Otelina, a irmã mais nova que vivia com ela, era um coração de manteiga e não queria sofrimento nem castigo para quem andava a penar. Por isso de vez em quando subia até ao sótão às escondidas e raspava o fio com a lima das unhas, acelerando a queda do chapéu.»
[Teolinda Gersão, As águas livres – Cadernos II; Sextante, Abril 2013;
cilada]
 

15 de agosto de 2013

A cona do Melro


[Nota da Redacção: E se ao ler o título alguma dama estreitar as nalgas e se interrogar sobre o "bico amarelo", eu diria que, não sendo tímida (ou cínica, ou fingida), o simples toque lhe ensopará os mais repenicados chilreios.]

10 de agosto de 2013

Breve interlúdio musical


Porque a Net fornece um novo dia

«Fui o único quem matou o sol, feri, gelei a sua solta gravitação perto do ombro.»

Às vezes, lá calha...

«Escrever é voltar ao local do crime.
Não há como fugir-lhe: volta-se sempre.»
(Teolinda Gersão)
 

Nem sempre a lápis (384)

Longe do mundo

3. A casa extingue-se na tarde. Por momentos tenho a ilusão do silêncio,
e apenas o estalido dos salgueiros me lembra que estou vivo. Que uma sombra me aguarda.

Quando tudo retoma o seu lugar, um trilho escoou-se sob os meus pés.



A voz ecoa na planície e as alfaias são inúteis como palavras numa folha em branco.
Vi as aves dirigirem-se para o Sul com as asas cheias de esperança e mosto.

Setembro é tudo o que conservo e alimento.

Papiro do dia (425)

«Aos vinte anos, e ainda muito tempo depois, aterrava-me a ideia de que podia sem dar conta trocar a vida vivida pela ficcional. Terror de que a escrita alastrasse e preenchesse o meu lugar na vida.
Prudentemente, deixava sempre uma distância, uma dúvida, que não me deixava mergulhar completamente na paixão dos livros. Terror de me embrenhar dentro deles e de ser engolida, de desaparecer noutros mundos. Procurava nos filósofos, que me pareciam mais transparentes do que os escritores porque iam mais directamente ao mundo das ideias, o que neles achava distorcido, inadequado, neurótico, doente, desajustado. Nietzsche, Kierkegaard, Schopenhauer eram um terreno fértil para as minhas divagações.
Mas também escritores como Kleist, Kafka, Georg Trakl e muitos outros. Para mim a grande questão era se a avassaladora hipertrofia da sua vida mental os tinha conduzido ao desespero e confinado ao seu mundo interior sem saída, ou se pelo contrário a escrita foi a tábua de salvação, a forma que encontraram de não sucumbir, no seu mundo mental irrespirável.
A partir de dada altura não tive dúvidas de que esta hipótese era a verdadeira, ou pelo menos muito mais verdadeira do que a outra.»
[Teolinda Gersão, As águas livres – Cadernos II; Sextante, Abril 2013]

9 de agosto de 2013

7 de agosto de 2013

Breve interlúdio musical




Porque a Net fornece um novo dia

Helena Almeida, Bernd e Hilla Becher, Daniel Blaufuks, Christian Boltanski, Marcel Duchamp, Allan McCollum, Chantal Joffe, Tracy Moffatt, José Luís Neto, Gabriel Orozco, Pedro Quintas, Umrao Singh Sher-Gil, Augusto Alves da Silva, Hiroshi Sugimoto, Vivan Sundaram, Jemima Stehli, Wolf Vostell, Robert Wilson, Francesca Woodman. Curadoria de Ruth Rosengarten*

Museu Colecção Berardo
(até 29 de Setembro de 2013)
 

Às vezes, lá calha...

«Digo sempre “a escrita”. Mas talvez devesse falar um pouco dos livros, ou pelo menos das suas circunstâncias. Porque tudo tem um lado terrivelmente concreto.»

Nem sempre a lápis (383)

Longe do mundo
 
2. É na curva da água que melhor reencontro a tua luz. Alfarroba ardente
com o açúcar disputado pela cal e as abelhas do meio-dia.

E basta nomear-te para o mar me arear as palavras, e o sol me devorar a vocação atónita.
 
 

Queria palavras novas, inventar uma outra linguagem para te perceber e celebrar.
Acreditava que o segredo estava nas palavras, e experimentei o corpo e o silêncio. Mas permanecias inacessível, confundindo-me a euforia dos gestos e o bulício da presença.

Um dia percebi que o teu olhar esvaziava as palavras
e dediquei-me ao horizonte. À febre.
 

Papiro do dia (424)

«A capa de um livro como a sua primeira manifestação concreta, a sua entrada no mundo visível. Um primeiro choque entre o livro imaginado e esse outro, que começa a existir nesse instante, através do olhar de outra pessoa. O autor da capa como leitor, como o que “vê” e dá a ver o livro, e dele transmite uma primeira aproximação, resumo ou retrato.
É nesse instante que o livro surge que o seu autor começa a desaparecer. O que se segue, a partir daí, serão sempre outras visões, propostas, leituras, por vezes opostas à do autor, que, no seu conjunto, serão a vida do livro. Enquanto ele não morrer.»




[Teolinda Gersão, As águas livres – Cadernos II; Sextante, Abril 2013,
quem tem capa...]

4 de agosto de 2013

Breve interlúdio musical




Porque a Net (e às vezes, o Metro) fornece um novo dia

 

Às vezes, lá calha...

Nem sempre a lápis (382)

Sueste
 
4. Enquanto a secura lateja nos eirados, percorridos pelo silêncio das noras e alcatruzes esquecidos nos silvados,
a tarde dobra-se como o ferro nas bigornas, malhado pelo canto das poupas no pinhal.

A memória do homem dispõe os utensílios sobre a terra exangue e nenhuma ave se atreve a riscar o ar contaminado de pólen e de luz,
nenhuma árvore estremece na colina, refém da sesta e da ausência.

Só a cisterna interrompe a distância – aproxima as paredes gretadas, onde amealhava a água sob a sede – os cães espreguiçam-se e amarrotam o manto de pó,
esticam as patas calejadas e voltam a fechar os olhos cor de mel e remela seca.

Ninguém nasce ou morre à hora da sesta,
só a memória vigia os trilhos por onde a morte virá como um vagabundo sequioso,
enquanto puxamos o balde cabisbaixos e a corda nos sulca as mãos envelhecidas.
 

Papiro do dia (423)

Outro livro da Autora intitula-se O Silêncio
 
«Há uma frase de Paul Valéry que creio assentar como uma luva à escrita de Teolinda Gersão: “ Ce qu’il y a de plus profond chez l’homme, c’est la peau”. (Traduzo, para quem já esqueceu o francês: “O que há de mais profundo no homem é a pele.”) Escritora discreta, apesar do reconhecimento, “As águas livres – Cadernos II” é a sua obra mais recente. O caderno I ficou lá para trás (1984) e chamou-se “Os guarda-chuvas cintilantes”, facto que a própria se encarrega de nos lembrar agora: “O primeiro, a que na altura não chamei Caderno, foi Os guarda-chuvas cintilantes. Dei-lhe como subtítulo Diário, o que provavelmente desconcertou os leitores. Na verdade, é um diário heterodoxo, que quebra os dois pilares em que era suposto assentar: o eu e o tempo (…).” Confessadamente adversa a ortodoxias (nomeadamente, à dos “formatos”), Teolinda Gersão lança “As águas livres” a seguir ao romance “A Cidade de Ulisses”, surpreendendo-nos com um livro algo inclassificável. Com facilidade encontramos nele, pelo menos, três registos: o explicativo, o reflexivo e o descritivo. A sua organização e conteúdo fragmentários atravessam territórios vastíssimos, geografias diversas (dentro e fora do país) – aventurando-se também com mestria pelo universo dos sonhos –, desrespeitam o tempo-sequência, invocam questões/filiações literárias, não desprezam a política, sendo, no essencial, um exercício delicado de “atenção” ao mundo. A oficina é discreta, o narrador é despretensioso, o texto nunca se põe em bicos de pés. A sabedoria não chega com fanfarras, a palavra dispensa paramentos, o estilo (essa dificuldade de expressão a que se referiu Mário Quintana) é desataviado. «Kierkegaard aparece às vezes de visita.» (estou a citar).
 
[silêncio recém quebrado no "Expresso"]

1 de agosto de 2013

Breve interlúdio musical




Porque a Net fornece um novo dia

 

Às vezes, lá calha...


[... outras, la caja]

Nem sempre a lápis (381)

Sueste
 
3. Enquanto o dia se derreia de cheiros e silêncio, como os olhos frios de um ancião se apoiam nas sebes do futuro,
os orégãos toldam a eira e os pardais disputam as entranhas da palha trazida pelo sueste.

Só as osgas assomam entre as canas e as escamas do telhado, farejando a lentidão do ar,
os trilhos onde a luz se sacia,
contra uma parede de argila e memória ausente.
Só a roupa adeja vazia nas cordas ao sol e ninguém lhe responde ao aceno,
ninguém parte com a humidade que goteja no chão.

Ninguém irrompe nos labirintos de luz que atordoa as veias,
ninguém, já ninguém canta na lucidez inútil.
 

Papiro do dia (422)

«O reino do meu pai era e é, todos os autores concordam, vasto. Para caminhar de uma fronteira à outra, de leste para oeste, o viajante deve contar com não menos de dezassete dias. Chama-se Ho, o termo confucionista para harmonia. O nosso primeiro monarca interessava-se pelo confucionismo (um estranho gosto nesta região do mundo) e, depois de ter arrancado esta extensão de campos e florestas das mãos dos inimigos, há dois séculos, permitiu-se uma homenagem ao grande pensador chinês para grande gáudio de alguns dos nossos vizinhos mais sóbrios, cujos domínios tinham nomes corriqueiros como Norgales e Brandísia. A nossa economia baseia-se nas trufas, em que as nossas florestas são fenomenalmente ricas, e na electricidade, que já exportávamos quando outros países ainda liam à luz de candeeiros a petróleo. O nosso exército é o melhor da região, e todos os militares são coronéis – eis o subtil segredo da governação do meu pai, para dizer a verdade. Nesta terra, todos os padres são bispos, todos os advogados de meia-tigela são juízes do Supremo Tribunal, todos os camponeses são latifundiários e todos os palermas que proclamam as suas ideias à esquina das ruas são Hegel em pessoa. O génio do meu pai consistiu em promover os seus súbditos, homens e mulheres, todos por igual, incessantemente; os cidadãos de Ho aquecem-se para todo o sempre ao sol do Êxito. Eu era o único homem do reino que se considerava um burro.»
[Donald Barthelme, 40 historias; trad. Paulo Faria, Antígona Maio 2013;
basto]
 

30 de julho de 2013

Breve interlúdio musical


Porque a Net fornece um novo dia

 
 
 
«Enquanto escrevo deslumbro-me com a habilidade e a velocidade da minha mão.»

Às vezes, lá calha...

«O instinto científico de que se orgulhava era resumido numa frase: um homem que não procure Deus é louco. E um louco deve ser tratado.»
(Gonçalo M. Tavares)

Nem sempre a lápis (380)

Sueste
 
2. Enquanto o sol se empina no ar, como um cavalo com cio, os pardais ocultam-se no fundo da luz –
estandarte verde esmeralda onde nenhum corpo recupera da insónia e tudo é peso resgatado ao ar.

Nada lhes denuncia o abrigo;
as crias aguardam que a canícula aloure a seara para alimentarem a cobiça dos costelos;
os lagartos esticam a língua sobre os muros velhos,
mas as cobras passam ao largo, evitando os cardos que as mulheres secam no telheiro para talhar o leite.

A brisa turva a poalha do largo abandonado,
onde os cães reinam como larvas numa página esquecida.
 

Papiro do dia (421)

«À medida que o tempo passava o pudor das crianças diminuía drasticamente, o que significava também que o receavam menos – a ele – Hinnerk. Algumas vezes – quando se aproximavam em sentido contrário – Hinnerk ouvia, distintamente, uma ou outra criança a murmurar: vem aí o homem.
Esta frase tornara-se uma espécie de apresentação ao mesmo tempo secreta e obscena: vem aí o homem.
Hinnerk, em certas ocasiões, depois de se cruzar com as crianças, sorria, ouvindo naquela frase uma espécie de apresentação infantil da humanidade: vem aí o homem, eis o homem, prestem bem atenção a ele: o Homem. Um pouco como se aquela frase surgisse na sequência de um espectáculo teatral em que se apresentava ao público elementos dos diferentes reinos: eis uma planta, e eis que vem aí um animal, um cão, e agora, cuidado, vem aí um homem, o homem; e então entrava Hinnerk para o palco, agradecendo os aplausos das crianças em júbilo. Eis o homem, já chegou, sou eu.
Mas era evidente que Hinnerk sentia a hostilidade das crianças. A frase vem aí o homem dizia ao mesmo tempo: tu não és um homem, e dizia também: não quero ser como aquele homem
[Gonçalo M. Tavares, Jerusalém; Caminho, 12.ª ed. Março 2012;
e porque não?]



 

25 de julho de 2013

Breve interlúdio musical


 

Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

«A cor introduzida quase microscopicamente na beleza não visava porém o estado de beleza inerte; a cor não queria homenagens, mas sim entusiasmos.»
(Gonçalo M. Tavares)
[Alberto Carneiro, até dia 27 no Teatro da Politécnica]

Nem sempre a lápis (379)

Sueste
 
1. Enquanto a manhã se consome a devorar resíduos de Lua, os cães farejam o ar sujo e denunciam as mulheres derreadas a caminho do mercado.

Cheira a pão fresco e roupa a corar – cheira a sabão,
as laranjas crepitam sobre a mesa,
os cavalos pastam junto à estrada requentada – alheios ao bulício na pedreira.

As crianças espezinham as flores que incendeiam a sarjeta – disparam armas imaginárias, apuram a vocação predadora –
abandonados na valeta os jornais escancaram imagens subitamente envelhecidas
e a brutalidade do sol debota-lhes a actualidade.

O lixo desaloja a água da fonte no meio da praça
os gatos disputam a ilusão de frescura do tanque, onde já ninguém se debruça para refrescar a cara e ajeitar a expressão magoada.
 

Papiro do dia (420)

«Queria que do meu estudo resultasse um gráfico – um único gráfico que resumisse, que permitisse estabelecer uma relação entre o horror e o tempo. Perceber se o horror está a diminuir ao longo dos séculos ou a aumentar. Se é estável. Repara que se descobrir que o horror tem uma certa estabilidade histórica, que mantém certos valores, digamos, de cinco em cinco séculos, se conseguir encontrar uma regularidade, estarei perante uma descoberta fundamental. Quero chegar a um gráfico do que se passou até aqui – desde que temos relatórios históricos mais ou menos fidedignos – nos vários campos de concentração ou de extermínio – não nas batalhas, isso afasta-se do que pretendo – nada sobre conflitos entre exércitos que, podendo ser mais fortes ou mais fracos, são forças a ter em conta, isto é: forças que podem infligir baixas significativas no outro lado. O que quero estudar não é isso, aí estamos a falar de luta e não de horror. Quero apenas estudar as situações em que uma parte não tinha qualquer possibilidade – ou mesmo vontade – de infligir baixas na outra parte, e em que a parte forte, sem qualquer justificação – ou pelo menos sem a grande justificação que é o medo – dizimou a parte fraca.»
[Gonçalo M. Tavares, Jerusalém; Caminho, 12.ª ed. Março 2012]

21 de julho de 2013

... e continua

20 de julho de 2013

Costela gaúcha


... e saia um mate

3 de julho de 2013

Este é-buque que vos deixo (5)

 
 
 
O Ocidente é uma pescada de rabo na boca; letreiro (o que se sabe é o nome de uma cidade) parece destinar-se aos inocentes e deslizantes Verões de Cascais – as ruas começavam a pensar até setembro
«Está na moda arrependermo-nos dos excessos, uma resposta universal à crise de sentido que afecta o homem moderno» – apagar o nome : ingressar no anonimato : apesar das letras pequenas junto de uma boca de metro – in finitogames wak’up – consolo da peregrinação – «praticam agora terrorismo eleitoral junto de um povo cujas feridas ainda não sararam» – uma bela demonstração da dignidade humana – A escrita deve terminar o mais rápido possível – «Escolheu Tânger para se perder» – mas os propósitos de ambos indicam as dificuldades dos telemóveis na era do entretenimento : «a política de Marx, a psicanálise de Freud e a antropologia de Lévi-Strauss – rouba-se sempre qualquer coisa de muito nobre à morte –, sem esquecer o ocultismo e os cultos orientais, todos eles tentativas falhadas de dar dois filhos. – Julgas que se preocupou? – O pirilampo é o campeão da lata… É tudo o que posso dizer-lhe. E a palavra de um deputado vale alguma coisa» – conversa que não se cansa de riscar os nomes das coisas – palavra tremenda que atravessa os séculos – espião da maliciosa oferenda traficada dos números e das medidas – onde se vive da morte e se joga o sítio a habitar por Ninguém – Toma o pulso ao olhar e volta-se – the air wich is now thoroughly small and dry – Volta-se com o pesadíssimo chumbo de um corte
«uma homenagem a todos os arquitectos, engenheiros e pedreiros que constroem a cidade», com uma metralhadora nos olhos e a farda escondida na alma – «porque não há mais metafísica do que castanhas assadas» – um bom produto não precisa de garantia – «A administração pública é inútil e prejudicial» – simplesmente gostei da forma como soava… o moço que regula o mundo – Morreu aos 80 anos, num hospital de Moscovo – A literatura também devia existir para estas coisas e ter os seus usos práticos – ONU debate a nova guerra – mandar bugiar os medíocres – recolhida num quarto, em Coimbra – consciente de que prometer o céu hoje pode ser dar o inferno amanhã, através do contacto com o operário que agora possui o instrumento – à maneira que fui crescendo. Ele foi mudando – «O isolamento serve para matar as nossas ideias» – isolar-se quando lhe apetecia e a recusar os fretes impostos pela sociedade – UMA CENA DE VIOLÊNCIA – seleccionarem rapariguinhas sensatas e inteligentes que fossem capazes de falar em público, de chorar, de se mostrarem tímidas.
Déjenme soportar mi duelo en paz – Foram dados cinco recados da América: «A sedução vive a presença do outro como uma ameaça, não como uma complementaridade» – Como sou professora universitária, estou todo o dia com rapazes novos que embarcaram nas caravelas para sair da terra, apesar de ser incapaz de trair o meu marido – Déjenme soportar mi duelo en paz
«Aguarda o dia em que do céu descerá uma fumaça densa. 44.9» – este letreiro doloroso – era “trip” atrás de “trip” à espera de ver Deus, mas geralmente acabava com uma grande ressaca – «Dormi com o namorado da minha filha – em todas as circunstâncias. – Já não há horas de ponta, são todas!» – Nem sempre as mensagens são intermutáveis: «ficam na fronteira entre a consciência e a realidade, mas não são bem a consciência nem bem a realidade» – Quando ouço falar de cultura também me apetece puxar da esperança no género humano, na salvação pela arte, na beleza e no trabalho – Vejamos como funciona a “cortadora de malmequeres” – mandei construir um terraço coberto – ¿no eran acaso catedrales? – onde podemos conversar enquanto vemos cair a chuva – Como quer você que eu dê dinheiro àqueles que cantam? – Parece mentira mas é verdade: «Gostamos de sentir a energia do Bokassa»
Passa de madrugada e fala da América enquanto porta-aviões – Isso é uma história que terá de se fazer mais tarde porque foi uma “boca” que foi lançada para o ar sem provas – o nosso objectivo não é os Americanos na linha da frente – «nós não treinamos quando está a chover» – o ácido dava-me cabo do sistema, e embora continuasse a tomá-lo não nos acha grande coisa. E deve ser, pela forma como leva a peito o problema da nossa história – «Por acaso não viu a minha tribo?» – Começou cedo a não assumir compromissos para Dezembro – E acrescenta, delicado: «Se no fim do ano, QUANDO TIVER DE SAIR, se não tiver outro espaço, equaciono o atractivo da escrita»
Os pés perdoam-me a pistola. De água. PINTURA À PISTOLA – Acredito que chegará o dia em que todos teremos a informação que queremos nos canais de televisão que temos – Mais quentes, no sul dos Algarves – «Tânger é simultaneamente a antessala do futuro e o covil do passado» – a imigração não leva ao terrorismo – A procissão de cegos só muda o rumo ao bater nos obstáculos – e nesses sucessivos Verões – «experimentei maconha e ficava pedindo – SAÚDE PÚBLICA – porque os leitores têm o direito de conhecer os factos, de ultrapassar a manipulação» – um GRAVE PROBLEMA de público – «Foi assim que criámos monstros como o Mobutu, o Idi Amin ou o pecado» – E se ainda disser que a fluidez da escrita cativa ainda mais a ponderação da reflexão, estou a recomendar vivamente a sua leitura – à la carte – É preciso o massacre que faz o atleta –
E agora que o medo deserta – bajo el que un gnomo con babuchas y gorro puntiagudo se ampara como puede del despotismo solar – vindo à tona da ferrugem do Grande Início – ave de grande porte a afastar-se para o outro lado do luto das imagens : escrever é retirar a linguagem do mundo – caixas mortuárias onde jaz um corpo legendado a sal
Escrever é a interminável, a incessante e contraditória renúncia a dizer ‘Eu’ – … falam em voz alta no meio das trevas e mudam toda a história da escrita… – A sabedoria das nações cauciona, como prova de maturidade, o cada um deixar-se levar pela corrente do seu tempo – El acto de escribir no es más que el acto de aproximarse a la experiencia sobre la que se escribe; del mismo modo, se espera que el acto de leer el texto escrito sea outro acto de aproximación parecido – é a frágil ponte que separa o riso da loucura.
A poesia isola os poetas, reserva-lhes um destino de separação e negação, e é esse o preço a pagar para manter o contacto interdito aos cérebros mortos – prestigio irrisorio de un sistema caduco que parpadea a años luz de distancia, como el brillo de un planeta abolido – A poesia e só a poesia revela ao homem o segredo primordial : o que ele é não esgota o que pode ser – atros merienda de blancos
«As notícias são susceptíveis de ser estudadas pela fenomenologia, isto é, que me mordessem porque achava que era uma maçã» – para mostrar do que eram capazes – because one has only learn to get the better of words for the things one no longer has to say – Constitucionalistas são unânimes: «Os mortos não têm recordações, os mortos são uma invenção, uma armadilha da memória»um cão cheio de pulgas a correr atrás da cauda

2 de julho de 2013

Este é-buque que vos deixo (4)

 
 
 
sinto que ligas sentimentos que se desligam :
deslindam os paralelos soterrados pelo asfalto : o aquedutapodrece na searausente : entre o sonho e a ferrugem da sombra : muralha das cores : tacto precário da água : filme feito dárvores e decasas também :

a fruta fustiga o olhar dormente : hemorragia de grés : mapanatómico quemecusta soletrar : pomar mediterrânico no gume da fartura e da extinção :
transportaram a cobiça da fruta : tábua
de nódoas bramindo contra o vento trespassado
por um sopro : sacode o ar com a cauda e o olhar perscruta a
fome : o frio das
facas : sobrevivência e
artesanato : pegadas na areia molhada : asbibliotecas : oar-
risca a luz comum burilantigo :
as fotografias ficarão vazias : asdedicatóriasem
branco : desafiam o mar como uma lenda à deriva :
espécie de fronteira
móvel : sacodem
a paisagem com a cauda : a babugem refresca-lhes o focinho : riscam o horizonte com asasas insufladas pelaluz : cal volátil e doce à deriva no ar :
ferro quente
na terra : silêncio
secura : lâmina da
sede : adormecer num leito de folhas podres :
o pó é uma ressonância :
poucos são os ousados que se atrevem a ler de olhos fechados : é frágil a ponte que se-
para o riso da loucura : sem o dom da palavra nem da imagem : topografiadevorada pela secreta
magia do musgo
das mãos : mancha
verdassustada : escrevemos casa :
sinto que ligas sentimentos que se deslindam

1 de julho de 2013

Este é-buque que vos deixo (3)

 
 
 
filme feito dárvores e decasas também :
luzestampadanoar : encostada pelachuva na lâminadoar : talhada numa gota : contra luzem contraluz : os mortos não têm recordações : correm atarantados na geografia do desejo : lua sobamão domes
ticada : manipula
são : rainbow : salta : repula : saltinta : respiga : in finitogames wak’up : arquitecturalheia a qualquer preocupação de utilidade : lugaralto queasestrelas consomem nas constelações dágua : atravessa corredores de bocas
vivas : sobracamardumrosto de maçãs
novas : apresentam no
corpo : vestígios de
calorintenso : doçurinesperada :

casaocontrário : habitada por árvores : sentam-semcírculo e parem : instrumentos de música : suicídio : abrem-sas portas com estrondo : the air wich is now thorougly small and dry : moviam-sos braços : moviam-se
exaltantes movimentos
lentosdentrodas : frases assombrosas : vinham notícias : crescem na sala : aterradoras durantas refeições : escreviam nas paredes nomesinexistentes : acontecimentos históricos : casazul :
as portas : as janelas fechando-se
com estrondo : lugar
com trigo : prédio
com voz torturada : boca
desordenada pelasaves : ruas voltadas para uma estátua equestre : apodrecemosnoslugares
domésticos : atravessamosdesencantados
a linguagem : as portas
sãoplanas : os lugares
nãoexistem : vejo as tábuasatónitas encostadasàqueda : voltamo-nos para o centro : os barcos alimentam
a paisagem : a paisagem mastiga
osbarcos como a estátua
devorahomenagem : os telhados dão fruto : tábua esplêndida : as paredes : tudo mexe emvolta
das tábias : dalma
distraída dumave : batemosasmãos
arrancadas das paredes : as árvores mancham as civilizações : pouco se sabe da nossa vocação : a
terra muda de
posição : apodrecemos lentamente por baixo :
palavra tremenda que atravessa os séculos : nome
nomenrolado numa pedra : o nome é o ovo das coisas?

a vertigem decepa as tábuas : as tábuas atravessavam velocíssimas o oceano :
as ruas começavam
a pensar até setembro
as ruas assaltam
os prédios : a comer-nos o chão : o oceanarde dencontràs ruas
transtornadas : às raizestonteadas
dos mortos : aprendizagemlenta daságuas : rosto
queas letrasarran cavam dos textos : a mão traga
alinguagem
belezatónita : em volta das
fotografias lentas : prédio
nabocadum cavalo :
a floresta toca o fundo das raízes : suicídio lento : a madeira dá fruto sob as algas :

quanto tempo demora a chuva : comenvelhece um gesto renovado pelo silêncio : as palavras dão-
te fruto
nabocaparecem-
te manchas : os subterrâneos sustentam as trevas : caudanimal adormecida : exacto : inteiro às portas
doar : tão azul : água tão
levaté onde sangra : voz precipitando a boca venenosa : traduzida
para as frases mortas das paredes : fotografada
pelolhar horrorizado duma criança :

um moribundo tem sempre dois dedos : cospe-lhe o rosto na parede : árvore que batosramos pousadanoar : só os ritos do ramo lunar são observados : deixar de parecer realidade e apenas decalque de si própria : fogo extinto nas ruínas : lombadas empenam o horizonte : recortadas pelo analfabetismo : trucidado peloar daerva :
feita do que é necessário saber «ler» :
que belicaloroso tempo tivemos lá dentro mas quão lisas por cá são as brisas : sabem ondelabita mas não devemos contar a nessuno à luz de fogo fátuo : é uma velavelada cabana de um mês com ventosas ventanas e uma : lá stá a avepiupiu a debicar um corre-pouco, faz-pouco, roga-pouco, verte-pouco, torce-pouco, recua-pouco, separa-pouco, come-pouco, chora-pouco, sabe-pouco, pinga-pouco, pilha-pouco avepiupiu : Où est ta mère mon enfant? : nenhum riso antes do meio-dia nenhum :

masera nas paredes do quarto, de um e outro lado da cama, que a noite sinstalava, como uma nova forma de vida, saudando a luz artificial com a panóplia das formas chinesas quemanava :
cheiro a comida de pobre :
cheiro a pensão espanhola :
estranha necessidade de acreditar não só nos duendes malignos, mas também no anjo da guarda : olhar tornado baço e distante pelaslentes dosóculos : como quem viaja demasiado para Sul
navegando imperceptivelmente desde o azul claro do sonho ao preto mais negro da ausência :
marca indelével do inimigo :
rapina e repugnância :
quando sonhamos, o excesso dos nossos sonhos pode despertar-nos : pegava em quatro paredes caiadas : construía o cenário para que uma cadeira de palha ou uma ânfora evidenciassem a gritante presença da sua aura : os artigos marcassem o compasso :
os verbos desferissem golpes de baioneta :
páginas escritas por um sectário que se vangloriava de se encontrar entre os que pararam o Sol : naquela tarde : aldeia com nome de cão tricéfalo : onde se falava de fugas para países inexistentes em barcos fretados por ricos dalém túmulo : à medida que o barco safastava lentamente do porto
a cidade dissolvia-se no cinzento claro das transições entre a folhagem dasárvores : o cimento
dosedifícios : os rochedos
dasmontanhas vizinhas : cheiro a comida espanhola : cheiro a pensão de pobre :

mundo de indiscrição que se move por afectos : coelho todaninhado natopo grafiadevorada pela : penugem de barriga inteira : secreta
magia das palavras : mancha
verdassustada no musgo das mãos : levantavam
cabeças dos avós nos papagaios : nomeiodasala : rescrevemos sobra
mão escrevemos:
filmefeito dárvoresedecasas refeito