19 de setembro de 2013

Breve interlúdio musical

Porque a Net fornece um novo dia

 

Às vezes, lá calha...

«Então, entre os barcos de pesca, os botes, as lanchas, e a multidão de pirogas à vela; vi-o: era um navio já antigo, com o perfil fino e esbelto das escunas, com dois mastros ligeiramente inclinados para trás e duas belas velas áuricas a estalar ao vento.»
(J. M. G. Le Clézio)
 

Nem sempre a lápis (394)

Longe do mundo
 
Há uma ilha que me aquece o sono. Basáltica e precária. Com a memória
oceânica assente sob as algas. Covil de faunas e floras maceradas pelo enxofre

à deriva no atlântico:
arquipélago da imaginação e do apetite.



Abro o mapa das minhas mãos sobre a areia. Perdi as linhas e desbaratei as ilhas. Pouco sobra
que sirva de testemunho e aviso à quiromancia estropiada.

As buganvílias bordam-me o esquecimento – a distância.
 

Papiro do dia (434)

«Sou o único a preocupar-me com o itinerário. Os marinheiros esses, continuam a viver e a jogar aos dados como se nada lhes dissesse respeito. Será por causa do gosto da aventura? Não, não é por isso. Não têm ninguém, não pertencem a nenhuma terra, eis tudo. O seu mundo é o convés do Zeta e o porão sufocante onde dormem de noite. Olho para estes rostos fechados, queimados pelo sol e o vento, semelhantes a calhaus polidos pelo mar, e como na noite da partida sinto a mesma inquietação surda, irracional. Estes homens pertencem a outra existência, a outro tempo. Mesmo o capitão Bradmer e o timoneiro estão com eles, do seu lado, também indiferentes ao lugar, aos desejos, a tudo o que me preocupa. Os seus olhos têm a dureza metálica do mar, o seu rosto igual lisura.»
[J. M. G. Le Clézio, O caçador de tesouros; trad. Ernesto Sampaio, Assírio & Alvim, Abril 1994;
adamastor]

18 de setembro de 2013



17 de setembro de 2013

15 de setembro de 2013

Breve interlúdio musical




Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

«Não se vê ninguém nas alamedas rectilíneas, e se esta regularidade não ostentasse o selo humano, poderia julgar-me numa ilha deserta.»
(J. M. G. Le Clézio)
 

Nem sempre a lápis (393)

Longe do mundo
Outrora as estações tinham luz e cheiro. A cal apaziguava o granito
e a fruta antecipava o crepitar das searas nas eiras. O calor do pão e a embriaguez.

As azinheiras empalidecem na paisagem
como uma fotografia lançada ao vento.



A fome leveda sobre a mesa, coberta por um lençol. A farinha denuncia-lhe o trajecto,
amassado com movimentos sábios junto ao fogo. As chamas tendidas.

A água já não ferve na lareira
e a almotolia, a bilha, cheiram a palavras velhas.

Papiro do dia (433)

«À luz dourada do entardecer, no abandono do porto onde apenas passavam algumas gaivotas, com o rumor leve do vento que soprava nos aprestos do navio, e talvez também por causa daquela longa espera ao sol, como outrora quando corria pelos campos, o navio tinha adquirido algo de mágico, com os seus altos mastros inclinados, as suas vergas prisioneiras do entrelaçamento dos cordames, a flecha do gurupés semelhante a um esporão. Na coberta brilhante, a cadeira vazia colocada em frente da roda do leme causava uma impressão de estranheza ainda maior. Não era uma cadeira de navio: era antes de escritório, em madeira torneada, como as que via todos os dias na W. W. West! E estava ali, à popa do berço, deslustrada pelo salpico das ondas, ostentando a marca das viagens através do oceano!
A sedução era demasiado forte. Dum salto, ultrapassei a prancha que servia de escotilha, encontrei-me no convés do Zeta. Caminhei até à cadeira e sentei-me nela, à espera, diante da grande roda de madeira do leme. Estava de tal modo encantado pela magia do navio, na solidão do porto, e pela luz do sol-poente, que não dei pela chegada do capitão. Sem dar sinais de estar zangado, veio até mim, olhou-me com curiosidade e disse-me com ar esquisito, ao mesmo tempo sério e irónico:
“Então, cavalheiro, quando partimos?”»
[J. M. G. Le Clézio, O caçador de tesouros; trad. Ernesto Sampaio, Assírio & Alvim,  Abril 1994;
a espera]

11 de setembro de 2013

Breve interlúdio musical




Porque a Net fornece um novo dia

 

Às vezes, lá calha...

«“Quem conhecer bem o céu, nada tem a temer do mar”, costuma dizer o meu pai.»
(J. M. G. Le Clézio)