«Não se vê ninguém nas alamedas rectilíneas, e se esta regularidade não ostentasse o selo humano, poderia julgar-me numa ilha deserta.»
(J. M. G. Le Clézio)
«De uma maneira geral, os livros sabem ao cheiro do café» Sam Savage
«À luz dourada do entardecer, no abandono do porto onde apenas passavam algumas gaivotas, com o rumor leve do vento que soprava nos aprestos do navio, e talvez também por causa daquela longa espera ao sol, como outrora quando corria pelos campos, o navio tinha adquirido algo de mágico, com os seus altos mastros inclinados, as suas vergas prisioneiras do entrelaçamento dos cordames, a flecha do gurupés semelhante a um esporão. Na coberta brilhante, a cadeira vazia colocada em frente da roda do leme causava uma impressão de estranheza ainda maior. Não era uma cadeira de navio: era antes de escritório, em madeira torneada, como as que via todos os dias na W. W. West! E estava ali, à popa do berço, deslustrada pelo salpico das ondas, ostentando a marca das viagens através do oceano!
«Não se passa quase nenhuma noite sem que meu pai nos mostre o lugar dos astros no céu, num grande mapa afixado na parede do escritório. Contemplo os mapas entre o cheiro a tabaco que envolve o escritório. Meu pai evoca Cook, Drake, Magalhães, que descobriu os mares do Sul a bordo do Vitória e veio a morrer nas ilhas da Sonda. Menciona Tasman, Biscoe, Wilkes, que atingiu os gelos eternos do Pólo Sul, e outros viajantes extraordinários: Marco Polo na China, de Soto na América, Orellana que explorou o Amazonas, Gmelin que foi até aos confins da Sibéria, Mungo Park, Stanley, Livingstone, Prjevalski. Escuto estas histórias, os nomes de países, a África, o Tibete, as ilhas dos mares do Sul: são nomes mágicos, como os nomes das estrelas, como os desenhos das constelações. À noite, deitado na minha cama de campanha, ouço o som do mar e do vento nos palmeirais. Recordo todos estes nomes, parece-me que o céu nocturno se abre e vou num veleiro navegando a todo o pano, no mar infindo, rumo às Molucas, à baía do Astrolábio, às Fidji, a Moorea. No convés deste navio, antes de adormecer, vejo o céu como ainda o não tinha visto, tão grande, azul-escuro sobre o mar fosforescente. Passo lentamente para o outro lado do horizonte e navego em direcção aos Reis Magos, ao Cruzeiro do Sul.»
«Ninguém desejou mais ardentemente a liberdade e a independência que estes dois espíritos aprisionados. Ambos parecem ter escolhido deliberadamente o caminho mais difícil. Ambos receberam a taça da amargura cheia, transbordante. Em ambos habitava uma ferida insarável. Oito anos antes de morrer, numa carta, Van Gogh revela as consequências que para si tivera o seu segundo grande desapontamento amoroso. “Uma simples palavra fez-me perceber que nada se modificou em mim no que a isto respeita, que é e continuará a ser uma ferida; que a trago comigo, tão funda que nunca sarará; ao fim de vários anos há-de continuar a ser exactamente o que era no primeiro dia”. Também a Rimbaud aconteceu qualquer coisa de parecido. Conquanto quase nada se saiba desse caso infeliz, é difícil não acreditar que o efeito tenha sido igualmente devastador.
«“Nunca se satisfará”, escreveu um biógrafo. “Tocadas pelo seu olhar cansado, as flores murcham, as estrelas empalidecem.” Sim, há uma ponta de verdade nisto. Posso dizê-lo, porque sofro da mesma doença. Mas, se se sonhou um império, o império do homem, e se se tem a coragem de reflectir sobre a velocidade de caracol com que os homens avançam para a realização desse sonho, é bem possível que aquilo a que se chama as actividades do homem empalideçam até à insignificância. Não acredito, nem por um minuto, que as flores murchassem ou que as estrelas se ofuscassem aos olhos de Rimbaud. Pelo contrário, acredito que o íntimo do seu ser sempre manteve com elas uma comunicação directa e fervorosa. Era no mundo dos homens que o seu olhar cansado via coisas murchas e pálidas. Começou por querer “ver tudo, sentir tudo, exaurir tudo, explorar tudo, dizer tudo.” Não tardou muito que sentisse o freio na boca, as esporas nos flancos, o chicote nas costas. Basta que um homem se vista de maneira diferente do seu semelhante para que se torne objecto de troça e de ridículo. A única lei que é vivida com sinceridade e denodo é a lei da conformidade. Não espanta que, ainda rapaz, Rimbaud acabasse por “achar que a desordem do seu espírito era sagrada”. Por esta altura, tinha-se tornado, de facto, num vidente. Verificava, contudo, que era olhado como um palhaço, um charlatão. A escolha que se lhe oferecia era entre lutar até ao fim da vida pelo chão que tinha conquistado ou renunciar completamente à luta. E porque razão não encontrou um compromisso? Porque a palavra compromisso não fazia parte do vocabulário de Rimbaud. Desde a infância que era um fanático, o tipo de pessoa que ou chega ao fim ou morre. É aqui que reside a sua pureza, a sua inocência.»
«Dos dezoito em diante (a idade com que Rimbaud passou pela sua crise), tornei-me completamente infeliz, desgraçado, destruído, desencorajado. Só uma mudança completa de ambiente parecia capaz de dissipar esse estado permanente. Aos vinte e um fui-me embora, mas não por muito tempo. Mais uma vez como Rimbaud, os primeiros voos foram desastrosos. Voltava sempre para casa, voluntária ou involuntariamente; sempre num estado de desespero. Não parecia haver uma saída, uma forma de levar a cabo a libertação. Aceitei as tarefas mais estúpidas, tudo o que não tinha inclinação para fazer. Como Rimbaud nas pedreiras de Chipre, comecei com pá e picareta, à jorna, como trabalhador migrante, vagabundo. Até no facto de ao sair de casa ter sido com a intenção de viver uma vida ao ar livre, de nunca mais pegar num livros, de viver à custa dos meus dois braços, de ser um homem dos campos abertos e não o cidadão desta aldeia ou daquela cidade, até nisto há uma semelhança com Rimbaud.
«O estado de transe é um estado quase normal no ser humano; basta muito pouco para provocá-lo. Uma coisa de nada, um pouco de álcool no sangue, um pouco de droga, excesso de oxigénio, a cólera, o cansaço. Mas este estado é interessante na medida em que é orientável. Trata-se de um balanço, mas esse lança mão das regiões desconhecidas do nosso espírito. De facto, não há fundamentalmente nenhuma diferença, entre um homem intoxicado pelo álcool e um santo que se entregue ao êxtase. E no entanto há apesar de tudo uma diferença: a da interpretação. O momento de loucura é preparado por uma etapa onde o assunto é mergulhado numa espécie de vacilação da consciência, de excitação cerebral violenta. É esse momento que fabrica verdadeiramente o êxtase e lhe dá o sentido. Enquanto o êxtase em si mesmo é cego. É o vazio total, sem ascensão nem queda. A calma plana. Tanto quanto se possa dizer que o santo nunca conhecerá Deus. Aproxima-O, depois regressa. E estas duas etapas são as que são. Entre as duas, é o nada. O vazio, a amnésia completa. No momento X do êxtase, o santo e o intoxicado são semelhantes, estão no mesmo local. Habitam o mesmo paraíso vazio e terrífico.»
«É um erro acreditar que se escreve com palavras. Quem assim pensa está perdido, as palavras são uma cilada.
«Aos vinte anos, e ainda muito tempo depois, aterrava-me a ideia de que podia sem dar conta trocar a vida vivida pela ficcional. Terror de que a escrita alastrasse e preenchesse o meu lugar na vida.
«A capa de um livro como a sua primeira manifestação concreta, a sua entrada no mundo visível. Um primeiro choque entre o livro imaginado e esse outro, que começa a existir nesse instante, através do olhar de outra pessoa. O autor da capa como leitor, como o que “vê” e dá a ver o livro, e dele transmite uma primeira aproximação, resumo ou retrato.