9 de outubro de 2013

Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

«Não imagino sequer o que seria sentir uma carícia terna – a minha pele está ressequida como um deserto à falta de ser tocada.»
(May Sarton)

Nem sempre a lápis (400)

Longe do mundo

Os espelhos já não me devolvem a imagem. O fogo extinguiu-se nas ruínas
e deambulo entre o despertar e o sono. Retoco a insanidade. Adio-me.

Um dia as fotografias ficarão vazias
e as dedicatórias em branco. É tudo quanto me ocupa.



Quando a idade me devolve a luz e o ar, as dedicatórias chocalham no horizonte.
Há medida que os anos passam, sinto as árvores, o ar, cada vez mais inúteis. E as palavras também.

Já tive melhores ilusões para envelhecer.
[Longe do mundo; frenesi 2004]

Papiro do dia (440)

«Ultimamente tenho levado o meu livro para o quarto do Standish e sento-me com ele. Não sei bem se ele está inconsciente a maior parte do tempo, ou apenas demasiado deprimido para comunicar. Está deitado com as mãos crispadas sobre a colcha, uma maneira de se resguardar a si próprio, acho eu. Quando acorda ou se agita, geme. Por duas vezes imaginei que ele estava de facto a morrer. Uma vez corri à cozinha e pedi à Harriet que viesse ver. Ela ajeitou-lhe s almofada, viu-lhe o pulso, e depois pediu-me que fosse à cozinha para termos uma “conversinha”. “É um caso terminal”, explicou-me, “cancro”, e não há nada que o médico possa fazer.” Esta, explicou-me, é a razão por que ela não insistira em que ele viesse. Foi muito terra-a-terra acerca de tudo isto.
Quando uma criança nasce, morreria se ninguém lhe batesse no rabo e provocasse o choro que a ajudará a receber o ar frio e cruel nos pulmões. Que rito de passagem existe para os que morrem? Tenho de perguntar isto ao Richard Thornhill...
Especialmente quando não existe fé em Deus, que podemos esperar que lá haja para limpar o suor frio de uma testa, ou pegar numa mão (as do Standish estão geladas) e tentar aquecê-la?»
[May Sarton, Prepara-te para a morte e segue-me; trad. Bárbara Smith, Cotovia, Março 1997]
 

7 de outubro de 2013

Breve interlúdio musical


Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

«A velhice, dizem, é uma desistência gradual. Mas é estranho
quando acontece tudo de repente.»
(May Sarton)

Nem sempre a lápis (399)

Longe do mundo

O ar risca a luz como um buril antigo. E assisto impávido à venenosa sequência dos meus dias.
Sem esperança, nem conformismo.

Optei pela demissão. É tarde e apercebo-me que não há citrinos para lá do muro azul do mar.


Os livros usurparam as tábuas. Onde antes palpitavam veios, alinham-se agora letras horizontais. Letárgicas.
A cerâmica deixou as letras órfãs, e os buris apodrecem nas jazidas cuneiformes.

Quando as lombadas empenam o horizonte, recortadas pelo analfabetismo,
os poetas emendam a voz. A poesia sobra.

Papiro do dia (439)

«A notícia de um visitante iminente desconcertou-me – perdi o fio àquilo em que queria ponderar esta manhã. Ah, pois, o que acontece às pessoas que têm completo poder sobre os outros. Este seria um lugar muito melhor e mais afável se alguém preocupado connosco se desse ao trabalho de olhar em redor, de sentir as coisas, de observar, e de ver as nossas vigilantes com um olhar descomprometido. Mas iniciativas deste tipo são coisa que parece não existir – há uma timidez fundamental no que diz respeito a interferir. Afinal de contas, as filhas e os filhos dos pobre velhos que aqui estão podem pensar, não é da nossa conta, e o pai está a perder o juízo, como podemos acreditar no que diz? É-lhes dito, sem dúvida, pelas assistentes sociais e talvez mesmo pelos médicos, embora estes raramente parem por aqui, que os velhos se tornam “mentais”, palavra que sempre me divertiu por parecer sugerir o oposto do que significa. Dizem-lhes, julgo eu, que os velhos ficam naturalmente deprimidos, e que essa depressão “vem de dentro”, e que a forma de a tratar é com drogas, não com imaginação ou amabilidade. E a maior parte deles são gente simples, terrificada pela atmosfera própria de um hospital ou de um “lar”, pouco à-vontade, incapazes de serem eles próprios. O comportamento de Harriet com eles é conspiratório. Falam em sussurros uns com os outros, e em tons de falsa jovialidade com os pacientes, e o filho ou a filha parte sentindo que fez tudo o que podia ao vir de visita. O resto é com a “instituição”. Não são gente que alguma vez tenha tido a coragem de despoletar uma guerra. A polícia, os patrões que têm, no caso de serem operários, a “empresa”, o “governo”, são tudo poderes aterrorizadores que não podem controlar nem sequer compreender.»
[May Sarton, Prepara-te para a morte e segue-me; trad. Bárbara Smith, Cotovia, Março 1997;
ficheiros]

3 de outubro de 2013

Breve interlúdio musical


Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

«Suponho que seja possessivo não gostar de ler um jornal que passou por várias mãos, que está um bocadinho amarrotado.»
(May Sarton)

Nem sempre a lápis (398)

Longe do mundo
 
Vi as cordas entrelaçadas nas vitrinas. As artes da morte e da viagem. Os labirintos.
Era tarde, e o cheiro áspero do sisal não detinha o trânsito. Não apaziguava os rostos.

Já ninguém escreve nas esplanadas,
ou precisa de bússolas para atravessar os dias.



Percorro a praia dividido entre a memória e a ausência. Todos os sentidos me contrariam as pegadas na areia molhada.
As bibliotecas.

Sento-me de frente para o mar, com um saco de laranjas ao lado. A loucura é uma arte menor.

Papiro do dia (438)

«Hoje passei algum tempo a ler sobre dois acidentes de automóvel; um deles resultou em morte. Para além deste artigo, vinha uma entrevista com um oficial que regressava depois de cinco anos numa prisão no Vietname do Norte. Dizia ter ficado horrorizado no seu regresso ao ver como nós, Americanos, nos enraivecemos à menor frustração. Segundo ele, um homem entra no carro e se não o consegue ligar à primeira ou à segunda tentativa, fica furiosamente zangado. As pessoas que ficam paradas no trânsito, por pouco tempo que seja, perdem a cabeça. Poderá ser verdade estarem todos sempre tão próximos da fúria que o equivalente a tropeçar num dedo do pé provoca um ataque repentino de mau humor? E como podemos nós lidar com este estado de desequilíbrio? Porque é disso que se trata. Quase todos os dias lemos que um maluco qualquer agarra numa espingarda e dispara sobre várias pessoas, simplesmente para aliviar uma pressão intolerável. Mas o que é que causou a pressão? E por que é que só se alivia com uma violência assassina? Perguntas, perguntas a que eu seguramente nunca poderei responder...»
[May Sarton, Prepara-te para a morte e segue-me; trad. Bárbara Smith, Cotovia, Março 1997]

1 de outubro de 2013

Breve interlúdio musical


Porque a Net fornece um novo dia




Às vezes, lá calha...

«De certa maneira, este caminho para dentro e de retorno ao passado é como um mapa, o mapa do meu mundo. Se o puder desenhar adequadamente saberei onde estou.»
(May Sarton)

Nem sempre a lápis (397)

Longe do mundo
 
Vi a terra parada como uma noite de luar. Sem o perfume das raparigas nas eiras,
os leitos de feno e camomila, acoitados na penumbra cúmplice da música.

Depois, julgo que ouço um cavalo
ou sonho, mas o granito já não me defende a memória.

 

A cal ferve sob os azulejos. A roupa dardeja nas varandas, empresta humidade ao vento, e o ferro forjado peneira o entardecer. Aquece as sombras.

As gaivotas refugiam-se nos telhados,
o rio esqueceu-se da foz. Adiou a viagem.

Papiro do dia (437)

«Quando o John e a Ginny partiram, ele desse: “Havemos de vir ver-te.”
Passado um bocado adormeci. A chuva tamborilava no telhado. Senti que durante algum tempo teria de ser absolutamente passiva, flutuar de momento a momento e de hora a hora, deixando de fora sentimentos e pensamentos. Eram ambos demasiado perigosos. E eu temia o choro. Ultimamente, desde o hospital, tenho chorado muito, o que pode ser uma razão para o John achar que eu tinha de partir. As lágrimas são uma ofensa e fazem com que os outros, mais do que sofrer, se sintam atacados e irritados. Quando o mundo interior transborda desta maneira, há qualquer coisa de muito pessoal que se mostra onde não deve, ou onde não deve mostrar-se pelo menos quando se tem a minha idade. Só as crianças têm direito às lágrimas, portanto, de certa maneira, o facto de me terem mandado para aqui é um castigo. Caramba, agora não posso pensar assim. É perigoso tudo o que não é passivo. Aprendo a aceitar.»
[May Sarton, Prepara-te para a morte e segue-me; trad. Bárbara Smith, Cotovia, Março 1997]