«Há uma corrente de ar frio que conduz ao minério, e os objectos tremem pelo desejo louco de entrarem vivos na pedra.»
(J.-M. G. Le Clézio)
«De uma maneira geral, os livros sabem ao cheiro do café» Sam Savage
«Eis o que é preciso fazer: partir para o campo, como um pintor de domingo, com uma grande folha de papel e um lápis. Escolher um sítio deserto, num vale encaixado entre as montanhas, sentar-se num rochedo e olhar durante muito tempo à sua volta. E depois, quando se olhou bem, pegar na folha de papel e desenhar com palavras o que se viu. Compreendem, é preciso inscrever a paisagem, peça por peça, sem esquecer nada; longamente, metodicamente, é preciso fazer a carta deste bocado de mundo, indicar o mínimo calhau, o mínimo tufo de erva, fazer o esquema das visões e dos odores, escrever tudo, desenhar tudo. Depois de se acabar, e vir a noite, pode-se regressar a casa. Na folha, ali, naquele rectângulo de papel de 21 x 27, garatujou-se uma parcela da terra. Fez-se o retrato de alguns quilómetros de luz, de ruídos e cheiros. Achataram-se como num postal, muito facilmente. E agora, pertencem-vos, esses quilómetros já não apodrecerão no esquecimento; ficarão martelados com pequenos sinais, na vossa cabeça até à eternidade. Ou, pelo menos, o tempo que viverem.»
«Se querem realmente saber, eu preferia nunca ter nascido. A vida, acho-a muito fatigante. Claro, a coisa agora está feita e já nada posso alterar. Mas haverá sempre no fundo de mim mesmo esse remorso, que não chegarei a expulsar completamente e há-de estragar tudo. Agora trata-se de envelhecer depressa, de devorar os anos o mais rápido possível, sem olhar nem para a esquerda nem para a direita. É preciso suportar todas as mordidelas da existência, procurando não sofrer demasiado. A vida está cheia de loucuras. Não passam de pequenas loucuras quotidianas, mas são terríveis se repararmos bem nelas.
À revelia – ou melhor – manifestando um profundo desprezo pela recente boutade do crítico literário que mais anima a bloga, a desavergonhada Academia sueca atribuiu o Nobel da Literatura a Alice Munro, escritora canadiana que já anunciou ter batido com a porta da mesma. Da literatura, entendamo-nos. A notícia colheu-me, sem surpresa, ao balcão do livreiro que a semana passada me conseguiu Amada Vida. Curiosamente – ou melhor – como vai sendo hábito, a escritora laureada passa ao lado e ao largo da pretensa secreta shortlist especulada por Eduardo Pitta, onde o delírio colonialista o leva a especificar que é integrada pelo israelita Amos Oz e o judeu-húngaro Imre Kertész.
«Ultimamente tenho levado o meu livro para o quarto do Standish e sento-me com ele. Não sei bem se ele está inconsciente a maior parte do tempo, ou apenas demasiado deprimido para comunicar. Está deitado com as mãos crispadas sobre a colcha, uma maneira de se resguardar a si próprio, acho eu. Quando acorda ou se agita, geme. Por duas vezes imaginei que ele estava de facto a morrer. Uma vez corri à cozinha e pedi à Harriet que viesse ver. Ela ajeitou-lhe s almofada, viu-lhe o pulso, e depois pediu-me que fosse à cozinha para termos uma “conversinha”. “É um caso terminal”, explicou-me, “cancro”, e não há nada que o médico possa fazer.” Esta, explicou-me, é a razão por que ela não insistira em que ele viesse. Foi muito terra-a-terra acerca de tudo isto.
«A notícia de um visitante iminente desconcertou-me – perdi o fio àquilo em que queria ponderar esta manhã. Ah, pois, o que acontece às pessoas que têm completo poder sobre os outros. Este seria um lugar muito melhor e mais afável se alguém preocupado connosco se desse ao trabalho de olhar em redor, de sentir as coisas, de observar, e de ver as nossas vigilantes com um olhar descomprometido. Mas iniciativas deste tipo são coisa que parece não existir – há uma timidez fundamental no que diz respeito a interferir. Afinal de contas, as filhas e os filhos dos pobre velhos que aqui estão podem pensar, não é da nossa conta, e o pai está a perder o juízo, como podemos acreditar no que diz? É-lhes dito, sem dúvida, pelas assistentes sociais e talvez mesmo pelos médicos, embora estes raramente parem por aqui, que os velhos se tornam “mentais”, palavra que sempre me divertiu por parecer sugerir o oposto do que significa. Dizem-lhes, julgo eu, que os velhos ficam naturalmente deprimidos, e que essa depressão “vem de dentro”, e que a forma de a tratar é com drogas, não com imaginação ou amabilidade. E a maior parte deles são gente simples, terrificada pela atmosfera própria de um hospital ou de um “lar”, pouco à-vontade, incapazes de serem eles próprios. O comportamento de Harriet com eles é conspiratório. Falam em sussurros uns com os outros, e em tons de falsa jovialidade com os pacientes, e o filho ou a filha parte sentindo que fez tudo o que podia ao vir de visita. O resto é com a “instituição”. Não são gente que alguma vez tenha tido a coragem de despoletar uma guerra. A polícia, os patrões que têm, no caso de serem operários, a “empresa”, o “governo”, são tudo poderes aterrorizadores que não podem controlar nem sequer compreender.»
«Hoje passei algum tempo a ler sobre dois acidentes de automóvel; um deles resultou em morte. Para além deste artigo, vinha uma entrevista com um oficial que regressava depois de cinco anos numa prisão no Vietname do Norte. Dizia ter ficado horrorizado no seu regresso ao ver como nós, Americanos, nos enraivecemos à menor frustração. Segundo ele, um homem entra no carro e se não o consegue ligar à primeira ou à segunda tentativa, fica furiosamente zangado. As pessoas que ficam paradas no trânsito, por pouco tempo que seja, perdem a cabeça. Poderá ser verdade estarem todos sempre tão próximos da fúria que o equivalente a tropeçar num dedo do pé provoca um ataque repentino de mau humor? E como podemos nós lidar com este estado de desequilíbrio? Porque é disso que se trata. Quase todos os dias lemos que um maluco qualquer agarra numa espingarda e dispara sobre várias pessoas, simplesmente para aliviar uma pressão intolerável. Mas o que é que causou a pressão? E por que é que só se alivia com uma violência assassina? Perguntas, perguntas a que eu seguramente nunca poderei responder...»
«... sigam o exemplo do Pacheco Pereira, esse inocente útil que aderiu ao PCP(m-l) em 1972, apoiou Soares é fixe, saltou para o PSD, andou pela AR, foi para o PE, acabando a dizer mal de tudo e de todos, excepto dele próprio, em tudo o que é media e mais o que possam imaginar. Não admira que se mostre preocupado com as comemorações do centenário de Álvaro Cunhal, um homem que foi em coerência exactamente o oposto daquilo que Pacheco Pereira é e em hipocrisia exactamente o contrário daquilo que Pacheco Pereira nunca deixará de ser.»
«Eu não estou louca, apenas velha. Afirmo-o para ganhar coragem. Para dar uma ideia do que coragem significa para mim, basta dizer que demorei duas semanas a obter este caderno e uma caneta. Encontro-me num campo de concentração para velhos, um lugar onde as pessoas despejam os pais ou os familiares como se fosse um balde para cinzas.
«Eis-me de novo no sítio exacto onde vi chegar o grande furacão, aos oito anos de idade, quando fomos escorraçados de nossa casa e lançados no mundo, como num segundo nascimento. No cimo da colina, sinto crescer em mim o rumor do mar. Queria falar a Laura de Nada the Lily, que encontrei em vez do tesouro, e que voltou para a sua ilha, contar-lhe histórias de viagens e ver brilhar os seus olhos, como quando avistávamos do alto de uma pirâmide a extensão do mar, onde se é livre.
«Sou o único a preocupar-me com o itinerário. Os marinheiros esses, continuam a viver e a jogar aos dados como se nada lhes dissesse respeito. Será por causa do gosto da aventura? Não, não é por isso. Não têm ninguém, não pertencem a nenhuma terra, eis tudo. O seu mundo é o convés do Zeta e o porão sufocante onde dormem de noite. Olho para estes rostos fechados, queimados pelo sol e o vento, semelhantes a calhaus polidos pelo mar, e como na noite da partida sinto a mesma inquietação surda, irracional. Estes homens pertencem a outra existência, a outro tempo. Mesmo o capitão Bradmer e o timoneiro estão com eles, do seu lado, também indiferentes ao lugar, aos desejos, a tudo o que me preocupa. Os seus olhos têm a dureza metálica do mar, o seu rosto igual lisura.»
«À luz dourada do entardecer, no abandono do porto onde apenas passavam algumas gaivotas, com o rumor leve do vento que soprava nos aprestos do navio, e talvez também por causa daquela longa espera ao sol, como outrora quando corria pelos campos, o navio tinha adquirido algo de mágico, com os seus altos mastros inclinados, as suas vergas prisioneiras do entrelaçamento dos cordames, a flecha do gurupés semelhante a um esporão. Na coberta brilhante, a cadeira vazia colocada em frente da roda do leme causava uma impressão de estranheza ainda maior. Não era uma cadeira de navio: era antes de escritório, em madeira torneada, como as que via todos os dias na W. W. West! E estava ali, à popa do berço, deslustrada pelo salpico das ondas, ostentando a marca das viagens através do oceano!
«Não se passa quase nenhuma noite sem que meu pai nos mostre o lugar dos astros no céu, num grande mapa afixado na parede do escritório. Contemplo os mapas entre o cheiro a tabaco que envolve o escritório. Meu pai evoca Cook, Drake, Magalhães, que descobriu os mares do Sul a bordo do Vitória e veio a morrer nas ilhas da Sonda. Menciona Tasman, Biscoe, Wilkes, que atingiu os gelos eternos do Pólo Sul, e outros viajantes extraordinários: Marco Polo na China, de Soto na América, Orellana que explorou o Amazonas, Gmelin que foi até aos confins da Sibéria, Mungo Park, Stanley, Livingstone, Prjevalski. Escuto estas histórias, os nomes de países, a África, o Tibete, as ilhas dos mares do Sul: são nomes mágicos, como os nomes das estrelas, como os desenhos das constelações. À noite, deitado na minha cama de campanha, ouço o som do mar e do vento nos palmeirais. Recordo todos estes nomes, parece-me que o céu nocturno se abre e vou num veleiro navegando a todo o pano, no mar infindo, rumo às Molucas, à baía do Astrolábio, às Fidji, a Moorea. No convés deste navio, antes de adormecer, vejo o céu como ainda o não tinha visto, tão grande, azul-escuro sobre o mar fosforescente. Passo lentamente para o outro lado do horizonte e navego em direcção aos Reis Magos, ao Cruzeiro do Sul.»