23 de outubro de 2013

Às vezes, lá calha...

«Não se precisava de olhos para ver, a tal ponto se conhecia e possuía tudo, e também quase não era necessário esperar nem desejar, as coisas aconteciam por si mesmas, vinham ao encontro das pessoas.»
(Teolinda Gersão)

Nem sempre a lápis (444)

Memória descritiva
Bilha
Sem querer, assisti a um ritual da água.
Estava num café em Barrancos, e num nicho na parede, junto ao balcão, repousavam duas bilhas de barro.
Aparentemente inúteis.
Velhas, encardidas pela sofreguidão das mãos sequiosas que as levaram à boca.
A minha ignorância urbana pretendia-as esquecidas, não lhes concedendo sequer as veleidades do artesanato.
Que turismo se desloca a um café de Barrancos para ver duas bilhas abandonadas num nicho?
À falta de espargos com ovos, saboreava o catalão assado, e foi quando me dei conta que os fregueses iam ao pátio encher as bilhas.
Ponderavam a frescura de cada uma, e levantavam-nas acima da cabeça.
Bebiam como os vizinhos espanhóis, deixando que a água lhes caísse directamente na boca.
Sem que os lábios tocassem o gargalo.
Mal os ouvia, e a discrição com que se saciavam, não me concedia a oportunidade de ouvir barranquenho.
Creio que é por aqui que há tocadores de pedras.
Escolhem-nas entre os seixos do leito calcinado do rio, e interpretam-nas à maneira que a sede os ensinou.
Como só é possível entre povos que conhecem a graça da água.

Papiro do dia (404)

«Ao quintal chegava-se através da porta estreita da cozinha. E se é verdade que a cozinha era escura, nem por isso se deixavam de ver os objectos, as panelas de alumínio e as gordas caçarolas, os púcaros e as tigelas de esmalte, o fogão esbranquiçado, de bocas de latão, a grande mesa com tampo de pedra onde havia sempre alguma louça esquecida. Mas sobre isso passava-se de largo, sem realmente olhar, corria-se em direcção ao quintal, como se se fosse sugado pela luz, cambaleava-se, transpondo a porta, porque se ficava cego por instantes, apenas o cheiro e o calor nos guiavam, nos primeiros passos – o cheiro a terra, a erva, a fruta demasiado madura – chegando até nós no vento morno, como um bafo de animal vivo.
As coisas, no quintal, dançavam: as folhas largas de um pé de bananeira, as folhas e as flores do hibisco, os ramos ainda tenros do jacarandá, as folhas de erva nascediça, que crescia como capim e contra a qual, em dada altura, se desistia sempre de lutar.
Era quando alguém se deitava sobre a erva que via como eram finas as folhas do jacarandá varrendo o céu e como o sol era um olho azul e doirado espreitando, cegando todos os outros, para que só ele pudesse olhar. O sol, sobre o quintal e a casa, era o único olhar não cego.»
[Teolinda Gersão, A árvore das palavras; Sextante, 6.ª ed., Maio 2008;

19 de outubro de 2013

Breve interlúdio musical


Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

«A terra tinha todo o ar de um parque, e o tempo era uma miniatura.»
(J.-M. G. Le Clézio)

Nem sempre a lápis (443)

Memória descritiva
Barco
 
A serração era um oceano de carcódoas.
Para ser verdade, nem sequer lhe faltavam Adamastores, e tormentas de mães zeladoras de calções.
Atravessava-se a estrada, de navalhinha em riste, e sentávamo-nos no chão, encostados aos troncos.
Grudados pela resina, permanecíamos horas a fio a desbastar carcódoas, como mestres de laboriosos estaleiros navais.
A maior parte das vezes em silêncio, ouvindo-se apenas a lâmina a desbravar a casca da circum-navegação infantil.
De certeza que também se ouviam cigarras.
O canto das cigarras fica sempre bem nestas coisas.
Era Verão, e elas deveriam estar empoleiradas nos postes telefónicos, antecipando comunicações.
Lançando o alerta de que não tardaria a fazermo-nos ao mar.
Também os fazíamos de papel.
Mais no Inverno, para velejar nas selhas do banho semanal.
Ou lançar ao sabor dos imensos Nilos das valetas animadas pela chuva.
Que me recorde, não havia naufrágios, pirataria, nem azáfama piscatória.
Os nossos barcos só cumpriam viagens.

Papiro do dia (403)

«Tudo se passava ali, no interior; não havia nada no exterior, nada que viesse e espantasse. Era uma fuga contínua, o retiro dos órgãos e dos ossos, um apagamento progressivo, manhoso. Joseph mantinha-se de pé, debruçado sobre o cadeirão da velha, e dos olhos fechados, dos lábios secos e apertados, agitados debilmente num gesto de sucção, de todo aquele corpo abandonado no seu vestido-avental, recebia na própria face como que pancadas, profundas, cruéis. O rosto largo, cheio de cartilagens e carne, com a pele lívida, fechava-se no centro, à maneira duma anémona-do-mar. As mãos, as pernas, o busto curvado, tudo parecia aspirado por uma boca feroz, por uma ferida em forma de estrela cujos lábios enrugados se apertavam um contra o outro, com terríveis esforços de cicatrização. Só havia mesmo esta boca, ou este ânus, que se retraía, se dobrava, velha pele de serpente, sufocava-se sobre ela própria, devorava-se sem repugnância. Era preciso fazer como ela, sem dúvida; viver no interior, mergulhar a cabeça no interior do corpo, alimentar-se da própria carne, consumir-se totalmente, criminosamente, até ao esquecimento. Se o tempo se despejasse das suas drogas, distinguia-se a extensão escura, uma verdadeira sala luzindo por buracos, em que as palavras e as dores não têm onde se agarrar, onde tudo é nu, engolido, sufocado. Ouvia-se, às vezes, no fundo desta estufa, o passo de vidro da eternidade, música que lambe o sono. Assim. Lascivamente. Indolentemente. Para si.»
[J.-M. G. Le Clézio, A febre; trad. Liberto Cruz, Ulisseia, Novembro 2008;
para si também]

15 de outubro de 2013

Breve interlúdio musical


Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

«Há uma corrente de ar frio que conduz ao minério, e os objectos tremem pelo desejo louco de entrarem vivos na pedra.»
(J.-M. G. Le Clézio)
 

Nem sempre a lápis (442)

Memória descritiva
Azeite
Uma vez, deparou-se-me uma rua que dava pelo nome de Goutte d’Or.
Nunca procurei decifrar o ofício escondido pela metáfora, e duvido que o azeite, o mel ou o ouro, ainda gotejem nas ruas de Paris.
A Bretanha ficava longe, no sonho, e eu precisaria de muitos anos, e outra tanta vida, para aceitar as coisas como são.
Sem dar por ela, a rua perseguia-me.
Desse as voltas que desse, a Goutte d’Or esperava-me como uma nódoa.
A marca de um sinal.
Passaram-se anos, e ao temperar a comida, ainda hoje sou assaltado pela magia desse gesto que me liga àquele fio de ouro.
Quando me predisponho à vagabundice, à preguiça, deixo que esse fio me ligue a uma salada em Asilah.
Ou às tibornas da Beira e aos potes do Algoz.
E consinto que a nódoa me marque como um sinal de fogo oculto.

Papiro do dia (402)

«Eis o que é preciso fazer: partir para o campo, como um pintor de domingo, com uma grande folha de papel e um lápis. Escolher um sítio deserto, num vale encaixado entre as montanhas, sentar-se num rochedo e olhar durante muito tempo à sua volta. E depois, quando se olhou bem, pegar na folha de papel e desenhar com palavras o que se viu. Compreendem, é preciso inscrever a paisagem, peça por peça, sem esquecer nada; longamente, metodicamente, é preciso fazer a carta deste bocado de mundo, indicar o mínimo calhau, o mínimo tufo de erva, fazer o esquema das visões e dos odores, escrever tudo, desenhar tudo. Depois de se acabar, e vir a noite, pode-se regressar a casa. Na folha, ali, naquele rectângulo de papel de 21 x 27, garatujou-se uma parcela da terra. Fez-se o retrato de alguns quilómetros de luz, de ruídos e cheiros. Achataram-se como num postal, muito facilmente. E agora, pertencem-vos, esses quilómetros já não apodrecerão no esquecimento; ficarão martelados com pequenos sinais, na vossa cabeça até à eternidade. Ou, pelo menos, o tempo que viverem.»
[J.-M. G. Le Clézio, A febre; trad. Liberto Cruz, Ulisseia, Novembro 2008;
fuga]

13 de outubro de 2013

12 de outubro de 2013

Breve interlúdio musical

Porque a Net fornece um novo dia





Às vezes, lá calha...

«Vivemos num mundo muito frágil. É preciso prestar atenção onde pousamos o olhar, é preciso desconfiarmos de tudo quanto ouvimos, de tudo o que nos toca.»
(J.-M. G. Le Clézio)

Nem sempre a lápis (441)

Memória descritiva
Algarve
Há uma curva à entrada de Lagos, que me fascina.
Hoje é quase só uma curva, com os paralelepípedos soterrados pelo asfalto, como acabará por suceder às pequenas casas que a ladeiam.
Dentro em breve, as laranjeiras e as buganvílias juntar-se-ão ao património arqueológico.
E duvido que a curva subsista às urgências rectilíneas do trânsito.
Eu descobria o Algarve, e a rusticidade e aspereza da minha pronúncia soletrava a doçura dos nomes revelados pelos faróis:
Aljezur, Bensafrim.
E adivinhava figos e mel, cúmplices com a alfarroba e as estevas.
Sempre que posso - e a ansiedade não me condiciona o prazer da ida, ou a inevitabilidade do regresso - percorro a mesma estrada litoral, assistindo à agonia das placas de trânsito de azulejo, onde ainda é possível ler Odesseixe e distâncias entretanto desactualizadas pelo progresso.
Fiel, a minha curva à entrada de Lagos aguarda-me para me franquear a vastidão do horizonte.
Os mistérios do Sul.
Seja qual for a hora, do dia ou da noite, ou a época do ano, a curva prevalece como fiel guardiã.
Um livro que se abre à ida, ou fecha no regresso.

Papiro do dia (401)

«Se querem realmente saber, eu preferia nunca ter nascido. A vida, acho-a muito fatigante. Claro, a coisa agora está feita e já nada posso alterar. Mas haverá sempre no fundo de mim mesmo esse remorso, que não chegarei a expulsar completamente e há-de estragar tudo. Agora trata-se de envelhecer depressa, de devorar os anos o mais rápido possível, sem olhar nem para a esquerda nem para a direita. É preciso suportar todas as mordidelas da existência, procurando não sofrer demasiado. A vida está cheia de loucuras. Não passam de pequenas loucuras quotidianas, mas são terríveis se repararmos bem nelas.
Não acredito muito nos grandes sentimentos. Em vez deles, vejo um exército de insectos ou de formigas que mordem em todos os sentidos. Por vezes, estas minúsculas flechas negras reúnem-se, e a razão dos homens perde o equilíbrio. Durante alguns minutos, algumas horas, é o reino do caos, da aventura. A febre, a dor, a fadiga, o sono que chega, são paixões fortes e tão desesperantes como o amor, a tortura, o ódio ou a morte. Outras vezes, o espírito assaltado pelas sensações sucumbe numa espécie de êxtase material. A imagem da verdade é mais ofuscante que um protector.»
[J.-M. G. Le Clézio, A febre; trad. Liberto Cruz, Ulisseia, Novembro 2008]

10 de outubro de 2013

O Nobel e as Antas

À revelia – ou melhor – manifestando um profundo desprezo pela recente boutade do crítico literário que mais anima a bloga, a desavergonhada Academia sueca atribuiu o Nobel da Literatura a Alice Munro, escritora canadiana que já anunciou ter batido com a porta da mesma. Da literatura, entendamo-nos. A notícia colheu-me, sem surpresa, ao balcão do livreiro que a semana passada me conseguiu Amada Vida. Curiosamente – ou melhor – como vai sendo hábito, a escritora laureada passa ao lado e ao largo da pretensa secreta shortlist especulada por Eduardo Pitta, onde o delírio colonialista o leva a especificar que é integrada pelo israelita Amos Oz e o judeu-húngaro Imre Kertész.
Faz-me lembrar os dois fdp (aka filhos do Porto) que se encontram e um pergunta ao outro se vai às Antas. Responde que não, que vai ver «Os Colhões de Navarone». Ao que o outro emenda: «Ó pá, não são colhões, são canhões». «Ó caralho, então bamos às Antas». Pim!, acrescento eu.
Por motivos que não vêm agora à baila, entrei na única livraria de Portimão firmemente determinado a interromper Amada Vida, precisamente no conto intitulado “Orgulho” para, com justificado sentimento, me entregar ao prazer da escrita de Teolinda Gersão. Deixado o mais recente título, As águas livres, ao cuidado de uma leitora n’A cidade de Ulisses, encontrava-me na disposição de apanhar qualquer título da minha vizinha «da biblioteca do Mondego», embora não nos tenhamos cruzado na Fortaleza de Armação de Pêra – tudo o leva a crer, seja a imaginação tão livre como as águas.
Havia A árvore das palavras, no formato desejado (20 x 14) e não a aberrante paginação de As águas livres que Teolinda Gersão não merece. Abram o livro e vejam; ler, só a magia da escrita nos prende. Tivesse eu o livro à mão e ilustrava a minha indignação com uma das cento e tal páginas. E atenção para com a floresta também não colhe: arrisco que o tamanho e tipo de letra são muito próximos de O silêncio e deste «retrato de Lourenço Marques, antes da guerra colonial e já depois do seu começo.» – Lê-se na contracapa: – «É um livro sobre o fascínio de África e da cultura africana (…) Um livro mágico sobre a infância, à qual não se pode voltar, a não ser através do milagre da literatura.»
Alice Munro ganhou o Nobel da Literatura 2013, muito bem; e eu esta noite começo a ler A árvore das palavras, enquanto aguardo os títulos que não tenho de Teolinda Gersão e a fazer figas para os conseguir no formato que a respeite.
Não sei se me fiz entender, ou se terei de ir às Antas.

Afasta de mim o cinzeiro


9 de outubro de 2013

Breve interlúdio musical


Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

«Não imagino sequer o que seria sentir uma carícia terna – a minha pele está ressequida como um deserto à falta de ser tocada.»
(May Sarton)

Nem sempre a lápis (400)

Longe do mundo

Os espelhos já não me devolvem a imagem. O fogo extinguiu-se nas ruínas
e deambulo entre o despertar e o sono. Retoco a insanidade. Adio-me.

Um dia as fotografias ficarão vazias
e as dedicatórias em branco. É tudo quanto me ocupa.



Quando a idade me devolve a luz e o ar, as dedicatórias chocalham no horizonte.
Há medida que os anos passam, sinto as árvores, o ar, cada vez mais inúteis. E as palavras também.

Já tive melhores ilusões para envelhecer.
[Longe do mundo; frenesi 2004]

Papiro do dia (440)

«Ultimamente tenho levado o meu livro para o quarto do Standish e sento-me com ele. Não sei bem se ele está inconsciente a maior parte do tempo, ou apenas demasiado deprimido para comunicar. Está deitado com as mãos crispadas sobre a colcha, uma maneira de se resguardar a si próprio, acho eu. Quando acorda ou se agita, geme. Por duas vezes imaginei que ele estava de facto a morrer. Uma vez corri à cozinha e pedi à Harriet que viesse ver. Ela ajeitou-lhe s almofada, viu-lhe o pulso, e depois pediu-me que fosse à cozinha para termos uma “conversinha”. “É um caso terminal”, explicou-me, “cancro”, e não há nada que o médico possa fazer.” Esta, explicou-me, é a razão por que ela não insistira em que ele viesse. Foi muito terra-a-terra acerca de tudo isto.
Quando uma criança nasce, morreria se ninguém lhe batesse no rabo e provocasse o choro que a ajudará a receber o ar frio e cruel nos pulmões. Que rito de passagem existe para os que morrem? Tenho de perguntar isto ao Richard Thornhill...
Especialmente quando não existe fé em Deus, que podemos esperar que lá haja para limpar o suor frio de uma testa, ou pegar numa mão (as do Standish estão geladas) e tentar aquecê-la?»
[May Sarton, Prepara-te para a morte e segue-me; trad. Bárbara Smith, Cotovia, Março 1997]
 

7 de outubro de 2013

Breve interlúdio musical


Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

«A velhice, dizem, é uma desistência gradual. Mas é estranho
quando acontece tudo de repente.»
(May Sarton)

Nem sempre a lápis (399)

Longe do mundo

O ar risca a luz como um buril antigo. E assisto impávido à venenosa sequência dos meus dias.
Sem esperança, nem conformismo.

Optei pela demissão. É tarde e apercebo-me que não há citrinos para lá do muro azul do mar.


Os livros usurparam as tábuas. Onde antes palpitavam veios, alinham-se agora letras horizontais. Letárgicas.
A cerâmica deixou as letras órfãs, e os buris apodrecem nas jazidas cuneiformes.

Quando as lombadas empenam o horizonte, recortadas pelo analfabetismo,
os poetas emendam a voz. A poesia sobra.

Papiro do dia (439)

«A notícia de um visitante iminente desconcertou-me – perdi o fio àquilo em que queria ponderar esta manhã. Ah, pois, o que acontece às pessoas que têm completo poder sobre os outros. Este seria um lugar muito melhor e mais afável se alguém preocupado connosco se desse ao trabalho de olhar em redor, de sentir as coisas, de observar, e de ver as nossas vigilantes com um olhar descomprometido. Mas iniciativas deste tipo são coisa que parece não existir – há uma timidez fundamental no que diz respeito a interferir. Afinal de contas, as filhas e os filhos dos pobre velhos que aqui estão podem pensar, não é da nossa conta, e o pai está a perder o juízo, como podemos acreditar no que diz? É-lhes dito, sem dúvida, pelas assistentes sociais e talvez mesmo pelos médicos, embora estes raramente parem por aqui, que os velhos se tornam “mentais”, palavra que sempre me divertiu por parecer sugerir o oposto do que significa. Dizem-lhes, julgo eu, que os velhos ficam naturalmente deprimidos, e que essa depressão “vem de dentro”, e que a forma de a tratar é com drogas, não com imaginação ou amabilidade. E a maior parte deles são gente simples, terrificada pela atmosfera própria de um hospital ou de um “lar”, pouco à-vontade, incapazes de serem eles próprios. O comportamento de Harriet com eles é conspiratório. Falam em sussurros uns com os outros, e em tons de falsa jovialidade com os pacientes, e o filho ou a filha parte sentindo que fez tudo o que podia ao vir de visita. O resto é com a “instituição”. Não são gente que alguma vez tenha tido a coragem de despoletar uma guerra. A polícia, os patrões que têm, no caso de serem operários, a “empresa”, o “governo”, são tudo poderes aterrorizadores que não podem controlar nem sequer compreender.»
[May Sarton, Prepara-te para a morte e segue-me; trad. Bárbara Smith, Cotovia, Março 1997;
ficheiros]

3 de outubro de 2013

Breve interlúdio musical


Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

«Suponho que seja possessivo não gostar de ler um jornal que passou por várias mãos, que está um bocadinho amarrotado.»
(May Sarton)

Nem sempre a lápis (398)

Longe do mundo
 
Vi as cordas entrelaçadas nas vitrinas. As artes da morte e da viagem. Os labirintos.
Era tarde, e o cheiro áspero do sisal não detinha o trânsito. Não apaziguava os rostos.

Já ninguém escreve nas esplanadas,
ou precisa de bússolas para atravessar os dias.



Percorro a praia dividido entre a memória e a ausência. Todos os sentidos me contrariam as pegadas na areia molhada.
As bibliotecas.

Sento-me de frente para o mar, com um saco de laranjas ao lado. A loucura é uma arte menor.

Papiro do dia (438)

«Hoje passei algum tempo a ler sobre dois acidentes de automóvel; um deles resultou em morte. Para além deste artigo, vinha uma entrevista com um oficial que regressava depois de cinco anos numa prisão no Vietname do Norte. Dizia ter ficado horrorizado no seu regresso ao ver como nós, Americanos, nos enraivecemos à menor frustração. Segundo ele, um homem entra no carro e se não o consegue ligar à primeira ou à segunda tentativa, fica furiosamente zangado. As pessoas que ficam paradas no trânsito, por pouco tempo que seja, perdem a cabeça. Poderá ser verdade estarem todos sempre tão próximos da fúria que o equivalente a tropeçar num dedo do pé provoca um ataque repentino de mau humor? E como podemos nós lidar com este estado de desequilíbrio? Porque é disso que se trata. Quase todos os dias lemos que um maluco qualquer agarra numa espingarda e dispara sobre várias pessoas, simplesmente para aliviar uma pressão intolerável. Mas o que é que causou a pressão? E por que é que só se alivia com uma violência assassina? Perguntas, perguntas a que eu seguramente nunca poderei responder...»
[May Sarton, Prepara-te para a morte e segue-me; trad. Bárbara Smith, Cotovia, Março 1997]

1 de outubro de 2013

Breve interlúdio musical


Porque a Net fornece um novo dia




Às vezes, lá calha...

«De certa maneira, este caminho para dentro e de retorno ao passado é como um mapa, o mapa do meu mundo. Se o puder desenhar adequadamente saberei onde estou.»
(May Sarton)

Nem sempre a lápis (397)

Longe do mundo
 
Vi a terra parada como uma noite de luar. Sem o perfume das raparigas nas eiras,
os leitos de feno e camomila, acoitados na penumbra cúmplice da música.

Depois, julgo que ouço um cavalo
ou sonho, mas o granito já não me defende a memória.

 

A cal ferve sob os azulejos. A roupa dardeja nas varandas, empresta humidade ao vento, e o ferro forjado peneira o entardecer. Aquece as sombras.

As gaivotas refugiam-se nos telhados,
o rio esqueceu-se da foz. Adiou a viagem.

Papiro do dia (437)

«Quando o John e a Ginny partiram, ele desse: “Havemos de vir ver-te.”
Passado um bocado adormeci. A chuva tamborilava no telhado. Senti que durante algum tempo teria de ser absolutamente passiva, flutuar de momento a momento e de hora a hora, deixando de fora sentimentos e pensamentos. Eram ambos demasiado perigosos. E eu temia o choro. Ultimamente, desde o hospital, tenho chorado muito, o que pode ser uma razão para o John achar que eu tinha de partir. As lágrimas são uma ofensa e fazem com que os outros, mais do que sofrer, se sintam atacados e irritados. Quando o mundo interior transborda desta maneira, há qualquer coisa de muito pessoal que se mostra onde não deve, ou onde não deve mostrar-se pelo menos quando se tem a minha idade. Só as crianças têm direito às lágrimas, portanto, de certa maneira, o facto de me terem mandado para aqui é um castigo. Caramba, agora não posso pensar assim. É perigoso tudo o que não é passivo. Aprendo a aceitar.»
[May Sarton, Prepara-te para a morte e segue-me; trad. Bárbara Smith, Cotovia, Março 1997]

30 de setembro de 2013

29 de setembro de 2013

Combate ao desemprego





28 de setembro de 2013

Ao longe,

Caminhar



24 de setembro de 2013

Breve interlúdio musical


Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

«Obrigo-me a clarificar tudo na minha mente através da escrita, para saber em que ponto estou. Nada é real agora, a não ser o que consigo manter vivo dentro de mim.»
(May Sarton)

Nem sempre a lápis (396)

Longe do mundo

O gado assoma ao largo. Sacode o ar com a cauda e o olhar perscruta a fome. O frio das facas.
A bosta aquece a calçada, e enquanto o vapor se evola

as janelas fecham-se como um crime. Apagam-se as giestas.



Cheira a pão quente e a palha. O queijo amadurece na penumbra, e o sal escorre sobre as tábuas velhas. Estalactites domésticas.
Sobrevivência e artesanato.

Cheira a caça molhada
a pêlo de cão e cavalos suados: licor de chuva.

Papiro do dia (436)

«Eu não estou louca, apenas velha. Afirmo-o para ganhar coragem. Para dar uma ideia do que coragem significa para mim, basta dizer que demorei duas semanas a obter este caderno e uma caneta. Encontro-me num campo de concentração para velhos, um lugar onde as pessoas despejam os pais ou os familiares como se fosse um balde para cinzas.
O meu irmão, John, trouxe-me para cá há duas semanas. É claro que eu soube desde o início que viver com ele nunca resultaria. Tive de fechar a minha própria casa depois do ataque cardíaco (as escadas eram excessivas para mim). O John é quatro anos mais velho do que eu e casou com uma mulher muito mais jovem depois de Elizabeth, a sua primeira mulher, ter morrido. A Ginny nunca gostou de mim. Faço-a sentir-se inferior e não consigo evitá-lo. O John tem hábitos de leitura, sempre teve. Como eu. o John interessa-se por política. Como eu. Ao que parece, os únicos interesses da Ginny são os mexericos maliciosos, o bridge, e experimentar receitas novas. Infelizmente não é uma cozinheira nata. Considero este parágrafo extremamente maçador e foi um esforço enorme escrevê-lo. Ninguém quer ocupar-se de coisas desagradáveis. Neste aspecto não estou sozinha.

Posfácio
Este manuscrito foi encontrado depois do fogo que destruiu a Casa de Repouso Dois Elmos. Numa carta encontrada dentro da capa, a Menina Caroline Spencer pedia ao reverendo Richard Thornhill que o publicasse, se possível. O que foi feito, com a permissão do seu irmão, John Spencer.»
[May Sarton, Prepara-te para a morte e segue-me; trad. Bárbara Smith, Cotovia, Março 1997;

22 de setembro de 2013

Cine povero




21 de setembro de 2013

Breve interlúdio musical


Porque a Net fornece um novo dia



Às vezes, lá calha...

«Agora sei onde estou. Encontrei o lugar que procurava. Após estes meses de vagabundagem, sinto uma nova paz e um novo ardor.»
(J. M. G. Le Clézio)

Nem sempre a lápis (395)

Longe do mundo

São casas com telhados de mãos postas na distância. Vibrantes pela cal e a memória vulcânica. Desconhecem a olaria,
as dedadas da tatuagem.
São refúgio de aves e mistérios. Coalho fresco.

O gado dorme à beira da corda e as hortênsias dividem-lhe o açougue. A inevitabilidade.



Emergiram da lava, sob o olhar das aves que demandam a ilha, guiadas pelas constelações do instinto e a geometria da sobrevivência.
O mar arrefeceu-lhes o ímpeto pelas ravinas, onde traçaram caminhos futuros. Fossilizaram solidões.

Refém das armadilhas deste dialecto,
esqueço os faróis e acendo palavras para me esquecer do mar.
[Longe do mundo; frenesi 2004]

Papiro do dia (435)

«Eis-me de novo no sítio exacto onde vi chegar o grande furacão, aos oito anos de idade, quando fomos escorraçados de nossa casa e lançados no mundo, como num segundo nascimento. No cimo da colina, sinto crescer em mim o rumor do mar. Queria falar a Laura de Nada the Lily, que encontrei em vez do tesouro, e que voltou para a sua ilha, contar-lhe histórias de viagens e ver brilhar os seus olhos, como quando avistávamos do alto de uma pirâmide a extensão do mar, onde se é livre.
Irei ao porto escolher um navio. O meu é esbelto e veloz, semelhante a uma fragata de asas imensas: chama-se Argo. Navega lentamente para o largo, no mar escuro do crepúsculo, rodeado de aves. E depressa, caída a noite, vogará sob as estrelas, cumprindo o seu destino traçado no céu. Eu estou no convés, à popa, envolto em vento, a ouvir as ondas rebentar na proa e o estalido das velas. O timoneiro entoa para si mesmo o seu canto monótono e sem fim, enquanto sobem do porão as vozes dos marinheiros a jogar aos dados. Somos os únicos seres vivos no vasto mar. Ouma está de novo comigo, sinto-lhe o hálito, o calor do corpo, o pulsar do coração. Até onde iremos juntos? Agalega, Aldraba, Juan de Nova? As ilhas são inumeráveis. Desafiaremos talvez a proibição e iremos até onde o capitão Bradmer e o seu timoneiro encontraram refúgio, até São Brandão? Vamos ao outro lado do mundo, a um lugar onde os sinais do céu e a guerra dos homens já não são de temer.
É noite cerrada, agora. Ouço no mais fundo de mim a chegada do rumor vivo do mar.»
[J. M. G. Le Clézio, O caçador de tesouros; trad. Ernesto Sampaio, Assírio & Alvim, Abril 1994]

20 de setembro de 2013

19 de setembro de 2013

Breve interlúdio musical

Porque a Net fornece um novo dia

 

Às vezes, lá calha...

«Então, entre os barcos de pesca, os botes, as lanchas, e a multidão de pirogas à vela; vi-o: era um navio já antigo, com o perfil fino e esbelto das escunas, com dois mastros ligeiramente inclinados para trás e duas belas velas áuricas a estalar ao vento.»
(J. M. G. Le Clézio)
 

Nem sempre a lápis (394)

Longe do mundo
 
Há uma ilha que me aquece o sono. Basáltica e precária. Com a memória
oceânica assente sob as algas. Covil de faunas e floras maceradas pelo enxofre

à deriva no atlântico:
arquipélago da imaginação e do apetite.



Abro o mapa das minhas mãos sobre a areia. Perdi as linhas e desbaratei as ilhas. Pouco sobra
que sirva de testemunho e aviso à quiromancia estropiada.

As buganvílias bordam-me o esquecimento – a distância.
 

Papiro do dia (434)

«Sou o único a preocupar-me com o itinerário. Os marinheiros esses, continuam a viver e a jogar aos dados como se nada lhes dissesse respeito. Será por causa do gosto da aventura? Não, não é por isso. Não têm ninguém, não pertencem a nenhuma terra, eis tudo. O seu mundo é o convés do Zeta e o porão sufocante onde dormem de noite. Olho para estes rostos fechados, queimados pelo sol e o vento, semelhantes a calhaus polidos pelo mar, e como na noite da partida sinto a mesma inquietação surda, irracional. Estes homens pertencem a outra existência, a outro tempo. Mesmo o capitão Bradmer e o timoneiro estão com eles, do seu lado, também indiferentes ao lugar, aos desejos, a tudo o que me preocupa. Os seus olhos têm a dureza metálica do mar, o seu rosto igual lisura.»
[J. M. G. Le Clézio, O caçador de tesouros; trad. Ernesto Sampaio, Assírio & Alvim, Abril 1994;
adamastor]

18 de setembro de 2013



17 de setembro de 2013

15 de setembro de 2013

Breve interlúdio musical




Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

«Não se vê ninguém nas alamedas rectilíneas, e se esta regularidade não ostentasse o selo humano, poderia julgar-me numa ilha deserta.»
(J. M. G. Le Clézio)
 

Nem sempre a lápis (393)

Longe do mundo
Outrora as estações tinham luz e cheiro. A cal apaziguava o granito
e a fruta antecipava o crepitar das searas nas eiras. O calor do pão e a embriaguez.

As azinheiras empalidecem na paisagem
como uma fotografia lançada ao vento.



A fome leveda sobre a mesa, coberta por um lençol. A farinha denuncia-lhe o trajecto,
amassado com movimentos sábios junto ao fogo. As chamas tendidas.

A água já não ferve na lareira
e a almotolia, a bilha, cheiram a palavras velhas.

Papiro do dia (433)

«À luz dourada do entardecer, no abandono do porto onde apenas passavam algumas gaivotas, com o rumor leve do vento que soprava nos aprestos do navio, e talvez também por causa daquela longa espera ao sol, como outrora quando corria pelos campos, o navio tinha adquirido algo de mágico, com os seus altos mastros inclinados, as suas vergas prisioneiras do entrelaçamento dos cordames, a flecha do gurupés semelhante a um esporão. Na coberta brilhante, a cadeira vazia colocada em frente da roda do leme causava uma impressão de estranheza ainda maior. Não era uma cadeira de navio: era antes de escritório, em madeira torneada, como as que via todos os dias na W. W. West! E estava ali, à popa do berço, deslustrada pelo salpico das ondas, ostentando a marca das viagens através do oceano!
A sedução era demasiado forte. Dum salto, ultrapassei a prancha que servia de escotilha, encontrei-me no convés do Zeta. Caminhei até à cadeira e sentei-me nela, à espera, diante da grande roda de madeira do leme. Estava de tal modo encantado pela magia do navio, na solidão do porto, e pela luz do sol-poente, que não dei pela chegada do capitão. Sem dar sinais de estar zangado, veio até mim, olhou-me com curiosidade e disse-me com ar esquisito, ao mesmo tempo sério e irónico:
“Então, cavalheiro, quando partimos?”»
[J. M. G. Le Clézio, O caçador de tesouros; trad. Ernesto Sampaio, Assírio & Alvim,  Abril 1994;
a espera]