«Foi então que o Pita, que andava sempre a meter o nariz nos papéis dos hóspedes da D. Felicidade, disse de si para si: “Estás pronto!…”»
(Raul Brandão)
«De uma maneira geral, os livros sabem ao cheiro do café» Sam Savage
«Vivia num ambiente falso e fora da realidade. De tanto sonhar não podia senão sonhar. Às vezes exclama de si para si, quando saía por acaso da atmosfera em que vivia submerso: – Valeu a pena? Valeu a pena? Estou cansado, exasperado, depois de uma velhice de fome e de misérias, com longas horas de ódio e olhares hipnóticos sobre a felicidade dos outros. A mocidade sobretudo fere-me. Eu nunca fui moço, nem nunca fui amado, e que fingidos risos de indiferença, que me fazem doer as faces, tenho pelo que chamo banalidades – saúde, amores, ter vida! Até chegar a ser Palhaço, quantas profissões! Actor, cocheiro de praça e mendigo. Da existência de noctâmbulo ficara-lhe um morcego a esvoaçar-lhe no crânio. Por fim, veio trabalhar para o circo. Só saía de noite. De dia ficava no covil do 4.º andar, ruminando pedaços de sonho gastos e esquecidos.
«O Diário de K. Maurício é constituído pelos pedaços de alma que aí vão. É um monólogo destacado e rouco, com frases incompreensíveis e quase sem ligação. Alguns pedaços eu corto: é que há coisas que se não publicam - farsa para que os outros se riam, dores para que os outros sintam piedade. Lembra-me um clown que tivesse por força de fazer rir a multidão ignara. Esses corto-os e para mim os guardo; os outros aí vão, apesar de ver que perdem o interesse com que sangram aqui, no caderno de papel gelado, nestes sarrabiscos que têm vida e contam a sua dor.
«A cada passo se formam por aí grupos literários. Há-os em todas as gerações. Os rapazes sentiram sempre necessidade de comunicar e juntam-se conforme o caso, as afinidades ou as aspirações.
«O café tinha esfriado. O cigarro ardera sozinho no cinzeiro, mas a cinza não se desmanchara. Claude olhava a sala reflectida no espelho, obscura e esverdeada como um aquário gigantesco, e dizia: “E depois?”, mas era uma pergunta desinteressada, feita num tom mole e impessoal, de simples delicadeza.
«Chegou entretanto a época das chuvas e como sempre a cidade ficou partida ao meio, foi bênção de um lado e maldição do outro: a chuva lavava os prédios e as ruas, regava os jardins e fazia nascer flores na cidade dos brancos, e abria feridas profundas na cidade nos negros, convertida em pântano. As areias tinham-se tornado em lama, as fossas transbordavam de dejectos, água suja invadia as casas, água putrefacta, juncada de detritos.
«O primeiro amante era o sol, andando em volta do corpo deitado, lambendo-o com a sua língua de lume, batendo-lhe ao de leve com a sua cauda, farejando-o com o seu focinho de luz – via-se isso através das pálpebras, sem abrir os olhos, enquanto o corpo amolecia e se sentia mais forte o cheiro do vento – a agora o sol começava a apoderar-se de todo o corpo, avançava sobe ele com pés cautelosos, como um animal bravio, e a gente entregava-se, rendida, e o sol entrava pela pele, pelos ouvidos, pelas narinas, pela boca, e havia finalmente o momento em que se abandonava de todo a resistência e se afastavam também as pernas e se recebia o sol no meio do corpo – o sol, sim, o sol era o primeiro amante.
«As aulas começaram em Setembro. De repente estava-se na escola e a professora dizia: As vias do pensamento. Querendo dizer: a rádio e as comunicações telegráficas. Mas vias do pensamento era mais belo e de certeza mais exacto. Porque nada era tão veloz como o pensamento, nada corria tão longe, no mesmo instante, sobre os mares, até ao outro lado do mundo.
«(...) e estamos a despir-nos, e de novo a fazer amor, quatro, seis, oito em cima do tapete - o terrível milagre de uma alucinação de pernas, braços, seios, mãos, sexos, coxas, cabeças, vestidos, camisas. (pág. 71)
«A cidade cerca-nos, com os seus muitos braços, os seus muitos círculos, nenhum dos quais nos exclui. Ninguém nos pode tirar essa sensação de pertencer, de estar contido. Somos parte de um todo, uma cidade viva. Algures os barcos passam, entram no porto ou partem. Na praia as crianças brincam, os fatos de banho serão manchas claras ao sol. Haverá barcos de recreio mais ao longe e saindo a barra paquetes, vapores transatlânticos. Abarcar-se-á tudo isso de um ponto alto, de um mirante, ou mesmo a partir de uma pérgola florida.
«Ao quintal chegava-se através da porta estreita da cozinha. E se é verdade que a cozinha era escura, nem por isso se deixavam de ver os objectos, as panelas de alumínio e as gordas caçarolas, os púcaros e as tigelas de esmalte, o fogão esbranquiçado, de bocas de latão, a grande mesa com tampo de pedra onde havia sempre alguma louça esquecida. Mas sobre isso passava-se de largo, sem realmente olhar, corria-se em direcção ao quintal, como se se fosse sugado pela luz, cambaleava-se, transpondo a porta, porque se ficava cego por instantes, apenas o cheiro e o calor nos guiavam, nos primeiros passos – o cheiro a terra, a erva, a fruta demasiado madura – chegando até nós no vento morno, como um bafo de animal vivo.
«Tudo se passava ali, no interior; não havia nada no exterior, nada que viesse e espantasse. Era uma fuga contínua, o retiro dos órgãos e dos ossos, um apagamento progressivo, manhoso. Joseph mantinha-se de pé, debruçado sobre o cadeirão da velha, e dos olhos fechados, dos lábios secos e apertados, agitados debilmente num gesto de sucção, de todo aquele corpo abandonado no seu vestido-avental, recebia na própria face como que pancadas, profundas, cruéis. O rosto largo, cheio de cartilagens e carne, com a pele lívida, fechava-se no centro, à maneira duma anémona-do-mar. As mãos, as pernas, o busto curvado, tudo parecia aspirado por uma boca feroz, por uma ferida em forma de estrela cujos lábios enrugados se apertavam um contra o outro, com terríveis esforços de cicatrização. Só havia mesmo esta boca, ou este ânus, que se retraía, se dobrava, velha pele de serpente, sufocava-se sobre ela própria, devorava-se sem repugnância. Era preciso fazer como ela, sem dúvida; viver no interior, mergulhar a cabeça no interior do corpo, alimentar-se da própria carne, consumir-se totalmente, criminosamente, até ao esquecimento. Se o tempo se despejasse das suas drogas, distinguia-se a extensão escura, uma verdadeira sala luzindo por buracos, em que as palavras e as dores não têm onde se agarrar, onde tudo é nu, engolido, sufocado. Ouvia-se, às vezes, no fundo desta estufa, o passo de vidro da eternidade, música que lambe o sono. Assim. Lascivamente. Indolentemente. Para si.»
«Eis o que é preciso fazer: partir para o campo, como um pintor de domingo, com uma grande folha de papel e um lápis. Escolher um sítio deserto, num vale encaixado entre as montanhas, sentar-se num rochedo e olhar durante muito tempo à sua volta. E depois, quando se olhou bem, pegar na folha de papel e desenhar com palavras o que se viu. Compreendem, é preciso inscrever a paisagem, peça por peça, sem esquecer nada; longamente, metodicamente, é preciso fazer a carta deste bocado de mundo, indicar o mínimo calhau, o mínimo tufo de erva, fazer o esquema das visões e dos odores, escrever tudo, desenhar tudo. Depois de se acabar, e vir a noite, pode-se regressar a casa. Na folha, ali, naquele rectângulo de papel de 21 x 27, garatujou-se uma parcela da terra. Fez-se o retrato de alguns quilómetros de luz, de ruídos e cheiros. Achataram-se como num postal, muito facilmente. E agora, pertencem-vos, esses quilómetros já não apodrecerão no esquecimento; ficarão martelados com pequenos sinais, na vossa cabeça até à eternidade. Ou, pelo menos, o tempo que viverem.»
«Se querem realmente saber, eu preferia nunca ter nascido. A vida, acho-a muito fatigante. Claro, a coisa agora está feita e já nada posso alterar. Mas haverá sempre no fundo de mim mesmo esse remorso, que não chegarei a expulsar completamente e há-de estragar tudo. Agora trata-se de envelhecer depressa, de devorar os anos o mais rápido possível, sem olhar nem para a esquerda nem para a direita. É preciso suportar todas as mordidelas da existência, procurando não sofrer demasiado. A vida está cheia de loucuras. Não passam de pequenas loucuras quotidianas, mas são terríveis se repararmos bem nelas.
À revelia – ou melhor – manifestando um profundo desprezo pela recente boutade do crítico literário que mais anima a bloga, a desavergonhada Academia sueca atribuiu o Nobel da Literatura a Alice Munro, escritora canadiana que já anunciou ter batido com a porta da mesma. Da literatura, entendamo-nos. A notícia colheu-me, sem surpresa, ao balcão do livreiro que a semana passada me conseguiu Amada Vida. Curiosamente – ou melhor – como vai sendo hábito, a escritora laureada passa ao lado e ao largo da pretensa secreta shortlist especulada por Eduardo Pitta, onde o delírio colonialista o leva a especificar que é integrada pelo israelita Amos Oz e o judeu-húngaro Imre Kertész.
«Ultimamente tenho levado o meu livro para o quarto do Standish e sento-me com ele. Não sei bem se ele está inconsciente a maior parte do tempo, ou apenas demasiado deprimido para comunicar. Está deitado com as mãos crispadas sobre a colcha, uma maneira de se resguardar a si próprio, acho eu. Quando acorda ou se agita, geme. Por duas vezes imaginei que ele estava de facto a morrer. Uma vez corri à cozinha e pedi à Harriet que viesse ver. Ela ajeitou-lhe s almofada, viu-lhe o pulso, e depois pediu-me que fosse à cozinha para termos uma “conversinha”. “É um caso terminal”, explicou-me, “cancro”, e não há nada que o médico possa fazer.” Esta, explicou-me, é a razão por que ela não insistira em que ele viesse. Foi muito terra-a-terra acerca de tudo isto.