Amanhã – por esta hora, nem faço ideia que horas sejam – conto estar instalado na casa de ninguém para seguir até Asilah; conto estar no Sul, de calções e sandálias e defendida a liberdade das mãos pelos bolsos da camisa trocada o ano passado, em Porto Covo. Com pouco me contento; não sou «de boa boca». Ultimamente, até passou a ser possível andar descalço por casa e a dormir com as janelas todas abertas; sôfrego de vento. Entretido a jogar com a memória, lembrei-me que decorreram dois anos desde que escrevi, durante quatro meses, a data por extenso. Contaminado com a tradução d’As Vozes do Rio Pamano (Jaume Cabré), julgo ter captado na extensão da data a manifestação de passado que escrevia ainda no presente; eliminava a impessoalidade analógica da enumeração. E estava certo; guardo dentro deles as opiniões sobre os livros entretanto saídos, para que envelheçam como os que guardei num arquivo que já não me pertence, nem transporto comigo.
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